DOM JAIME SPENGLER - OLHAR DA FÉ

15/10/2020

Somos todos irmãos

A cidade de Assis, na Itália, tornou-se uma referência para iniciativas envolvendo o diálogo inter-religioso, e temas como o cuidado com a Casa Comum (a natureza), a paz e a fraternidade universal.

No último dia 3 de outubro, o Papa Francisco assinou, junto ao túmulo de São Francisco de Assis, sua terceira Carta Encíclica, intitulada “Fratelli Tutti”, dedicada à fraternidade e à amizade social. Trata-se de um texto denso, e que aborda temas importantes a respeito de cultura, política, economia, vida em sociedade, que certamente preocupam mulheres e homens de boa vontade, desejosos de colaborar para deixar o mundo um pouco melhor para as futuras gerações.

No início do texto, o Papa expressa a motivação que o levou a escrever a Carta Encíclica: “As questões relacionadas com a fraternidade e a amizade social sempre estiveram entre as minhas preocupações. (...) Embora a tenha escrito a partir das minhas convicções cristãs, que me animam e nutrem, procurei fazê-lo de tal maneira que a reflexão se abra ao diálogo com todas as pessoas de boa vontade.”

A linguagem usada é simples, direta, despojada, quase coloquial, chegando a surpreender. Há também de se destacar a lucidez de Francisco. Frente a uma realidade histórica, marcada por variadas crises que atingem a todos indistintamente, são oferecidas indicações preciosas para tantos que acreditam na possibilidade de um mundo mais justo e fraterno.

Diante da tendência recente da imposição de um pensamento único a orientar decisões governamentais, surge a indicação de que é necessário e possível alargar o olhar, para tecer uma nova cultura política, econômica, social e cultural, pois tudo está interligado e somos todos irmãos. Para levar a termo a tarefa, urge resgatar princípios antropológicos e éticos, pautados pela necessidade de promover oportunidades de diálogo e encontro entre homens e mulheres sabedores de que “a vida é a arte do encontro, embora haja tanto desencontro pela vida” (V. de Moraes), pois este é o único caminho viável para a construção da paz, justiça e fraternidade entre os povos e nações.

08/10/2020

Em nome de todos

No último dia 3 de outubro, em Assis, o Papa Francisco assinou sua 3ª Carta Encíclica, intitulada “Todos Irmãos”.

Trata-se de um texto denso, rico de indicações para a superação das contradições presentes na sociedade atual, e que foram escancaradas com a pandemia do coronavírus.

A Carta traz um forte apelo à paz, justiça e fraternidade:

“Em nome de Deus, que criou todos os seres humanos iguais nos direitos, nos deveres e na dignidade e os chamou a conviver entre si como irmãos, a povoar a terra e espalhar sobre ela os valores do bem, da caridade e da paz.

Em nome da alma humana inocente que Deus proibiu de matar, afirmando que qualquer um que mate uma pessoa é como se tivesse morto toda a humanidade, e quem quer que salve uma pessoa é como se tivesse salvo toda a humanidade.

Em nome dos pobres, dos miseráveis, dos necessitados e dos marginalizados, a quem Deus ordenou socorrer como um dever exigido a todos os homens e, de modo particular, às pessoas facultosas e abastadas.

Em nome dos órfãos, das viúvas, dos refugiados e dos exilados das suas casas e dos seus países; de todas as vítimas das guerras, das perseguições e das injustiças; dos fracos, de quantos vivem no medo, dos prisioneiros de guerra e dos torturados em qualquer parte do mundo, sem distinção alguma.

Em nome dos povos que perderam a segurança, a paz e a convivência comum, tornando-se vítimas das destruições, das ruínas e das guerras.

Em nome da 'fraternidade humana', que abraça todos os homens, une-os e torna-os iguais.

Em nome desta fraternidade, dilacerada pelas políticas de integralismo e divisão e pelos sistemas de lucro desmesurado e pelas tendências ideológicas odiosas, que manipulam as ações e os destinos dos homens.

Em nome da liberdade, que Deus deu a todos os seres humanos, criando-os livres e enobrecendo-os com ela.

Em nome da justiça e misericórdia, fundamentos da prosperidade e pilares da fé.

Em nome de todas as pessoas de boa vontade, presentes em todos os cantos da terra.

Em nome de Deus e de tudo isto, (…) declaramos adotar a cultura do diálogo como caminho; a colaboração comum como conduta; o conhecimento mútuo como método e critério”.

10/09/2020

A crise e a Pátria Amada

A semana da Pátria convida-nos a rever, revisitar aspectos importantes da realidade brasileira. O Hino Nacional apresenta alguns destes aspectos: “teus risonhos, lindos campos têm mais flores. Nossos bosques têm mais vida. Nossa vida, no teu seio, mais amores”.

