DOM JAIME SPENGLER - A VOZ DO PASTOR

08/08/2019

Afinal, o que é vocação?

A vocação é um fato muito pessoal. É a disposição natural e espontânea que orienta a pessoa no sentido de escolher uma específica forma de vida. Para quem a vive, sobretudo quando madura gradualmente através de variadas experiências, ela se torna algo integrante e integrador da pessoa.

 

Com dificuldade, identificamos os elementos constitutivos de nosso ser. A vocação, sendo expressão de um trabalho de discernimento sobre aquilo que somos e por que o somos, entra no âmbito do mistério da existência humana. Por isso, nos encontramos numa espécie de desconforto quando precisamos definir o que seja vocação.

 

A vocação possui muitos fatores espontâneos e pessoais difíceis de ser justificados: são elementos que formam e constituem a identidade da pessoa. Nós experimentamos isso quando somos desafiados a, em caso de dúvida, definir se uma pessoa possui essa ou aquela vocação. Não é fácil responder a essa questão.

 

Mesmo pessoas com grande experiência nesse campo encontram dificuldades para exprimir um juízo. Toca-se uma dimensão da existência humana onde somos confrontados com coisas que não se veem e não se podem facilmente enumerar e contar. São situações nas quais nós mesmos somos colocados em questão. O "fundo" da pessoa é aquilo que se é, é a identidade, e a vocação pertence a esta realidade pessoal. Quando se fala disso, quando se procura construir um discurso linear sobre o que seja vocação, corre-se o risco de depreciar e de banalizar o que está em jogo.

 

A vocação é um mistério que vai se revelando paulatinamente, à medida que vamos descobrindo quem somos e a finalidade da nossa existência. As vocações, de algum modo, são todas distintas; cada indivíduo expressa uma singularidade. Quando se pensa poder tratar todas as histórias da mesma forma, corre-se o risco de generalizar experiências personalíssimas e singularíssimas. Corre-se o risco de cair em certos esquemas, impedindo o verdadeiro conhecimento do singular e concreto, dessa e daquela experiência, desta ou daquela pessoa.

28/12/2017

A esperança não pode morrer!

Inauguramos 2018 celebrando solenemente, no dia 1º de janeiro, Maria, Mãe de Deus. No ano de 431c.C., o Concílio de Éfeso concedeu a Maria de Nazaré o título de Theotokos: Mãe de Deus. Das entranhas de Maria nos foi dado Jesus Cristo, Filho de Deus. Ela gerou aquele que desde o instante da conceição é pessoalmente Deus. Crendo, concebeu e permitiu que o Espírito fizesse surgir dela uma nova vida, aquela de Jesus. Deus escolheu Maria para nela realizar maravilhas (Lc 1, 49), por isso, a comunidade de fé a considera toda santa. Nela se manifestou o dom de Deus, que derramou para o mundo um reflexo de Sua santidade.

 

“Esta ‘santidade resplandecente, absolutamente única’, da qual Maria é ‘enriquecida, desde o primeiro instante de sua conceição’ lhe vem inteiramente de Cristo: ‘Em vista dos méritos de seu Filho, foi redimida de um modo mais sublime’. Mais do que qualquer outra pessoa criada, o Pai a ‘abençoou com toda benção espiritual nos céus, em Cristo’ (Ef 1, 3). Nele a escolheu ‘antes da fundação do mundo para ser’ santa e imaculada ‘diante dele, no amor’ (Ef 1, 4). Os Padres da tradição oriental chamam a Mãe de Deus de ‘a toda santa’ (“pan-hagia”), celebram-na como ‘imune de toda mancha de pecado, tendo sido plasmada pelo Espírito Santo e formada como uma nova criatura’. Pela graça de Deus, Maria permaneceu, por toda a sua vida, pura de todo pecado original” (Catecismo da Igreja  Católica, 492-2).

 

Contemplando a figura de Maria de Nazaré, podemos perceber que, no pequeno, Deus esconde o grande; no opaco, o transparente; e no simples, o sublime. Ela “não é uma mulher que se deprime face às incertezas da vida, especialmente quando nada parece correr bem. Nem sequer uma mulher que protesta com violência, que se enfurece contra o destino da vida que muitas vezes nos revela um semblante hostil. Ao contrário, é uma mulher que ouve: não vos esqueçais que existe sempre uma grande relação entre a esperança e a escuta, e Maria é uma mulher que ouve. Maria acolhe a existência do modo como se apresenta a nós, com os seus dias felizes, mas também com as suas tragédias que nunca gostaríamos de ter encontrado” (Papa Francisco). 

 

Vivemos tempos que premem pelo despertar da fé e por uma piedade mariana autêntica, restituindo-lhes toda sua grandeza. Esta é uma exigência que nos vêm da própria obra da evangelização, do ecumenismo, da atenção à cultura e aos movimentos sociais.

 

O primeiro dia do ano é também o Dia Mundial da Paz. A paz é uma aspiração profunda de todas as pessoas, de modo particular dos quantos que padecem pela sua falta. No Brasil, sofremos e estamos quase estarrecidos com a violência. Queremos paz e somos confrontados com todo tipo de violência. A ética que norteava as relações sociais está esquecida. Agressividade, violência, morte e corrupção permeiam a sociedade. Nesse contexto, assiste-se a manifestações de alguns membros da classe política e também do judiciário que causam vergonha. A única coisa que parece importar são os indicadores econômicos, favoráveis a uma pequena parcela da sociedade.

 

Maria, Mãe de Deus, Mãe do Príncipe da Paz, nos acompanhe no caminho da superação da violência, construindo paz e concórdia. Que inspirados nela não permitamos que nos roubem a esperança. Possa o ano de 2018 ser marcado por verdadeira paz, fruto da justiça, do empenho de todos pela preservação e promoção do bem comum; pela determinação de jovens, mulheres e homens em colaborar para deixar o mundo um pouco melhor para as futuras gerações.

14/12/2017

Preparar novos caminhos

A modernidade é a era em que a existência social depende da opinião e do olhar dos outros: somos quem conseguimos fazer que os outros acreditem que somos; importante é a imagem que oferecemos de nós mesmos.

 

Tal situação está produzindo sinais de um vazio existencial. A depressão, doença que caracteriza a atualidade, pode ser expressão desse cenário. São também preocupantes os sintomas dessa realidade entre jovens e adolescentes. A automutilação, tentativas suicídio – e suicídios! – nessa fase da vida se tornam sempre mais frequentes.

 

A comunidade de fé, durante o tempo do Advento, é exortada a avaliar a qualidade de sua vida. O seguimento do Senhor oferece horizontes, expectativas, esperança.

 

Nas semanas que antecedem o Natal ressoa uma constante exortação: uma voz grita no deserto! Essa voz recorda o núcleo da vida cristã: conversão! Conversão compreendida como determinação para assumir sempre e de novo o caminho de vida proposto por Jesus Cristo.

 

A voz clama no deserto! Ela é veículo para deixar chegar a palavra aos ouvidos dos seres humanos. João Batista era voz forte e potente. Era uma “voz que clama”, destinada a romper a surdez das pessoas e a chegar aos que estão longe de Deus. É uma voz que clama “no deserto”, convocando todas as pessoas de boa vontade a uma nova travessia para a liberdade, como outrora aconteceu com o povo da antiga aliança quando, sob a guia de Moisés, soube pôr-se em marcha para a busca do novo. A missão daquela voz era preparar os caminhos do Senhor, para que a esperança pudesse encontrar espaço nos corações de todos.

 

A voz clama no deserto! No final do século 19 e início do século 20, Nietzsche anunciou o crescimento do deserto: “O deserto cresce. Ai dos que abrigam desertos dentro de si”. Esse parece ser um fato! Pode ser considerado o destino no Ocidente. Os sinais de que o deserto cresceu e cresce são visíveis: individualismo, autorreferencialidade, consumismo, degradação ambiental, corrupção, violência, pobreza crescente, desprezo pela vida, falta de perspectivas, perda da capacidade de sonhar e esperar.

 

Nesse contexto sócio-político-econômico-religioso uma voz grita: “endireitai os caminhos do Senhor!”.

 

É sempre maior o número de pessoas, religiosas ou não, que buscam solução para suas dificuldades e desafios em coisas que não têm o poder que muitos imaginam, O mercado da autoajuda cresce sempre mais. Também o mercado religioso dá sinais de vitalidade. Tal situação pode ser sinal de uma doença profunda que parece marcar a história de muitos e que necessitaria de atenção e cuidado.

 

O tempo que antecede o Natal pode representar oportunidade vigorosa para o resgate do essencial: rever posições, comportamentos, práticas, opiniões e dispor-se a realizar um caminho de vida capaz de afastar da superficialidade e levar pessoas de boa vontade para o mais profundo da vida. As perturbações encontram solução no coração humano. Elas poder ser anímicas, afetivas, espirituais. Superá-las pressupõe mudar algo no abismo interior da pessoa.

 

“À sede de sentido e de valor que hoje o mundo experimenta; à procura de bem-estar e de paz que caracteriza a vida de toda a humanidade; às expectativas dos pobres, Cristo, verdadeiro Deus e verdadeiro Homem, responde com seu Natal. Não temas os indivíduos e as nações reconhecê-Lo e acolhê-Lo: com Ele, uma ‘esplêndida luz’ ilumina o horizonte da humanidade; com Ele, abre-se ‘um dia santo’ que não conhece acaso” (Bento XVI).

07/12/2017

Promover o bem comum: tarefa de todos!

O Rio Grande do Sul experimenta uma crise econômica desafiadora. O Brasil vive uma crise política, econômica e ética grave. A imprensa não se cansa de apresentar informações a respeito da situação regional e nacional. Nós, cidadãos comuns, sentimos um misto de indignação e preocupação – afinal, o desemprego é uma realidade cruel! Outros parecem não se preocupar, pois o sistema financeiro aparenta oferecer sinais positivos. Afinal, os bancos continuam apresentando grandes lucros. Não faltam os que se perguntam: o que fazer? Como reagir? Há solução para superar o atual momento?

 

O Conselho Episcopal Latino Americano (Celam) promoveu recentemente, de 1º a 3 de dezembro, um convênio destinado a “leigos católicos que assumem responsabilidades políticas a serviço dos povos da América Latina”. Papa Francisco enviou a esse convênio uma vídeo-mensagem, na qual propõem algumas indicações em vista da promoção da atividade política no continente Latino-americano e da superação da crise que assola também o continente. O texto que segue apresenta algumas dessas indicações.

 

A atividade política é um inestimável serviço de dedicação em vista do bem comum na sociedade. A atividade política é antes de tudo um serviço. Ela não é serva de ambições individuais, da prepotência de grupos e de centros de interesses. Como serviço ela não pode pretender regular todas as dimensões da vida das pessoas, caindo numa espécie de autocracia e totalitarismo. Compreendida como serviço à sociedade, ela pode ser considerada um serviço de sacrifício e de dedicação, a tal ponto que, às vezes, se pode considerar as pessoas empenhadas na atividade política como “mártires” de causas em favor do bem comum.

 

A atividade política requer constância, empenho e inteligência. O objetivo maior é o bem comum, sem o qual os direitos e aspirações nobres das pessoas, das famílias e das instâncias intermediárias da sociedade não podem realizar-se plenamente.

 

O bem comum “compreende o conjunto das condições de vida social que permitem aos indivíduos, famílias e associações alcançar mais plena e facilmente a própria perfeição” (GS, 74).

 

Certamente não se pode contrapor o serviço ao poder. No entanto, o poder deve estar ordenado para o serviço, a fim de não degenerar. Se o poder não é compreendido como serviço, degenera.

 

Há certamente muitas pessoas íntegras, competentes e honestas que se dedicam à atividade política, verdadeiramente empenhadas na promoção do bem comum. Entretanto, não faltam sinais de degeneração da atividade política. O noticiário quase que diário oferece provas dessa realidade! A corrupção, os grupos sustentados por interesses mesquinhos, a politicagem, a falta de autêntico espírito cívico de alguns expoentes da classe política é uma realidade que preocupa e, ao mesmo tempo, promove um preocupante descrédito da classe política.

 

Como superar o descrédito da atual classe política? “Para estabelecer uma vida política verdadeiramente humana, nada melhor do que fomentar sentimentos interiores de justiça e benevolência e serviço do bem comum e reforçar as convicções fundamentais acerca da verdadeira natureza da comunidade política, bem como do fim, reto exercício e limites da autoridade” (GS, 73).

16/11/2017

“Não permitamos que nos roubem a esperança”

No último 12 de novembro se celebrou, em Santa Maria, a 74ª Romaria da Medianeira. Um número impressionante de peregrinos de várias partes do Rio Grande do Sul se fez presente naquele momento de fé. E não só do Estado, também da Argentina havia um grupo.

 

O Santuário de Nossa Senhora Medianeira vai se tornando um ponto de convergência para muitos homens e mulheres marcados pela fé. Impressiona a devoção do povo. Qual a razão da confiança, do carinho, do respeito do povo para com a figura de Maria? Ela é certamente discípula da primeira hora; acompanhou de perto os acontecimentos do mistério da salvação, participou da constituição das primeiras comunidades de fé e presenciou os desafios e crises da Igreja nascente. Por isso, “se queremos ser cristãos, devemos ser marianos; isto é, devemos reconhecer a relação essencial, vital e providencial que une Nossa Senhora a Jesus e que nos abre o caminho que leva a Ele” (Paulo VI).

 

Também hoje somos desafiados por diversas situações que marcam as vidas social e eclesial. É difusa a convicção de que a falta de ética, cuja maior expressão atual é a corrupção, está instalada há décadas em diferentes âmbitos da sociedade.

 

Cresceu a apatia, o desencanto e o desinteresse pela atividade política, que está desacreditada devido ao comportamento de alguns agentes políticos que desonram a missão para a qual foram eleitos. Entretanto, é necessário superar tal situação urgentemente. É grave tirar a esperança de um povo!

 

A superação deste momento histórico requer estadistas, pessoas dispostas ao diálogo sincero e honesto, no qual as expectativas e esperanças encontrem eco. É comum ouvir que o nosso povo é acolhedor e alegre. É verdade! Não se pode, porém, esquecer que o ser humano, independentemente da situação social, aspira vida, e vida em abundância.

 

A nação não é feita de números, cifras e instituições. Ela é constituída, sobretudo, de pessoas. Mais importante que os votos são os cidadãos; que os indicadores econômicos, são os trabalhadores; que os índices de pobreza, são os pobres. As pessoas não podem ser reduzidas a princípios abstratos. Pessoas possuem um rosto que impele à responsabilidade real e concreta. Os indicadores são úteis e importantes, mas não possuem uma identidade e jamais tocam na carne!

 

O ser pessoa nos liga uns aos outros, nos torna comunidade. Eis o elemento que precisamos redescobrir em nossa sociedade! A violência crescente promove isolamento, fechamento e individualismo.

 

Uma compreensão limitada do que é autêntica liberdade promove uma sociedade desenraizada e priva do senso de pertença e corresponsabilidade. Uma sociedade civil será viva e vigorosa quanto mais for capaz de acolher as diferenças e os dons de cada um de seus membros; se for capaz de gerar novas vidas, cultura, trabalho digno, desenvolvimento e integração.

 

O resgate da ética, da justa compreensão do que significa ser pessoa inserida numa comunidade e do bem comum constitui a base para a construção de uma nação justa, solidária e fraterna.

 

No último final de semana, uma multidão de gaúchos e de gaúchas presente em Santa Maria contemplava e meditava as palavras de Maria aos discípulos e discípulas da comunidade nascente: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”. Não podemos deixar que nos roubem a esperança! Por isso, contemplamos Maria. Ela, no seu jeito simples, continua repetindo: “Façam tudo o que meu Filho vos disser”.

09/11/2017

Corresponsabilidade e subsidiariedade

Nossa sociedade passa por transformações que exigem reflexão e opções pastorais para que a Igreja continue realizando sua missão salvífica. “A Igreja é, na humanidade e no mundo, o sacramento do amor de Deus e, por isso mesmo, da esperança maior, que ativa e sustém todo autêntico projeto e empenho de libertação e promoção humana. (...) Ela é ministra de salvação, não só em abstrato ou em sentido meramente espiritual, mas no contexto da história e do mundo em que o ser humano vive, onde o alcançam o amor de Deus e a vocação a corresponder ao projeto de Deus" (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, 45).

 

As transformações da sociedade atingem a todos: os avanços tecnológicos, o fenômeno da globalização, a instabilidade e fragilidade dos critérios e dos valores, a submissão da esfera política aos interesses de grupos econômicos, o consumismo insaciável, o crescente individualismo satisfeito no seu bem-estar, a degradação do planeta, os fanatismos e radicalismos, o fundamentalismo religioso, a violência, o desemprego, o desrespeito pela sã tradição, o vilipêndio dos símbolos religiosos. O Estado tem a obrigação de garantir que cada um, no convívio social, possa viver suas próprias convicções, além de promover e garantir a paz e a justiça.

 

Conceitos indiscutíveis como os de autonomia, individualidade, emancipação, direitos humanos e solidariedade garantem um acordo humano básico e promovem o convívio numa sociedade de direito. Eles encontram suas bases na cultura greco-latina e judaico-cristã. O respeito, a defesa e a promoção da dignidade da pessoa pressupõem o cuidado da família, dos grupos, das associações, das expressões agregativas de tipo econômico, social, cultural, desportivo, recreativo, profissional, político, também religioso.

 

O princípio de subsidiariedade deve orientar as decisões do Estado, “protegendo as pessoas dos abusos das instâncias sociais superiores e solicitando estas últimas a ajudarem os indivíduos e os corpos intermédios a desempenhar as próprias funções. Este princípio impõe-se porque cada pessoa, família e corpo intermédio tem algo de original para oferecer à comunidade” (idem).

 

O propagado laicismo do Estado ignora que o impulso pela democracia nasceu na humanidade por inspiração cristã, que atuou como fermento da vida social e política dos povos (J. Maritain). O estado de espírito democrático encontra suas raízes na tradição cristã. O Estado deve “agir no respeito das legítimas liberdades dos indivíduos, das famílias e dos grupos subsidiários, criando deste modo as condições exigidas para que o ser humano possa obter seu bem verdadeiro e integral, inclusive o seu objetivo espiritual” (Ratzinger).

 

O laicismo militante ignora o papel da tradição cristã na constituição da base cultural comum dos estados democráticos de direito. Esquece que a atividade política pressupõe ideias, representações, expectativas e valores.

 

No contexto de uma sociedade pluralista e democrática, a Igreja participa dos debates, buscando a formação de um consenso básico, imprescindível para o desenvolvimento de uma autêntica democracia. Ela não pode agir de forma simplista, ingênua, moralizante! Urge superar a distinção entre uma ética laica e uma ética religiosa.

 

Neste momento difícil da história nacional, em que tantas pessoas parecem ter perdido a esperança num futuro melhor por causa dos enormes problemas sociais e de uma escandalosa corrupção, os discípulos do Crucificado-Ressuscitado, a partir do Evangelho, são chamados a ser sinais de esperança, colaboradores na construção de uma sociedade mais justa e fraterna para todos.

05/10/2017

Fé cristã

O cristianismo é essencialmente o Evangelho, a santidade pessoal e o estar centrado numa pessoa: Jesus Cristo. A Igreja, por sua vez, é essencialmente comunidade de fiéis. Nisso se expressa sua identidade. Os fiéis são marcados pela experiência do encontro com a pessoa de Jesus e seu Evangelho, e, por isso, buscam no cotidiano, inseridos nas diversas atividades, promover a justiça e o amor, sobretudo para com os necessitados (GS, 21).

