UMA SOCIEDADE
RECONCILIADA
Voz do Pastor de Dom Dadeus Grings
O ser humano, dotado de inteligência,
vontade e sentimentos, tem uma trajetória cheia de tropeços. Os maiores
problemas, bem como os melhores momentos de sua vida se encontram na
convivência. Ninguém vive a sós.
Necessariamente convive. Deve, por isso, não
só construir sua própria vida mas, acima de tudo, necessita desenvolver sua
convivência. Conhece pessoas e forma amizades. Sua felicidade se encontra no
relacionamento carinhoso das pessoas queridas. Além das relações primárias, que
podemos expressar pelo tu-a-tu, ou olho no olho, cultivamos relações
secundárias, institucionais e avançamos para relações virtuais. Não só vivemos
em comunidade, na família e no bairro, mas também convivemos em sociedade. Ali,
ao longo dos tempos, caminhamos para uma organização cada vez mais aprimorada,
de acordo com os anseios de todos. Falamos da necessidade da promoção do bem
comum. Ele é tão necessário como o ar que respiramos. Mas é obra nossa. Daí a
necessidade de nos conscientizarmos de como nos organizamos em sociedade. É o
tema candente da política. Nossa caminhada no tempo, porém, não é homogênea.
Temos altos e baixos. Diz-se que a História é a mestra da vida para significar
que devemos aprender com a experiência. Aquilo que se demonstrou nocivo deve ser
evitado e o que se comprovou proveitoso deve ser acolhido. Até os animais
aprendem com a experiência. Não por nada corre o provérbio que"gato escaldado
até de água fria tem medo".Com nossa inteligência podemos não só acolher as
experiências próprias como também aprender com as lições do passado. Colocamos
um ideal a ser atingido. Procuramos então os meios, mais na pratica que na
teoria.
Sabemos, mais ou menos, o que vai dar certo e nos conduz à meta
almejada e o que dará errado, desviando-nos da rota. Esta meta, que brota do
anseio mais profundo do coração humano, é a paz. Podemos defini-la como a saúde
da sociedade. Retrata a harmonia entre todos os seus membros e organismos. Seu
contrário é a guerra, retratada pelo símbolo da doença. Faz sofrer todo o
organismo social. Há momentos tensos na sociedade, assim como se verificam
doenças nos organismos vivos. Urge então encontrar remédios. Não se resolvem os
conflitos com força, sufocando aspirações e oprimindo pessoas. Quando as
tensões explodem não basta reprimi-as. É preciso buscar a reconciliação. Esta só
se encontra pelo perdão mútuo, a ser pedido e dado. Quando, muitas vezes após
graves dissabores, as partes decidem, num certo contexto de tensões, fazer as
pazes, reconciliando-se, significa que se decide por uma pedraencima das
desavenças do passado. Declara-se assunto encerado. Não se fala mais. Nem para
reivindicar eventuais direitos nem para exigir punições por assim dizer
póstumas. Enterrou-se o assunto. Só assim se poderá recomeçar com pensamentos de
paz, para reconstruir uma sociedade solidária e sacificada. Estamos no
plano da misericórdia, que supera a justiça e leva à reconciliação.