 

A poesia consegue expressar com beleza e nitidez o que, talvez, o discurso não alcança. As riquezas e oportunidades oferecidas pelo território nacional são inúmeras!

 

Contudo, o país é marcado por incompreensíveis desigualdades sociais. Diante dessa situação histórica, o discípulo de Jesus Cristo não pode permanecer indiferente. Isto porque “o verdadeiro cristianismo rejeita a ideia de que uns nascem pobres e outros ricos, que os pobres devem atribuir sua pobreza à vontade de Deus” (H. Câmara).

 

Recentemente a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, a Ordem dos Advogados do Brasil, a Comissão de Defesa dos Direitos Humanos Dom Paulo Evaristo Arns, a Academia Brasileira de Ciência, a Associação Brasileira de Imprensa e a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência se uniram e dirigiram a palavra a todos os cidadãos brasileiros, expressando a gravidade vivida pela imensa maioria da população da Pátria amada: 

“A hora é grave e clama por liderança ética, arrojada, humanística, que ecoe um pacto firmado por toda a sociedade, como compromisso e bússola para a superação da crise atual. Como em outras pandemias, sabemos que a atual só agravará o quadro de exclusão social no Brasil. Associada às precárias condições de saneamento, moradia, renda e acesso a serviços públicos, a histórica desigualdade em nosso país torna a pandemia do novo coronavírus ainda mais cruel para brasileiros submetidos à privações. Por isso, hoje nos unimos para conclamar que todos os esforços, públicos e privados, sejam envidados para que ninguém seja deixado para trás nesta difícil travessia. Não é justo jogar o ônus da imensa crise nos ombros dos mais pobres e dos trabalhadores. O princípio da dignidade humana impõe a todos e, sobretudo, ao Estado, o dever de dar absoluta prioridade às populações de rua, aos moradores de comunidades carentes, aos idosos, aos povos indígenas, à população prisional e aos demais grupos em situação de vulnerabilidade. Acrescente-se ao princípio da dignidade humana, o princípio da solidariedade – só assim iremos na direção de uma sociedade mais justa, sustentável e fraterna”.

A crise requer ações, iniciativas viáveis, “remédios”!. É a crise que indicará o caminho da superação, no confronto com as verdades do Evangelho. O Evangelho, lido, relido, meditado, rezado e dialogado na comunidade aponta critérios e valores para a leitura da crise. Oferece também luzes necessárias para o caminho de sua superação, qual oportunidade para um futuro digno para todos.

03/09/2020

O que significa a vida humana

A vida é dom e compromisso! É inerente ao ser humano desejar vida e vida em plenitude. Contudo, é sempre necessário buscar compreender o que significa viver.
 

Usualmente, imaginamos que porque vivemos, já sabemos o que é a vida. E a partir desse pressuposto nos consideramos aptos a edificar e determinar todo relacionamento com as coisas, as pessoas e o mundo.


Sentimo-nos seguros de nosso entendimento do que é viver e aptos a construir interpretações a respeito do modo de ser da vida até dos outros. A certeza manifesta-se tão vigorosa que alimentamos a certeza de distinguir o vivo do morto. Todavia não sabemos o que é o modo de ser da vida e nem em que consiste a essência da morte. Nesta situação, esperamos que a biologia, a sociologia, a psicologia, a antropologia, a neurociência etc. nos digam o que é a vida e em que consiste viver.


Ora, a vida emerge e surge para depois eclodir, abrindo-se e se transformando para depois novamente retrair-se na morte.


Por trás dos discursos seguros de seus argumentos em torno da vida e do viver, da liberdade e da dignidade humana, uma questão essencial é murmurada: mas o que é precisamente o ser humano? Em que consiste o humano do ser humano? O que determina a dignidade do ser humano, inviolável ontem, violável no presente?


Verdade é que o “homem se tornou perigoso para si mesmo, pondo em risco a própria vida que o carrega e a própria natureza em cujo abrigo ele outrora recortava o recinto de suas cidades” (P. Ricoeur). Se até recentemente o ser humano era considerado um ser político, agora, ao que tudo indica, ele tornou-se um ser em cujo agir político sua própria vida de ser vivo se encontra ameaçada. Tal situação está conduzindo-o à perda da serenidade das coisas e o sentido para o mistério. Na regência dessa dupla perda, tudo passa a ser permitido e aceito, e os princípios do bem e do mal se tornam relativos. Neste âmbito, a desolação elimina as possibilidades de criar, extinguindo as virtualidades de toda criação. Tudo se torna produto e mercadoria.


