DOM ADILSON BUSIN

Dom Adilson Busin

Bispo Auxiliar

30/07/2020

Quanto vale a vida?

O mundo anda atônito com a pandemia da COVID-19. Quanto sofrimento humano! Há quem diga: “Já não aguentamos mais ficar em casa!” Sofre-se perdas de familiares, sofre-se com angústia, medo, depressão, conflitos de relacionamento, e, infelizmente, também o suicídio. No silêncio, uma voz grita: “Senhor ouvi-nos. Livrai-nos deste mal”.

Todo clamor de dor é justo e justificável. Há, porém, quem tem um peso ainda maior sobre suas costas: as pessoas vítimas do tráfico humano. Muitas delas longe da pátria e, pior, sem ter casa, nem lar, nem consolo familiar. “Estacionados” nas fronteiras, nas orlas dos mares, nas rotas das florestas, ou mesmo escondidas em lugares “invisíveis” de nossas cidades. As estatísticas da ONU revelam que 70% das vítimas são mulheres.

Pessoas transformadas em objeto de comércio abominável e criminoso. É uma realidade infiltrada em muitas rotas migratórias, mas não somente. Este crime com seus tentáculos, abastece a “indústria” do tráfico de órgãos. Pervade os meandros do mundo da prostituição infantil e da exploração sexual. Mistura-se às formas modernas de trabalho escravo. Tráfico de pessoas não é apenas uma página triste de nossa história; ainda existe tráfico de pessoas no Brasil. Infelizmente, muda seu modo de atuar no decorrer histórico da humanidade. Scalabrini – pai e apóstolo dos migrantes - referindo aos traficantes de migrantes, dizia no final do século XIX: “Estes são chacais de carne humana”. Pessoas e redes de ação que não têm escrúpulo em se valer da fraqueza, da miséria ou perseguição, para explorá-las e vendê-las, jogando-as numa situação de vida que para muitos é sem volta.

Neste dia 30 de julho celebra-se o Dia Internacional de Enfrentamento ao Tráfico de Pessoas. Por isso, a escolha deste tema. O olhar da fé nos faz ver além de nossas paredes. A humanidade cresce quando, juntos, busca-se a superação de seus problemas. O cristão é convidado a tomar posição na vivência do Reino de Deus. Denunciar, enfrentar e combater o tráfico de pessoas é compromisso profético e evangélico. Olhos vigilantes, coração de compaixão e atitudes de compromisso, como Jesus, o Bom Samaritano. O tráfico de pessoas pode estar mais perto de nós do se pode imaginar. Informação, atenção e denúncia podem ajudar muito. O Brasil tem políticas e órgãos que enfrentam este crime. Há muitas entidades civis que estão nesta tarefa. Na ONU, e mesmo no Vaticano, há secções destinadas a trabalhar na prevenção e no enfrentamento a este crime que afeta todos os continentes. Pessoas, grupos e entidades se organizam em esfera global, como que uma “rede do bem” para enfrentar este mal. As consequências da pandemia podem agravar ainda mais a situação pelo empobrecimento geral. A CNBB, há quatro anos, criou uma comissão especial para este serviço.

A conferência dos religiosos/as e várias congregações se somam a este trabalho. É uma missão árdua. Sem aplausos, no silêncio, como se deve ser, no “meio da massa”, fermentando o bem. Proteger e cuidar da vida de tantas pessoas enganadas e roubadas na sua dignidade. O rosto de Jesus é desfigurado nestes irmãos. “Eu vim para que todos tenham vida e tenham em abundância” (Jo 10, 10). E quanto vale a vida? Você pode fazer parte desta causa. Diga não ao tráfico de pessoas. Se precisar, denuncie. Disque 100.

28/05/2020

Spes Nostra

O tempo em que vivemos, marcado pela pandemia da Covid-19, nos deixa em estado de apreensão e medo. O isolamento social tem causado, para muitos, angústia, depressão e estados emocionais de desespero. Há quadro social cheio de perguntas que, mesmo no silêncio das ruas, rondam nossas mentes. Até quando vamos ficar isolados? Como manter o país e sua economia funcionando? O que vai ser dos trabalhadores/as desempregados? Dos empresários e dadores de trabalho que já não conseguem “dar a volta”? E quando poderão as igrejas serem totalmente abertas? E as escolas? Os serviços? O comércio? Haverá uma vacina contra o coronavírus em breve? Há muita pergunta no ar. Perguntas planetárias.
 

A humanidade toda sente o mesmo problema. Enfrenta o mesmo vírus. Um inimigo invisível – muito invisível – tomou conta das notícias, das redes sociais, das conversas (a distância) das famílias, das mensagens, dos debates e até das polêmicas. E as vidas que se foram?! Enterros com máquinas em cemitérios improvisados. Quanta dor! Atravessamos o vale tenebroso (do salmo 22). Vale de trevas! “Neste vale de lágrimas” é a expressão que os cristãos rezam há séculos na Salve Rainha. Sim, um vale de lágrimas! Chocou-me as cenas das valas comuns. A primeira (que eu vi na tevê) foi a de Nova Iorque. Fiquei atônito. Mas depois, infelizmente, e bem mais triste e deprimente, surgiram aqui, em nosso Brasil. Penso nos familiares que não podem sepultar seus entes queridos. Nem podem se aproximar para a despedida. “Gemendo e chorando neste vale de lágrimas”.


Em pleno 2020, também suplicamos a Mãe de Deus “a vós bradamos, os degredados, filhos de Eva, a vós suspiramos, gemendo e chorando neste vale de lágrimas.” Expressão carregada de culpa? De depressão? De tristeza? De certa forma, sim. Mas se o filho pede, é porque confia. Os homens e mulheres de fé que recitam a Salve Rainha têm na Mãe a intercessão segura. Faço parte destes filhos que confiam. A dor não está alheia à prece. Mas a confiança a supera. Por quê? Porque no início da oração está a expressão de confiança que motiva toda a súplica: “Spes nostra”! Nossa esperança. Há um olhar diferente do suplicante. É o olhar da fé. Em meio ao vale de lágrimas, há alguém que “volta o seu olhar”. O olhar da fé já espera. Na fé há uma companhia segura no vale escuro. Maria, spes nostra. Maria, nossa esperança.


A esperança se traduz em atitude de amor. Nesta pandemia, temos visto tantos gestos de solidariedade e cuidado para com os sofredores. Gestos maternos de amor. Maio, mês das mães. Para os católicos, é o mês de Maria, encerrando com a festa da coroação. Maria, mulher e mãe, discípula do Senhor e “spes nostra”. No olhar da fé, ela nos coroa de esperança.

02/05/2019

Assembleia dos Bispos em Aparecida

Entre os dias de 1º a 10 de maio, acontece em Aparecida (SP), a 57ª Assembleia Geral Ordinária da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB). Neste ano há dois elementos fortes na pauta. A saber: a aprovação das novas diretrizes gerais da evangelização; e a eleição da nova direção da CNBB. Além do presidente, vice e secretário executivo, serão eleitos os presidentes das várias comissões. A dinâmica da pauta prima pela elaboração e aprovação das diretrizes. Depois serão escolhidos os que levarão adiante as comissões da CNBB no próximo quadriênio. Esta assembleia reveste-se de maior expectativa, pois a eleição gera curiosidade, especulação e tendências. Isto é natural. Revela os vários carismas de dons.

Considerados os aspectos práticos e tendências que possam direcionar uma eleição, diante do cenário nacional e interno à própria Igreja Católica no Brasil, cabe sempre recordar que os desafios encontram uma resposta na confissão de fé e na missão da mesma Igreja. Os bispos, como pastores à frente do rebanho, confirmam os fiéis na fé, na esperança e na caridade.  Creio que nisto se resume o ser Igreja e sua ação evangelizadora.