 

A fé que sustenta a vida em comunidade é antes de tudo dom; expressão do encontro pessoal íntimo com Jesus, a experiência da sua proximidade, da sua amizade e do seu amor: só assim se aprende a amá-lo e conhecê-lo cada vez mais. É por isso que no início do ser cristão não há uma decisão ética ou uma grande ideia, mas o encontro com um acontecimento, com uma pessoa que dá à vida um novo horizonte e, dessa forma, o rumo decisivo (Bento XVI).

 

A fé cristã não é simplesmente a fé numa realidade infinita, distante, onipresente, onipotente e onisciente, mas no Deus de Jesus Cristo, o Crucificado-Ressuscitado, no Deus revelado em suas palavras e ações e que assumiu os panos da fragilidade humana. A fé professada é participação na fé da Igreja. A Igreja conserva a memória da obra da salvação realizada em Jesus Cristo.

 

Os membros da comunidade de fé experimentam uma tensão para o mistério que a todos envolve. Existe, pois, uma comunhão recíproca entre os membros da comunidade. A unidade é marcada pela comunhão entre os membros, na limitada e pessoal experiência de fé. Compreende-se, assim, porque não se pode aprisionar a fé numa formulação de determinada época ou numa determinada corrente teológica. A experiência do encontro com a pessoa de Jesus Cristo faz irromper, sempre e de novo, inéditos horizontes, ulteriores complementações e aprofundamentos da compreensão da própria experiência de fé.

 

Sentimos as consequências do número expressivo de batizados não evangelizados, da separação entre fé cristã e vida pessoal, do destaque a formulações doutrinais e exigências marcadas por certo fundamentalismo no cumprimento de normas morais, do mundanismo espiritual, do cuidado exibicionista da liturgia, distantes da dura realidade vivida pelo povo. A transmissão da fé às novas gerações numa época de rápidas transformações requer novo ardor, novos métodos e novas expressões.

 

Papa Francisco insiste que a Igreja proclame o coração da mensagem de Jesus Cristo (EG 34). O Evangelho expressa um forte convite a responder a Deus que nos ama e salva, reconhecendo-o nos outros e saindo de nós mesmos para procurar o bem de todos (EG 39).

28/09/2017

O respeito na arte

Há um século é comum ouvir que Deus está morto. Entretanto, devemos nos confrontar com a possibilidade de o homem estar morto, de ter se transformado em coisa, produtor, consumidor, idólatra de outras coisas (E. Fromm). Elementos dessa situação se podem colher em algumas estranhas expressões daquilo que se tem denominado arte pós-moderna.

 

A arte é força propulsora do bem, da fraternidade, da ética, do progresso e aperfeiçoamento do ser humano (Tolstoi). Surge aqui um desafio enorme, pois termos como bem, fraternidade, ética, progresso, humano perderam sua valência. Diante do propagado avanço das ciências e da técnica é ainda possível distinguir, por exemplo, o ser humano em sua originalidade do animal, da máquina e da coisa? O desafio já não é o de construir um novo humanismo, pois já nem sabemos mais o que diferencia o humano do não humano.

 

A arte expõe características históricas e culturais de determinada sociedade, tornando-se um reflexo da essência humana. Ela está em conexão com distintas dimensões que compõem a existência, como a política, a economia, a religião, a sociedade, a cultura; além disso, possui conexões com diferentes áreas do saber: Filosofia, Teologia, Psicologia, Psicanálise, Estética, Sociologia, Ética, Arquitetura, História etc.

 

A arte se orienta por um horizonte ético, sem permitir o relativismo irresponsável e tacanho, vulgar e laxista. Desde suas origens ela, de algum modo, sempre esteve ligada às práticas religiosas e aos elementos míticos.

 

A linguagem da arte é parabólica, dotada de uma especial abertura universal e influenciada por diferentes circunstâncias culturais e sociais. Por isso, as expressões de autêntica arte sabem respeitar os valores que regem uma determinada sociedade e suas referências culturais. Quando se extrapolam valores e referências culturais de uma sociedade, a insanidade faz morada na “terra dos homens”.

 

Quando em nome da arte se desrespeita a identidade do outro, quando uma antropologia vazia escarnece a antropologia ocidental judaico-cristã – que forjou princípios como a Declaração Universal dos Direitos Humanos –, quando se perde cada vez mais a serenidade das coisas e o sentido do mistério, então se perdem os princípios do bem e do mal. Desse modo, o que entra verdadeiramente em causa é a persistência e a continuidade da humanidade dos seres humanos.

 

Não se pode esquecer que uma “obra de arte é fruto da capacidade criativa do ser humano, que se interroga diante da realidade visível, procura descobrir o seu sentido profundo e comunicá-lo através da linguagem, das formas, das cores e dos sons. A arte é capaz de expressar e de tornar visível a necessidade que o homem tem de ir além daquilo que se vê, pois manifesta a sede e a busca do infinito. Aliás, é como uma porta aberta para o infinito, para uma beleza e para uma verdade que vão mais além da vida cotidiana. E uma obra de arte pode abrir os olhos da mente e do coração, impelindo-nos rumo ao alto” (Bento XVI).

 

Por isso, é inadmissível que se desconsidere o sentido ético e moral presente nas expressões artísticas de uma cultura. Além do mais, não se pode agredir de forma rancorosa, preconceituosa e desrespeitosa princípios constitucionais de um povo quando se vilipendia um culto religioso e se zomba de uma fé que produziu e produz frutos de paz, fraternidade, justiça, solidariedade, amor, caridade, perdão, misericórdia, compaixão.

21/09/2017

Virtude

“Na época em que a vida na terra era plena, ninguém dava nenhuma atenção aos homens dignos, nem selecionavam os homens capazes. Os soberanos eram apenas os galhos mais altos das árvores, e o povo era como cervos na floresta. Eram honestos e corretos, sem imaginar que ‘estavam cumprindo com o seu dever’. Amavam-se mutuamente, e não sabiam que isto se chamava ‘amor ao próximo’. Não enganavam a ninguém, e, no entanto, não sabiam ser ‘homens de confiança’. Podia-se contar com eles, e ignoravam que isto fosse ‘a boa fé’. Viviam juntos livremente, dando e recebendo, e não sabiam que eram homens de bom coração. Por este motivo, seus feitos não foram narrados. Não se constituíam em historiografia” (Chunag-tse).

 

O texto citado é um poema proveniente da cultura asiática antiga. Ele pode ilustrar o quão distante nos encontramos do ideal humano de virtude.

 

Opiniões marcadas por estranhas ideologias produzem um esteticismo sem abertura para um compromisso ético. Tal situação se expressa em atitudes marcadas por empáfia do saber e do poder, vaidade exacerbada, rigorismo disciplinar, moralismo radical que camufla um orgulho desmedido, demonstrações de um pseudo-saber que na verdade demonstram incapacidade de diálogo, criatividade e disposição para ir ao encontro do outro. Nesse contexto não há lugar para a generosidade, a gratuidade, a disposição para construir uma sociedade na qual a economia esteja verdadeiramente a serviço da vida, que a promoção da paz e da justiça seja tarefa comum e a defesa da Mãe Terra, compromisso de todos.

 

O poema citado aponta para uma dimensão do humano que podemos denominar grande, profunda, livre, autêntica. Os antigos gregos chamavam esse modo de ser originariamente grande, profundo e livre de “virtude”, ou seja, “coragem de ser”.

 

Há uma questão a ser discutida: como promover o surgir, crescer e perfazer-se num modo de ser, marcado por virtude, sem recorrer à propaganda ou ao marketing tão presente em algumas expressões sociais, e sem cair ao mesmo tempo em um criticismo mesquinho e liberalista?

 

No ocidente, virtude se refere à essência do ser humano, ao seu modo próprio e específico enquanto vigor e vitalidade do tornar-se capaz da liberdade, e que se consuma como exercício da inteligência e da vontade. Vigor da inteligência e da vontade é a mesma coisa, são dois momentos de uma única vigência que no cristianismo recebeu o nome de “amar”.

 

Ninguém nasce bom; ninguém nasce simples, puro, sábio. É algo que se conquista ao longo da vida. Ser bom, justo, sábio requer muito trabalho; trabalho intenso, disciplinado e dedicado.

 

Virtude tem relação com equilíbrio, sensibilidade, delicadeza, que têm a ver com inteligência. Inteligência que não é sinônimo de informações acumuladas. Inteligência compreendida com perspicácia, sensibilidade, serenidade, cordialidade, disposição e empenho em cooperar responsavelmente na tarefa de tornar sempre mais habitável a “terra dos homens”. Alguém que assim se empenha no desenvolvimento da virtude é bom, útil, firme, bem disposto para a tarefa de fazer da “terra dos homens” uma terra verdadeiramente sem males.

 

Todos nós desejamos colaborar na construção de uma sociedade melhor para as futuras gerações. Para tanto, urge compreender sempre mais e melhor esse modo de ser próprio do ser humano, isto é, ser virtuoso. Sem o cultivo decidido de virtudes autenticamente humanas, as desigualdades sociais crescem, os sectarismos se desenvolvem, os conflitos se multiplicam, o ser humano se diminui na sua identidade e a tragédia se manifesta no horizonte.

14/09/2017

Para onde vamos?

Há sinais contundentes de que a sociedade brasileira está fora dos eixos. Há quem diga que vivemos uma “metamorfose epocal”. Aquilo que até pouco tempo era impensável, tornou-se manchete no cotidiano. Observam-se mudanças radicais. As velhas certezas que até um tempo recente orientavam decisões se enfraquecem sempre mais e o novo ainda não surgiu.

 

A sociedade do risco possui a potencialidade de conduzir a humanidade à catástrofe, mas também de abrir estradas para algo inaudito, capaz de forjar uma sociedade marcada pela justiça, paz e fraternidade. A atividade política, orientada pela ética, tem a missão de perseguir o bem comum, atuando com vista à criação de um ambiente autenticamente humano em que a todos seja oferecida a possibilidade de um real exercício dos direitos humanos e de um pleno cumprimento dos respectivos direitos.

 

Fatos recentes lançam questões que exigem reflexão profunda. As muitas denúncias de corrupção e os elementos encontrados que as corroboram não mais produzem indignação! Produzem apatia e preocupante descrédito nas instituições. Enquanto a elite econômica encontra trânsito fácil nos corredores palacianos, parte da elite política ignora as condições de vida da maioria pobre da população.

 

A violência ganha contornos de guerra. Os indícios são inocultáveis. Corpos decapitados e esquartejados! Crianças vítimas de uma crueldade exacerbada. Estudantes de escolas elementares que rastejam pelo chão para se proteger do fogo cruzado de gangues lutando pelo controle do tráfico de drogas. Chacinas se tornaram algo comum! Vitimas de balas perdidas se tornaram notícia corriqueira. O toque de recolher imposto nos bairros e vilas de nossas cidades é uma realidade. Policiais que diariamente põem em risco a própria vida recebem o salário a conta-gotas...

 

Professores agredidos por adolescentes recebem um indigno salário parcelado. Sindicatos mais interessados em manter privilégios e interesses que representar e defender a categoria que representam. O desrespeito pelo imaginário da fé, agressões e desrespeito pelo o que é mais íntimo e sagrado no outro: sua fé e seu corpo, e os ataques discriminatórios à cultura judaico-cristã que contribuiu na nossa formação cultural é considerado algo normal. Onde chegamos?

 

O Brasil é reconhecido mundialmente pela desigualdade social e pela concentração da renda, pela pobreza e corrupção, pela criatividade e religiosidade. Urge promover uma séria reflexão sobre a realidade sócio-politica-econômica brasileira e de como se estende o direito à dignidade dos filhos e filhas desta nação. Para tanto se requer o cultivo da obra do discernimento. Discernimento significa avaliar, colocar à prova, distinguir, separar, julgar em vista do bem. Existe disposição das instituições para realizar tal obra?

 

Papa Francisco frequentemente pede que se reze por ele. Certamente uma solicitação habitual daqueles que são investidos de alguma responsabilidade não só na Igreja, mas também na sociedade. É que qualquer iniciativa que busque romper velhos hábitos sempre encontrará resistência. Por isso, se faz necessário conhecer a realidade que a todos envolve; urge fomentar espaços de diálogo entre pessoas que acreditam ser possível superar os desafios em vista de uma sociedade marcada pelo respeito das diferenças, pela justiça e fraternidade; é salutar promover o espírito de oração e devoção que permite cultivar a necessária compreensão de que ser humano algum é perfeito, e que a condição humana é marcada pelo pecado e resgatada pelo amor de Deus.

 

O novo que se faz necessário pressupõe cidadãos distintos e generosos, capazes de cultivar horizontes novos caracterizados pela ética e trabalhar verdadeiramente pelo bem comum.

31/08/2017

A Igreja e as questões sociais

As questões sociais sempre interpelaram os pastores da Igreja. É longa a tradição da Igreja em tratar de problemas sociais de acordo com sua própria fé.

 

Diferentes realidades e tipos de sociedade foram destinatárias da mensagem da Igreja que anunciou o Evangelho entre os tumultos dos eventos sociais. Mas foi a questão operária do século XIX que estimulou a solicitude pastoral da Igreja para enfrentar as coisas novas que surgiram então. A exploração dos trabalhadores, a organização industrial do trabalho, a matriz capitalista e a força das ideologias socialista e comunista fizeram eco e suscitaram reflexão e pronunciamento oficial da Igreja através da Encíclica Rerum Novarum do Papa Leão XIII. Os seguidores de Cristo não podiam calar diante dos clamores da realidade.

 

A moral cristã desenvolveu reflexões sobre o uso comum dos bens, da dignidade da pessoa humana e da participação dos cristãos na sociedade. Essa temática, portanto, é antiga e sempre nova, pois expressa o contínuo apelo do Evangelho de Cristo para que os cristãos anunciem e vivam construindo a civilização do amor, denunciando e desmascarando as miopias e injustiças que a história tem apresentado ao longo dos tempos.

 

É inegável que na trajetória do cristianismo há um fio condutor que percorre todas as etapas. Trata-se do elemento mais profundo da identidade cristã: que Deus age em favor dos seres humanos para salvá-los. Ele se revela em Jesus Cristo e expressa a identidade mais profunda da pessoa: o ser humano não é somente liberdade, mas é livre para produzir fraternidade e igualdade. Toda práxis cristã, orientada pelo Evangelho é uma prática do amor. O mundo do trabalho, a busca da paz e o avanço de novas tecnologias remetem ao solidarismo que repousa numa expressão muito corrente na Doutrina Social da Igreja: a civilização do amor.   

 

Vivemos num tempo fascinante. As novas tecnologias, o progresso científico, o avanço da robótica e da informática permitem-nos contemplar comodidades e experiências inimagináveis num passado recente. A emergência da subjetividade, a preocupação com a ecologia, o crescimento do voluntariado, o empenho pela tolerância e respeito pelo diferente despertam uma nova consciência de pertença ao planeta e da integração de tudo em todos. 

 

Paradoxalmente descortina-se também um quadro de enormes problemas. Os índices de pobreza e miséria continuam a desafiar qualquer consciência tranquila de nossa sociedade. O consumismo e o utilitarismo nas relações sociais deterioram as possibilidades de fraternidade porque geram exclusão e reduzem o ser humano ao valor de mercado. O terrorismo e as guerras ameaçam um futuro de paz para as civilizações. Manipulações genéticas, contaminação das águas e do solo, desertificação de áreas imensas desafiam qualquer projeto de uma sociedade e de um planeta sustentável.

24/08/2017

Vocação: crise e desafios

Durante o mês de agosto, a Igreja convida seus filhos e filhas a meditar e rezar o tema das vocações. Assim, a cada domingo a comunidade é chamada a refletir sobre uma vocação específica: à vida familiar, presbiteral, à vida consagrada e laical.

 

Os batizados são convidados a abraçar um caminho de vida. Esse caminho é um fato pessoal, marcado por experiências próprias e variadas. Vocação é diferente de profissão. Da profissão a pessoa se aposenta. Já a vocação é algo que acompanha a pessoa por toda a sua vida.

 

A vocação forja identidade. Por isso, pode-se perguntar: qual a identidade do presbítero, da família, do consagrado, do leigo? Trata-se de uma questão que requer reflexão constante. Vivemos como se já tivéssemos evidência a respeito do que significa ser presbítero, pai ou mãe, consagrado, leigo. Fazemos isso e aquilo seguindo impressões vagas e com isso nos conformamos.

 

Quando somos questionados a respeito de nossa identidade, começamos a nos dar conta de que nossa compreensão a respeito da mesma não seja, talvez, clara. E com isso se começa a dar asas a opiniões da publicidade, que não estão interessadas em exprimir com clareza o que significa assumir um caminho de vida, em vista de uma identidade.

 

Com o tempo, as vicissitudes do cotidiano vão quebrando as pseudoimagens que fomos alimentando ao longo da vida. Assim, vamos nos dando conta que não temos, talvez, suficiente clareza a respeito do que significa verdadeiramente construir uma identidade. Não é raro encontrar leigos, consagrados, pessoas que vivem a vida matrimonial, presbíteros que entram ou entraram em crise, pois não possuem ou não possuíam clareza a respeito da própria identidade.

 

Tal situação pode ser oportunidade privilegiada para parar, colar o ouvido na “terra dos homens” a fim de sondar indicações que possam auxiliar a melhor compreender o que implica acolher e assumir um caminho de vida. Trata-se de empenho pessoal para melhor compreender o que significa verdadeiramente uma vida humana bem vivida. Toca-se assim uma dimensão da existência em que não se encontram respostas prontas. Isso nos provoca a sondar o que significa identidade humana. No entanto, tal situação causa desconforto. Não é raro encontrar quem prefira seguir o senso comum, sem se importar com a construção de uma identidade.

 

A vida é marcada por crises. Podemos dizer que para construir a primeira metade da vida gastamos dedicação, amor, suor, energias. A outra metade é marcada pela necessidade de limpar, isto é, desfazer-se do que não é essencial para permanecer com o que verdadeiramente conta. Assim, as crises que marcam a vida humana e as vocações são oportunidades para maturação, para ficar com o essencial.

 

O que estou fazendo para que o meu ser leigo, consagrado, ministro ordenado, pai ou mãe de família tenha mais sentido? O que significa ser esposo ou esposa, um ministro ordenado, um consagrado, um leigo mais simples? Urge, ao longo do tempo, abrir-se a uma possível compreensão mais generosa do que é verdadeiramente importante e essencial para um caminho de vida bem-vivido.

 

Ao longo da vida experimentamos crises e desafios. Temos a impressão de que quanto mais buscamos a verdade, mais contradições enfrentamos. Podemos considerar tudo isso como uma grande chance para o exercício das virtudes, um caminho para nos purificarmos, chegarmos à bondade, melhor compreender nossa vocação e construir uma autêntica identidade humana.

17/08/2017

Espiritualidade

Em nossos dias percebe-se por toda parte um desejo de espiritualidade. Tal desejo, ainda que difuso, é, de algum modo, tentativa de resposta a uma profunda necessidade humana. Afinal, a dimensão espiritual é uma das que compõem a estrutura humana.

 

O que é isto, a espiritualidade? Quando lançamos essa questão, estamos procurando distingui-la da teologia espiritual, da mística, da psicologia do profundo etc. No entanto, não seria demais dizer que, pelo menos, a teologia espiritual e a mística são subsumidas sob o conceito comum de teologia cristã. Por sua vez, a teologia cristã se distingue da teologia muçulmana, hebraica, budista, tendo como base comum a teologia como tal.