É, porém, salutar recordar que o humano da pessoa é um constante emergir. A identidade humana está sempre presente em cada estrutura, desde a concepção. Desde este instante é em si indiviso, mas distinto de qualquer outro ser. É nesta elaboração singular que reside o concreto em todo e de todo indivíduo.


O autêntico desejo de promover a vida não pode não guiar-se pela defesa e promoção intransigente do “que já sempre era ser” (quod quid erat esse - Boécio).

20/08/2020

A vida e o viver

O que é a vida? Guimarães Rosa afirma que “A vida é noção que a gente completa seguida assim, mas só por lei duma ideia falsa. Cada dia é um dia”.
 

O que é o viver? Responde o mesmo autor: “Viver - não é - é muito perigoso. Porque ainda não se sabe. Porque aprender-a-viver é que é o viver, mesmo’”.


Responder as perguntas “o que é a vida?” e “o que é o viver?” requer também atenção ao que indica a biologia, a sociologia e a antropologia.


Para o senso comum, a vida é geralmente entendida como articulação das funções orgânicas que anima os corpos da natureza. A morte, por sua vez, seria o acontecimento que finaliza a vida. Esta compreensão vê a vida e a morte como objetos opostos, podendo ser entendidas e determinadas a partir de classificações e

sistematizações metodológicas, passíveis de entendimento e manipulação científica.


Contudo, a compreensão oferecida pelas ciências acima elencadas não respondem satisfatoriamente às questões “o que é a vida?” e “o que é o viver?”.


A vida e o viver jamais são algo “fora” do ser humano! A vida é o que nos é mais próximo; ela constitui a nossa essência, o íntimo mais íntimo de todo ser humano. Ela jamais pode ser objetivável, “coisificável”. Ela não cabe numa definição, pois ela, a cada dia, se dá.


Não sendo possível falar sobre a vida, nada impede de falar “desde a vida”.


Assim, é possível uma aproximação a respeito da vida e do viver a partir do interesse que estamos sendo, na experiência efetiva do que somos.


A vida nunca se apresenta definida, acabada. Ela é sempre uma possibilidade originária de ser. Ela é uma possibilidade de ser, constantemente, se superando.


Compreende-se, assim, que a vida jamais é coisa.


Viver é ser, e ser significa existir. A existência se manifesta no que fazemos. O viver, a vida se manifesta no que fazemos.


Tendo presente o que se tentou acima descrever, ou seja, de alguma forma dizer o que é a vida e o que é viver, compreende-se porque o fruto da geração humana, desde o primeiro momento de sua existência, exige o respeito, o cuidado e a promoção incondicional que é devido ao ser humano na sua integralidade. Desde o primeiro instante da concepção é pessoa viva, iniciando seu viver. Sendo assim, goza dos direitos da pessoa; antes de tudo o direito inviolável de cada ser humano inocente à vida.

13/08/2020

Por onde ir?

“Somar forças!”, “A união faz a força!”, “Povo unido jamais será vencido!” são algumas expressões que aprendemos desde crianças. Contudo, promover a união de um povo ou nação desafiada por urgência ou necessidade requer determinação, sensibilidade, capacidade de mobilização das melhores forças humanas.

A crise vivida pelo Brasil exige liderança para a união de todos em prol do cuidado e promoção da vida, especialmente dos mais pobres e fragilizados.
 

A ideologia do neoliberalismo não hesita em deixar pelo caminho quem quer que seja, desmontando instituições e direitos, esvaziando organismos de participação popular e desacreditando a ciência.

Contudo, mesmo em meio à carência de liderança ética, despontam sinais fortes de solidariedade envolvendo pessoas, grupos, instituições e empresas. A carência de solidariedade social seria sinal de morte da própria sociedade! Por isso, há motivo para esperança.


Se por um lado, acompanhamos a manifestação de opiniões e promessas simplórias, marcadas por autorreferencialidade e vaidade, por outro lado se constata a grandeza humana de tantos capazes de altruísmo, senso de pertença e corresponsabilidade social.


O atual contexto sócio-econômico-político-cultural e eclesial solicita a cooperação de quem, à luz do Evangelho e da Doutrina Social da Igreja, se sabe responsável pela vida, corresponsável pela defesa e promoção da democracia e, consequentemente, apto a indicar soluções viáveis para a superação do difícil cenário estrutural de escandalosa desigualdade de nosso país no qual o vírus, com suas consequências, se instalou. E isto agravado por forças obscuras presentes no tecido social.