Confirmar os irmãos na fé. O que Jesus confiou a Pedro e aos apóstolos também é confiado aos bispos. O ar de incertezas em que viemos, de horizontes anuviados, dispersivos, ou no imanentismo de nossos dias, um mundo sem horizontes, a Igreja confessa e confirma a fé no Senhor. Ressuscitado, Ele rompe o véu da morte mostrando que a vida é o caminho e o horizonte final. Essa é a primeira missão dos bispos: a de confirmar e guiar os irmãos na fé. Ser para o Brasil, a confirmação de Jesus Cristo, o missionário do Pai, veio anunciar a boa nova. Ele, e seu evangelho, é boa notícia para o Brasil dos nossos dias.
 

Animar na esperança. Se as situações de injustiça, dor, sofrimento e depressão podem curvar nosso olhar apenas para o “aqui e agora”, o olhar da fé alimenta a esperança. Na barca à deriva, o Senhor vem e nos diz “coragem, sou eu!”. Jesus ressuscitado envia os apóstolos dizendo: “Ide sem medo, coragem, eu venci o mundo”. Os bispos são portadores desta esperança. Por isso, muito embora a eleição seja de suma importância, é mister que os que estiverem à frente, sejam animadores da esperança. A CNBB também é convidada pelo Papa Francisco que nos diz: “Não deixemos que nos roubem a esperança!” Esperar com toda fé e com todo amor, no compromisso com este mundo. Os bispos têm a missão de guiar no caminho para a “pátria celeste”.

Testemunhar a caridade: a assembleia é expressão da sinodalidade dos bispos. Fazemos um caminho comum. Ser testemunhas da caridade do Cristo Senhor celebrando e tornando viva a memória de sua doação: “fazei isto em minha memória”. Os bispos celebram juntos todos os dias no Santuário de Aparecida. Da eucaristia brota e nela se alimenta o serviço da Igreja. Uma “Igreja em saída e samaritana” como nos pede Francisco em sua exortação. A caridade é todo serviço de promoção, inserção e inclusão dos irmãos. A Doutrina Social da Igreja nos orienta nesta missão. A nova direção e as novas comissões da CNBB têm esta incumbência de fidelidade à tradição e o cuidado do mundo e dos irmãos, especialmente os mais pobres. Neles o Senhor faz ouvir mais forte seu clamor. A justiça, a caridade e a paz são expressão de nosso acreditar. Os bispos são pastores e servos. A fidelidade na caridade e a fidelidade na doutrina andam juntas. Na confissão do amor, Jesus confia a Pedro a missão “Apascenta meu rebanho”.

Pedimos a unidade de preces para nossa assembleia. Que o Espírito nos ilumine e indique o caminho. A Mãe Aparecida proteja a Igreja e a pátria brasileira.

14/02/2019

Dia Mundial do Enfermo

No dia 11 de fevereiro comemora-se o Dia Mundial do Enfermo, data associada ao dia de Nossa Senhora de Lourdes, pequena cidade da França. Milhões de peregrinos anualmente se dirigem a este lugar para rezar e buscar saúde. Lourdes é sinônimo de esperança, solidariedade e cuidado para com os enfermos. Quem já foi a este santuário experimenta uma escola de amor e vontade de ajudar os doentes. Muitas pessoas, inclusive de outros credos ou mesmo indefinidas na fé, se fazem próximas e solidárias na dor. É um recanto de fé e de humanidade. Neste ano, a cidade de Calcutá, na Índia, é sede do dia do enfermo, recordando o trabalho incansável de Santa Madre Teresa de Calcutá no cuidado com os doentes mais abandonados.

Nossos enfermos. Nossas enfermidades. Quem quer a doença?! Para muitos até o fato de ir a um hospital lhes dá angústia. Mas é quase inevitável não ter que acorrer a uma internação vez por outra, quando não por meses ou anos. Poucos têm a felicidade de passar a vida sem alguma doença. E tem mais. Quantos, na sua enfermidade, não têm acesso aos meios para se curar. Infelizmente a saúde pública está aquém do desejado e do requerido por direito. O Estado tem que ser mais cuidador! Zelar pelos filhos e filhas da pátria amada! A saúde precisa de mais investimento. Os hospitais precisam de mais repasses e recursos. Há muito a se fazer.


Cuidar! Este é um dos verbos mais recorrentes nas falas e escritos do Papa Francisco. Convoca-nos a viver uma cultura do cuidado. Cuidar de si mesmo, do mundo, do planeta adoentado por nossas ações também. Cuidar do outro, especialmente do enfraquecido, do enfermo. Neste mundo desvairado e frenético, andamos à procura de quem nos ame e nos cuide. Ninguém suporta o abandono, muito menos na hora da dor. Na fragilidade de nossa saúde precisamos ainda mais de quem nos cuide. Na Bíblia é recorrente as passagens em que o ser humano busca em Deus seu amparo, sua cura. Deus é o cuidador. “Na minha angústia, clamo por Ti” (Sl 77,1). “Jesus, se queres, tu tens o poder de purificar-me” (Mc 1, 40). Na dor há mais necessidade de cuidado. Precisamos de medicina e de muito amor.

Cultivar a cultura do cuidado. É sabedoria popular de que há mais união na dor e sofrimento do que na fartura e dias fáceis. É o que vivemos com Brumadinho nestes dias. Quanta gente se une e busca, de um modo ou outro, estar próximo e solidário. A dor nos uniu. Este “instinto do bem” precisa encontrar em cada um de nós mais espaço. Criar a cultura do cuidado. Cuidar dos nossos enfermos. Assumir e cuidar da dor do outro. Alguns têm por profissão. Mas é missão de todos. Solidarizar-se com o doente é aflorar a humanidade que há em nós. O enfermo não está longe de nós: está no hospital ao lado, numa geriatria, na casa do vizinho ou em nossa própria família. Saber cuidar não é missão só do profissional da saúde. Uma visita breve e amorosa, uma palavra curta ou uma simples presença na fraqueza e na dor, diz muito pra quem a recebe. Cuidar de si faz bem e é até dever. Cuidar do outro não só faz bem, mas revela o grau de humanidade e amor ao próximo.

Cuidar dos enfermos é o compromisso de todos. Do Estado pelo dever constitucional. Dos familiares pelos vínculos e deveres comuns. Aos cristãos e os de boa vontade pelo imperativo humano que brota da fé em Jesus Cristo que nos diz: “Eu estava enfermo e cuidastes de mim” (Mt 25, 36). Quem ama cuida! Saúde e paz!

25/10/2018

Missão e Migração

Outubro nos fez recordar uma dimensão essencial do cristão que é ser missionário. A Igreja é missionária. Mulheres e homens que em nome do Senhor e por Ele sentindo-se chamados, deixam tudo para anunciá-Lo ao mundo. Muitos expõem sua vida na perseguição ou vivem um verdadeiro despojamento para abraçar outros povos e culturas. “Bem-aventurados os pés dos mensageiros da paz”.

No evangelho do domingo (dia 28) está a passagem do cego Bartimeu que suplica ao Senhor: “Mestre, que eu veja”. Disse-lhe Jesus: “Vai a tua fé te curou!” Ele recuperou a vista e seguia Jesus pelo caminho” (Jo 10, 52). Há três atitudes fundamentais para quem quer viver uma verdadeira fé em Jesus Cristo: Querer! Buscar! E ser seguidor! O cristão não pode supor que já vê tudo. Tampouco resignar-se ou deixar-se dissuadir por aqueles que não querem que você veja, como a multidão tentou com Bartimeu. É preciso querer ver e buscar o Senhor. O cristão, uma vez que encontrou Jesus, põe-se a segui-lo.  Diz o evangelho: “seguia Jesus pelo caminho”. Há muitos que uma vez recebida uma graça ou, por ter longos anos na Igreja, acham-se no direito de “mandar no Senhor”. O bom cristão é quem se coloca no caminho e segue o Mestre. É preciso cuidado para não inverter os papéis. Há muitos que não vendo, se fazem de guias e usam Deus para manter as trevas sobre si e sobre os demais. Na fé, somos todos aprendizes dEle. A humildade de Bartimeu nos coloca na busca contínua da luz. Discípulos no caminho.