 

Mas, por outro lado, a espiritualidade pode, por exemplo, servir de conceito comum, debaixo do qual se é capaz distinguir as várias espiritualidades. Assim se estabelece toda uma ramificação de divisão ou diferenciação ascendente e descendente. Descendente na direção da compreensão da “coisa” cada vez mais particular e individual, portanto, na direção disto e daquilo; ascendente na direção da compreensão cada vez mais comum ou geral, cujo conceito o mais geral e comum é o do ser. Esse modo de compreender se chama generalização, trata-se da compreensão por classificação. A “coisa” aqui diferenciada e classificada se chama objeto. Generalização ou classificação é o modo como as ciências positivas ordenam os objetos do seu saber dentro de uma determinada perspectiva do seu projeto.

 

Certamente esse modo de ordenação das coisas é de pouco auxílio naquilo que denominamos espiritualidade. As coisas da espiritualidade, e da espiritualidade cristã, são como águas de um grande rio. Para falar dessas coisas, só é possível a quem nelas nada sem medir esforços. É algo característico a quem se lançou num intenso trabalho corpo a corpo.

 

Por outro lado, não podemos esquecer que aquilo que denominamos espiritualidade cristã é um sopro de vida, graça, desdobramento daquilo que a tradição denominou “encontro” com o Crucificado-Ressuscitado. Ora, a experiência do encontro é anterior ao nosso engajamento, nossa decisão, nossa adesão ou iniciativa.

 

Nossa vida é um caminho, um perfazer-se, um construir-se. Isto o ocidente denominou com o termo “formação”. Podemos, pois, dizer que a espiritualidade, a vida espiritual é formação – ou cultivo! – do espírito. O cultivo do espírito de que fala a espiritualidade requer trabalho, um trabalho intenso. Somente quando falamos de cultivo e trabalho nesta dimensão, somos tentados a pensar que se trata de algo abstrato, subjetivo e de fácil execução. Mais: chegamos a pensar que se trata de um trabalho irreal, um luxo, um passatempo. Assim, para a ideologia utilitarista, esse seria um trabalho desnecessário.

 

Podemos, entretanto, compreender esse trabalho do espírito como trabalho livre, marcado por obrigações, imposições que vêm de dentro de mim mesmo, da minha interioridade, da minha vontade boa de querer amar sem reservas. Esse querer tem as características do modo de ser do Deus de Jesus Cristo, marcado pela generosidade, magnanimidade e misericórdia. Portanto, quando falamos da necessidade de formar para o trabalho no e do espírito, estamos tratando de um modo característico de trabalho livre.

 

Todas as vocações exigem espiritualidade vigorosa. Daí a necessidade de buscar nas grandes figuras de nossa tradição cristã elementos que possam nos ajudar no caminho do espírito e, assim, realizar no hoje da história a nossa vocação cristã.

10/08/2017

Vocação

Durante o mês de agosto a comunidade de fé é convidada a refletir a temática das vocações. “A vocação é fruto que amadurece no terreno bem cultivado do amor uns aos outros que se faz serviço recíproco, no contexto duma vida eclesial autêntica. Nenhuma vocação nasce por si, nem vive para si” (Papa Francisco).

 

Todos nós desejamos uma vida bem vivida; almejamos uma vida com sentido. Nossas buscas, nossos projetos, nossos sonhos se sustentam a partir de um horizonte de vida sólido. A pergunta sempre necessária é: o que significa uma vida, uma existência com sentido? A partir de onde se encontra sentido para a própria vida? Aqui certamente se expressa o nobre, digno e necessário serviço junto, especialmente, a nossos adolescentes para orientar, dialogar e auxiliar; afinal, perceber qual o caminho de vida que vem ao encontro das tendências, dotes e mesmo necessidades pessoais nem sempre é tarefa fácil.

 

Uma história pertencente à tradição hebraica pode auxiliar na compreensão dos desafios característicos quando da necessidade de realizar uma opção de vida. Diz a história: “Um certo rabi procurou seu mestre, suplicando-lhe: ‘indicai-me um caminho universal para o serviço a Deus’. O mestre respondeu: ‘não se trata de dizer ao homem qual caminho deve percorrer: porque existe uma estrada através da qual se segue a Deus por meio do estudo; outra, por meio da oração; e outra por meio do jejum; e ainda outra comendo! É tarefa de cada homem conhecer bem na direção de qual estrada o atrai o próprio coração e depois escolher aquela estrada com todas as forças’”.

 

A pessoa humana é única! Ela possui uma tarefa intransferível. Cada ser humano é convocado a testemunhar a sua “irrepetibilidade”. Para isso, se faz necessário o conhecimento de si mesmo, das próprias qualidades e tendências essenciais. Considerando esse conjunto de elementos, é possível sondar um possível caminho de vida.

 

A escolha desse caminho requer muito mais que a opção por uma determinada profissão. Profissão tem a ver com preparação técnica, competência, eficiência produtiva, ganha-pão, função social, status, reconhecimento externo. Tudo isso pressupõe decisão e realização pessoal, chamado interior, paixão, amor e gosto pelo que se faz; ou seja, pressupõe vocação. Partindo da história da tradição hebraica, pode-se perceber que o “serviço de Deus” requer muito mais que somente profissionalismo. Ela exige escuta do próprio coração, para conhecer bem na direção de qual estrada ele o atrai.

 

A vocação se orienta eminentemente para um futuro. Ela se realiza sim no presente, mas orientada para um futuro. Por isso, pode-se afirmar que vocação é uma tarefa em constante realização. Da profissão nos aposentamos! Já aquilo que denominamos vocação perpassa todas as fases da existência.

 

A escuta do próprio coração requer sintonia e disposição para acolher aquilo que a vida solicita. Escuta e compreende tal solicitação quem cultiva a afeição, a cordialidade, o respeito pela própria condição. Para a fé cristã nossa condição é de filhos e filhas, seguidores e seguidoras do Senhor, Caminho, Verdade e Vida.

 

Oxalá os adolescentes e jovens, auxiliados pelos pais, professores, pedagogos, pessoas de estatura autenticamente humana, saibam e possam corresponder à vocação recebida e serem no mundo cooperadores do Senhor na construção do seu Reino!

27/07/2017

A transmissão da fé às novas gerações

As contínuas mudanças de nossa época produzem tanto fortalecimento quanto vulnerabilidade. Novas tecnologias aproximam e distanciam, conectam e isolam. A emergência da subjetividade possibilitou também o individualismo. O ser humano se acha autossuficiente e nega qualquer hierarquia, rompe com o transcendente e a tradição, vacila diante dos sentimentos de pertença à religião, à comunidade e à família. Nesse contexto, as pessoas procuram a religião de forma privatizada, não mais através da família e da comunidade.

 

Cresce uma espiritualidade sem compromisso com a vida, um culto sem envolvimento com a ética e uma religiosidade que coloca a pessoa no centro das relações com o sagrado. A prioridade é a felicidade individual e imediata. A transmissão da fé às novas gerações não é mais um pressuposto.

 

O Documento de Aparecida alerta que “nossas tradições culturais já não se transmitem de uma geração à outra com a mesma fluidez que no passado”. Isso afeta, inclusive, a experiência religiosa e alcança a própria família que, como lugar do diálogo e da solidariedade intergeracional, foi um dos veículos mais importantes da transmissão da fé. Assim, muitos catequistas encontram crianças batizadas, mas que chegam à catequese sem conhecer sequer o sinal da cruz e as demais orações que outrora a família se encarregava de ensinar.

 

Diante da situação irregular de algumas famílias, do afastamento da vida comunitária e da vivência religiosa sem pertencimento, a catequese é concebida como mera instrução em vista dos sacramentos do Batismo, da Crisma e da Eucaristia. Nas paróquias participam pessoas unidas sem o vínculo sacramental, outras estão numa segunda união, e há aquelas que vivem sozinhas sustentando os filhos. Outras configurações também aparecem, como avós que criam netos ou tios que sustentam sobrinhos. Crianças são adotadas por pessoas solteiras ou por pessoas do mesmo sexo, que vivem em união estável. Percebe-se, portanto, que precisamos de uma nova iniciação cristã, capaz de formar discípulos de Jesus Cristo entre as crianças, jovens e suas famílias.

 

É preciso esclarecer comunidades e famílias que a catequese não é um curso, mas um processo que não se limita à preparação para recepção dos sacramentos, mas se trata de introduzir alguém no caminho de Jesus Cristo. Intenciona-se que toda pessoa se torne discípula do Mestre e seja lavada, ungida e alimentada na Igreja, pelo próprio Senhor, conforme a proposta da Iniciação Cristã que a CNBB está desenvolvendo há muitos anos e que em 2017 se intensificou como tema central da Assembleia Nacional dos Bispos do Brasil. Vale a pena conferir o Documento 107, resultado de amplo debate, chamado “Iniciação Cristã: itinerário para formar discípulos missionários”.

 

Somente com uma nova formação cristã é que os grandes desafios da família atual podem ser enfrentados. É urgente, por exemplo, um processo de iniciação capaz de acentuar o sentido de um matrimônio pautado pelo amor, que é reflexo do amor existente na Santíssima Trindade e o de Cristo pela Igreja (Ef 5,25-33). E o fato de acolher com misericórdia as famílias em dificuldades não isenta a comunidade cristã de educar os fiéis para uma proposta de família que rejeite o divórcio, a traição, o abandono dos filhos e a ideologia de que o casamento entre homem e mulher esteja superado. Urge anunciar as verdades de Jesus Cristo, diante do mundo onde tudo é relativo.

20/07/2017

Sobre o amor na família (II) – Amoris Laetitia

Sempre que alguém assume o ministério de Bispo de Roma, assumindo também o título de Papa, essa pessoa expressa um estilo de vida, um modo característico de pensar, um dinamismo próprio no exercício de seu ministério.

 

Com o Papa Francisco não foi diferente. Ele tem trazido uma primavera de alegria, esperança e simplicidade para a Igreja Católica. Basta recordar o gesto realizado quando ele apareceu no balcão da Basílica de São Pedro: disse “boa noite” e inclinou-se diante do povo, pedindo que as pessoas reunidas na Praça de São Pedro rezassem por ele.

 

Em sua primeira exortação apostólica, intitulada “A alegria do Evangelho”, ele afirma que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus”c (n.1). E continua: “quantos se deixam salvar por Ele são libertados do pecado, da tristeza, do vazio interior, do isolamento. Com Jesus, renasce sem cessar a alegria”. O objetivo dessa exortação é “convidar os fiéis cristãos para uma nova etapa evangelizadora marcada por esta alegria e indicar caminhos para o percurso da Igreja”.

 

A nova etapa evangelizadora perpassa, certamente, pela realidade da instituição família, célula fundamental da sociedade humana. Ao convocar, em 2013, a Assembleia do Sínodo, o Papa Francisco quis que as dioceses de todo o mundo fossem consultadas a respeito da realidade das famílias. Para tanto, foram enviados, a diversos setores da Igreja, questionários, a fim de recolher elementos necessários para uma reflexão aprofundada sobre a realidade familiar.

 

 Os questionários suscitaram ampla reflexão sobre a pessoa humana, sua dignidade, direitos, deveres, enfim, sobre sua vocação última. Isso implicou tocar aspectos importantes: “novas” formas de família, abordagens, configurações, inclusões. Tematizou ressentimentos, culpas, chagas, dores e alegrias. Abordou a situação de famílias afastadas, caladas, feridas, refugiadas. O questionário pretendeu tocar uma realidade muito presente e próxima de todos, especialmente das comunidades eclesiais. Sua intenção fundamental era ouvir o maior número possível de pessoas, de famílias para, a partir daí, propor indicações para um comprometimento eclesial mais vigoroso. Compromisso marcado por um olhar de ternura e misericórdia, segundo os critérios do Evangelho de Jesus Cristo, que deseja a vida para todos.

 

Não se quer mudar a doutrina, mas ampliar o modo como a Igreja a compreende.

 

Papa Francisco diz que os dois anos de reflexão que o caminho sinodal proporcionou foram uma riqueza. Por isso, a exortação apostólica “Sobre o amor na família” “aborda, com diferentes estilos, muitos e variados temas” (n.7). O caminho realizado “se revestiu de uma grande beleza e proporcionou muita luz”. O texto publicado recolheu “contribuições dos dois Sínodos recentes sobre a família”; também foram acrescentadas, diz o Papa, “outras considerações que possam orientar a reflexão, o diálogo ou a práxis pastoral, e simultaneamente ofereçam coragem, estímulo e ajuda às famílias na sua doação e nas suas dificuldades” (n.4).

 

Todo o trabalho realizado visa “cuidar com amor da vida das famílias, porque elas não são um problema, são sobretudo uma oportunidade” (n.7).

13/07/2017

Orientações

Os bispos do Estado do Rio Grande do Sul, que compõem o Regional Sul 3 da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), reunidos entre os dias 6 e 9 de junho, em São Leopoldo, para sua asembleia anual, decidiram apresentar algumas orientações ao povo de Deus de nossas comunidades a respeito de contribuições na Igreja Católica.

 

Tais orientações visam esclarecer às pessoas que são procuradas com solicitações de auxilio financeiro para entidades religiosas que não possuem sede nas Dioceses do Rio Grande do Sul. Confira a íntegra das orientações:

 

“Nós, bispos do Rio Grande do Sul, reunidos no Conselho Episcopal Regional, propomos algumas orientações ao povo de Deus de nossas comunidades sobre contribuições para a manutenção da Igreja, diante de várias solicitações que nossos fiéis recebem de diversos lugares e instituições.

 

Pelo batismo, todo fiel é acolhido numa comunidade de fé e a ela pertence. Como discípulo missionário, sente-se comprometido pela vida e missão da sua comunidade e Diocese. Para que a Igreja possa exercer sua missão, conta com a partilha e solidariedade dos seus membros através do dízimo, coletas e outras formas de contribuição.

 

 O dízimo é considerado uma contribuição do fiel para o sustento da comunidade. É uma expressão de sua gratidão a Deus, corresponsabilidade com a Igreja, atenção aos necessitados e sensibilidade missionária. A Igreja local é o lugar principal onde o fiel é chamado a contribuir, pois nela vive todo processo de iniciação à vida cristã, celebra os sacramentos e é assistido pelos padres e outros agentes de pastoral. Ela tem a responsabilidade de formar os membros da comunidade, sobretudo os ministros ordenados e leigos comprometidos com a evangelização. Também tem a obrigação com a manutenção dos bens que estão a serviço do povo de Deus: dioceses, paróquias, seminários, centros de pastoral, etc. Por isso, cada batizado é chamado a contribuir com o dízimo na sua comunidade onde vive e celebra a sua fé.

 

Além do dízimo, existem as coletas que são previstas anualmente, como forma de participação em sentido eclesial mais amplo: Coleta da Solidariedade – CF; Coleta para Terra Santa; Coleta de Pentecostes; Óbolo de São Pedro; Coleta Missionária e Coleta da Evangelização. Também, algumas dioceses organizam coletas próprias para necessidades específicas, como para as vocações sacerdotais.

 

Para os fiéis que, além disso, têm condições de contribuir para outras instituições e lugares, deixamos estas orientações: a) O sentido de pertença à comunidade pede que a prioridade seja com a Igreja local e, somente depois disto, partilhar com solicitações que vem de fora da Diocese; b) Ao receber pedidos, através de visitas domiciliares,  meios de comunicação, revistas, boletos bancários, etc., é importante ter critérios sobre sua destinação. O senso de partilha do povo de Deus é louvável, desde que não se omita o compromisso com a Igreja local.

 

Que Maria, Mãe de Deus e da Igreja, nos ensine o caminho da comunhão com seu Filho Jesus Cristo e a partilha com os irmãos e irmãs.”

 

As orientações oferecidas destacam a dignidade e a importância da comunidade eclesial local. É importante que cada comunidade eclesial tenha um Conselho de Assuntos Econômicos. Esse Conselho deve ser constituído por pessoas engajadas na comunidade. Ele tem a missão de administrar de forma eficiente e transparente os bens da própria comunidade, em vista da obra da evangelização.

06/07/2017

Sobre o amor na família (I) – Amoris Laetitia

A Igreja compreende o matrimônio como visibilização e concretização do amor Deus para com a humanidade no mundo presente. O matrimônio é, por isso, considerado uma vocação humana. Trata-se do encontro de amor entre um homem e uma mulher, duas histórias que se unem.

 

Reconhecido como sacramento, o matrimônio é um sinal que contém em si e realiza a união dos consentimentos e dos corpos, produzindo a comunhão indissolúvel entre os esposos. Para a comunidade de fé, é sinal da união entre Deus e a humanidade ou de Cristo com a humanidade. “É grande este mistério”, afirma São Paulo (Ef 5,32).

 

O Papa Francisco, sem transcurar elemento algum da compreensão tradicional da Igreja a respeito do matrimônio cristão, publicou, em 2016, uma exortação apostólica sobre o tema. A exortação, intitulada “Amoris Laetitia – sobre o amor na família”, é expressão de duas assembleias de bispos de todo o mundo, reunidos em Roma para debater o tema do matrimônio cristão. As assembleias foram precedidas por uma ampla consulta a todas as dioceses do mundo.

 

Inicia a sua exortação apostólica afirmando que “a alegria do amor que se vive nas famílias é também o júbilo da Igreja. Apesar de numerosos sinais de crise no matrimônio (...), o desejo de família permanece vivo nas jovens gerações. Como resposta a este anseio, o anúncio cristão que diz respeito à família é deveras uma boa notícia” (n.1).

 

Com objetividade e coragem, recorda o que foi o caminho sinodal: “oportunidade para analisar a situação das famílias no mundo atual, para alargar a nossa perspectiva e reavivar a nossa consciência sobre a importância do matrimônio e da família, e para mostrar a necessidade de continuar a aprofundar, com liberdade, algumas questões doutrinais, morais, espirituais e pastorais” (n.2).

 

No entanto, “nem todas as discussões doutrinais, morais ou pastorais devem ser resolvidas através de intervenções magisteriais” (n.3). Com isso, não se está negando a necessidade de “uma unidade de doutrina e práxis”, mas reconhecendo que podem existir “maneiras diferentes de interpretar alguns aspectos da doutrina ou algumas consequências que decorrem dela”. Tal aspecto se torna compreensível quando se reconhece que “em cada país ou região, é possível buscar soluções mais inculturadas, atentas às tradições e aos desafios locais”. Até porque “as culturas são muito diferentes entre si e cada princípio geral (...), se quiser ser observado e aplicado, precisa ser inculturado” (idem).

 

O ideal do amor fiel, único, fecundo e indissolúvel é certamente indiscutível. A Igreja continua afirmando e defendo tais aspectos como condição para degustar a alegria do amor entre homem e mulher. O ideal será sempre defendido e promovido. Entretanto, o ideal é a meta para a qual é necessário caminhar. O caminho pressupõe uma gradualidade. Nessa perspectiva, o texto papal representa um encorajamento a quem, apesar de tudo, crê e se empenha por uma amor estável e duradouro, capaz de dar sentido à vida.

 

A exortação apostólica representa uma proposta às famílias cristãs, estimulando-as “a apreciar os dons do matrimônio e da família e a manter um amor forte e cheio de valores como a generosidade, o compromisso, a fidelidade e a paciência”; além disso, “se propõe a encorajar todos a serem sinais de misericórdia e proximidade para a vida familiar, onde esta não se realize perfeitamente ou não se desenrole em paz e alegria” (n.5).