O Papa Francisco nos exorta a construir pontes, não muros; a proceder marcados pela sinodalidade. Nesse trabalho, a disposição para o diálogo lúcido, franco e honesto é condição sine qua non. A participação e contribuição de todos os que acreditam na possibilidade de construção de uma sociedade mais justa é uma prioridade.


O “novo normal” pós-pandemia que almejamos, só será possível se formos capazes de oferecer alternativas, abordagens novas e práticas de sucesso, colaborando assim para rever projetos, comportamentos e processos. Venceremos a crise!


A construção de um novo tempo para a sociedade brasileira pressupõe a união de forças, a superação de partidarismos e ideologias que desrespeitam a vida e negam o princípio do bem comum, o acolhimento das diferenças e a disposição autêntica e generosa para a construção de uma “Terra sem males”.

06/08/2020

A doutrina social da Igreja

A fé cristã é um ato de liberdade; é fruto de uma experiência pessoal de encontro com Jesus Cristo, que consequentemente requer abertura de coração e de mente para acolher e assumir a responsabilidade social daquilo que se acredita. Ela ilumina o intelecto para compreender melhor o projeto de Deus sobre a criação e sobre a vida e o destino do ser humano, chamado à comunhão trinitária.

A fé que acolhe a palavra divina e se empenha para pô-la em prática, interagir eficazmente com a razão. A inteligência da fé, em particular da fé orientada à práxis, é estruturada pela razão e vale-se de todos os contributos que esta lhe oferece.


A Igreja cônscia de sua missão de evangelizar, sabedora de que a dimensão social lhe é essencial e ineludível, atenta aos sempre novos desafios e ciente de que “a norma fundamental do Estado deve ser a prossecução da justiça e que a finalidade de uma justa ordem social é garantir a cada um, no que diz respeito ao princípio da subsidiariedade, a própria parte nos bens comuns” (Bento XVI), foi elaborando ao longo do tempo sua própria doutrina social apoiada na lei natural, no Evangelho de Cristo e na tradição da fé.


Suas análises, indicações e propostas não pretendem conferir poder sobre o Estado; nem quer impor, àqueles que não compartilham a fé, perspectivas e formas de comportamento que pertencem a esta. Deseja simplesmente contribuir para a purificação da razão e prestar a própria ajuda para fazer com que aquilo que é justo e em vista do bem comum possa, aqui e agora, ser reconhecido e, depois, também realizado.


Diante das diversas questões e desafios sócio-político-econômicos urge discernir em cada circunstância o verdadeiro bem e escolher os meios adequados para cumpri-lo. Isso pressupõe clarificar e avaliar a situação, abrir-se à inspiração do Espírito e sondar o necessário e viável para desenvolver uma ação eficaz. Tais atitudes favorecem decisões coerentes, realistas e orientadas pelo senso de responsabilidade.


A atual crise mundial escancarou desigualdades galopantes que o modelo produtivo globalizado impôs sobre as populações. Diante desse quadro, readquirem importância os valores da vida, da justiça e do cuidado.

Promover aspectos da Doutrina Social da Igreja, sobretudo no tocante aos temas da política, do bem comum, da ética, do cuidado da Terra e da vida em todas as suas manifestações e especialmente da vida humana, desde a sua concepção até o seu ocaso natural, pode preencher, por exemplo, um vazio ocupado atualmente por espiritualidades tortas e desviadas.

23/07/2020

Desafio para as mídias sociais

A pergunta que muitos se fazem nestes últimos tempos, em meio a uma enxurrada de informações a respeito da situação política, econômica, sanitária no Brasil, é: onde está a verdade? Quem diz a verdade? O que é verdade? Como promover a vida saudável?
 

Tais perguntas são, certamente, mais que legítimas, pois nos sentimos atingidos por noticiários, opiniões de todo tipo, lives e, infelizmente, fake news. O momento que a sociedade atravessa requer de todos, sobretudo de quem tem poder de decisão sociopolítica, sensibilidade, serenidade, discernimento, prudência e determinação.


Lugar de destaque possuem as mídias sociais neste momento de crise da sociedade. Crise que possui vários aspectos: econômico, político, sanitário, ético, social. A inquietação, o temor, o medo e a angústia que caracterizam o momento histórico, encontram reflexo nas mídias sociais. O que por meio delas é expresso, aponta para aquilo de bom e de menos bom o ser humano traz em seu interior.


A tecnologia que sustenta as mídias sociais é expressão da capacidade do engenho humano - sua autonomia e liberdade. Nela se expressa o poder do espírito humano sobre a matéria, podendo assim colaborar para dar forma e transformar o ambiente. Seus frutos são um “verdadeiro dom para a humanidade” (Bento XVI).