O discipulado traz intrinsecamente a missão. Os discípulos anunciaram o Senhor. Neste mês acontece em Roma o Sínodo da Juventude. O Papa Francisco quer uma igreja que escute e favoreça os jovens como protagonistas da evangelização. Eles são portadores da esperança e mensageiros da fé em nosso tempo. Os jovens são também eles missionários, nas diversas realidades em que se encontram. Os jovens esperam que a Igreja aponte caminhos. Mas eles também apontam para onde a Igreja deve caminhar.

Igreja discípula está em caminho e em missão. Uma realidade particular do campo de missão dos jovens, é o mundo da migração. Estive até poucos dias na Austrália visitando as comunidades de língua portuguesa e os hispano-americanos. Há milhares de jovens neste país. Talvez você que agora lê este artigo diga: “Eu também tenho parentes por lá”. Não seria novidade. São muitos. Foram como migrantes a trabalho ou para estudar. Eles são a Igreja de migrantes jovens.  Dão novo impulso àquela Igreja. São leigos e leigas missionários. Vão como migrantes, mas carregam na bagagem a fé. Continuam a seguir o Senhor que encontram aqui no Brasil ou nas américas. Assim como Bartimeu, “seguem Jesus pelo caminho”. A migração que em si é uma busca de dias melhores e um futuro menos doloroso, pode trazer muitas dificuldades resumidas na palavra “saudade”. Há dor na migração. Mas na dor se mistura a fé que muitos a partilham formando comunidades como tenho encontrado. Os migrantes, jovens na sua maioria, se tornam então missionários. Não partiram enviados por alguém, mas o desejo de ver e seguir Jesus os torna, pelo batismo, mensageiros do evangelho. Quem bom. A migração se torna para muitos uma oportunidade de viverem e testemunharem sua fé.

Que Deus derrame luz sobre nosso Brasil neste momento. Que seja garantido o Estado democrático de direito. Que a justiça e a paz se aliem ao bem do trabalho e do pão para todos. No manto de N. Sra. Aparecida, Deus abençoe nosso Brasil.

05/10/2018

A missão do Cristão

Portanto, ide e fazei com que todos os povos da terra se tornem meus discípulos” (Mt 28,19).

A missão é da essência do ser cristão. Abraçar a fé em Jesus Cristo é conceber a vida como caminho de duplo sentido. Receber para dar. Na encíclica Lumen Fidei encontramos a expressão de que amor gera a fé e a fé sustenta o amor. Do mesmo modo que existe a “luz da fé”, somos colocados também diante da “luz do amor” (LF 34). Recebemos o batismo e ao mesmo tempo, na graça recebida, está o germe e a gene da missão. O dom da fé é por essência dom de partilha. Missão é também graça, dom que se reparte. Na luz da fé anunciamos a alegria do evangelho.

O mês de outubro recorda-nos a missão. A Igreja é missionária. Cristão é missionário. Quando Jesus diz “ide”, já coloca os discípulos seus em movimento. A fé não é para ser guardada. É tesouro para ser partilhado, multiplicado, anunciado. Ser discípulo é ser missionário. Não se pode ficar parado. Jesus envia. Quer os discípulos no caminho. O papa Francisco tantas vezes nos repete que quer uma ‘igreja em saída’. Missão é desinstalar-se. É sair e ir ao encontro. Não é uma saída sem rumo e sem conteúdo. O conteúdo é Ele, Jesus, como a expressão do amor do Pai. Sair animados e santificados pelo Espírito Santo. Assim foram os apóstolos. Saíram para além das fronteiras de Jerusalém e da Galileia. É preciso partir e pôr-se no caminho. Sem medo. Com a certeza que Ele estará conosco até o fim dos tempos.

A ‘Igreja em saída’, sonho de Francisco, respalda-se em outra palavra chave, tão cara ao nosso papa: a cultura do encontro. Sair para encontrar. Ir ao encontro das nações, dos povos novos para tornar conhecido o evangelho. Ter consciência de ser missionário, portador de um dom, e encontrar o outro para levar a boa nova. Não obstante haja a tentação de impor algo ou uma doutrina, a missão é anunciar o evangelho. Fazer discípulos é convidar e colocar as pessoas num caminho.  Missão é atitude de abertura. Encontrar e anunciar a boa nova. Isto exige da Igreja e de cada cristão uma atitude contínua de discípulo. Disposto e sempre capaz de aprender com o Mestre.

Sair e ir ao encontro significa, em nossos dias, assumir as mesmas atitudes dos apóstolos ao serem enviados por Jesus. Missão é partir sem medo, livres, despojados dos bens e de si mesmos, certos de que não faltarão dificuldades e perseguições. Mas ancorados na certeza de que o próprio Senhor acompanha a quem Ele envia. Longe, no além-mar ou perto, em nossos bairros ou centros urbanos, há campos de missão. Há periferias físicas e existenciais das pessoas que precisam da boa nova. ‘A messe é grande’ esperando cristãos ‘em saída’ dispostos a anunciar. Crianças, jovens, idosos, homens e mulheres de nosso tempo e de nossas cidades são as multidões de hoje que esperam de nós cristãos o testemunho de fé e palavras que apontem esperança e alegria. Atitude de encontro e palavras de proximidade. Francisco nos diz na Evangeli Gaudium: “Prefiro uma Igreja acidentada, ferida e enlameada por ter saído pelas estradas, a uma Igreja enferma pelo fechamento e a comodidade de se agarrar às próprias seguranças”. Neste mês missionário colhemos a oportunidade para renovar o ardor missionário que brota de nosso batismo. O ‘ide e anunciai’ que Jesus dirigiu aos apóstolos, se dirige e se renova a nós, Igreja missionária. Boa missão a todos.

16/08/2018

A beleza da Vida Consagrada

Desde o início da pregação do evangelho, em meio às comunidades nascentes, surgiram mulheres e homens que decidiram seguir a Cristo de uma forma especial, a Vida Consagrada. Ao longo dos séculos, nunca faltaram homens e mulheres que, dóceis ao chamamento do Pai e à moção do Espírito, escolheram este caminho de especial seguimento de Cristo, para se dedicarem a Ele de coração "indiviso" (cf. 1 Cor 7,34). Também eles deixaram tudo, como os Apóstolos, para estar com Cristo e colocar-se, como Ele, a serviço de Deus e dos irmãos. (S. João Paulo II, VC, n.1). Rezando e trabalhando nos mosteiros ou conventos; cuidando de crianças nos educandários e escolas; assistindo os doentes ou idosos; no campo e na cidade, nas periferias ou centros de metrópoles; nas frentes missionárias em terras longínquas; entre indígenas nas matas ou no cerrado com os camponeses; vestindo o hábito ou não; em inúmeras realidades estão os consagrados. Mãos que escrevem, cuidam, afagam, limpam, que seguram um rosário, uma Bíblia, um instrumento de trabalho. Mãos, pés, olhos, ouvidos, mentes que pensam e ajudam. Coração que ama. Mas procura amar e ser do jeito dele, Jesus. Por quem deixaram tudo e arriscam sua vida. O que seria de Porto Alegre sem as religiosas e religiosos em hospitais, escolas, abrigos e servindo moradores de rua? O que seria de nosso Rio Grande, sem as inúmeras congregações servindo o povo mais humilde?

 

No terceiro domingo de agosto a Igreja celebra, em todo o Brasil, a vocação à Vida Consagrada. Para São João Paulo II, “a vida consagrada, profundamente arraigada nos exemplos e ensinamentos de Cristo Senhor, é um dom de Deus Pai à sua Igreja, por meio do Espírito. Através da profissão dos conselhos evangélicos, os traços característicos de Jesus — virgem, pobre e obediente — adquirem uma típica e permanente "visibilidade" no meio do mundo, e o olhar dos fiéis é atraído para aquele mistério do Reino de Deus que já atua na história, mas aguarda a sua plena realização nos céus.”