22/05/2017

Ética na política

O ser humano pode se encontrar numa situação histórica de não ver nenhum motivo para continuar a esperar. No entanto, os cristãos, para além de todos os desafios, não podem permitir que lhe roubem a esperança.

 

O Brasil vive uma crise política e ética que preocupa parcela considerável da sociedade. Torna-se sempre mais clara a necessidade de urgente promoção e defesa da ética na política. A vigilância e a participação efetiva de todas as forças da sociedade nesse processo há de contribuir para resgatar a confiança nessa nobilíssima atividade humana, a qual cuida do bem comum.

 

Diante das recentes e contínuas denúncias de corrupção envolvendo alguns homens públicos brasileiros, o sentimento de muitos é de espanto e indignação. Os valores manipulados pela prática da corrupção alcançam cifras que a maioria da população não consegue imaginar. Os números tornados públicos indicam frieza e cálculos orientados por princípios aéticos. Trata-se de uma calculabilidade que não é capaz de colher a medida justa e plena da ação ética.

 

A corrupção política trai os princípios da moral e as normas da justiça social. Ela distorce a função das instituições representativas de um estado de direito, porque usa tais instituições como terreno de barganha política entre solicitações clientelares e favores dos governantes. Por isso, as denúncias apresentadas exigem certamente exemplar, rigorosa e rápida apuração pelas competentes instituições da sociedade organizada, observado o princípio do estado de direito.

 

 “Na vida pública, na política, se não houver a ética, uma ética de referimento, tudo é possível e tudo se pode fazer”, disse o Papa Francisco. A nação precisa encontrar saídas para a atual crise que respeitem e fortaleçam o estado democrático de direito.

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil publicou na última semana uma nota, na qual afirma que “a superação da grave crise vivida no Brasil exige o resgate da ética na política que desempenha papel fundamental na sociedade democrática. Urge um novo modo de fazer política, alicerçado nos valores da honestidade e da justiça social”. A nota continua, recordando o que fora afirmado durante a Assembleia Geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, celebrada recentemente em Aparecida: “O desprezo da ética leva a uma relação promíscua entre os interesses públicos e privados, razão primeira dos escândalos da corrupção”.

 

Diante do quadro político brasileiro, pode ser de auxílio recordar o que diz a Doutrina Social da Igreja: “Para os fiéis leigos, o compromisso político é uma expressão qualificada e exigente do compromisso cristão ao serviço dos outros. A persecução do bem comum em um espírito de serviço; o desenvolvimento da justiça com uma atenção particular para com as situações de pobreza e sofrimento; o respeito pela autonomia das realidades terrenas; o princípio de subsidiariedade; a promoção do diálogo e da paz no horizonte da solidariedade; são estas as orientações em que os cristãos leigos devem inspirar sua ação política. Todos os que creem, enquanto titulares de direitos e deveres de cidadãos, estão obrigados a respeitar tais orientações; aqueles que tem encargos diretos e institucionais na gestão das complexas problemáticas da coisa pública, seja nas administrações locais, seja nas instituições nacionais e internacionais, deverão tê-las especialmente em conta”.

15/05/2017

Fátima

Há cem anos teve início um evento que marcou a história recente da Igreja. Em 1917, três pastores – três crianças – se tornaram mensageiros de uma revelação privada, por meio da qual se pedia oração e reparação como caminho para a paz.

 

Em Fátima se dá uma revelação privada. Como compreender o que seja uma revelação privada? Diz o Catecismo da Igreja Católica: “No decurso dos séculos, houve revelações denominadas ‘privadas’, algumas delas reconhecidas pela autoridade da Igreja. Elas não pertencem, contudo, ao depósito da fé. A função delas não é ‘melhorar’ nem ‘completar’ a Revelação definitiva de Cristo, mas ajudar a viver dela, com mais plenitude, em determinada época da história. Guiado pelo Magistério da Igreja, o senso dos fiéis sabe discernir e acolher o que nessas revelações constitui um apelo autêntico de Cristo ou de seus santos à Igreja. A fé cristã não pode aceitar ‘revelações’ que pretendam ultrapassar ou corrigir a Revelação da qual Cristo é a perfeição” (n.67).

 

Revelações privadas reconhecidas pela Igreja não exigem adesão do fiel. Não são normativas. Elas podem, contudo, guiar e orientar o comportamento de batizados para assumirem com maior determinação a proposta do Evangelho do Crucificado-Ressuscitado. Nesse sentido, pode-se afirmar que uma revelação privada pode representar um auxílio para a fé e manifesta-se credível porque faz um apelo à revelação pública.

 

A aprovação de uma revelação privada pressupõe três elementos: “que a respectiva mensagem não contém nada em contraste com a fé e os bons costumes, que é lícito torná-la pública, e que os fiéis ficam autorizados a prestar-lhe de forma prudente a sua adesão”.

 

A mensagem de Fátima apresenta uma vigorosa exortação à oração como caminho para a “salvação das almas” e, ao mesmo tempo, um forte apelo à penitência e à conversão. Trata-se, portanto, de uma exortação a confiar na promessa que o próprio Jesus apresenta no Evangelho: “No mundo tereis aflições, mas tende confiança! Eu venci o mundo” (Jo 16, 33).

 

Nas aparições de Fátima, Nossa Senhora pede oração pelos que mais precisarem. Ela é mãe solícita de todos os necessitados. E são tantos os necessitados de nosso tempo: há tantos deserdados e infelizes dos quais foi roubado o presente; há uma multidão de excluídos e abandonados a quem é negado o futuro; e o que dizer dos órfãos e injustiçados a quem não se permite ter um passado?

 

A pergunta de Nossa Senhora aos pastorzinhos continua repercutindo no tempo atual: “Quereis oferecer-vos a Deus?”. Tal questão provavelmente encontra pouco eco numa sociedade líquida como a atual. No entanto, há sempre um pequeno resto que espera e confia.

 

A mensagem de Fátima é uma recordação de que o ser humano de boa vontade possui uma mãe. E ela adverte para o risco de uma vida que não considera Deus e que profana-O nas criaturas. Ele, o ser humano, foi criado como uma esperança para seus semelhantes, realizável por meio do estado de vida que cada um abraça.

 

No último dia 13 de maio, em Porto Alegre, foi inaugurado o novo Santuário de Fátima. Trata-se de um templo sagrado, onde quem a ele acorre poderá derramar o coração diante do Senhor. Naquela bela construção todos são recordados de que o Filho de Maria se faz presente onde a comunidade se reúne para escutar a Palavra Sagrada e para repartir o Pão da Eucaristia, cientes de ser, pelo batismo, “sal da terra e luz do mundo”.

11/05/2017

A Doutrina Social da Igreja e o atual momento nacional

A Doutrina Social da Igreja “discorre a partir da razão e do direito natural, isto é, a partir daquilo que é conforme a natureza de todo o ser humano. E sabe que não é tarefa da Igreja fazer ela própria valer politicamente esta doutrina: quer servir a formação da consciência na política e ajudar a crescer a percepção das verdadeiras exigências da justiça e, simultaneamente, a disponibilidade para agir com base nas mesmas, ainda que tal colidisse com situações de interesse pessoal. Isto significa que a construção de um ordenamento social e estatal justo, pelo qual seja dado a cada um o que lhe compete, é um dever fundamental que deve enfrentar de novo cada geração. Tratando-se de uma tarefa política, não pode ser encargo imediato da Igreja. Mas, como ao mesmo tempo é uma tarefa humana primária, a Igreja tem o dever de oferecer, por meio da purificação da razão e através da formação ética, a sua contribuição específica para que as exigências da justiça se tornem compreensíveis e politicamente realizáveis” (Bento XVI).

 

Inspirados na Doutrina Social da Igreja, os bispos do Brasil, em sua última Assembleia Geral – realizada de 26 de abril a 5 de maio, em Aparecida (SP) – emitiram uma nota sobre o momento que o Brasil atravessa.

 

A nota afirma que “o desenvolvimento social, critério de legitimação de políticas econômicas, requer políticas públicas que atendam à população, especialmente a que se encontra em situação vulnerável. A insuficiência dessas políticas está entre as causas da exclusão e da violência, que atingem milhões de brasileiros. São catalisadores de violência: a impunidade; os crescentes conflitos na cidade e no campo; o desemprego; a desigualdade social; a desconstrução dos direitos de comunidades tradicionais; a falta de reconhecimento e demarcação dos territórios indígenas e quilombolas; a degradação ambiental; a criminalização de movimentos sociais e populares; a situação deplorável do sistema carcerário. É preocupante, também, a falta de perspectivas de futuro para os jovens. Igualmente desafiador é o crime organizado, presente em diversos âmbitos da sociedade. (...) No esforço de superação do grave momento atual, são necessárias reformas, que se legitimam quando obedecem à lógica do diálogo com toda a sociedade, com vistas ao bem comum. Reformas são necessárias, pois a sociedade mudou, a estrutura do mercado de trabalho mudou, a expectativa de vida mudou e o número dos excluídos aumenta.”

 

Continua a nota: “Não há futuro para uma sociedade na qual se dissolve a verdadeira fraternidade. Por isso, urge a construção de um projeto viável de nação justa, solidária e fraterna. ‘É necessário procurar uma saída para a sufocante disputa entre a tese neoliberal e a neoestatista (…). A mera atualização de velhas categorias de pensamentos, ou o recurso a sofisticadas técnicas de decisões coletivas, não é suficiente. É necessário buscar caminhos novos inspirados na mensagem de Cristo’ (Papa Francisco).O povo brasileiro tem coragem, fé e esperança. Está em suas mãos defender a dignidade e a liberdade, promover uma cultura de paz para todos, lutar pela justiça e pela causa dos oprimidos e fazer do Brasil uma nação respeitada.”

04/05/2017

Aos trabalhadores e trabalhadoras do Brasil

A semana começou com o Dia do Trabalho, celebrado a cada 1º de maio. Reunidos em Aparecida (SP), nós, bispos da Arquidiocese de Porto Alegre, e os bispos de todo o Brasil, trazemos conosco as necessidades do povo brasileiro, sobretudo dos mais pobres da nossa sociedade.

 

Em nota, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), que realiza sua 55ª Assembleia Geral até amanhã, mais uma vez se posiciona ao lado da defesa dos direitos dos trabalhadores brasileiros. Leia na íntegra:

 

“Meu Pai trabalha sempre, portanto também eu trabalho” (Jo 5,17)”

 

“A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, reunida, no Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida – SP, em sua 55ª Assembleia Geral Ordinária, se une aos trabalhadores e às trabalhadoras, da cidade e do campo, por ocasião do dia 1º de maio. Brota do nosso coração de pastores um grito de solidariedade em defesa de seus direitos, particularmente dos 13 milhões de desempregados.

 

O trabalho é fundamental para a dignidade da pessoa, constitui uma dimensão da existência humana sobre a terra. Pelo trabalho, a pessoa participa da obra da criação, contribui para a construção de uma sociedade justa, tornando-se, assim, semelhante a Deus que trabalha sempre. O trabalhador não é mercadoria, por isso, não pode ser coisificado. Ele é sujeito e tem direito à justa remuneração, que não se mede apenas pelo custo da força de trabalho, mas também pelo direito à qualidade de vida digna.

 

Ao longo da nossa história, as lutas dos trabalhadores e trabalhadoras pela conquista de direitos contribuíram para a construção de uma nação com ideais republicanos e democráticos. O dia do trabalhador e da trabalhadora é celebrado, neste ano de 2017, em meio a um ataque sistemático e ostensivo aos direitos conquistados, precarizando as condições de vida, enfraquecendo o Estado e absolutizando o Mercado. Diante disso, dizemos não ao “conceito economicista da sociedade, que procura o lucro egoísta, fora dos parâmetros da justiça social” (Papa Francisco, Audiência Geral, 1º. de maio de 2013).

 

Nessa lógica perversa do mercado, os Poderes Executivo e Legislativo reduzem o dever do Estado de mediar a relação entre capital e trabalho, e de garantir a proteção social. Exemplos disso são os Projetos de Lei 4302/98 (Lei das Terceirizações) e 6787/16 (Reforma Trabalhista), bem como a Proposta de Emenda à Constituição 287/16 (Reforma da Previdência). É inaceitável que decisões de tamanha incidência na vida das pessoas e que retiram direitos já conquistados, sejam aprovadas no Congresso Nacional, sem um amplo diálogo com a sociedade.

 

Irmãos e irmãs, trabalhadores e trabalhadoras, diante da precarização, flexibilização das leis do trabalho e demais perdas oriundas das “reformas”, nossa palavra é de esperança e de fé: nenhum trabalhador sem direitos! Juntamente com a Terra e o Teto, o Trabalho é um direito sagrado, pelo qual vale a pena lutar (Cf. Papa Francisco, Discurso aos Movimentos Populares, 9 de julho de 2015).

 

Encorajamos a organização democrática e mobilizações pacíficas, em defesa da dignidade e dos direitos de todos os trabalhadores e trabalhadoras, com especial atenção aos mais pobres.

 

Por intercessão de São José Operário, invocamos a benção de Deus para cada trabalhador e trabalhadora e suas famílias.”

27/04/2017

Vitória da Vida (II)

O debate sobre a questão do aborto confunde início e princípio. Princípio é origem. O início mal inicia e já está superado. O princípio surge e se impõe ao longo de toda a vida. Início é princípio em busca de realização, fim é princípio, plenamente realizado, como princípio.

 

O aborto é sempre eliminação, destruição da vida. A destruição elimina o que é, desfaz o que foi e apaga os traços do que será. Por isso, as ideologias que defendem o aborto serão sempre um grito necrófilo de morte à vida e sua originalidade.

 

Intervir no processo gerativo do embrião, seja em qual estágio estiver, é sempre uma agressão iníqua à vida humana na singularidade irrepetível de sua integração de ter e ser.

 

O texto a seguir é continuidade da nota da CNBB, intitulada “Pela vida, contra o aborto”.

 

Neste tempo de grave crise política e econômica, a CNBB tem se empenhado na defesa dos mais vulneráveis da sociedade, particularmente dos empobrecidos. A vida do nascituro está entre as mais indefesas e necessitadas de proteção. Com o mesmo ímpeto e compromisso ético-cristão, repudiamos atitudes antidemocráticas que, atropelando o Congresso Nacional, exigem do Supremo Tribunal Federal-STF uma função que não lhe cabe, que é legislar. 

 

O direito à vida é o mais fundamental dos direitos e, por isso, mais do que qualquer outro, deve ser protegido. Ele é um direito intrínseco à condição humana e não uma concessão do Estado. Os Poderes da República têm obrigação de garanti-lo e defendê-lo. O Projeto de Lei 478/2007 - “Estatuto do Nascituro”, em tramitação no Congresso Nacional, que garante o direito à vida desde a concepção, deve ser urgentemente apreciado, aprovado e aplicado. 

 

Não compete a nenhuma autoridade pública reconhecer seletivamente o direito à vida, assegurando-o a alguns e negando-o a outros. Essa discriminação é iníqua e excludente; “causa horror só o pensar que haja crianças que não poderão jamais ver a luz, vítimas do aborto” . São imorais leis que imponham aos profissionais da saúde a obrigação de agir contra a sua consciência, cooperando, direta ou indiretamente, na prática do aborto. 

 

É um grave equívoco pretender resolver problemas, como o das precárias condições sanitárias, através da descriminalização do aborto. Urge combater as causas do aborto, através da implementação e do aprimoramento de políticas públicas que atendam eficazmente as mulheres, nos campos da saúde, segurança, educação sexual, entre outros, especialmente nas localidades mais pobres do Brasil. Espera-se do Estado maior investimento e atuação eficaz no cuidado das gestantes e das crianças. É preciso assegurar às mulheres pobres o direito de ter seus filhos. Ao invés de aborto seguro, o Sistema Público de Saúde deve garantir o direito ao parto seguro e à saúde das mães e de seus filhos. 

 

Conclamamos nossas comunidades a unirem-se em oração e a se mobilizarem, promovendo atividades pelo respeito da dignidade integral da vida humana.

 

Neste Ano Mariano Nacional, confiamos a Maria, Mãe de Jesus, o povo brasileiro, pedindo as bênçãos de Deus para as nossas famílias, especialmente para as mães e os nascituros.

20/04/2017

Vitória da Vida (I)

Nestes dias em que celebramos a vitória da vida sobre o pecado e a morte, a Igreja do Brasil se manifesta, mais uma vez, a respeito da grave agressão à vida humana, através da prática do aborto.

 

A Igreja sempre se manifestará a favor da vida! 

 

O embrião é já sempre ser humano; encontra-se num estágio susceptível de agressão fácil. O aborto é sempre uma agressão mortal à vida.

 

Transcrevemos abaixo uma parte da nota da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, intitulada “Pela vida, contra o aborto”.  Na próxima semana, publicaremos a outra parte da referida nota.

 

Pela vida, contra o aborto

 

“Não matarás, mediante o aborto, o fruto do seu seio”

(Didaquê, século I)

 

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil-CNBB, através da sua Presidência, reitera sua posição em defesa da integralidade, inviolabilidade e dignidade da vida humana, desde a sua concepção até a morte natural . Condena, assim, todas e quaisquer iniciativas que pretendam legalizar o aborto no Brasil. 

 

O direito à vida é incondicional. Deve ser respeitado e defendido, em qualquer etapa ou condição em que se encontre a pessoa humana. O direito à vida permanece, na sua totalidade, para o idoso fragilizado, para o doente em fase terminal, para a pessoa com deficiência, para a criança que acaba de nascer e também para aquela que ainda não nasceu. Na realidade, desde quando o óvulo é fecundado, encontra-se inaugurada uma nova vida, que não é nem a do pai, nem a da mãe, mas a de um novo ser humano. Contém em si a singularidade e o dinamismo da pessoa humana: um ser que recebe a tarefa de vir-a-ser. Ele não viria jamais a tornar-se humano, se não o fosse desde início. Esta verdade é de caráter antropológico, ético e científico. Não se restringe à argumentação de cunho teológico ou religioso.

 

A defesa incondicional da vida, fundamentada na razão e na natureza da pessoa humana, encontra o seu sentido mais profundo e a sua comprovação à luz da fé. A tradição judaico-cristã defende incondicionalmente a vida humana. A sapiência e o arcabouço moral  do Povo Eleito, com relação à vida, encontram sua plenitude em Jesus Cristo . As primeiras comunidades cristãs e a Tradição da Igreja consolidaram esses valores. O Concílio Vaticano II assim sintetiza a postura cristã, transmitida pela Igreja, ao longo dos séculos, e proclamada ao nosso tempo: “A vida deve ser defendida com extremos cuidados, desde a concepção: o aborto e o infanticídio são crimes abomináveis”.

 

O respeito à vida e à dignidade das mulheres deve ser promovido, para superar a violência e a discriminação por elas sofridas. A Igreja quer acolher com misericórdia e prestar assistência pastoral às mulheres que sofreram a triste experiência do aborto. O aborto jamais pode ser considerado um direito da mulher ou do homem, sobre a vida do nascituro. A ninguém pode ser dado o direito de eliminar outra pessoa. A sociedade é devedora da mulher, particularmente quando ela exerce a maternidade. O Papa Francisco afirma que “as mães são o antídoto mais forte para a propagação do individualismo egoísta. ‘Indivíduo’ quer dizer ‘que não se pode dividir’. As mães, em vez disso, se ‘dividem’ a partir de quando hospedam um filho para dá-lo ao mundo e fazê-lo crescer”.

