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Artigo de 12/02/2010
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O DECRETO DA
DISCÓRDIA
Dom Dadeus Grings, Arcebispo de Porto
Alegre
O Decreto presidencial 7037, do "Programa Nacional de
Direitos Humanos", suscitou muitas reações de todos os setores da sociedade,
desde militares à Igreja, desde Imprensa aos advogados... Que houve de
errado? Alega-se, em defesa, que já sugiram duas edições anteriores de
"Direitos Humanos", que não provocaram estranheza e que se consideram
similares. Vem então a pergunta: se duas edições iguais nãom deram
certo, porque reeditá-la numa terceira, fora de época? Se o
paradigma das duas primeiras ainda era a globalização, hoje o paradigma tende a
proteger os valores particulares e as tradições próprias. Não é, pois, um
contra-senso reeditar medidas fora de época, ainda mais numa perspectiva
chavista, como se ouve aos quatro ventos? A falha está no próprio
método. Nossa República federativa apresenta três instâncias, que a Constituição
define como independentes e quer harmoniosas: executivo, legislativo e
judiciário. Infelizmente chegamos a uma situação paradoxal em que o executivo
legisla por decretos e medidas provisórias; o legislativo julga por CPIs e o
judiciário governa com liminares. Conseqüentemente o país fica em contínuo
sobressalto, porque nenhum dos três poderes tem as devidas credenciais e os
indispensáveis dispositivos para agir nestes campos que, constitucional e
organicamente pertencem a outro poder. Por que editar Decretos, com uma salada
de leis indigestas, a serem acolhidas em bloco?Compete ao Legislativo legislar.
Foi eleito e tem os devidos dispositivos para isso, sem provocar celeumas..na
sociedade, mesmo que não o faça sempre a contento.. Além do mais, o
Decreto 7037 confunde Estado e Sociedade. O Estado procura abafar a sociedade. A
sociedade, ao contrário do Estado, é pluralista e tem cultura que conquistou ao
longo de sua história. Não se pode impunemente abafar o que lhe pertence. A
revolução cultural chinesa, por isso, se frustro, além de causar muito
sofrimento e muitos dissabores. Feriu profundamente a nação.. O mesmo aconteceu
com a Revolução francesa que tentou eliminar até o domingo e a semana, tão
profundamente arraigados na sociedade ocidental. Nem falemos das tentativas
semelhantes do Nazismo e do Marxismo, que não só teoricamente, por Decreto, mas
na prática, tentaram fazer tabula rasa do passado cultural. E para sintetizar
tudo, lembremos a destruição de uma das maiores estátuas de Buda, esculpida em
pedra, no século V. Pois, em 2001, iniciando o Novo Milênio, os "donos do poder"
no Afeganistão, julgaram não poder tolerar esta "idolatria" e decretaram que ela
não fazia parte da cultura do momento. Hoje estes governantes são execrados. Os
novos governantes procuram reconstruir o que os outros malfadadamente
destruíram. Não podemos impunemente despir o Brasil de seus valores
religiosos e culturais, a título de equipará-lo aos países de outras tradições.
Temos que lutar pelo que é nosso. Se, em vez de legislar por Decretos, o governo
tivesse editado, dentro de sua competência, e executasse um pacote de medidas
para conter a violência, enfrentar a difusão da droga e acabar com a corrupção,
teria colhido uma aprovação praticamente unânime da sociedade. Se em vez do
"Decreto da Discórdia", como se revelou o "Programa Nacional dos Direitos
humanos", se tivesse empenhado pela reconciliação da sociedade brasileira,
superando os conflitos e tensões em todos os campos, pela solidariedade e por
uma moradia digna, em lugar das favelas, teria colhido maiores consensos da
população brasileira.
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Colunista Dom Dadeus Grings, Arcebispo de Porto Alegre
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