 

Por que fazer os votos ou promessas de pobreza, castidade e obediência? Qual o fundamento deste estilo de vida? É por causa de Jesus Cristo. Há outros modos de viver o batismo e o seguimento? Sim! Os consagrados e consagradas escolhem o jeito que Jesus escolheu. Os votos que professam querem expressar esse modo da sequela Christi. É sempre um dom, uma vocação, um chamado que encontra resposta num coração aberto e acolhedor.

 

Olhando a Vida Consagrada no momento atual, assistimos realidades preocupantes e esperançosas ao mesmo tempo. Na Europa, e já com repercussão nas Américas, a idade avançada de muitas consagradas e o pouco ingresso de novas forças, assinala certa crise a esta vocação. De outro lado, nos continentes como Ásia, África e em alguns países das Américas há sinais de esperança com novas vocações e novas formas de consagração ou estilos de vida. Sempre é o Espírito Santo quem suscita os carismas para a Igreja e para a humanidade. Crises e sobressaltos fazem parte da história da Vida Consagrada e da Igreja como um todo. E novas modalidades e novos carismas surgem depois dos momentos críticos. A esperança sempre guia os caminhos dos que seguem o Cristo. Ele apontará a direção. As palavras do Papa Francisco corroboram para esta viva esperança: “O coração, se encontrar cada dia Jesus e os seus irmãos, não se polariza para o passado nem para o futuro, mas vive o ‘hoje’ de Deus em paz com todos. A juventude dum instituto (de Vida Consagrada) encontra-se indo às raízes, ouvindo as pessoas anciãs. Não há futuro sem este encontro entre anciãos e jovens; não há crescimento sem raízes, e não há florescimento sem novos rebentos. Jamais profecia sem memória, jamais memória sem profecia; mas que sempre se encontrem!” (Homilia de 2 de fevereiro de 2018)

 

Feliz dia da Vida Consagrada! Bênçãos.

21/06/2018

A vida é feita de encontros

Celebramos a 33ª Semana Nacional do Migrante (de 17 a 24 de junho) e dentro da mesma celebra-se o Dia Mundial do Refugiado (20/06). Guiam-nos o tema “A vida é feita de encontros” e o lema: “Braços abertos sem medo para acolher”.


A realidade mundial das multidões de migrantes e refugiados que cruzam desertos, mares e fronteiras é um “grito que sobe aos céus”. O que parecia estar tão longe faz-se realidade em nosso País também. Nos últimos anos chegaram de forma mais expressiva os haitianos e senegaleses. Agora, somam-se a eles uma multidão de venezuelanos que batem às portas do Brasil. Estive na Venezuela em fevereiro e março e acompanhei de perto esta realidade em Roraima.

O convite que nos vem desta realidade é o de vencer o medo com gestos humanitários de respeito e tolerância. Mas podemos ir além. Precisamos nos educar para o encontro e acolhida. O Papa Francisco nos colocou os quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Neste ano quisemos dar um acento especial no acolher. Por isso, o lema “braços abertos sem medo de acolher” quer nos levar a esta atitude. Precisa nascer em nosso interior para que se transforme em gestos contínuos de acolhida.

Vencer os medos. Eis um desafio e um processo educativo que se impõe a todos nós para buscar o bem maior. Muitas vezes presenciamos expressões e gestos de xenofobia, preconceito e exclusão em relação aos migrantes. Mas em contrapartida, há belos gestos de pessoas, organizações políticas e civis, da Igreja Católica e muitas outras denominações religiosas que promovem um verdadeiro encontro com o migrante.

Desde as fronteiras até nossas cidades milhares de mãos se estendem para acolher. Abrigos e casas de migrantes, centros de documentação, distribuição de alimentos e roupas, busca de casas e inserção no trabalho estes e outros modos, expressam o abraço ao migrante.

A migração traz em si desafios para quem chega e para quem acolhe. Há situações que precisam ser consideradas com cautela, planejamento e organização. Mas o medo pode turvar a razão. Recordamos os discípulos que ao verem Jesus vindo sobre as águas disseram: “É um fantasma!”. O medo não pode embaçar nosso olhar diante da realidade migratória e dos refugiados. A fé nos diz que a história é guiada pela sabedoria de Deus que nos fez irmãos e irmãs. Migrar é parte do ser humano. É um direito. “A migração dá ao homem como pátria o mundo” (João B. Scalabrini).

Podemos escolher ver fantasmas e ficar no barco à deriva açoitado pelo vento. Fechados em nosso mundo e até falsas seguranças. Ou então podemos ver o Senhor andando sobre as ondas dominando o mal.  As ondas migratórias são oportunidade. A vida é feita de encontros. Braços abertos para acolher. O próprio Senhor nos diz: “Eu era migrante e me acolhestes!”. Abrace o Cristo acolhendo um migrante.

30/11/2017

Advento: espera da alegria!

Entramos no tempo litúrgico do Advento. É preparação do Natal. Sim! Quando alguém é esperado em nossa casa, tudo ganha um clima especial e preparamos a chegada. Como diz Alceu Valença: “eu já escuto os teus sinais”. É preciso preparar o Natal. Palavra que contém essencialmente duas atitudes: da paz e da alegria. Escutar os sinais da chegada do Salvador.

 

O festejado, Jesus, o Deus feito menino, é esperança de paz! Oh! Como almejamos esta paz! O desejo de possuí-la já é um passo. Mas desejar não é tudo. É preciso tomar atitude, desencadear ações, desenvolver políticas, mobilizar a comunidade do bairro, do município, do Estado e da nação. A vinda do “príncipe da paz”, na voz do profeta Isaías, se deu em dias sombrios. Talvez até piores que os nossos. O profeta preferiu a esperança à lamentação, a alegria em vez de choro. O Messias haveria de vir para consolar e restabelecer a alegria ao povo abatido.

 

Estive na última semana, dia 23 de novembro, na inauguração do restauro da capela mor da igreja Nossa Senhora das Dores. Autoridades estaduais e municipais, as equipes do trabalho desta obra de arte, os padres, religiosos, orquestra jovem e a comunidade. Uma linda e nobre festa. A igreja das Dores ganhou vida nova. A comunidade também. As luzes voltaram. A arte, que fora carcomida pelo tempo e pelos cupins, agora restaurada readquire seu encanto e seu fascínio. A festa continuou nas escadarias da igreja: luzes, música, até frevo teve! As pessoas conversando, partilhando comes e bebes que trouxeram. Um clima de alegria e de encontro chamava a atenção também dos transeuntes.

 

Eu também participava dos festejos e da partilha. Olhando para aquilo tudo pensei: nós precisamos reencontrar a alegria de viver na cidade. Sentir alegria por poder estar juntos. O vazio das ruas, o medo de sair, o medo de se encontrar com o outro que se torna um suspeito; essas sombras de nossa convivência não podem abafar a busca da paz. Natal é alimentar este desejo dentro de nós. Desejo e necessidade de encontrar-se. O Papa Francisco fala da cultura do encontro. É anseio profundo de nossa realização humana.

 

Preparar o nascimento de Jesus é abrir as portas de nossa tenda, casa ou de nosso ser para que o outro entre. Esse outro é o irmão. É o próprio Deus feito menino. O que é Natal senão festa do encontro? O divino se encontra como o humano. Nesse encontro todas as demais celebrações ganham sentido e complemento. Então na família, no trabalho, na comunidade e na Igreja poderemos dizer: Feliz Natal! Feliz encontro! A alegria é possível. Que ela volte a reinar nos lares, nas ruas e nas praças. O nascimento de Jesus nos permite sonhar. Esperança de algo já presente. Advento, tempo de alegre espera. Escutar os sinais da chegada e do encontro. Paz na terra e glória a Deus nos céus! Esperança, paz e alegria!