13/04/2017

Filantropia: justiça e amor aos pobres

“Desejamos ajudar a cuidar daqueles que muitas vezes na sociedade não têm oportunidade”, disse o secretário-geral da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB), Dom Leonardo Steiner, quando apresentou, ainda no ano passado, a pesquisa “A Contrapartida do setor filantrópico para o Brasil”. O estudo mostrou, por exemplo, que as instituições filantrópicas realizaram mais de 160 milhões de atendimentos em 2014 e geraram 1,3 milhão de empregos. Por meios desses serviços são realizada obras de cunho social, assistencialista e promocional que atingem, em sua maioria, os pobres.

 

Todo esse sistema, porém, está sendo colocado em xeque por meio da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, que trata da Reforma da Previdência e que pretende eliminar a isenção previdenciária das instituições filantrópicas. No fim do mês passado a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) manifestou seu desacordo com proposta. Diz a nota:

 

“A reforma da Previdência, proposta pelo Governo Federal, trouxe à tona o debate sobre o fim da isenção da contribuição para a Seguridade Social de inúmeras entidades, prevista no artigo 195 § 7, da Constituição Federal de 1988. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil - CNBB reconhece que é necessário, de fato, rever a isenção de algumas entidades, para que elas se justifiquem pelo serviço prestado aos pobres. 

 

É equivocado, no entanto, pretender eliminar as isenções das instituições filantrópicas que prestam reais serviços nas áreas da Saúde, Educação e Assistência Social. Respeitadas pela sociedade, muitas destas instituições estão presentes onde, inúmeras vezes, há ausência do Estado. A isenção não significa doação ou favor, mas uma contrapartida do Estado ao serviço que lhe caberia prestar aos mais pobres. 

 

Eliminar a isenção equivaleria, na prática, inviabilizar o serviço de 1.400 instituições na área da saúde, mais de 2.100 na área da educação e mais de 5.000 na área da assistência social (cf. Fórum Nacional das Instituições Filantrópicas - Fonif). É incalculável o impacto que isso provocaria na vida de milhões de empobrecidos!

 

A entidades filantrópicas, acostumadas a fazer o mais com o menos, são fundamentais para a implementação de políticas públicas e para diminuir desigualdades sociais. Dados dos Ministérios da Saúde, Educação e Desenvolvimento Social e da Receita Federal revelam que, para cada “um Real” de isenção previdenciária, a contrapartida pelas entidades é de “5,92 Reais”, ou seja, “seis vezes mais” do que receberam em desoneração previdenciária.   

 

A CNBB manifesta seu desacordo com proposta de eliminar a isenção previdenciária das instituições filantrópicas, conforme pretendem alguns, na discussão da PEC 287/2016, sobre a reforma da Previdência. Desta forma, a CNBB se coloca na defesa dos pobres e excluídos.”

 

A filantropia pode ser compreendida como amizade do ser humano por outro ser humano, pois nenhum ser humano pode ser alheio a outro ser humano. O sistema possivelmente apresenta fragilidades. No entanto, há sério empenho por honestidade e transparência no uso dos recursos financeiros. A base da filantropia deve ser a honestidade, a justiça e o autêntico amor aos pobres. É isso que defendemos e por isso trabalhamos.

10/04/2017

Caminho da exclusão

Hoje replicamos a nota da CNBB sobre a reforma a PEC 287/16, que trata da reforma da Previdência.

 

“Ai dos que fazem do direito uma amargura e a justiça jogam no chão” (Amós 5,7).

 

 O Conselho Permanente da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, reunido em Brasília-DF, dos dias 21 a 23 de março de 2017, manifesta apreensão com relação à Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 287/2016, que tramita no Congresso Nacional.

 

A Constituição Federal de 1988 estabeleceu que a Previdência seja um Direito Social dos brasileiros e brasileiras. Não é uma concessão governamental ou um privilégio. Os Direitos Sociais no Brasil foram conquistados com intensa participação democrática; qualquer ameaça a eles merece imediato repúdio.

 

Abrangendo atualmente mais de 2/3 da população economicamente ativa, diante de um aumento da sua faixa etária e da diminuição do ingresso no mercado de trabalho, pode-se dizer que o sistema da Previdência precisa ser avaliado e, se necessário, posteriormente adequado à Seguridade Social.

 

Os números que apresentam um déficit previdenciário são diversos dos números apresentados por outras instituições, inclusive ligadas ao próprio governo. Não é possível encaminhar solução de assunto tão complexo com informações inseguras, desencontradas e contraditórias. É preciso conhecer a real situação da Previdência Social no Brasil. Iniciativas que visem ao conhecimento dessa realidade devem ser valorizadas e adotadas, particularmente pelo Congresso Nacional, com o total envolvimento da sociedade.

 

O sistema da Previdência Social possui uma intrínseca matriz ética. Ele é criado para a proteção social de pessoas que, por vários motivos, ficam expostas à vulnerabilidade social, particularmente as mais pobres. Nenhuma solução para equilibrar um possível déficit pode prescindir de valores éticos-sociais e solidários. Na justificativa da PEC 287/2016 não existe nenhuma referência a esses valores, reduzindo a Previdência a uma questão econômica.

 

Buscando diminuir gastos previdenciários, a PEC 287/2016 “soluciona o problema”, excluindo da proteção social os que têm direito a benefícios. Ao propor uma idade única de 65 anos para homens e mulheres, do campo ou da cidade; ao acabar com a aposentadoria especial para trabalhadores rurais; ao comprometer a assistência aos segurados especiais; ao reduzir o valor da pensão para viúvas ou viúvos; ao desvincular o salário mínimo como referência para o pagamento do Benefício de Prestação Continuada (BPC), a PEC escolhe o caminho da exclusão social.

 

A opção inclusiva que preserva direitos não é considerada na PEC. Faz-se necessário auditar a dívida pública, taxar rendimentos das instituições financeiras, rever a desoneração de exportação de commodities, identificar e cobrar os devedores da Previdência.

 

Às senhoras e aos senhores parlamentares, fazemos nossas as palavras do Papa Francisco: “A vossa difícil tarefa é contribuir a fim de que não faltem as subvenções indispensáveis para a subsistência dos trabalhadores desempregados e das suas famílias. Não falte entre as vossas prioridades uma atenção privilegiada para com o trabalho feminino, assim como a assistência à maternidade que sempre deve tutelar a vida que nasce e quem a serve quotidianamente. Tutelai as mulheres, o trabalho das mulheres! Nunca falte a garantia para a velhice, a enfermidade, os acidentes relacionados com o trabalho. Não falte o direito à aposentadoria, e sublinho: o direito — a aposentadoria é um direito! — porque disto é que se trata.”

10/04/2017

Semana Santa

Nestes dias da Semana Santa a Igreja celebra os principais momentos da vida de Cristo Jesus. “Ele existindo em forma divina, não se apegou ao ser igual a Deus, mas despojou-se, assumindo a forma de escravo e tornando-se semelhante ao ser humano. E encontrado em aspecto humano, humilhou-se, fazendo-se obediente até a morte – e morte de Cruz” (Fl 2,6-8).

 

A Páscoa é um ponto culminante das celebrações da Semana Santa. No domingo da Páscoa a Igreja celebra a vitória da vida sobre a morte, do amor sobre toda forma de injustiça, de Deus sobre as forças do mal.

 

Aquele que fora aclamado pelo povo de Israel como sendo rei dos judeus entra em Jerusalém humildemente montado em jumento, sem utilizar de astúcia e nem de violência, mas dando testemunho da Verdade. A verdade liberta! A Páscoa é celebração da verdade! Aquele que fora crucificado e morto “era verdadeiramente Filho de Deus”!

 

Deus assumiu a condição humana não para dominar a humanidade através de instrumentos políticos, sociais e econômicos, mas para mostrar que o amor é mais forte que a morte! Por isso, causa medo e pavor quando se assiste a eliminação cruel de inocentes através de armas químicas, como se assistiu nestes dias na Síria. Causa indignação o fato de pessoas, crianças, jovens e idosos, serem obrigadas a deixar sua terra, suas casas em busca de condições melhores de vida, mas não serem acolhidas por nações que se consideram ricas; essas mesmas nações, com suas indústrias de armamentos e sistema financeiro, sustentam a cultura da morte. Causa vergonha assistir um parlamentar que se considera democrático ser aplaudido quando usando expressões tipicamente nazistas, zomba e desfaz-se de indígenas e quilombolas. Espetáculo tétrico realizado na casa daqueles que sofreram a dor de uma dura, injusta e sangrenta perseguição. Surpreende-nos iniciativas que defendem o uso de armas como via para se construir a paz. São os sinais da paixão de Cristo sendo atualizados no hoje da história.

 

A Semana Santa representa um grande convite a rever práticas e mentalidades. É tempo de, como discípulos e discípulas do crucificado-ressuscitado, renovar a fé e a esperança. O cristão não pode se conformar com a mentalidade deste mundo. O sistema econômico que se impõe e quer, por exemplo, reger as relações humanas, exclui e mata. Por isso, somos convidados a dizer “não a uma economia de exclusão e desigualdade, onde o dinheiro reina em vez de servir. Esta economia mata. Esta economia exclui. Esta economia destrói a Mãe Terra” (Papa Francisco).

 

Nestes dias a Igreja é confrontada com a humildade de Deus. O silencio da cruz nos interpela: o Senhor da vida é conduzido ao tribunal e ao patíbulo como malfeitor. Resplandece assim do que é capaz o ser humano quando perde o senso da vida, da verdade, da justiça. O silêncio que brota da Cruz não é o de um fim dramático. Diante do silêncio do Crucificado, somos desafiados a renovar nossa esperança. A vida não termina com a morte. A vida vence a morte!

 

A Semana Santa nos convida a entrar na íntima experiência da vida de Deus. Ele, mesmo sofrendo e morrendo na cruz, ama sem reservas e testemunha querer salvar todo ser humano de boa vontade. Celebrar a Semana Santa é celebrar e confessar a primazia vida humana, sua dignidade e nobreza.

09/03/2017

O Espírito da Quaresma

Na Quarta-feira de Cinzas os cristãos costumam ir ao templo para uma cerimônia despojada. A cerimônia poderia ser denominada quarta-feira das coisas que não contam, das coisas insignificantes, da poeira...

 

A caminhada quaresmal se inicia com um gesto externo simples: a imposição de cinzas sobre a cabeça dos fiéis. A forma litúrgica para a imposição de cinza é marcada por dois momentos. Primeiro a oração sobre as cinzas: “(...) Derramai a graça da vossa benção sobre os fiéis que vão receber estas cinzas, para que, prosseguindo na observância da Quaresma, possam celebrar de coração purificado o mistério pascal do vosso Filho”. Depois a exortação proposta no momento da imposição das cinzas: “lembra-te que és pó, e ao pó hás de voltar” ou “Convertei-vos e crede no Evangelho”.

 

Diante do ministro o fiel inclina humildemente a cabeça, recebe as cinzas e é lembrado da necessidade de tomar consciência da própria condição e de retornar ao Evangelho.

 

Curva-se o corpo! O fiel se dispõe a iniciar um caminho de conversão. Conversão entendida como disposição para entrar em sintonia com a versão de Deus para a humanidade: o Evangelho. Evangelho que em alguns setores da sociedade produz aversão. No entanto, para os cristãos ele é regra de vida, ou melhor, é vida!

 

Subjaz aos gestos e à disposição de quem participa da cerimônia, a confiança de que Alguém denominado Deus, Mistério Absoluto, Tu, Abismo insondável vem ao encontro do ser humano, oferecendo-lhe seu amor, sua presença, seus projetos.

 

O cristão se aproxima desse “Alguém” com o coração contrito, única porta que pode ser aberta para que entre e o tome consigo. Não adiante rasgar as vestes (Jl 2,13); o que verdadeiramente importa é o coração arrependido. Tal disposição, juntamente à decisão de cultivar no cotidiano uma sintonia com o Evangelho, é caminho privilegiado para não se deixar levar pela perversão.

 

Em tempos de crise de toda espécie, vale recordar a necessidade de voltar ao essencial. É preciso superar a ideologia do politicamente correto, tomar consciência de que está acontecendo uma descentralização do sagrado que aguarda da comunidade de fé atitudes corajosas e ousadas.

 

Não se pode, hoje, pensar o anúncio de Cristo reduzido a belas palavras religiosas em contextos mundanos, sem necessidade de testemunhar isso na carne e no cotidiano.

 

As tradicionais práticas quaresmais do jejum, da esmola e da oração marcam o cotidiano dos fiéis. Essas práticas, em nome de Cristo, se desdobram em misericórdia, acolhimento, diálogo, proximidade, consolo, solidariedade especialmente para com os rejeitados e excluídos da sociedade opulenta e adepta de um sistema econômico que mata.

 

Os cristãos são chamados ao discipulado, ao seguimento de Jesus Cristo, empenhados em viver como ele viveu, curando doentes, aliviando dores e sofrimentos, acolhendo as pessoas, que segundo os padrões sociais e religiosos de então eram vistas como as mais erradas e perdidas.

 

O poeta, talvez, auxilie na compreensão do espírito da Quaresma: “Se eu tivesse entranhas de misericórdia sairia… Sairia de minha casa para encontrar-me com os necessitados; de minha apatia para ajudar os que sofrem; de minha ignorância para conhecer os ignorados; de meus caprichos para conhecer os famintos; de  minha atitude crítica  para compreender os que falham; de minha suficiência para estar com os incapazes; de minhas pressas  para dar meu tempo aos abandonados; de minha preguiça para ajudar os cansados de gritar; de minha postura burguesa para compartilhar com os pobres. Quem dera que eu tivesse entranhas de misericórdia!” (F. Ulíbarri).

09/03/2017

O cuidado pela casa comum e a ciência moderna

A ciência moderna é um empreendimento genuinamente humano, sempre a caminho. Ela realiza demonstrações e busca certezas. A ciência sempre terá com que se ocupar, pois o universo, com suas estruturações, dimensões e realizações, é dinâmico. O universo é um organismo vivo!

 

A ciência tem um modo de proceder característico. Por meio de método específico, ela se empenha em buscar a verdade. No entanto, em seu empenho ela vai encontrando certezas. Recentemente, a ciência vem apresentando elementos que apontam para uma transformação perigosa do ambiente, por obra humana. Expressão maior dessa transformação é, segundo especialistas, a mudança climática.

 

Há um razoável consenso entre cientistas a respeito das influências da ação humana sobre as mudanças climáticas em curso. Essas transformações tendem a favorecer a multiplicação de fenômenos climáticos – secas prolongadas, enchentes, furacões, tufões, chuvas torrenciais. Na base desses fenômenos está certamente o modelo de desenvolvimento econômico escolhido pelos governos. Portanto, também as mudanças climáticas são expressão de escolhas políticas. Por isso, é urgente que todos, governos e governados, assumam sua parcela de responsabilidade, deixando de lado os lobbies que se orientam nos meros interesses financeiros, o comodismo, o conformismo e a indiferença.

 

Urge crescer na consciência de que a geração atual é responsável pela qualidade de vida do planeta para as gerações que virão. Os filhos e netos da atual geração terão um mundo melhor ou pior que o atual, dependendo das opções e decisões, certamente drásticas, que atual geração for capaz de assumir.

 

O presente é preocupante! O momento atual é considerado crucial para a continuidade da própria vida no planeta Terra.

 

O Papa Francisco, em 2015, publicou um documento intitulado “Laudato Si – sobre o cuidado da casa comum”, no qual afirma que “há um consenso científico muito consistente, indicando que estamos perante um preocupante aquecimento do sistema climático. Nas últimas décadas, este aquecimento foi acompanhado por uma elevação constante do nível do mar, sendo difícil não o relacioná-lo ainda com o aumento de acontecimentos meteorológicos extremos, embora não se possa atribuir uma causa cientificamente determinada a cada fenômeno particular” (n. 23). E continua: “o aquecimento influi sobre o ciclo do carbono. Cria um círculo vicioso que agrava ainda mais a situação e que incidirá sobre a disponibilidade de recursos essenciais como a água potável, a energia e a produção agrícola das áreas mais quentes e provocará a extinção de parte da biodiversidade do planeta. (...) Se a tendência atual se mantiver, este século poderá ser testemunha de mudanças climáticas inauditas e de uma destruição sem precedentes dos ecossistemas, com graves consequências para todos...” (n. 24).

 

O cuidado para com a “casa comum” exige uma profunda mudança no estilo de vida e nos princípios e valores que orientam a ação humana. Essa mudança, a tradição cristã denomina de conversão.

 

Durante o tempo da Quaresma os cristãos são convidados a rever o modo de relacionar-se consigo mesmo, com os demais seres humanos, com o meio ambiente e com Deus. Esse tempo é precedido pelo carnaval, caracterizado, sim, por extravagâncias, mas também pelo espírito sadio e alegre de marchas e foliões, recordando que a existência humana é também marcada pela alegria, pela esperança e, sobretudo, pelo cuidado. Cuidado alegre da vida em suas variadas formas, especialmente quando se manifesta em um conjunto semelhante de vegetação, água, superfície, clima e animais: os biomas.

01/03/2017

Práticas quaresmais

A esmola, a oração e o jejum são os três pilares da religião: definem o nosso  relacionamento com os outros, com o Outro e com as coisas. Esses três relacionamentos caracterizam a nossa existência!

 

Qualquer nossa ação pode ser realizada de duas maneiras opostas: para o nosso autocomprazer, autopromoção, receber elogios e reconhecimento dos homens, ou para agradar Aquele que sempre nos louva e reconhece como filhos.

 

Há quem vive ou morre para ser visto pelos outros. Quem não é visto por ninguém, não existe. O ser humano tem necessidade de ser reconhecido: sua identidade é como o outro o vê.

 

Se procuro nos outros reconhecimento, nunca estarei satisfeito, serei sempre escravo do juízo dos outros e da minha tentativa de sempre passar uma boa imagem de mim mesmo; terei o culto da imagem (= idolatria) do meu eu em vez da realidade de Deus.

 

O ser humano é imagem e semelhança de Deus: se está diante dele recebe a própria realidade; é ele mesmo, livre de qualquer escravidão. “Tanto é alguém quanto é aos teus olhos e nada mais”, diz S. Francisco (Imitação de Cristo III 50,37). A sua recompensa diante do Pai é a própria verdade de filho.

 

Se, pelo contrário, está diante de outro ser humano, é como um espelho diante de outro espelho: se refletem ao infinito a própria vacuidade, ou se quer as próprias molduras, os próprios limites.

 

Somente quem sabe que é filho de Deus, amado infinitamente – o meu ser é o seu ver-me e amar-me – está livre da vanglória: possui a verdadeira glória. A fé é conhecer esta glória. “Por isto não pode acreditar em Deus quem procura a glória dos homens” (Jo 5,44).

17/02/2017

Crise do Carnaval

Tornou-se cotidiano o tema da crise. Fala-se de crise política, econômica, social, ética, antropológica, de segurança, de saúde pública, de educação. A crise instalou-se na sociedade!

 

Em nome da crise se atropela instâncias da sociedade, tempos e ritos, fazendo avançar iniciativas bizarras que vulgarizam valores e tradições. É o que se constata quando qualquer período do ano se torna oportunidade para carnaval.

 

O carnaval fazia parte da tradição cultural de vários povos antigos. Tratava-se de uma animada festa popular, com forte apelo à liberdade de expressão e movimento.

