Palavras da
Atualidade
UM TESTEMUNHO DE
SOLIDARIEDADE
Dom Dadeus Grings, Arcebispo de Porto Alegre
As notícias do terremoto do
Haiti certamente foram alarmantes e chocantes. Mais consoladora e
animadora, porém, foi a resposta de solidariedade, de compaixão, de
humanismo que o mundo inteiro deu. É sinal de que a humanidade não está perdida
nem totalmente corrompida. Não perdeu seus valores fundamentais e seus
sentimentos. Há, pois, uma lição a ser tirada deste acontecimento.
Em
primeiro lugar estão as vítimas. Lembramos D. Zilda Arns que, ali, coroou sua
trajetória de amor e solidariedade aos mais carentes, particularmente às
crianças e aos idosos. Mas não trabalhava sozinha. Montou, junto à CNBB, um
vigoroso organismo que empenha mais de duas centenas de milhares de voluntárias
no atendimento às crianças e famílias mais carentes. Sua dedicação reduziu
drasticamente a mortalidade infantil e proporcionou vida melhor a muitíssimas
pessoas. D. Zilda chegou, no Haiti, ao ápice de sua dedicação, dando sua
vida pela causa que abraçou. Mostra o rosto de Deus, em quem acreditou. Sua obra
continua. Certamente será contada entre as santas da Igreja, que viveram, com
heroísmo, o Evangelho, onde sempre buscou inspiração e força. Uma leiga, casada
e mãe de família, descobriu e seguiu sua missão no mundo. Junto a ela morreram
muitas pessoas empenhadas na mesma causa. A elas nossa homenagem e por elas
nossa prece.
Em segundo lugar estão os novos voluntários que a catástrofe
suscitou. Comove ver como pessoas de todos os países se dispõem a deixar tudo
para ir, pessoalmente, em socorro das vítimas. Muitos enviam socorro, mas
muitos também se dispõem a ir com o auxílio de sua dedicação e especialização.
São os novos missionários da humanidade. É comovente ver a movimentação e a
disponibilidade de nosso Exército, de nossos enfermeiros e médicos, de
nossos assistentes sociais. Enfim de todas as pessoas, voluntárias ou
encarregadas pelas respectivas organizações, que oferecem seus préstimos às
vítimas.
Em terceiro lugar é preciso considerar o acontecimento em si, que
leva à colaboração. Não armas, mas comida; não concorrência, mas integração; não
disputa mas somatório de esforços.
Em quarto lugar está a necessidade da
organização. O povo sempre é bom, mas é preciso organizá-lo para que consiga
sair de suas crises. A ajuda humanitária se deve pautar pelo princípio da
subsidiariedade.Agora é o momento de dar: momento da misericórdia, da
solidariedade, da compaixão. Mas é apenas o primeiro passo. Tudo urge. É
preciso salvar vidas, Vem, depois, o segundo passo: ajudar a que este povo se
organize e consiga caminhar com suas próprias forças: torne-se adulto e
democrático.