Contudo, se por um lado, as mídias sociais favorecem o conhecimento e a ampliação das relações, por outro, se tornam também lugar para extravasamento da obscuridade que o ser humano traz em si. Infelizmente não faltam, por exemplo, aqueles que se escondem por trás de perfis falsos para expressar opiniões radicais, agressões e dados sem comprovação. Assim, um instrumental com potencial extraordinário para aproximar pessoas, construir consensos, propor iniciativas em vista do bem comum, é usado para desinformar, desagregar e destruir.


A oportunidade de acesso às novas mídias sociais oferece uma série de oportunidades, exigindo atenção ao modo como a experiência de relações tecnologicamente mediadas estrutura o conceito da alteridade ou das relações interpessoais e do mundo. Neste âmbito, a experiência da fé cristã coopera para iluminar caminhos onde a verdade e a vida possam fluir de forma responsável e ética.

08/07/2020

A benção, João de Deus


Há 40 anos, Porto Alegre recebeu, com entusiasmo, alegria e fé, um ilustre visitante: São João Paulo II. Era a primeira vez que o solo gaúcho acolheu um Papa! As pessoas que participaram daquele evento conservam na memória os momentos marcantes daqueles dias 04 e 05 de junho de 1980.

Na saudação ao Cardeal Vicente Scherer, S. João Paulo II fez uma bela referência aos porto-alegrenses e aos gaúchos: “saúdo a todo o povo de Porto Alegre e do Estado do Rio Grande do Sul. Viveis aqui a harmonia do encontro de tantas raças, fundidas em autêntica brasilidade. Sois uma lição viva de que é possível ao homem viver em fraternidade com o seu semelhante. Desta Arquidiocese que nasceu com o título e sob o patrocínio do Apóstolo São Pedro, o sucessor do mesmo Pedro cumprimenta a todos e para todos invoca as bênçãos de Deus, mas sobretudo, para os anciãos, os enfermos, os que sofrem no corpo ou na alma, para as criancinhas... A todos o Papa abraça com sincero afeto. Por todos o Papa reza, a todos os Papa abençoa” (Porto Alegre. 04.07.1980).

A benção invocada pelo “Papa que veio de longe” sobre o nosso povo encontra, 40 anos depois, repercussão. Vivemos tempos críticos; experimentamos um tempo precário, de incertezas, de silêncio e de esvaziamento. A crise do tempo atual exige retomarmos as questões fundamentais: o que é o ser humano? Em que consiste a existência humana? Qual a importância do cuidado pela vida? Por que da necessidade de cuidarmos de nossas relações interpessoais? Diante da realidade da pandemia provocada pelo novo coronavírus, vale perguntar: está o vírus provocando uma doença terrível, ou já estávamos doentes antes de seu surgimento?
Se há 40 anos o Brasil estava vivendo um período de abertura democrática, após anos de dura crise política, hoje, vive um tempo marcado pela conjugação de várias crises, exigindo de todos aquilo que Papa Wojtyla apontava já naquela visita como uma necessidade: construir “juntos (...) uma civilização da verdade e do amor, uma cultura que promova sempre mais o homem e facilite sua evangelização, ajude-o a crescer em sua dimensão: humana e divina, e a reconhecer o valor do próprio ser, o sentido de sua existência, a conhecer e a amar Cristo no qual Deus se revelou plenamente a cada homem e a cada povo” (Rio de Janeiro, 01/07/1980).

01/07/2020

Como preservar a liberdade de um povo

O filósofo francês M. Onfray publicou recentemente uma obra intitulada “Teoria da ditadura”. Nela ele identifica fases para a implantação de uma possível ditadura: destruir a liberdade, empobrecer a língua, abolir a verdade, suprimir a história, negar a natureza, propagar o ódio, aspirar ao império.

A destruição da liberdade se efetuaria por meio do controle social, eliminando a vida pessoal e a solidão, padronizando a opinião, cerceando o pensamento e oferecendo “circo” para as multidões. O empobrecimento da língua ocorreria pelo uso de uma linguagem ambivalente. A eliminação da verdade se daria pela multiplicação de notícias falsas e manipulação da imprensa com a imposição de uma orientação única e precisa.

Regimes políticos autoritários usualmente recorrem a medidas de emergência, à subordinação do poder legislativo ou judicial ao executivo, à promoção da ignorância ou não respeito às minorias, à subordinação do Estado aos interesses de grandes grupos financeiro-econômicos, empresariais ou aos assim denominados “investidores internacionais”, à difusão de ataques contra a liberdade de expressão, a disseminação de fake news, ao desmerecimento da participação popular nos espaços de participação sócio-política, etc.

