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Artigo de 01/03/2010

UMA DEMOCRACIA PARTICIPATIVA
                                              Dom Dadeus Grings


 Poderíamos, a priori, deduzir a natureza da sociedade a partir da constituição da vida humana, que envolve, necessariamente, convivência, e exige organização. Mas, ainda no limiar do terceiro Milênio, abrimo-nos aos sinais dos tempos e colhemos  as crises das instituições do passado. Para onde levam? Vemos sinais, aparentemente contraditórios, como a globalização, de um lado, e a preponderância das minorias, do outro; o desafio da genética, de um lado, e a sede de Deus, do outro; a espiritualização, de um lado, e a época da abundância de bens materiais do outro...
 Para onde indicam estes sinais? Em primeiro lugar, nos revelam a necessidade de um Estado subsidiário. Não construímos o  mundo a partir de idéias preconcebidas, nem organizamos a sociedade com o recurso de planejamentos aprioristas. A própria natureza está em evolução. Exige seus direitos nesta caminhada. Mais que inventar, temos que descobrir. Nossa função primeira, como ficou estabelecido acima, não é criar - criamos apenas o mundo ideal ou o mundo pensado - mas transformar o que já existe. Então nos sentimos forçados a entender sua natureza e funcionamento; descobrir suas  leis e sua dinâmica.
 Conseguimos decodificar o código genético. Isto nos possibilita uma maior intervenção no seu funcionamento. Sabendo lê-lo, conseguimos também entendê-lo e evitar eventuais desvios. Mas a vida não é apenas individual. A própria leitura do código genético nos leva à percepção de uma interação. Cada espécie de seres vivos tem seu código, que deve ser decifrado. A espécie humana também.
 Estaria, porém, enganado quem reduzisse a leitura do seu código apenas à dimensão biológica. A vida  humana é essencialmente social, o que equivale a dizer que se traduz pela convivência. Ela mesma se organiza neste plano, tanto na família como na comunidade e na sociedade. A primeira tarefa da organização da convivência consiste, pois, em ler acuradamente seu código natural. É o que a própria vida estabelece para seu desenvolvimento. Conhecê-lo e respeitá-lo.
 O segundo passo leva a elaborar a passagem do relacionamento primário, que é o natural, para o secundário, que exige planejamento. Falamos, já com certo consenso, da necessidade democrática, que significa deixar não só os indivíduos se manifestarem, mas, mais profundamente, auscultar as aspirações da própria vida humana, que se traduz pela convivência. O princípio básico desta convivência é a subsidiariedade.
 Falamos de uma democracia participativa, como um passo além da democracia representativa. De fato, não basta que os indivíduos estejam representados na constituição de um Estado, em poderes distintos, como o Legislativo, Executivo e Judiciário, mas é fundamental que a própria vida se manifeste em todas as instâncias do Estado. Muito mais que auscultar indivíduos é preciso sentir o pulso da vida humana, que se organiza no Estado. Trata-se de um novo modo de organizar a democracia, que vai muito além das eleições livres.

Colunista Dom Dadeus Grings

 

 


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