19/10/2017

Campos de missão

A Igreja Católica tem por tradição celebrar outubro como o Mês das Missões. É um destaque, pois a Igreja é essencialmente missionária: “Ide a anunciai a todos os povos”. Essa é a missão da Igreja: anunciar o amor de Deus em favor de todo ser humano, levar o anúncio do evangelho a todos os povos. Ser missionário, portanto, é vocação de todo o batizado.

 

A missão faz parte do coração de Deus. O Pai nos comunicou seu amor em Jesus Cristo. Sua missão é salvar a todos: “o Pai enviou seu Filho para salvar o mundo”. O Papa Francisco insiste em nos lembrar que a alegria do evangelho consiste na alegria da salvação.

 

O Rio Grande do Sul foi marcado pelo ímpeto e a coragem dos missionários Jesuítas. Esses primeiros missionários deixaram o legado da região missioneira. Também as igrejas e comunidades que formam a Arquidiocese de Porto Alegre são fruto do desejo missionário de homens e mulheres – religiosos(as), leigos, sacerdotes – que, ao verem as necessidades, estenderam a “tenda do evangelho” onde se fizesse necessário. As comunidades nasceram aqui e acolá. E a missão não parou. Hoje ainda se faz necessário cumprir o mando do Senhor: “Ide e anunciai!”.

 

Os campos de missão são muitos. Podem estar longe, além-fronteiras. Podem estar bem perto de nós. Há lugares que nunca ouviram falar de Jesus e de seu Evangelho. Ali o Senhor nos envia. Há, porém, muitos campos de missão nos continentes e países que já ouviram há séculos o anúncio.

 

A missão é contínua. Ela começa e recomeça. Sempre que houver um coração que precise ser evangelizado, faz-se necessário cumprir o mandato do Senhor: “Anunciai a boa nova a toda criatura”. Nosso Estado, nossas cidades, nossos centros e periferias são ainda, e sempre serão, campos de missão. Precisamos de um novo vigor missionário. O Papa nos pede que sejamos Igreja em saída. Anunciar o Evangelho está no DNA do ser cristão.

 

O mês missionário nos faz voltar o olhar para os campos de missão, inclusive os longínquos. A Igreja do RS é irmã da diocese de Nampula, no Moçambique. Porto Alegre é Igreja irmã da prelazia do Xingu, onde estão sacerdotes e seminaristas. São gestos concretos de missão ad gentes.

 

Também devemos olhar para perto. Porto Alegre, Canoas, Guaíba, Viamão etc são campos de missão. Recorro uma vez mais a Francisco. No congresso para a pastoral das grandes cidades em Barcelona, em 2014, ele diz: “Para mim esta é a chave! Sair para encontrar Deus que habita na cidade e nos pobres. Sair para se encontrar com eles, para ouvir, abençoar, para caminhar com as gentes. É necessário ter a coragem de fazer uma pastoral evangelizadora audaz e sem temor, porque o homem, a mulher, a família e os vários grupos que habitam a cidade esperam de nós a Boa Nova que é Jesus e o seu Evangelho. Muitas vezes ouço dizer que se tem vergonha de expor-se. Devemos trabalhar no sentido de não ter vergonha ou recuo no anunciar Jesus. (...) As grandes cidades são hoje habitadas por numerosos migrantes e pobres, que provêm das zonas rurais, ou doutros continentes, com outras culturas. A Igreja não pode ignorar o seu grito. Tantos pobres, vítimas de antigas e novas pobrezas. Há novas pobrezas! Pobrezas estruturais e endémicas que estão a excluir gerações de famílias. Pobrezas económicas, sociais, morais e espirituais. Pobrezas que marginalizam e descartam pessoas, filhos de Deus”.

 

Sair para anunciar Deus que habita nossas cidades. O Senhor nos envia a anunciar, a sermos testemunhas de seu amor!

23/06/2017

Porto Alegre e os migrantes

Migrantes no nosso dia a dia

Caminhar pela cidade de Porto Alegre é encontrar dezenas de pessoas procedentes de países dos cinco continentes. De fato as raízes da cidade fundam-se nos 60 casais açorianos que chegaram em 1752 e constituíram o primeiro povoado. Mais tarde vieram imigrantes africanos, estes forçados a migrar, depois os europeus e asiáticos. No final do século passado chegaram os  do MERCOSUL e hoje, os imigrantes denominados “novos rostos” do Caribe, África e Sudoeste da Ásia.

Porto Alegre acolhe hoje mais de 32 mil imigrantes, predominando os oriundos do MERCOSUL, seguido por europeus, asiáticos e africanos.

Instituições a serviço

Após a 2ª Guerra Mundial a Igreja do RS estruturou-se para acolhida, acompanhamento e inserção laboral e comunitária dos que aqui chegam. Primeiro, em 1953, organizando o Secretariado Católico de Imigração com apoio de congregações religiosas, voluntários, PUC e UFRGS (SAJU), quando acolheram mais de 12 mil refugiados e deslocados da guerra.

A partir de 1958 foi criado o CIBAI Migrações, da Igreja de Nossa Senhora do Rosário de Pompéia, se torna uma “hospedaria”da passagem evangélica do bom samaritano. De 1958 aos dias atuais o CIBAI já acolheu mais de 195 mil imigrantes. Somente em 2016 foram 7.078 atendimentos.

Na década de 1970 surgem, juntamente com o CIBAI, instituições formando uma rede de apoio na acolhida aos imigrantes latinos, asiáticos e os migrantes internos:  A Comissão Arquidiocesana de Migrações (CAMI -1977), a Pastoral Migratória da CNBB (1980), o Centro de Apoio aos Migrantes (COMIG) das Irmãs Scalabrinianas (1981).

A essa rede agregam-se, no início do século XXI,  movimentos de Cidadania e Direitos Humanos do RS, ACNUR/ASAV – Associação Antonio Vieira dos jesuítas, o GAIRE/UFRGS, O Fórum Permanente de Mobilidade Humana do RS, o COMIRAT (Comitê de Apoio a Migrantes e Refugiados), Associações de Migrantes, a Cátedra Sérgio Vieira de Melo das inúmeras universidades da região e a Frente Parlamentar da Assembleia Legislativa RS.

 

Desafios enfrentados pelos migrantes em Porto Alegre e RS

Num mundo em mobilidade humana em que mais de um terço da população não reside no local de nascimento são muitos os desafios que os imigrantes colocam para a Igreja, o poder público e a sociedade em geral. Na nossa capital se pode destacar:

  • Burocratização e o elevado custo para regularizar a documentação seja por parte do governo brasileiro ou pelos consulados.

  • Poder público se restringe em documentar o imigrante. Acolhida, apoio emergencial e aula da Língua e cultura portuguesa ficam quase que restritas ao serviço das instituições religiosas, algumas ONGs e voluntariado.

  • A complexa cultura da legislação trabalhista.

  • Clima rigoroso.

  • Inexistência de políticas públicas voltadas aos imigrantes especialmente com programas na questão da moradia e ensino.

  • Dificuldade de validar diplomas e certificados do imigrante e reingresso no ensino.

  • Segmento da sociedade e da mídia mantém uma postura discriminatória, racista e xenofóbica.

  • Desemprego crescente.

 

O que se vislumbra

Novas posturas de acolhimento das Igrejas, independente da crença do imigrante.

Setores do Estado e Municípios mais abertos no serviço aos migrantes.

Acolhimento laboral de empresários respeitando o trabalhador imigrante, sem burlar a legislação trabalhista.

Surgimento de Núcleos, Associações e serviços pastorais com e para o migrante.

Mídia e comunidade começam a ter nova maneira de ver, comunicar-se e entender a cultura do migrante.

22/06/2017

O mundo é migrante

“Migram as sementes nas asas dos ventos, migram as plantas de continente a continente, levadas pelas correntes das águas, migram os pássaros e os animais e, mais que todos, migra o homem, ora em forma coletiva, ora em forma isolada, mas sempre instrumento daquela Providência que preside e guia os destinos humanos, também através de catástrofes, para a meta, que é o aperfeiçoamento do homem sobre a terra e a glória de Deus nos céus (Scalabrini, 1899).