 

O carnaval também faz parte da cultura brasileira. Ora, cultura é tudo o que um grupo humano desenvolve para viver, conviver, sobreviver, relacionar-se, interpretar e dar sentido à vida. Cultura é conhecer e respeitar os valores das pessoas como expressão de sabedoria. Cultura é descoberta, conhecimento, benefício, partilha de experiências. Cultura é respeito pelas diferenças!

 

Nesse contexto, vale recordar o que dizia o cacique Raoni, da etnia Kayapó: “Eu não quero a sua cultura. Alguns entre vocês têm dinheiro e mata os outros para ter um pouco. Outros bebem álcool e bêbados destroem a si mesmos e os outros. Eu tenho medo mesmo! Nós, os Kayapós, pelo menos temos consideração e compreensão para com os outros. Somos todos irmãos e tios uns dos outros. É por isso que temos respeito, que protegemos uns aos outros. Vocês, brancos, não se preocupam com os de menos sorte. Vocês mentem uns para os outros. Eu descobri!”.

 

O carnaval traz em si um forte apelo de integração social. O genuíno carnaval é marcado pela música, dança, canto, pela alegria descontraída. Quanta beleza nos grupos que percorrem ruas e praças com alegria, candura e inocência... Gente imaginando que podia ser rei, rainha, princesa ao menos um dia na vida! O que dizer das fantasias, expressão de pausa no cotidiano marcado por tensões de toda espécie! E as músicas cheias de graça e movimentos; o cotidiano sendo transformado em samba: a mulher com a lata d’água na cabeça, a chiquita bacana lá da Martinica, os mil palhaços no salão, a colombina e o pierrô que se amam. Quanta alegria simples e pura!

 

O que fizeram do carnaval? O carnaval enquanto expressão cultural do povo brasileiro está em crise! Às outras crises que marcam o presente, soma-se também a crise do carnaval.

 

A crise provoca alterações, convidando à purificação. Assumir a crise significa dispor-se à revisão de comportamentos, posturas, compreensões. Acolher a crise é saber cuidar. Viver a crise é dispor-se para ir ao encalço do novo que se apresenta, desafiando o ser humano à superação de referências cristalizadas.

 

O povo brasileiro está sendo desafiado no viver e conviver; está sendo desafiado a sobreviver! A crise vivida, nas suas múltiplas facetas, é fruto de equívocos teimosos e persistentes na sociedade. É expressão da falência de um modelo social que escolheu organizar-se a partir de uma lógica perversa que não respeita ninguém, nem tempos e cultura.

 

A vida atual em sociedade tem sofrido modificações bruscas, fruto do secularismo, subjetivismo, hedonismo, individualismo. Neste contexto, os discípulos de Jesus Cristo tem uma particular missão, sintetizada de forma exemplar pelo Padre Antônio Vieira: “Veja o céu que ainda tem na terra quem se põe da sua parte. Saiba o inferno que ainda há na terra quem lhe faça guerra com a palavra de Deus; e saiba a mesma terra, que ainda está em estado de reverdecer e dar muito fruto”.

09/02/2017

Tempo próprio

Vivemos inseridos no tempo, caracterizado por estações, ritmos, festas. As estações com a subdivisão entre dia e noite é o próprio tempo que oferece. Os ritmos, isto é, a divisão em anos, meses, semanas, horas é fruto de convenção humana para marcar o tempo. As festas são expressão do modo como o ser humano se relaciona com esta realidade de desafiadora compreensão.

 

Os seres vivos possuem um tempo de desenvolvimento característico e um ritmo próprio. A estabilidade dos mesmos é dinâmica, resultado do equilíbrio ou da alternância constante de processos de degradação e de regeneração. O ser humano, por sua vez, pode criar, projetar-se e decidir por construir conscientemente algo novo. Ele pode ter o olhar voltado para o tempo futuro, o qual lhe permite sonhar.

 

No entanto, o ser humano sabe que o passado é o seu rosto mais autêntico e que lhe permite continuidade e significar o presente. O sentido do passado decorre da orientação para o futuro, para os fins que se escolhem, das possibilidades que se elegem como metas a atingir. No futuro projetamos os valores que iluminam a memória na seleção necessária entre o que há para esquecer e o que há para reter e recordar, enquanto significante e edificante para a vida social e pessoal.

 

O ser humano se encontra embarcado na realidade do tempo, do qual ele não pode fugir. A compreensão do tempo expressa a finitude do ser humano. Por isso, o tempo é também marcado por simbolismo. O simbólico é onde a existência humana concreta encontra o seu enraizamento, equilíbrio e sentido.

 

Ao longo da história, cada cultura foi elaborando seus símbolos e ações simbólicas, destacando-se as etapas importantes existência humana. É o que se constata, por exemplo, com as festas de nascimento, aniversário, os ritos de passagem, casamento, morte etc. Os estados também possuem e promovem datas com seu simbolismo. Temos, assim, o dia da descoberta, da independência, das vitórias, da república, da bandeira.

 

Do mesmo modo, a sociedade civil cultiva etapas de tempo com seu simbolismo. Exemplos disso podem ser os tempos de férias e do carnaval.

 

As comunidades de fé possuem seus símbolos e cultivam suas ações simbólicas inseridas no tempo. A cultura ocidental é marcada por tais ações. Assim, se compreende o tempo da Páscoa e do Natal, com sua preparação, celebração e seus símbolos. Os símbolos se constituem numa linguagem cifrada das aspirações e dos ideais humanos. Eles sempre existiram e continuarão existindo. Eles são importantes para a vida e a cultura dos povos.

 

Existem símbolos com significados profundos dentro de um determinado contexto histórico e cultural. Quando abraçados com ardor, manifestam e alimentam o respeito e despertam energias inesperadas. Há símbolos e tempos que tentam traduzir convicções e valores que se apresentam como indissociáveis para a sobrevivência de uma cultura.

 

Quando uma sociedade desconsidera a dimensão do simbólico e seus tempos, então se vulgariza tradição, cultura, arte. Um povo que desconsidera sua arte, cultura e tradição é um povo sem raízes, ficando a mercê de impressões genéricas e conformado ao politicamente correto.

 

A vulgarização do universo artístico e cultural de um povo é expressão de pouco respeito para com esse mesmo povo e suas tradições. Desconsiderar, por exemplo, o tempo da quaresma e vulgarizar o carnaval e seu tempo preocupam e fazem pensar. Até porque a existência humana não é um eterno carnaval!

20/01/2017

Aposentadoria: por quê?

Não há problema algum em ficar mais velho. O tempo em si também não deve ser um problema. Entretanto, o tempo que nos gera também produz desigualdades. O tempo nem sempre espera que homens e mulheres cheguem aos 65 anos, idade mínima proposta para a aposentadoria, e, com muito mais razão, aos 70 anos, para a concessão do amparo assistencial. Essa espera, que para trabalhadores assalariados, braçais ou expostos a riscos significa um lapso de tempo muito mais longo, pode trazer inúmeros prejuízos à população pelo simples fato de termos mais pessoas em situação de risco social, mais do que já existem.

 

A idade mínima considerada pela proposta de reforma da previdência social parte de estudos que comprovam o aumento da longevidade do brasileiro. Ao mesmo tempo, porém, há de se considerar que a duração da vida não é acompanhada de força, vigor e disposição linear para o trabalho. Apesar da experiência adquirida através da prática ou vivência, as portas do mercado de trabalho, ou da cultura do descarte, começam a se fechar muito antes dos 60 anos de idade, principalmente para aqueles com baixa escolaridade.

 

A idade mínima rompe com o princípio de igualdade entre contribuintes/beneficiários, uma vez que impede que muitos participem dos benefícios da previdência social, afetando duramente aqueles que começaram a trabalhar muito cedo e no pesado. Os riscos e desgastes a que estão submetidos, por exemplo, os trabalhadores rurais, tomam formas diferentes daqueles trabalhadores da construção civil, que, por vezes, são diversos daqueles empregados (diretores) que exercem sua função em um escritório, e assim por diante. O mesmo se pode dizer sobre as oportunidades e condições desses trabalhadores de, sem estabilidade, permanecerem trabalhando até os 65 anos de idade.

 

A aposentadoria é a prestação previdenciária que se dá ao trabalhador depois de um certo tempo de serviço, em razão da presunção de desgaste físico e psicológico, e não por velhice ou incapacidade. A proposta de reforma da previdência, assim como vem sendo apresentada, não considera essa realidade! Certamente industriários, pedreiros, agricultores, para citar apenas esses, acabarão sofrendo, desproporcionalmente, os efeitos do tempo.

 

O que dizer da idade mínima proposta para a concessão do amparo assistencial, benefício que tem como finalidade proteger pessoas portadoras de deficiência ou idosos (não seguradas da Previdência Social) que não possuem renda para a própria subsistência ou família que os sustente? Exigir que o idoso, com renda familiar inferior a ¼ do salário mínimo, sobreviva até os 70 anos de idade não reflete a realidade da vida humana. Ninguém, enquanto Poder Público e sociedade, fará algo para evitar ou amenizar a privação suportada por um idoso submetido à pobreza? Isso tem um valor simbólico muito forte, uma vez que tal situação coloca em xeque a relação do ser humano com os demais, pois o risco social ao qual está submetido um ser humano no outono da vida não expressa somente preocupação com um idoso, mas com a espécie humana.

 

Segundo o Estatuto do Idoso, "é obrigação do Estado garantir à pessoa idosa a proteção à vida e à saúde, mediante efetivação de políticas sociais públicas que permitam um envelhecimento saudável e em condições de dignidade". A sociedade que verdadeiramente promove e cuida daqueles que arduamente se dedicaram para ganhar dignamente o pão de cada dia de forma honesta e justa é uma sociedade que trata o próprio futuro com respeito.

12/01/2017

Reforma da Previdência?

O Governo Federal está apresentando uma proposta de Reforma da Previdência. O projeto estende o tempo de contribuição e torna mais seletiva a possibilidade de entrar no regime de aposentadoria. O tempo mínimo necessário para obter aposentadoria aumentará.

 

Tudo seria fácil se o Brasil não fosse marcado por uma enorme desigualdade na distribuição da renda e se o território nacional fosse homogêneo.

 

A reforma proposta não leva em conta que os benefícios previdenciários devem servir para distribuir e repartir as riquezas, fornecendo condições materiais de vida digna e inclusiva ao trabalhador e sua família. Isso, ao mesmo tempo, significa diminuição da violência, da injustiça, da exploração, da fome, das doenças, da ignorância etc.

 

A escolha da idade mínima de 65 anos vai deixar muitos trabalhadores de fora da proteção social. Tomamos como exemplo a situação de nossos pais, amigos ou vizinhos que sequer chegaram a essa idade, dos que estão desempregados ou dos que não possuem condições para continuar trabalhando pesado. Tomamos como exemplo a situação da mulher que, muitas vezes, tem dupla jornada de trabalho, porque é quem cuida da casa e dos filhos. Tomamos como exemplo a situação do pequeno agricultor, que trabalha de sol a sol para garantir a subsistência de sua família, tendo a terra como única fonte de renda.

 

A ideia de que a justiça para o indivíduo pode ser conquistada através de esforço individual (algo como: cada um tem o que merece e pode fazer uma previdência privada) não garante um futuro de progresso, paz, liberdade e igualdade de oportunidades.

 

A proposta de reforma tem um custo destrutivo. Se ela for aprovada na redação original, ou seja, com a deliberada intenção de reduzir as chances de o trabalhador se aposentar e/ou de gozar (com saúde) sua aposentadoria e com a redução do valor de determinados benefícios, o amparo assistencial também não será capaz de amenizar a privação suportada por um idoso submetido à pobreza e teremos um incremento das desigualdades sociais. Mais do que isso, as mudanças propostas, se acompanhadas das mesmas políticas públicas ineficazes em outros setores, vai, em médio e longo prazo, ampliar o abismo de desigualdades entre classes e pessoas.

 

Há razões para se considerar que a Reforma da Previdência, assim como está sendo apresentada, provocará um aumento da pobreza. Recorde-se que no Brasil inexistem políticas de proteção à vida e à saúde da pessoa idosa e os demais direitos, como educação e moradia, são “privilégios” de poucos. Infelizmente as pessoas são medidas muito mais pelo que têm do que pelo que são de fato!

 

Além disso, como afrontar a questão dos “direitos adquiridos”, por meio dos quais alguns podem tudo, enquanto a grande maioria do povo que realmente trabalha e necessita da Previdência Social é tratada como número e material de descarte? Quem pode hoje manter uma Previdência Privada para si e para os seus? Quem pode manter um plano de saúde à altura das reais necessidades? Não são certamente os pequenos produtores rurais, os trabalhadores mais humildes e os que depois dos 60 anos dificilmente conseguem um lugar de trabalho.

 

Não se pode esquecer que o “trabalho não pode ser uma mera engrenagem no mecanismo perverso que esmaga recursos para obter lucros cada vez maiores; portanto, o trabalho não pode ser prolongado nem reduzido em função do lucro de poucos e de formas produtivas que sacrificam valores, relações e princípios” (Papa Francisco).

05/01/2017

2017

No início de um novo ano civil, somos atingidos por sentimentos de esperança e de paz. Esses sentimentos se fazem ainda mais fortes em momentos em que se constatam elementos contundentes que permitem duvidar da possibilidade da paz.

 

Há 50 anos, o dia 1 de janeiro é considerado o Dia Mundial da Paz. Para essa data, o Santo Padre habitualmente publica uma mensagem dirigida a todas as pessoas de boa vontade. A deste ano, que tem como título “A não-violência: estilo de uma politica para a paz”, Francisco começa dizendo: “No início deste novo ano, formulo sinceros votos de paz aos povos e nações do mundo inteiro, aos chefes de Estado e de governo, bem como aos responsáveis das Comunidades Religiosas e das várias expressões da sociedade civil. Almejo paz a todo o homem, mulher, menino e menina, e rezo para que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa. Sobretudo nas situações de conflito, respeitemos esta ‘dignidade mais profunda’ e façamos da não-violência ativa o nosso estilo de vida”.

 

Vale destacar a expressão “que a imagem e semelhança de Deus em cada pessoa nos permitam reconhecer-nos mutuamente como dons sagrados com uma dignidade imensa”. Em tempos de dilaceração das relações humanadas e exacerbação da intolerância que se expressa de muitos modos entre nós, as palavras do Papa nos recordam quem somos: imagem e semelhança de Deus e, portanto, com uma dignidade imensa. Essa imagem está manchada pela terrível guerra diária em nossas vilas e bairros. A criminalidade se espalha de forma tal que parece a todos paralisar.

 

No Brasil, hoje, se mata mais do que na guerra da Síria! Porto Alegre traz a triste marca de ser a quinta capital do Brasil em latrocínios. Isso revela uma grande tragédia!

 

Os mortos nas periferias, frequentemente jovens e pobres, vítimas de uma verdadeira guerra comandada por grupos aliciados pelos senhores do tráfico de drogas, caem no lugar comum das estatísticas. Quando, porém, a violência atinge pessoas de um estrato social considerado mais elevado, deixa de ser número e se torna manchete.

 

Quando uma sociedade subestima a importância do cultivo de valores e da promoção de autêntica cultura; quando se permite que o espaço das escolas se torne lugar de compartilhamento de verdadeiras barbáries; quando se desconsidera a importância do ensino com qualidade, de professores bem preparados e bem renumerados; quando a instituição familiar é atacada de forma vil, denegrindo-se assim a importância do pai e da mãe na constituição do lar como espaço de convívio e de formação para a vida em sociedade; quando as forças de segurança não são respeitadas e reconhecidas em seu importante papel social; quando o sistema prisional se torna espaço de organização do crime; quando algumas expressões do poder judiciário, legislativo e executivo dão sinais de que a vida das pessoas que lutam cotidianamente para ganhar o pão de cada dia de forma honesta e justa não está em primeiro plano, então a tragédia se faz sentir.

 

Para superar os inúmeros desafios que atingem a todos, se faz necessário “algo mais de amor, algo mais de bondade. Este ‘algo mais’ vem de Deus” (Bento XVI), embora falar de Deus, de amor e de bondade parece estar se tornando para alguns um delito. A mensagem papal aponta para a não-violência como meio para superar os desafios que temos pela frente. A não-violência pressupõe disposição para unir forças em vista de soluções para superação desses desafios.

 

Que o ano de 2017 seja marcado por um grande mutirão social em favor de vida digna para todos e que não-violência seja um estilo de uma política para paz.

03/01/2017

A encarnação de Deus

O Natal celebra a encarnação de Deus. Deus, por meio de seu Filho, assume a natureza humana. O mistério da encarnação tem a característica de perenidade: a união da pessoa divina com a natureza humana perdura; ela nunca mais abandona aquilo que uma vez assumiu.

 

O Concílio Vaticano II, fazendo eco à bela e rica tradição da Igreja, assim ensina: “Pela sua encarnação, Ele, o Filho de Deus, uniu-se de certo modo a cada homem. Trabalhou com mãos humanas, pensou com uma inteligência humana, agiu com uma vontade humana, amou com um coração humano. Nascido da Virgem Maria, tornou-se verdadeiramente um de nós, semelhante a nós em tudo, exceto no pecado” (GS, 22).

 

Francisco de Assis soube colher de forma magnífica o mistério da encarnação, por meio da representação do presépio. Seu mérito está em indicar com quais sentimentos o ser humano deve se aproximar do mistério: despojamento e alegria, generosidade e cordialidade, simplicidade e intimidade.

 

O pobre de Assis não se contém de alegria diante da representação. Conta-nos Tomás de Celano, biógrafo da primeira hora: “Fizeram um presépio, trouxeram palha, um boi e um burro. Greccio tornou-se uma nova Belém, honrando a simplicidade, louvando a pobreza e recomendando a humildade. A noite ficou iluminada como o dia e estava deliciosa para os homens e para os animais. O povo foi chegando e se alegrou com o mistério renovado em uma alegria toda nova. O bosque ressoava com as vozes que ecoavam nos morros. Os frades cantavam, dando os devidos louvores ao Senhor e a noite inteira se rejubilava. O santo parou diante do presépio e suspirou, cheio de piedade e de alegria. A missa foi celebrada ali mesmo no presépio, e o sacerdote que a celebrou sentiu uma piedade que jamais experimentara até então.

 

O santo vestiu dalmática, porque era diácono, e cantou com voz sonora o santo Evangelho. De fato, era “uma voz forte, doce, clara e sonora”, convidando a todos às alegrias eternas. Depois pregou ao povo presente, dizendo coisas maravilhosas sobre o nascimento do Rei pobre e sobre a pequena cidade de Belém. Multas vezes, quando queria chamar o Cristo de Jesus, chamava-o também com muito amor de “menino de Belém”, e pronunciava a palavra “Belém” como o balido de uma ovelha, enchendo a boca com a voz e mais ainda com a doce afeição. Também estalava a língua quando falava “menino de Belém” ou “Jesus”, saboreando a doçura dessas palavras. Multiplicaram-se nesse lugar os favores do todo-poderoso, e um homem de virtude teve uma visão admirável. Pareceu-lhe ver deitado no presépio um bebê dormindo, que acordou quando o santo chegou perto. E essa visão veio muito a propósito, porque o menino Jesus estava de fato dormindo no esquecimento de muitos corações, nos quais, por sua graça e por intermédio de São Francisco, ele ressuscitou e deixou a marca de sua lembrança. Quando terminou a vigília solene, todos voltaram contentes para casa” (1Celano, XXX, 85-6).

 

Oxalá as pessoas que ao longo do Advento se encontraram para refletir o mistério do Deus-Amor possam celebrar dignamente a paz e a reconciliação que o Menino de Belém oferece a todo ser humano de boa vontade no Natal.