Quando o cidadão não pode agir sobre si mesmo e, respeitados os princípios éticos, interagir livremente com as pessoas com as quais convive, então se pode dizer que se está sob um regime de dominação.

O direito a participar da vida pública não pode ser negado aos cidadãos; da mesma forma tal direito não pode ser só formalmente declarado e impedido seu exercício; também é inconcebível um aparato burocrático que nega ou impede ao cidadão a possibilidade de agir como ator da vida social e política. Da mesma forma, tentativas de cidadãos ou entidades de “negociar” as condições mais vantajosas para si com as instituições, como se estas estivessem a serviço de necessidades egoísticas, precisam ser combatidas com vigor, pois ferem o princípio do bem comum.

A dignidade e liberdade de uma sociedade consistem em privilegiar a vida, pois ela é dom e compromisso! Para isso, faz-se necessário a união entre todas as pessoas que continuam a crer no triunfo final da vida sobre a morte.

26/06/2020

A fé e os ambientes digitais

As possibilidades proporcionadas pelos ambientes digitais representam um instrumental poderoso para compartilhar o bem e nos colocar a seu serviço.

As tecnologias digitais não são meras ferramentas. Elas tornam acessível a muitas pessoas o que de melhor a humanidade foi e é capaz de produzir. Tudo depende do arbítrio de cada um, o como, o porquê e o para quê delas se faz uso. Merecem especial atenção as possíveis mudanças propiciadas por elas na vida humana diária, pois os processos de criação e manutenção de laços sociais podem ser diferentes.

O advento das redes e das mídias sociais favoreceu o surgimento de um ambiente inovador, onde são desenvolvidos encontros, conhecimentos e lazer. Elas favorecem a imposição de padrões de comportamento social, gerando, por vezes, também preocupação.

O acelerado desenvolvimento tecnológico traz certamente inúmeras possibilidades de recursos, interação e conforto. Contudo, submete todos a dispositivos de controle e vigilância que ferem a liberdade, a segurança e a verdade, promovendo também o surgimento de instrumentos de controle e beligerância de toda espécie.

A situação de distanciamento social, imposta pela pandemia do coronavírus, consolidará provavelmente os ambientes digitais como espaços de trabalho, lazer, interação, debates sócio-político-econômicos e vivência religiosa. As oportunidades de ocupação que as tecnologias digitais oferecem, não podem ignorar a dimensão pessoal e social do ser humano, e o salutar cultivo da alteridade, com seus riscos e desafios.

As mídias digitais, com seus ambientes, proporcionam um novo contexto existencial, e consequentemente promovem uma transformação antropológica. A fé cristã acompanha com interesse tal desenvolvimento, atenta à necessidade de promover a verdade e a liberdade, como também responder adequadamente aos desafios de tornar sempre mais compreensível e acessível seus conteúdos.

Por isso, a Igreja, estando presente nos ambientes digitais, espaço onde sempre mais as pessoas se fazem presentes desenvolvendo conhecimento e relações, se empenha por integrar a mensagem do Evangelho nesta “nova cultura” criada, desenvolvida e promovida pelo instrumental digital.

17/06/2020

As festas de junho

As tradicionais festas juninas representam uma oportunidade privilegiada para tomar distância da cotidianidade com seus usuais e necessários afazeres, e re-fazer a experiência do encontro alegre de pessoas, através da música, do canto e da dança. É também oportunidade para novamente degustar o quentão, a pipoca, o pé de moleque, a broa de fubá, a paçoca e a canjica, expressões de uma saudade da vida simples do campo. É que quase sem contato com as coisas da terra e sem contatos vigorosos entre si, as pessoas não deixam de ser seres da terra, marcadas pelo desejo do encontro, alegria e partilha do que há de mais íntimo no humano: o convívio harmonioso, alegre e solidário.

As festas juninas fazem parte do folclore nacional. Em tempos de modernização acelerada, elas recordam a necessidade de promover uma convivência pacífica e salutar entre a tradição e a modernidade, entre o homo ludens o homo faber, entre o céu e a terra, pois “crescer significa abrir-se à amplidão dos céus, mas também deitar raízes na obscuridade da terra; que tudo que é verdadeiro e autêntico somente chega à maturidade se o homem for simultaneamente ambas as coisas: disponível ao apelo do mais alto céu e obrigado pela proteção a terra que oculta e produz” (M. Heidegger).