 

Celebramos, de 18 a 25 de junho, a 32ª Semana do Migrante. A migração é, em si, um direito universal. No decorrer da história, e ainda mais em nossos dias, o que é direito passa ser, para milhões de pessoas, a única saída de sobrevivência. Quando povos inteiros precisam se deslocar por motivos de políticas ineficientes ou fruto de uma sociedade que exclui os mais pobres, a migração já não é espontânea. Migrar se torna uma saída forçada. Há parcelas das sociedades ainda despejam nos migrantes a culpa da desestabilização, da crise, mormente ligada às vagas de trabalho, aos costumes ou ao aumento de criminalidade. Passa-se a criminalizar os refugiados e migrantes – e isso também ocorre em Porto Alegre.

 

As migrações propiciaram a miscigenação de povos e continentes. Assistimos hoje a uma reconfiguração dos rostos que constituem nossos países e cidades. A identidade com a qual estávamos acostumados a descrever um povo, uma nação, vai sendo redesenhada. Nisso está uma grande riqueza. Conflitos e xenofobias são barreiras na convivência. Viver é aprender com o diferente.

 

A migração, que leva à partilha de bens, costumes, cultura, línguas, religião e modos diversos de viver, enriquece o tecido social de um país. Este aspecto, de acolhida e interação das diferenças, torna as sociedades multiculturais, ricas em humanidade. Pensemos nas pessoas que formam Nova York, Roma, São Paulo, Berlim – e por que não nossa Porto Alegre? Calcula-se que hoje 250 milhões de pessoas vivam fora do lugar onde nasceram. O mundo está em movimento. O mundo é migrante.

 

Mas não basta o país ser multicultural. É preciso que haja integração. Interculturalidade torna-se a palavra chave. Todos têm algo a dar e todos podem receber. Processo que faz e refaz a identidade de um povo e o aperfeiçoamento da humanidade.

 

Na celebração da semana do migrante deste ano destacam-se quatro verbos: acolher, proteger, promover e integrar. Verbos que traduzem as atitudes do bom samaritano (Lc 10, 25-37) e que na prática podem ser expressados de vários modos: orientação, informação, documentação e formação profissional, caridade, apoio. Precisamos acolher, proteger, promover e integrar para que o migrante, sendo estrangeiro, sinta-se em sua pátria, com seus direitos e seus deveres de cidadão. O bem-aventurado Scalabrini, apóstolo dos migrantes, já dizia que “para o migrante a pátria é a terra que lhe dá o pão”. Pátria é terra-mãe que acolhe e que, por sua vez, merece ser amada como a nova casa.

 

Em nossos dias não faltam medos, conflitos, mas, na convivência das diversidades, temos uma oportunidade para sonhar outros mundos, buscando o sonho eterno da fraternidade humana. Enquanto estamos neste mundo, somo migrantes, rumo à pátria celeste. O próprio Jesus nos dá uma oportunidade para também sermos por Ele acolhidos quando então nos disser: “Eu era estrangeiro e me acolhestes”.

13/04/2017

Páscoa: das chagas à paz

Páscoa é o centro da fé e das festas cristãs. Celebrar a ressurreição do Senhor evoca um dos mais profundos e fortes temas da existência humana: a vida! Mas por que não a morte? Essa teve seu tempo, acompanhou Jesus, o nazareno, até o sepulcro. Quando tudo parecia terminado, a vida ergue sua voz. Cristo vive! A injustiça, a tortura, os sofrimentos, as chagas, a cruz, o túmulo, tudo ficou para trás. E no amor de Deus para com a humanidade a vida se eterniza. A vida venceu porque o amor triunfou.

 

Para ver é preciso os olhos da fé. Do contrário ficamos no túmulo, na Sexta-feira Santa. Há um convite do Ressuscitado: tocar nas suas chagas. Mesmo os incrédulos como Tomé precisam tocar para crer. Ao tocar nas feridas, ele encontra seu Deus, toca a humanidade de Deus que se fez carne e nos amou até o fim. Em Tomé, cada ser humano é convidado a tocar nas chagas do Ressuscitado. Deus quis provar as feridas e dores humanas para que a humanidade participasse da vida do mundo de Deus. Das suas chagas brota a paz.

 

Vivemos um momento particular no mundo atual, com uma nuvem de morte pairando sobre nossos dias. Guerras, terrorismo, fome, corrupção, crime organizado, violência. A vida parece ter-se tornado banal, descartável ou negociável. A vida de Jesus também fora taxada com preço. Ele, porém, fez dela um gesto extremo e pleno de amor. Quem é totalmente livre até de sua vida sabe desprender-se. Quem tudo doa sabe o quanto vale a vida.

 

Contrastando com os inúmeros sinais de morte que rondam nossas cidades, há pedras removidas que sinalizam esperanças. Onde tudo parece morte, a teimosia da esperança aparece colocando luz no horizonte humano. É preciso olhar ao redor. Há tantas obras do bem, fruto de pessoas que se empenham para vencer as situações de morte. O mundo pode ser diferente. Ele é diferente! Há sinais do Ressuscitado.

 

Mas para isto é preciso colocar o dedo nas chagas. É preciso experimentar a humanidade e sentir seus sofrimentos, empenhando-nos e crendo que aquele ser ou situação pode mudar. Aos dúbios, mornos ou indiferentes há um chamado na Páscoa. Junte-se aos que colocam as mãos nas feridas do próximo. Com os dedos nas chagas sentiremos a paz que do Ressuscitado pode dar. Compreenderemos uma nova vida. Provaremos o amor de Deus. Experimentaremos uma nova humanidade.

24/03/2017

Conversão e biomas

“Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida.” O tema da Campanha da Fraternidade (CF) de 2017 quer continuar a reflexão sobre o cuidado com a criação. Quaresma é sempre um tempo propício para conversão, pessoal e comunitária. Conversão é um chamado de Deus a mudar de rumo, focar o caminho certo. Centrar-se no que é primordial e essencial. Se o rumo que está sendo empreendido é incerto, vago, ou pior, errado, então é preciso parar, recalcular e mudar a direção. Conversão!

 

“Cultivar e guardar a criação” (Gn 2, 15). Tratando do cuidado com a criação, nos deparamos com sérios problemas na preservação, no manejo e cuidado com nossos biomas. Parto do princípio de que cuidar dos biomas é cuidar da própria vida. Sim! Pois se nossas fontes, nascentes e rios estancarem, como nossa terra será regada?

 

Pensemos apenas nos biomas presentes no Rio Grande do Sul: a Mata Atlântica e o Pampa. Quais cuidados temos? As políticas de cultivo e de produção respeitam e guardam essa parcela da criação? Se nossos rios minguarem, os campos e florestas diminuírem, não serão apenas os animais e a vegetação que irão padecer. Nós humanos sofremos juntos. Porém, não estamos convencidos disso! Às vezes até pensamos de forma romântica e futurística: “precisamos preservar para deixar para nossos filhos, para as gerações futuras!”. Não seria isso também um egoísmo humano? Pesamos só em nós, “criaturas superiores”. Por isso a necessidade de conversão! Mudar a compreensão e o foco.

 

Nós humanos somos importantes sim. Mas não podemos, em nome da inteligência, usurpar, destruir e dominar extinguindo, desequilibrando e matando. Conversão de rumo! Conversão de mentalidade. Conversão de políticas de progresso, desenvolvimento e manejo. O Pampa e a Mata Atlântica também são sujeitos na definição de políticas de plantio, produção e crescimento. Eles são riqueza e não empecilhos de riqueza. O desafio é a convivência respeitosa e cuidadora nesses biomas. Até quando resistirão? Como podemos reverter o domínio sobre os mesmos?