20/12/2016

Deus que vem!

O Natal é a celebração de Deus que vem ao encontro do ser humano. No rosto de um menino envolto em faixas contemplamos o Deus-Amor. Ele assume a natureza humana de forma singela e despojada, simples e pobre. O nascimento da Criança Divina é motivo de alegria: fomos visitados!

 

Francisco de Assis, no século 13, quis representar de forma plástica o que se passou na pequena Belém, na Judeia. Para isso, pediu a um amigo que preparasse todo o necessário para que as pessoas pudessem contemplar a cena do Natal. Tomás de Celano, um dos primeiros biógrafos de Francisco de Assis, assim descreve a fase preparativa da representação do Natal:

 

“Sua maior intenção, seu desejo principal e plano supremo era observar o Evangelho em tudo e por tudo, imitando com perfeição, atenção, esforço, dedicação e fervor os ‘passos de Nosso Senhor Jesus Cristo no seguimento de sua doutrina’. Estava sempre meditando em suas palavras e recordava seus atos com muita inteligência. Gostava tanto de lembrar a humildade de sua encarnação e o amor de sua paixão, que nem queria pensar em outras coisas.

 

Precisamos recordar com todo respeito e admiração o que fez no dia de Natal, no povoado de Greccio, três anos antes de sua gloriosa morte. Havia nesse lugar um homem chamado João, de boa fama e vida ainda melhor, a quem São Francisco tinha especial amizade porque, sendo muito nobre e honrado em sua terra, desprezava a nobreza humana para seguir a nobreza de espírito. Uns quinze dias antes do Natal, São Francisco mandou chamá-lo, como costumava, e disse: ‘Se você quiser que nós celebremos o Natal de Greccio, é bom começar a preparar diligentemente e desde já o que eu vou dizer. Quero lembrar o menino que nasceu em Belém, os apertos que passou, como foi posto num presépio, e ver com os próprios olhos como ficou em cima da palha, entre o boi e o burro’. Ouvindo isso, o homem bom e fiel correu imediatamente e preparou o que o santo tinha dito, no lugar indicado.

 

Aproximou-se o dia da alegria e chegou o tempo da exultação. De muitos lugares foram chamados os irmãos: homens e mulheres do lugar, de acordo com suas posses, prepararam cheios de alegria tochas e archotes para iluminar a noite que tinha iluminado todos os dias e anos com sua brilhante estrela. Por fim, chegou o santo e, vendo tudo preparado, ficou satisfeito. Fizeram um presépio, trouxeram palha, um boi e um burro. Greccio tornou-se uma nova Belém” (1Cel, XXX, 84-85).

 

Não se trata de aqui discutir se os elementos descritos pelo biógrafo expressam um fato histórico ou se são legendários. Certo é que a descrição de Tomás de Celano inaugurou a tradição do presépio. Nas peças que compõem o presépio mostra-se o encontro da realidade divina e humana, animal e vegetal, sideral e mineral. Nada é descartado, tudo é integrado!

 

As semanas que antecedem o Natal nos convidam a resgatar o sentido originário do Natal. Contemplando as representações plásticas do evento – algo comum em tantos lugares e espaços neste tempo do Advento – e relendo as narrativas bíblicas, somos provocados a fomentar em nossos ambientes familiares e comunitários o saudável e alegre espírito natalino. É esse espírito que alimenta nossa esperança de que um novo mundo é possível. Mundo esse marcado pela superação de toda forma de exclusão, onde a verdade e o amor se encontrarão, e a justiça e a paz se abraçarão.

09/12/2016

Estranha decisão

O Supremo Tribunal Federal desempenha a nobre missão de cooperar com a sociedade na guarda da Constituição da República. A dignidade da pessoa humana (Constituição Federal, art. 1º, III), o bem de todos (idem, art. 3º, IV) e a garantia da inviolabilidade do direito à vida, à liberdade, à igualdade, à segurança e à propriedade (idem, art. 5º caput) estão entre os fundamentos da República Federativa do Brasil. O Estado Democrático de Direito tem a nobre tarefa de defender e promover a vida humana em qualquer situação.

 

A autonomia dos Poderes da República precisa certamente ser respeitada e promovida. No entanto, causa estranheza o fato de como o Supremo Tribunal Federal tratou recentemente a questão do aborto num julgamento de Habeas Corpus. A Primeira Turma do STF entendeu que não é crime interromper a gravidez até o terceiro mês. Ora, a interrupção da gravidez significa a descontinuação dolosa da prenhez, com ou sem expulsão do feto, da qual resulta a morte do nascituro. Portanto, interromper a gravidez, não importando o estágio, será sempre condenar à morte um nascituro. Ele que é um ente humano, distinto de qualquer outro ser e que possui características próprias, ou seja, é detentor de identidade.

 

Todo o potencial do ser humano concebido se desvela num itinerário vital de conquista do ser que é: humano. O feto que se desenvolve a partir da concepção já é sempre vida humana. Entregue a seu desenvolvimento natural, sem agressões de qualquer tipo, ele faz o percurso ‘da realização humana desenvolvendo-se, crescendo, amadurecendo e morrendo em si, por si e para todos’. Intervir destrutivamente neste percurso representa uma agressão iníqua à vida humana na sua singularidade irrepetível.

 

A defesa da vida humana desde a sua concepção até o seu ocaso natural requer também postura crítica diante da cultura do descarte que influencia fortemente a sociedade liquida, diante de um sistema econômico que gera pobreza e exclusão.

 

O feto é um ser humano completo desde a sua concepção e, como tal, tem direito à vida. Por isso, achar que se pode solucionar o grave problema da gravidez indesejada, por qualquer razão que seja, legalizando a prática do aborto é reconhecer o fracasso da sociedade nas áreas da cidadania, educação e saúde pública. Se o aborto é um problema, a solução não é o próprio aborto. Somente sociedades que desconsideram o valor e a dignidade da vida humana e não dirigem o melhor de suas forças em prol da saúde pública, da educação e da promoção da cidadania são capazes de investir contra a vida humana, especialmente dos mais frágeis e indefesos.

 

O ‘outro’ é o limite de nossa liberdade! Se a mãe tem direitos, também os têm o outro ser que ela traz! Há aqui uma dimensão inter-relacional que não pode ser ignorada. Além disso, por vezes, se lança a responsabilidade da gravidez, desejada ou não, somente sobe os ombros da mulher e se esquece do homem que também está envolvido na questão.

 

Na perspectiva da fé bíblica, diante da possibilidade da vida e da morte, o ser humano é convidado a escolher a vida (cf. Dt 30,19). Através da consciência moral o ser humano é convidado a sempre abraçar o bem. Por isso, a “qualidade moral da ação humana não é um valor extrínseco ou facultativo, e não é sequer uma prerrogativa dos cristãos ou dos crentes, mas comum a todo ser humano” (Bento XVI).

09/12/2016

Reforma do Ensino Médio

Educar as novas gerações, propondo orientações para a vida que auxiliem na obra do discernimento entre o bem e o mal, oferecendo indicações que possam ser úteis em vista de uma vida mais saudável, um mundo mais justo e fraterno, o convívio social ético e sustentado por valores não é tarefa fácil. Há uma tendência difusa a compreender o processo educativo como sendo limitado a noções e informações gerais, tendo em vista, sobretudo, o mercado de trabalho. Desconsidera-se a necessidade de favorecer aos jovens encontrar um justo equilíbrio entre a liberdade e a disciplina. Só assim se forma o caráter da pessoa.

 

Está se propondo uma reforma do Ensino Médio no Brasil. É sabido que a questão da educação brasileira requer reflexão, escolhas e decisões. Com o intuito de colaborar neste âmbito com a sociedade, a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, no dia 23 de novembro, lançou a seguinte nota:

 

(...) “Segundo o poder executivo, a MP 746/16 é uma proposta para a superação das reconhecidas fragilidades do Ensino Médio brasileiro. Sabe-se que o modelo atual, não prepara os estudantes para os desafios da contemporaneidade. Assim, são louváveis iniciativas que busquem refletir, debater e aprimorar essa realidade.

 

Contudo, assim como outras propostas recentes, também essa sofre os limites de uma busca apressada de solução. Questão tão nobre quanto a Educação não pode se limitar à reforma do Ensino Médio. Antes, requer amplo debate com a sociedade organizada, particularmente com o mundo da educação. É a melhor forma de legitimação para medidas tão fundamentais.

 

Toda a vez que um processo dessa grandeza ignora a sociedade civil como interlocutora, ele se desqualifica. É inadequado e abusivo que esse assunto seja tratado através de uma Medida Provisória.

 

A educação deve formar integralmente o ser humano. O foco das escolas não pode estar apenas em um saber tecnológico e instrumental. Há que se contemplar igualmente as dimensões ética, estética, religiosa, política e social. A escola é um dos ambientes educativos no qual se cresce e se aprende a viver. Ela não amplia apenas a dimensão intelectual, mas todas as dimensões do ser humano, na busca do sentido da vida. Afinal, que tipo de homem e de mulher essa Medida Provisória vislumbra?

 

Em um contexto de crise ética como o atual, é um contrassenso propor uma medida que intenta preparar para o mercado e não para a cidadania. Dizer que disciplinas como filosofia, sociologia, educação física, artes e música são opcionais na formação do ser humano é apostar em um modelo formativo tecnicista que favorece a lógica do mercado e não o desenvolvimento integral da pessoa e da sociedade.

 

Quando a sociedade não é ouvida ela se faz ouvir. No caso da MP 746/16, os estudantes reclamaram seu protagonismo. Os professores, já penalizados por baixos salários, também foram ignorados. Estes são sinais claros da surdez social das instâncias competentes.

 

Conclamamos a sociedade, particularmente os estudantes e suas famílias, a não se deixar vencer pelo clima de apatia e resignação. É fundamental a participação popular pacífica na busca de soluções, sempre respeitando a pessoa e o patrimônio público. A falta de criticidade com relação a essa questão trará sérias consequências para a vida democrática da sociedade.

 

Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, interceda por nós.”

09/12/2016

Ano da Misericórdia?

Como surgiu a ideia do Ano Jubilar da Misericórdia? Esta pergunta foi apresentada ao Papa Francisco durante uma recente entrevista. O Papa respondeu de forma simples: “Eu não planejei. As coisas aconteceram. Eu me deixei levar pelo Espírito. Tratava-se somente de ser dócil ao Espírito Santo, de deixar que Ele fizesse. A Igreja é o Evangelho, é a obra de Jesus Cristo. Não é um caminho de ideias, um instrumento para afirmá-las. Na Igreja, as coisas entram no tempo, quando o tempo está maduro, quando ele se oferece”.

 

A resposta do Papa à pergunta que lhe foi apresentada surpreende pela simplicidade e, ao mesmo tempo, pela profundidade. Simplicidade, pois expressa confiança na Providência Divina; simplicidade, porque recorda o elementar: o Evangelho como referência maior da vida da Igreja.

 

A misericórdia é o nome de Deus e, simultaneamente, expressão de sua ‘fraqueza’. Compreende o que significa fazer misericórdia quem realmente se sente amado por Deus.

 

Deus se apressa em fazer misericórdia lá onde encontra pessoas que se deixam alcançar por seu amor e se deixam tocar por sua Palavra.

 

São muitas as pessoas que, tocadas pela Palavra, se dispõem ao exercício da misericórdia! Elas não pertencem somente a um credo, a uma Igreja ou expressão religiosa. Deus encontra homens e mulheres de boa vontade em muitos espaços do convívio humano.

 

O Evangelho é a versão da misericórdia de Deus oferecida ao ser humano de todos os tempos. Uma vez acolhido e assumido, conduz necessariamente à conversão. Quem se dispõe a fazer próprios os sentimentos que foram os de Cristo Jesus precisa adequar sua vida e o convívio àquilo que o Evangelho propõe. A não disposição para tal adequação pode levar à deturpação do próprio Evangelho.  Assim, melhor se compreende por que o Papa, ao tratar do Ano Jubilar da Misericórdia, recorda que o Evangelho é a referência maior da vida da Igreja. A perda desta referência produz a distorção da mensagem.

 

O resgate da temática da misericórdia evidencia a razão  de ser da própria Igreja: ser instrumento de comunicação da misericórdia de Deus. Assim, judeus, mulçumanos, espíritas, cristãos podem, respeitando as diferenças, encontrar um referencial seguro para juntos trabalhar em prol de um futuro melhor para todos.

 

Fixar-se em rigorismos, tradicionalismos, legalismos, fundamentalismos que não encontram respaldo no Evangelho coopera para alimentar a aversão, sempre presente em ambientes e setores que, talvez, encontrem dificuldades para se ocuparem verdadeiramente com o bem comum e rechacem ocasiões ou oportunidades para construir pontes, por meio das quais, é possível, sim, cooperar para a construção de dias melhores para todos, sem exceção.

 

“A Igreja é o Evangelho”. O Evangelho é ‘Boa Nova’ para todos. A Igreja tem a missão de apresentá-lo a todos, indistintamente – crianças, jovens, adultos, idosos – e em todas as situações e contextos em que se encontrem. Ouvido e acolhido, o Evangelho ‘gera solidariedade, justiça, reconciliação, paz e defesa de toda a criação’.

O Ano Jubilar da Misericórdia, celebrado de forma particular no seio da Igreja Católica, cooperou para fomentar, com simplicidade, a consciência em torno do núcleo das religiões monoteísticas: Deus é misericórdia! Jesus Cristo, através de seu Evangelho, recorda a todos tal verdade!

 

As obras de misericórdia, conservadas pela tradição e apresentadas como possível caminho de participação do ser humano no modo próprio de ser de Deus, conduzem a um caminho viável de superação de toda forma de miséria humana.

 

Encerram-se as celebrações do Ano Jubilar da Misericórdia, mas não se encerra a disposição de homens e mulheres de boa vontade em fazer misericórdia, pois Jesus nos recorda que ‘é próprio de Deus usar de misericórdia’.

09/12/2016

Ano Santo da Misericórdia

O Ano Santo da Misericórdia foi instituído pelo Papa Francisco e teve início em 8 de dezembro de 2015, com conclusão marcada para o dia 20 de novembro de 2016. O objetivo da inciativa “é contemplar o mistério da misericórdia”.

 

Tal mistério é “fonte de alegria, serenidade e paz. É condição da nossa salvação. Misericórdia: é a palavra que revela o mistério da Santíssima Trindade. Misericórdia: é o ato último e supremo pelo qual Deus vem ao nosso encontro. Misericórdia: é a lei fundamental que mora no coração de cada pessoa, quando vê com olhos sinceros o irmão que encontra no caminho da vida. Misericórdia: é o caminho que une Deus e o homem, porque nos abre o coração à esperança de sermos amados para sempre, apesar da limitação do nosso pecado” (MV, 2). Além disso, temos certamente presente que “há momentos em que somos chamados, de maneira ainda mais intensa, a fixar o olhar na misericórdia, para nos tornarmos nós mesmos sinal eficaz do agir do Pai” (MV, 3).

 

Ao longo de 2016 a comunidade de fé, em diferentes momentos, foi convidada a refletir sobre um aspecto fundamental da tradição da fé cristã, ou seja, que “é próprio de Deus usar de misericórdia e, nisto, se manifesta de modo especial a sua onipotência” (S. Tomás). São muitas as expressões de misericórdia no território da Arquidiocese de Porto Alegre. Exemplo disso são as entidades filantrópicas, as muitas ações sociais e as inúmeras pastorais sociais. Não se pode esquecer que essas inciativas só são possíveis pelo expressivo número de voluntários e benfeitores que colaboram para tornar o fardo de tantos menos pesado.

 

No entanto, as entidades que se dedicam à filantropia – que se empenham de forma simples e discreta, despojada e eficiente em fazer misericórdia, em cuidar da vida e promover a vida dos mais frágeis – encontram não poucas dificuldades e empecilhos. Para cada R$ 1 aplicado em filantropia, o Brasil ganha um pouco mais de R$ 5. As atividades de assistência social desenvolvidas pela sociedade civil custam um terço do valor daquilo que o poder público gastaria para desenvolver a mesma ação.

 

As entidades filantrópicas e de assistência social não buscam privilégios. Desejam somente poder fazer misericórdia. Por quê? Porque elas têm consciência de que “o ser humano é o bem mais precioso aos olhos de Deus. É grave que nos habituemos ao descarte do ser humano; é preciso preocupar-se quando se anestesia a consciência, já não fazendo caso do irmão que sofre ao nosso lado nem dos problemas sérios do mundo, que se reduzem a um refrão já ouvido nos sumários dos telejornais... Temos um sintoma de esclerose espiritual, quando o interesse se concentra nas coisas a produzir, em vez de ser nas pessoas a amar. Assim nasce a dramática contradição dos nossos tempos: quanto mais crescem o progresso e as possibilidades – e isto é bom – tanto maior é o número daqueles que não lhes podem chegar.” (Papa Francisco).

 

Através do Ano Santo da Misericórdia estamos sendo recordados que homens e mulheres de qualquer religião devem ver em cada pobre a mensagem de Deus que se aproxima e se faz pobre para nos acompanhar na vida.

09/12/2016

Senhora Aparecida – Mãe de Misericórdia

Em 1717 três pescadores saíram para pescar no Rio Paraíba, no interior do Estado de São Paulo. Era um período de escassez de peixes. Por ação misteriosa de Deus aqueles pescadores lançaram as redes e a primeira coisa que recolheram foi o corpo de uma imagem quebrada, na altura do pescoço. Lançaram uma segunda vez as redes nas águas agitadas e recolheram a cabeça da mesma imagem. Juntando as duas partes perceberam que se tratava da imagem da Senhora da Conceição.

 

Aqueles homens lançaram novamente as redes e a partir de então a pesca se tornou abundante. Perceberam que algo de extraordinário estava acontecendo. Interpretaram os sinais como intervenção especial de Deus. Retornando a suas casas, contaram o que havia acontecido. Denominaram a imagem que encontraram com o título de “Aparecida”.

 

Nasceu assim a devoção em torno da Senhora da Conceição Aparecida. Atualmente milhares de pessoas de todo o Brasil vão ao Santuário Nacional. A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil lançou uma nota anunciando 2017 como Ano Mariano. Diz a nota:

 

“A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – CNBB, em comemoração aos 300 anos do encontro da Imagem de Nossa Senhora da Conceição Aparecida, nas águas do rio Paraíba do Sul, instituiu o Ano Nacional Mariano, a iniciar-se aos 12 de outubro de 2016, concluindo-se aos 11 de outubro de 2017, para celebrar, fazer memória e agradecer.

 

Como no episódio da pesca milagrosa narrada pelos Evangelhos, também os nossos pescadores passaram pela experiência do insucesso. Mas, também eles, perseverando em seu trabalho, receberam um dom muito maior do que poderiam esperar: “Deus ofereceu ao Brasil a sua própria Mãe”. Tendo acolhido o sinal que Deus lhes tinha dado, os pescadores tornam-se missionários, partilhando com os vizinhos a graça recebida. Trata-se de uma lição sobre a missão da Igreja no mundo: “O resultado do trabalho pastoral não se assenta na riqueza dos recursos, mas na criatividade do amor” (Papa Francisco).

 

A celebração dos 300 anos é uma grande ação de graças. Todas as dioceses do Brasil, desde 2014, se preparam, recebendo a visita da imagem peregrina de Nossa Senhora Aparecida, que percorre cidades e periferias, lembrando aos pobres e abandonados que eles são os prediletos do coração misericordioso de Deus.