Os elementos que compõem estas festas – fogos de artifício, músicas tradicionais e danças, pratos típicos, erguimento do mastro – conservam um sentido, por vezes diluído, de unidade entre tudo o que existe e sucede na experiência humana. Este sentido se coloca à disposição de todos através das tradições culturais que representam a hipótese de realidade com que cada pessoa pode olhar o mundo em que vive. Entretanto, em um mundo no qual tudo se torna motivo de negócio, até mesmo o folclore, as tradições culturais e religiosas, com sua sabedoria, correm o risco de perder sua característica de oferecer significado à vida e ao mundo.


As festas juninas expressam a saudade e o desejo humano de confraternização, favorecendo a promoção de integração e de comunhão. Representam a possibilidade de, a partir de uma realidade fragmentada e de um sentido de vida diluído, favorecer a superação das dificuldades imputadas, a extinção de bloqueios e empecilhos impostos nestes últimos tempos por um vírus, e a reconstrução da unidade de todas as coisas.

10/06/2020

A quem iremos? O que fazer?

Várias situações do momento presente nos levam a perguntar: o que fazer? Esta questão encontra eco na constatação do Papa Francisco, no dia 27 de março, diante de uma Praça de São Pedro vazia, num final de tarde: “Desde há semanas que parece o entardecer, parece cair a noite. Densas trevas cobriram as nossas praças, ruas e cidades; apoderaram-se das nossas vidas, enchendo tudo dum silêncio ensurdecedor e de um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: pressente-se no ar, nota-se nos gestos, dizem-no os olhares. Revemo-nos temerosos e perdidos”. 


Uma mutação de um vírus está impondo a modificação do estilo de vida: trabalho, saúde, educação, economia, prática religiosa. Está rasgando o véu da desigualdade social, da injusta distribuição da renda que está se transformando em uma “bomba-relógio de raiva e desconfiança”, da falta de cuidado para com a Casa Comum. Há quem apregoa a necessidade de redesenhar o sistema econômico tradicional. O lucro a todo custo certamente não poderá mais ser admitido e permitido.


A pandemia mostra que o Estado não estava preparado - e não está! -, para proteger seus cidadãos de um vírus. A tecnologia avançou a passos largos. Contudo suas conquistas e avanços não estão conseguindo vencer esse vírus, que ameaça a todos indistintamente.


O que fazer? Um futuro melhor só será possível se construído na dinâmica de um presente. Isto requer disposição para superar a insolência dos oportunistas de plantão.


Sob a aparência de juras de amor pelo ser humano, observa-se o desprezo pelo ser humano. “O desprezador despótico dos seres humanos (...), aproveita o que a de mais ordinário no coração humano, alimentando-o e dando-lhe outros nomes: medo passa a ser responsabilidade; ganância chama-se aplicação; dependência transforma-se em solidariedade; brutalidade em senhoralidade. (...) Para ele a popularidade vale como prova do maior amor aos seres humanos; ele esconde sua profunda e secreta desconfiança contra todos os seres humanos atrás de palavras roubadas de verdadeira comunhão” (D. Bonhoeffer).


Nestes tempos que parecem o entardecer e o cair da noite, impõe-se a pergunta: O que fazer? Esta foi também a pergunta dos discípulos de Jesus no momento da crise: “A quem iremos Senhor? Só tu tens palavras de Vida eterna” (Jo 6,68)!

21/05/2020

Um vírus e a imposição da solidariedade

“Tudo está interligado”! Esta afirmação do Papa Francisco, em sua Encíclica “Laudato Si´” (2015), embora, quando de sua publicação, tenha causado estranheza, se mostra de grande atualidade, especialmente diante da crise que o mundo está experimentando à causa de um vírus.

Impôs-se de forma inesperada uma nebulosidade sobre nações e povos, provocando graves preocupações: quais as verdadeiras dimensões da crise estabelecida pela pandemia do coronavírus? Quantos estão sendo atingidos? Quem, se infectado, pode encontrar um sistema de saúde à altura de responder às próprias necessidades? Os poderes públicos estão respondendo aos desafios que se impõe? Como responder e quem responde ou responderá pelas escolhas que, em algumas regiões, provavelmente se impõem aos profissionais da saúde entre aqueles que podem receber o atendimento necessário e os que não recebem, pois faltam condições mínimas para atender a todos adequadamente? Quantos ainda morrerão atingidos pelo vírus?

O ser humano, após essa crise, continuará certamente vivendo na Terra, como também sendo mortal e frágil. Também, provavelmente, o vírus, segundo a ciência, continuará presente no meio ambiente. Este minúsculo ser subverteu a ordem mundial em suas dimensões social, política, econômica e também religiosa.

A tradição cristã recorda a importância de obras que dizem respeito ao cuidado e a promoção da vida, qual caminho de salvação. Recorda também o necessário cuidado da casa comum nas suas diversas dimensões: corpo humano físico, familiar e social, e o meio ambiente.