 

É possível desenvolvimento sem destruir. Há tantos modelos e experiências que atestam isso. Os campos, banhados, coxilhas, matas e fauna existentes precisam ser escutados. Os biomas não são objeto de uso, mas parte de nosso bem viver. Se não conversarmos como eles, mantemos a ideia e a prática de domínio inescrupuloso e assassino. “Eu só não quero deixar pros meus filhos a Pampa pobre que herdei de meus pais”, diz a música. Amanhã talvez nem a Pampa teremos para deixar! Cultivar e guardar a criação requer conversão sim.

 

O tema da Campanha da Fraternidade de 2017 não termina no Domingo de Ramos. Há um longo caminho a ser feito. Urgem políticas novas de produção, manejo e ocupação de nosso Pampa. O Senhor da Criação nos chama a uma mudança de atitude. Com humildade precisamos reaprender a nos relacionar com a criação. Cuidar dela é cuidar da própria vida. O culto ao Criador requer respeito e cuidado de sua obra criada. A Mata Atlântica e o Pampa gritam por vida. O Rio Grande precisa escutar seu grito.

30/01/2017

Navegar é preciso

Navegar é preciso! A Imagem de Maria, invocada como Nossa Senhora de Navegantes, nos remete a dois aspectos de nossa fé. Primeiro pelo amor e necessidade de sentir a Mãe de Deus como também nossa Mãe. Mãe que gera a vida em nós. Aquela que, nas mais variadas expressões da devoção popular, é capaz de interceder por nós junto a Deus. Por isso confiamos a ela nossos desejos profundos, nossas necessidades, os pedidos de graças que buscamos para a vida. A ela os fiéis, navegantes no mar da vida, confiam os sinceros pedidos de saúde, da libertação das drogas de um filho, da união da família, a busca de um emprego e tantas intenções e pedidos. Ela expressa os anelos e esperanças de nosso coração. Maria é a mãe dos navegantes. E na vida navegar é preciso.

 

Associamos nossa vida como um caminhar ou como um navegar. Momentos calmos, agitados e momentos de tempestades. Dentro dessa compreensão associada à vivência da fé, a Mãe Nossa Senhora dos Navegantes é nosso apoio, nosso alento, nosso refúgio seguro. E quem não se sente mais seguro nos braços de uma mãe cheia de amor? Maria, a Mãe dos navegantes, está conosco.

 

O segundo aspecto é Maria como mulher e mãe da fé. Nossa Senhora é aquela que soube acreditar e por isso tem o senhorio do testemunho da fé. Maria foi uma mulher de Nazaré que acreditou na Palavra do Pai. Deu seu sim, encarnou Jesus, o Filho de Deus, e nos doou esse tesouro. É senhora e, ao mesmo tempo, humilde serva do Senhor. Pela humildade conquista o senhorio, ou seja, o poder de atrair para si o coração dos filhos.

 

Maria viveu todos os momentos do filho Jesus. As alegrias, as angústias, a dor, a morte e a ressurreição. Ela, mãe que foi, discípula se tornou. Por isso, invocar Nossa Senhora dos Navegantes é também buscar nela a mãe e mestra de nossa fé. Os fiéis têm nela não só uma mãe protetora, mas uma Mãe que indica o caminho, que indica o horizonte e o rumo de nossa vida. Se as ondas do mar da vida se levantam e nos assustam, Maria é presença que dá segurança. Se as tempestades da vida nos jogam na incerteza e no desespero, Maria é presença que dá alento e nos aponta o porto ao qual podemos chegar seguros. Ela navega conosco no mar da vida.

 

Que Maria, invocada por nós em Porto Alegre com o título de Nossa Senhora dos Navegantes, nos conceda a graça de sermos firmes no mar da nossa vida. Que ela não deixe que as ondas da corrupção, da injustiça, das matanças e violência que se avolumam em nosso Brasil nos tire a esperança, a busca da paz e de dias de mar mais calmo e sereno.

 

Que ela console os que navegam nas incertezas da fé, nas feridas dos lares desfeitos, dos que buscam trabalho, das mães e dos pais que veem seus filhos ceifados pela droga e pela violência, dos que navegam sem rumo ou deixaram o barco da vida à deriva de uma vida sem sentido, sem Deus e sem amor ao semelhante. Que a Mãe, mestra e navegadora conosco, nos mantenha a força da fé. Ensine-nos que a oração é o caminho para conhecer o rosto e qual a vontade do Pai. Que imprima em nós o desejo de querer estar com ela, vivermos com ela e como irmãos, navegando como Igreja, seguidores de seu filho, Jesus. E como ela, perseverar no seguimento, na tempestade ou na bonança da vida, como seus filhos fiéis, hoje e por toda a eternidade, no encontro com Deus. Amém.

03/01/2017

Natal: encontro e desejo de paz

A festa solene do Natal do Senhor cria um ar que nos envolve na busca da paz. O nascimento de Jesus, o Cristo, em Belém, nos remete a dois aspectos ou valores que todo ser humano almeja, consciente ou inconscientemente: o encontro e a paz!

 

A narrativa bíblica de Belém fala do encontro. Deus se encontra com a humanidade. Os pastores, os anjos, os animais, a natureza, os reis magos se encontram com José e Maria diante do Deus feito menino. A criação se encontra com seu criador-salvador. Ao aproximar-se o Natal, acende-se o desejo de encontrar ou reencontrar os entes amados. As comunidades se encontram para a celebração. As famílias preparam a ceia para se encontrar. Ao menos por um momento, procura-se esquecer as separações, desavenças e mágoas que ferem para uma trégua. Celebrar o Natal. Entra-se como num véu de paz ou de desejo dela. Nem que seja por uma noite, por um dia, os corações dizem: “É natal! Estamos juntos. Por hoje, por esta noite, vivamos alegria e paz. Comemoremos! Feliz Natal!”.

 

O encontro dos pastores e dos reis leva à contemplação. Contemplar a criança. Quem não fica extasiado diante de um bebê? A humanidade terá perdido o senso de contemplação? Talvez! Porque ela só pode entrar pelo gesto de silêncio humilde que vê, reverencia e escuta. Os pastores foram capazes de escutar. Os reis magos escutaram e seguiram. Então puderam encontrar o que buscavam. Ou seja, o encontro já era desejo. No encontro com o Deus-Menino encontram a paz. Encontrar-se em família. Desejar-se a paz.

 

A avidez do consumo, a ida frenética às compras, a corrida cansativa do dia a dia nos distraem ou tentam sublimar o desejo incontido do qual todo o ser humano é tecido: a paz! Dentro de cada homem, de cada mulher há essa aspiração. Nem mesmo as violências que marcam nossas cidades e nossos bairros nos tiram o direito de desejá-la. A paz nos vem pela candura e inocência de uma criança. A voz de Deus nos vem pelas coisas mais simples. Nós é que complicamos os caminhos da paz.

 

Os fundamentalismos e extremismos não fazem parte da lógica do Natal. Esta é festa da alegria e da luz para todos os povos. Toda a humanidade é de Deus e o Menino-Deus é de toda a humanidade, pois, ao se fazer criança, quis desramar todas separações e exclusões. Ele assumiu os seres humanos por inteiro.

 

A paz nasceu em Belém. Estava fora dos planos humanos, mas dentro do olhar de Deus. O pequeno se faz grande e o periférico se torna centro porque Deus escolhe o ser humano, não sua posição ou seu status de lugar. E nós sabemos: todo ser humano, com seus dons e defeitos, contém em si o desejo do bem e da paz.

 

Vivemos um momento de trevas e nosso Brasil passa por dias conturbados. Além de todas as divergências e antagonismos, há dentro do povo brasileiro o desejo sincero de dias melhores, dias com mais paz. E ela será fruto da justiça. Na festa do Natal só cabe alegria. Sim! Ao menos por um dia, por um tempo podemos nos alegrar e celebrar algo que dentro de nós palpita como desejo eterno. Todo esforço, toda organização social deve apontar para lá. Em meio às trevas que nos rondam, o Natal é sonhar a paz. E Deus quis em Jesus, o Deus-Menino, sonhar conosco. Quem, em atitude de contemplação, buscar o encontro como a criança do Natal, vai encontrar a paz.