 

O Ano Mariano vai, certamente, fazer crescer ainda mais o fervor desta devoção e da alegria em fazer tudo o que Ele disser (cf. Jo 2,5).

 

Todas as famílias e comunidades são convidadas a participar intensamente desse Ano Mariano.

 

A companhia e a proteção maternal de Nossa Senhora Aparecida nos ajude a progredir como discípulas e discípulos, missionárias e missionários de Cristo!”

 

A Arquidiocese de Porto Alegre celebra a abertura do Ano Mariano no domingo, dia 13. Acolheremos a imagem peregrina durante celebração eucarística na Catedral Metropolitana, às 15h30min, transmitida a todo o Brasil pela TV Aparecida. Ao fim seguiremos o rito de conclusão do Jubileu Extraordinário da Misericórdia.

 

Que a Senhora de Aparecida, Mãe de Misericórdia, abençoe, ilumine e inspire todos os que se dedicam à promoção e ao cuidado da vida, especialmente através das Pastorais Sociais, da Ação Social da Arquidiocese e de outras iniciativas que se distinguem em tantos espaços da sociedade.

04/11/2016

Ide...

Jesus, antes de sua ascensão ao céu, deixa aos discípulos uma missão: “Ide, portanto, e fazei que todas as nações se tornem discípulas, batizando-as em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo e ensinando-as a observar tudo quanto vos ordenei” (Mt 28, 19-20).

 

Jesus, subindo aos céus, conclui sua missão. Os que o escutaram, começam agora um caminho próprio. O caminho é o mesmo do Filho, que testemunha o amor do Pai aos irmãos que ainda não o conhecem. Aquilo que Jesus ensinou aos discípulos eles devem oferecer a todos os povos. Sua missão é, portanto, comunicar a outros o mesmo poder que Jesus comunicou a eles. Ou seja, aquele poder de escutar e praticar a Palavra, para que todos possam se tornar um só povo que produz os frutos do Reino.

 

O discípulo é um batizado, isto é, alguém ‘imerso’ em Cristo, sendo chamado a fazer a outros aquilo que Jesus fez em favor dele.

 

O discípulo ensina! Ensina quem encontra pelos caminhos da história a fazer em tudo a vontade do Pai, como o fez Jesus durante sua vida terrena. Ele sabe que, para Jesus, a vontade do Pai resume- se na observância de um único mandamento: o mandamento do amor ao Pai e aos irmãos (Mt 22,34-40).

 

O discípulo sente-se impelido a compartilhar, com quem encontra pelas estradas da vida, a razão de sua fé. Ele se sabe participante da comunidade de fé. Em decorrência, desenvolve sempre mais o senso de pertença a essa mesma comunidade, sente-se por ela corresponsável. Por consequência, ele não se fecha em uma espécie de intimismo piedoso.

 

Sabe que sua vida é expressão da vinculação íntima com Jesus e seu Evangelho, tem consciência de que recebeu uma tarefa a ser cumprida. Por isso, empenha-se por fazer seu o modo de viver e agir de Jesus Cristo, que “passou fazendo o bem e curando todos os que estavam dominados pelo diabo” (At 10,38).

 

Os amigos do Crucificado-Ressuscitado são assim lançados na tarefa de anunciar a Boa-Nova a todos os homens e mulheres de boa vontade. Esta tarefa se realiza através de pensamentos e palavras, testemunho e obras.

 

O contato cotidiano com outras pessoas, com realidades culturais e eclesiais leva o discípulo a buscar modos de testemunhar e apresentar aquilo que o sustenta e move, anima e alimenta sua esperança.

 

O discípulo é um missionário, não fecha os olhos diante da necessidade de haver pessoas generosas e empenhadas em viver a alegria do Evangelho. Ele sabe que o vigor do discípulo-missionário está intimamente relacionado à intensidade de sua relação com Jesus, Mestre e Senhor.

 

Neste contexto, o termo ‘missionário’ indica uma tarefa específica. Esta tarefa ou incumbência é expressão do encontro como a pessoa de Jesus Cristo, a quem o discípulo busca seguir.

 

No empenho do seguimento do Senhor, o discípulo-missionário sabe estar a serviço de todos, especialmente dos mais pobres. Assim, não mede esforços para superar ideologias e dogmatismos, legalismos e tradicionalismos, pois seu único desejo é corresponder à verdade do Evangelho, rezado e estudado no seio da comunidade de fé, ao longo da história.

           

Papa Francisco sintetiza esse modo de compreender a vida do discípulo-missionário como característico de uma ‘Igreja em saída’. Ou seja, o discípulo do Senhor, através de gestos e obras, empenha-se para ir ao encontro das pessoas com o intuito de encurtar distâncias, fazendo-se cuidador, defensor e promotor de vida para todos.

Há consenso na sociedade de que a criação sofre! A humanidade sofre! De todo lado brotam anseios de verdadeira liberdade! Espalha-se o desejo latente de um mundo diferente e melhor, de um mundo novo. Este novo mundo desejado supõe mulheres e homens novos, supõe ‘filhos e filhas de Deus’ autênticos missionários.

04/11/2016

Mãe Morena!

Nestes dias, quando celebramos Nossa Senhora Aparecida, padroeira do Brasil, vale recordar trechos do que o Papa Francisco dizia, aos bispos brasileiros, em 2013:

 

“Em Aparecida (...) Deus deu uma lição sobre Si mesmo, sobre o seu modo de ser e agir. (...) Há algo de perene para aprender sobre Deus e sobre a Igreja, em Aparecida; um ensinamento, que nem a Igreja no Brasil nem o próprio Brasil devem esquecer.

 

No início do evento que é Aparecida, está a busca dos pescadores pobres. Tanta fome e poucos recursos. As pessoas sempre precisam de pão. Os homens partem sempre das suas carências, mesmo hoje. Possuem um barco frágil, inadequado; têm redes decadentes, talvez mesmo danificadas, insuficientes.

 

Primeiro, há a labuta, talvez o cansaço, pela pesca, mas o resultado é escasso: um falimento, um insucesso. Apesar dos esforços, as redes estão vazias. Depois, quando foi da vontade de Deus, comparece Ele mesmo no seu Mistério. As águas são profundas e, todavia, encerram sempre a possibilidade de Deus; e Ele chegou de surpresa, quem sabe quando já não o esperávamos. A paciência dos que esperam por Ele é sempre posta à prova. E Deus chegou de uma maneira nova, porque Deus é surpresa: uma imagem de barro frágil, escurecida pelas águas do rio, envelhecida também pelo tempo. Deus entra sempre nas vestes da pequenez.

 

Veem então a imagem da Imaculada Conceição. Primeiro o corpo, depois a cabeça, em seguida a unificação de corpo e cabeça: a unidade. Aquilo que estava quebrado retoma a unidade. O Brasil colonial estava dividido pelo muro vergonhoso da escravatura. Nossa Senhora Aparecida se apresenta com a face negra, primeiro dividida mas depois unida, nas mãos dos pescadores.

 

Há aqui um ensinamento que Deus quer nos oferecer. Sua beleza refletida na Mãe, concebida sem pecado original, emerge da obscuridade do rio. Em Aparecida, logo desde o início, Deus dá uma mensagem de recomposição do que está fraturado, de compactação do que está dividido. Muros, abismos, distâncias ainda hoje existentes estão destinados a desaparecer. A Igreja não pode descurar esta lição: ser instrumento de reconciliação.

 

Os pescadores não desprezam o mistério encontrado no rio, embora seja um mistério que aparece incompleto. Não jogam fora os pedaços do mistério. Esperam a plenitude. (...)

 

Depois, os pescadores trazem para casa o mistério. O povo simples tem sempre espaço para albergar o mistério. (...) Na casa dos pobres, Deus encontra sempre lugar.

 

Os pescadores agasalham: revestem o mistério da Virgem pescada, como se Ela tivesse frio e precisasse ser aquecida. Deus pede para ficar abrigado na parte mais quente de nós mesmos: o coração. (...)

 

A Igreja tem sempre a necessidade urgente de não desaprender a lição de Aparecida; não a pode esquecer. As redes da Igreja são frágeis, talvez remendadas; a barca da Igreja não tem a força dos grandes transatlânticos que cruzam os oceanos. E, contudo, Deus quer se manifestar justamente através dos nossos meios, meios pobres, porque é sempre Ele que está agindo.

 

A Igreja (....) não pode afastar-se da simplicidade; caso contrário, desaprende a linguagem do Mistério. E não só ela fica fora da porta do Mistério, mas, obviamente, não consegue entrar naqueles que pretendem da Igreja aquilo que não podem dar-se por si mesmos: Deus. Às vezes, perdemos aqueles que não nos entendem, porque desaprendemos a simplicidade, inclusive importando de fora uma racionalidade alheia ao nosso povo. Sem a gramática da simplicidade, a Igreja se priva das condições que tornam possível «pescar» Deus nas águas profundas do seu Mistério”.

04/11/2016

Encontro transformador!

No início da experiência cristã está sempre um encontro de fé com a pessoa de Jesus Cristo. É o que se pode verificar lendo, por exemplo, o texto do evangelista João: no dia seguinte, João se achava lá, de novo, com dois de seus discípulos. Ao ver Jesus que passava, disse: ‘Eis o Cordeiro de Deus’. Os seus dois discípulos ouviram-no falar e seguiram Jesus. Jesus, voltando-se e vendo que o seguiam, disse-lhes: ‘Que estais procurando?’ Disseram-lhe: ‘Rabi (nome que traduzido, significa Mestre), onde moras?’ Disse-lhes: ‘Vinde e vede. ’ Eles foram e viram onde morava e permaneceram com ele, aquele dia. Era a hora décima, aproximadamente (Jo 1, 35-9).

 

Esta cena bíblica recorda que não se começa a ser cristão por uma decisão ética ou grande ideia, mas através do encontro com um acontecimento, com uma Pessoa, que dá um horizonte à vida e, com isso, uma orientação decisiva (Bento XVI).

 

Em Jesus, o ‘tempo se completou’(Mc 1,15). No centro de tudo, está agora a pessoa de Jesus Cristo. Por isso, o discípulo é convocado a seguir o Senhor. Ele é a Palavra de Deus que se fez carne. Em Jesus é Deus quem fala!

 

O Novo Testamento apresenta Jesus de Nazaré como fruto do Antigo Testamento. Sua mãe seguia a tradição da Antiga Aliança; José era filho do povo que atravessou o Mar Vermelho.

 

Os cristãos são seguidores de Jesus Cristo. Neste sentido, pode-se dizer que o cristianismo é a religião da carne, ou seja, é a religião daqueles que seguem o “homem que passou fazendo o bem e curando a todos aqueles que haviam caído no poder do diabo, porque Deus estava com ele” (At 10,38). A fé cristã é a religião do ‘Verbo encarnado e vivo’.

 

Jesus de Nazaré “fazia bem todas as coisas” (Mc 7,37). Seu modo de agir foi causa de calúnia, injúria e morte. A forma como foi morto, isto é, na cruz, o lançou na condição de um maldito. Acima de sua cabeça, no alto da cruz, foi escrito de forma clara, em hebraico, latim e grego (Jo 19,19-20), a causa de sua condenação à morte: ‘Jesus de Nazaré, o rei dos judeus’ (Jo 19,19). Tal inscrição sintetiza a confusão entre  poder religioso, político e cultural.

 

O agir do Senhor confunde o senso comum. A cruz expressa o que significa amar o ser humano de todos os tempos, sem reservas nem limites, até o fim.

 

O discípulo que se dispõe a amar da mesma forma, com tamanha determinação torna-se como seu Mestre. ‘A admiração pela pessoa de Jesus, seu chamado e seu olhar de amor despertam uma resposta consciente e livre desde o mais íntimo do coração do discípulo, uma adesão a toda a sua pessoa ao saber que Cristo o chama pelo nome, é um sim que compromete radicalmente a liberdade do discípulo a se entregar a Jesus, Caminho, Verdade e Vida’.

 

Consequência dessa disposição do discípulo é o fato de o cristianismo cultivar o respeito absoluto pelo ser humano, mesmo quando este não age de acordo com as orientações do Evangelho.

 

Assim, todo ser humano é sempre e de novo convidado a entrar no âmbito da liberdade dos filhos e filhas de Deus.

 

Se, no Antigo Testamento, cultivava-se a reverência a Deus por parte do ser humano, agora, a partir da Nova Aliança, inaugurada na cruz, é Deus que vem ao encontro da carne humana.

 

A certeza que advém da experiência do encontro com a pessoa de Jesus Cristo leva o discípulo a uma transformação radical. Tocado pelo Verbo da Vida ele se faz defensor, cuidador e promotor da vida e vida plena para todos.

04/11/2016

Bíblia

A palavra “bíblia” significa um conjunto de livros. A Bíblia é uma pequena biblioteca. Ela contém livros de caráter narrativo, sapiencial, poético, profético, litúrgico, jurídico, epistolar e exortativo.

 

A Bíblia foi escrita em um arco de tempo de mais ou menos mil anos, embora conserve tradições ainda mais antigas.

 

Ela é fruto da tradição de um povo e espelha sua identidade. Recolhe a história desse povo. Contém sua memória. Auxilia esse mesmo povo a se autocompreender e a se orientar nos caminhos da história.

 

Os protagonistas desta ‘pequena biblioteca’ são Deus e o ser humano: Deus de quem o ser humano é imagem e semelhança e o ser humano com sua insaciável sede de liberdade e justiça, de vida e verdade, desejoso de felicidade! Os diversos personagens que vão surgindo, ao longo da trama, são expressão das diversas faces do coração humano, com suas virtudes e misérias.

 

A Bíblia é uma obra clássica. Tornou-se o código cultural do Ocidente. Ela influenciou o campo das artes, da filosofia, da literatura, do direito, da vida religiosa e civil. Os princípios de fraternidade, igualdade e liberdade, como também os conceitos de pessoa, responsabilidade, justiça, solidariedade, história e escatologia, além da declaração dos direitos humanos, surgiram no âmbito da cultura judaico-cristã, portanto bíblica.

A Bíblia pode ser lida em três níveis.

 

  1. O primeiro nível de leitura é aquele da curiosidade cultural. Trata-se de um conjunto de livros que gozam de notoriedade. Um texto ‘clássico’ suscita curiosidade. Qualquer pessoa que ouve falar de um livro importante manifesta desejo de conhecê-lo!
     

  2. O segundo nível de leitura é aquele no qual a pessoa se deixa envolver pela narrativa e, assim, torna-se participante de sua trama. Um texto começa a falar ao leitor, na medida em que colabora para desvelar seu íntimo. Quando o texto suscita interesse, promovendo a identificação com os distintos personagens apresentados, o leitor  torna-se participante da experiência narrada.
     

  3. O terceiro nível de leitura conduz o leitor a experimentar aquilo que leu. Neste nível, a palavra lida é acolhida e torna-se vida. Ela concede ao leitor um novo modo de ser, proporciona-lhe uma mudança de vida!

    Quando alguém se deixa atingir pelo terceiro nível de leitura da Bíblia, é possível experimentar a abertura de um novo horizonte, capaz de a tudo dar sentido. O modo de viver se transforma, pois os olhos e o coração atingem uma compreensão mais profunda e originária da realidade.

 

Nos primeiros séculos da era cristã, havia o costume de proporcionar aos que desejassem se aprofundar na fé uma catequese narrativa. Os grandes comentários bíblicos, que surgiram nos primeiros séculos da Igreja, nada mais eram que catequese em favor do povo.

 

A narração da relação de Deus com o ser humano – e vice-versa – é um modo de se falar de Deus e do ser humano. Ter no centro do processo catequético a Bíblia, compreendida como uma grande catequese narrativa, a qual chegou até os dias atuais por meio da tradição viva da comunidade de fé que a testemunha, é possibilidade de transformação da vida dos catequizandos e de promoção da vida das comunidades.

 

O processo catequético é uma terapia do coração. Na terapia psicológica, por exemplo, o método utilizado é aquele de reviver a experiência através da narrativa desta mesma experiência. O valor da catequese narrativo-bíblica está em que a narração permite reviver a experiência.

 

A experiência que perpassa toda a narração bíblica é aquela de um Deus-amor, o qual assume a carne humana, para que o ser humano possa participar de sua vida.

Em um mundo fragmentado e sedento de Deus, uma catequese narrativo-bíblica ou de inspiração bíblica favorece o encontro com o mais íntimo do ser humano!

04/11/2016

Palavra de Deus e espiritualidade

A relação pessoal com a Palavra de Deus alimenta e sustenta nossa vida de discípulos e discípulas do Crucificado-Ressuscitado. À luz da Palavra de Deus e sustentados por sua força podemos melhor compreender nossa vida, vocação e missão. Assim, o testemunho de nossa fé, como resposta decidida àquilo que a Sagrada Palavra inspira, se torna critério de avaliação para participação pessoal e comunitária nas alegrias e esperanças, dores e angústias de nosso povo.

 

Segundo o Papa Francisco, “há uma modalidade concreta para escutarmos aquilo que o Senhor nos quer dizer na sua Palavra e nos deixarmos transformar pelo Espírito: designamo-la por leitura orante. Consiste na leitura da Palavra de Deus num tempo de oração, para lhe permitir que nos ilumine e renove” (EG 152).

 

A espiritualidade cristã encontra na Sagrada Escritura seu alimento e orientação. Por isso, a Leitura Orante da Palavra, realizada preferencialmente em comunidade, descortina os tesouros da Palavra Sagrada. A dinâmica quando “bem praticada, conduz ao encontro com Jesus-Mestre, ao conhecimento do mistério de Jesus-Messias, à comunhão com Jesus-Filho de Deus e ao testemunho de Jesus-Senhor do universo” (Doc. de Aparecida, 249).

 

O contato com o Cristo-Palavra é caminho privilegiado para quem se dispõe ao processo de Iniciação à Vida Cristã. Esse processo tem como núcleo fundamental a pessoa de Jesus Cristo e seu Evangelho. Ele impulsiona o espírito de oração, favorece a vida sacramental e dispõe o iniciado à participação ativa na vida da comunidade eclesial e social.

 

Quais são os passos do método da Leitura Orante da Palavra? A tradição nos legou quatro passos:

 

1. A Leitura do texto proposto. Neste primeiro passo importa captar o sentido do texto do modo mais pleno possível. Algumas questões podem auxiliar: Quem são os personagens? O que diz e faz cada um? Onde? Qual é o contexto? É possível relacionar o texto lido com outros textos da Sagrada Escritura?

 

2. Meditação. Através da meditação se busca responder à pergunta: o que Deus, através deste texto, tem a nos dizer? É importante deixar que o texto fale diretamente ao leitor, seja pessoalmente, seja comunitariamente. As seguintes perguntas podem auxiliar nesta etapa: o que há de semelhante e de diferente entre a situação apresentada pelo texto e a atual? O que o texto diz para a nossa situação? Que mudanças de atitude sugere?

 

3. Oração. Nesta etapa expressamos o que o texto nos faz dizer a Deus. A oração é a nossa resposta à Palavra de Deus lida e meditada. Dependendo do que se ouviu da parte de Deus, a oração pode ser de louvor ou de ação de graças, de súplica ou de perdão.

 

4. Contemplação. A contemplação tira o véu e ajuda a descobrir o projeto de Deus para o nosso tempo. Ela ajuda a enxergar o mundo de maneira nova. Contemplar supõe viver de modo diferente! Pela Leitura Orante vamos crescendo na compreensão do sentido e da força da Palavra de Deus; ela vai nos transformando e nos tornando capazes de transformar a realidade