18/08/2016

“...Eles imediatamente deixaram as redes e seguiram a Jesus!”

Na continuidade do mês vocacional celebramos no domingo, dia 21 de agosto, a vocação à Vida Consagrada. O Vaticano II ensina que na Igreja todo batizado é consagrado e todos são chamados à santidade (cf. LG 39-42). Há, porém, cristãos que sentem-se chamado/as a uma consagração especial, tendo por inspiração e modelo o próprio Jesus em seu estado de vida – pobre, casto e obediente, vivendo dons e carismas doados pelo Espírito Santo à própria Igreja (cf. LG 43-47). Pessoas que se permitiram possuir pelo Mestre Jesus deixam tudo para trás. Consagram-se para a oração, para o serviço missionário e apostólico, e no meio do mundo assumindo profissões comuns como consagrados.

 

Poderíamos fazer um percurso histórico passando pelas inúmeras Congregações, Ordens e Institutos de vida consagrada ao longo da história. Pode-se ainda sublinhar seu aspecto teológico e espiritual. Ficamos com o “rosto” da vida consagrada, para assim visualizarmos sua presença em nosso meio e perceber que é uma força viva que se esconde no tecido social e eclesial; homens e mulheres que pela sua vida dão sabor e perfume do amor misericordioso de Deus no mundo.

 

Homes e mulheres que vivem no silêncio e momentos de solidão, mas habitam a plenitude do amor na vida de contemplação nos mosteiros, abadias e conventos. Falam pouco do mundo, mas com ele rezam e dialogam com Deus apresentando suas dores e sofrimentos. Mulheres e homens que parecem ter “fugido” do barulho e se refugiaram na calmaria e no sossego rotineiro, quase incompreensível às pessoas “de fora”, mas lá se fortalecem na vida espiritual, não sem lutas com sua humanidade interior, fortificando seu ser no amor concreto e vivo do Deus-Amor. Na aparência de estar “atrás das grades” desde o olhar de fora, vivem a liberdade de filhos e filhas de Deus, cuja alegria brota de poder estar com Ele na intimidade da oração (Lc 10, 41).

 

A vida consagrada tem o rosto de jovens e adultos que deixaram tudo – família, cultura, país, projetos pessoais – para se aventurarem na missão do amor doação. Estão nas fronteiras missionárias arriscando a própria vida a serviço do evangelho e doando-se ao próximo. São profetas muitas vezes calados, como a Ir. Dorothy Stang.

 

Vida consagrada é a irmã religiosa que se curva para se fazer mãe de órfãos e menores aos quais a pátria não lhes é mãe amorosa e cuidadora. Órfãos de pais e da pátria. Vida consagrada é o rosto de Deus misericordioso junto aos doentes, aos portadores de HIV, aos dependentes químicos, aos encarcerados, aos que vivem “das sobras” das cidades, aos refugiados, aos migrantes...

 

A vida consagrada se faz presente nas escolas, colégios, universidades e centros de saber e pesquisa científica. Ela está na favela e no bairro nobre. Está no campo e nas cidades, está nas metrópoles e está junto às populações ribeirinhas de nossa Amazônia e nos vários continentes. Ela está inserida nos ambientes como presença comum e diferente.

 

A vida consagrada se mostra no hábito das religiosas, que se distinguem pela sua congregação ou instituto construindo e administrando hospitais, escolas, creches ou obras sociais. Está escondida e disfarçada num médico, numa professora, numa advogada, numa enfermeira e em tantas outras profissões como “pessoas comuns” que vivem nos institutos seculares, vivendo uma consagração silenciosa e testemunhando o evangelho como “fermento na massa”.

 

A vida consagrada são as pessoas que cativadas pelo chamado do Senhor dizem sim à sua voz colocando sua vida a serviço de Deus e da humanidade, no despojamento pessoal e na humildade da entrega do vazo de perfume (Mt 26, 6-13) – sua vida – ao Senhor e sua Igreja.

01/08/2016

Migrante

O Rio Grande do Sul tem sido, em sua história, um estado acolhedor. Sua constituição demográfica traz a marca da migração europeia para o sul do Brasil, durante o século XIX e início do século XX.

O Brasil sempre atraiu grandes contingentes de imigrantes. O tecido social brasileiro constitui-se de pessoas que têm suas origens em diferentes povos e culturas. Tal constituição marca a cultura brasileira.

Recentemente, temos assistido à chegada de novos imigrantes, desta vez vindos de países da África, como Senegal, Gana, Congo, e da América Central, especialmente do Haiti. São, sobretudo, jovens que procuram melhores condições de vida. Não faltam também refugiados!

“Os emigrantes (...) procuram uma vida melhor longe da pobreza, da fome, da exploração e da injusta distribuição dos recursos do planeta, que deveriam ser divididos equitativamente entre todos” (Papa Francisco).

Não são raras as situações dos que chegam praticamente sem nada. Por vezes, são vítimas de atravessadores que forjam situações de dependência financeira seja de quem aqui chega, seja de familiares que ficaram no país de origem. 
Há os que migram de cidade em cidade, buscando melhor emprego e condições de vida mais favoráveis. Trata-se de situações desafiadoras e graves. 

Não são raras as manifestações de xenofobia! Elas são incabíveis e inaceitáveis em uma sociedade que almeja ser plural e madura. A xenofobia é uma atitude anti-humana. 

É também verdade que o diferente e o estranho – acentuadamente no momento sócio- histórico em que vivemos – produzem apreensão e medo. Ora, o medo turba, aprisiona, leva ao autofechamento, produzindo a falsa ilusão de que assim se está mais seguro. É oportuno recordar que etnocentrismos e egoísmo cultural ou racial produziram, ao longo da história, não poucas tragédias. 

Diante desta realidade cruel, o Papa Francisco, atento, convida a alargar o olhar: “Ninguém pode fingir que não se sente interpelado pelas novas formas de escravidão geridas por organizações criminosas que vendem e compram homens, mulheres e crianças como trabalhadores forçados na construção civil, na agricultura, na pesca ou noutros âmbitos de mercado. Quantos menores são, ainda hoje, obrigados a alistar-se nas milícias que os transformam em meninos-soldados! Quantas pessoas são vítimas do tráfico de órgãos, da mendicidade forçada e da exploração sexual! Destes crimes aberrantes fogem os refugiados do nosso tempo, que interpelam a Igreja e a comunidade humana, para que também eles possam ver, na mão estendida de quem os acolhe, o rosto do Senhor, «o Pai das misericórdias e o Deus de toda a consolação» (2 Cor 1, 3)”.

O poder público não tem dado a devida atenção a essa realidade desafiadora e cruel. A questão dos migrantes e dos refugiados certamente não está entre as prioridades do governo. 
Constatam-se, todavia, sinais expressivos de solidariedade! São comunidades, Igrejas, Ongs, universidades, empresas que se empenham em oferecer condições de subsistência a essas pessoas. 

A construção da paz social passa pela aceitação e pela acolhida do estrangeiro, do migrante ou do refugiado. O estranho, o migrante não vêm tirar ou subtrair coisa alguma. Eles são seres humanos que, com sua peculiar expressão de humanidade, somam e enriquecem a sociedade. 

A nossa própria vida nos atribui a característica de sermos migrantes e peregrinos. Somos todos viandantes. Não possuímos morada definitiva. Buscamos insistentemente um ‘lugar’ que sacie nossa sede de estabilidade e de conforto.

Pela perspectiva da fé cristã, temos consciência de que acolhendo, somos acolhidos: “eu era forasteiro e me recebestes... Todas as vezes que fizestes isso a um destes mais pequenos, que são meus irmãos, foi a mim que o fizestes” (Mt 25, 35.40).

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