Recorde-se que o seguimento de Jesus não se reduz a um problema da espiritualidade. Ele pressupõe o empenho e determinação na tarefa de construir a fraternidade humana, fundamentada na justiça e na paz.

É urgente e imperiosa a necessidade de planejar o futuro. A esperança cristã se torna uma necessidade vital. Ela “é sempre essencialmente esperança para os outros; só assim é verdadeiramente esperança também para mim” (Bento XVI), afinal habitamos a Terra e continuaremos frágeis e mortais.

Sustentados pela fé, capazes de caridade e animados pela esperança colaboramos para deixar o mundo um pouco melhor para aqueles que virão depois de nós.

15/05/2020

Escolhas urgentes

O momento atual impõe a necessidade de reflexão sobre o mundo desejado para o período pós-pandemia. O que até então se considerava socialmente normal está sendo suplantado pela necessidade de novos esquemas e ritos existenciais.

O vírus que se espalhou pelo mundo preocupa – e muito! Diante das consequências impostas à sociedade, se redescobre a importância da pesquisa, da ciência, do sistema de saúde e do senso de corresponsabilidade social. Escolhas pessoais e sociais a serem realizadas moldarão o futuro possível.

Como em pouco tempo o vírus se disseminou pelo mundo, também agora o mundo com urgência deve realizar escolhas vitais. O medo de uma doença grave e da morte, ameaçando a todos, e a rapidez das informações exigem atenção, pois o perigo é extenso e os efeitos devastadores. De repente, a simplicidade que marcava as relações sociais cedeu lugar à complexidade em que se transformou o mover-se e o interagir.

Uma questão vai se delineando necessária: qual direção se deseja dar para o futuro? Ao que tudo indica, se está impondo uma nova ordem, pois o mundo conhecido até então, com suas normas e regras, oferece sinais de que está chegando ao seu ocaso. Tal situação solicita ousadia e criatividade da parte dos diversos setores da sociedade. Neste contexto, destaque especial há de se dar ao espírito de solidariedade e à obra do cuidado.

Opiniões inspiradas em ideologias e “informações” que ignoram os méritos da ciência podem inescrupulosamente suprimir a necessidade vital de reconhecer o vínculo original entre o ego e o outro. Ignorar esse vínculo vital é cooperar para o impor-se do conflito e, consequentemente, o recrudescimento da morte.

07/05/2020

Redescobrir o elementar

A humanidade sofre uma epidemia que atinge a todos, sem fazer discriminação. O que se ouve a respeito tem características de um pesadelo, do qual se deseja, o mais breve possível, estar livre. No entanto, a situação mostra que não se trata de pesadelo; se trata de doença contagiosa, de caráter transitório e que exige senso de pertença e corresponsabilidade social.

Os centros de pesquisa trabalham aceleradamente para encontrar meios para derrotar um vírus que, parece, veio para ficar por um bom tempo entre nós. Apesar de todos os avanços científicos e tecnológicos, há dificuldades para promover os cuidados necessários diante desse perigoso e minúsculo ser. Precaução e prevenção são uma urgência!

A crise vivida exige mudanças de atitudes, comportamentos, compreensão da vida, da saúde pública, modos de intervenção no meio ambiente, de concepção da economia e das relações sócio-político-religiosas. Ou seja, um novo paradigma se impõe.

O modelo atual de sustentação da sociedade é frágil! Aos poucos se redescobre a importância dos afetos, da solidariedade, do sorriso, da palavra amiga, do abraço, da prece. Não que tudo isso não estivesse presente na vida cotidiana. Estava, mas suplantado por outras prioridades. Agora um vírus está exigindo uma nova forma de vida, cultura e economia.

Acolher com prudência as indicações das autoridades sanitárias e da Organização Mundial da Saúde é sinal de colaboração e corresponsabilidade social. Desponta assim a conveniência de seguir as indicações precisas de caráter sanitário, atendendo à necessidade de organizar também a vida da comunidade de fé.

Liberdade e responsabilidade não são pilares sociais e políticos contrapostos. Há uma complementaridade entre ambos. Infelizmente a razão está sendo atropelada pela falta de limites entre a informação que protege e os exageros das opiniões, “achismos” e fake news, que promovem medo. Por isso, para quem pleiteia, por exemplo, os espaços religiosos, com seus cultos, abertos, resta a pergunta: há condições de higienização, de contingenciamento e controle de temperatura das pessoas? A partir de quais critérios objetivos?


Não estaria, pois, se impondo a necessidade ousadia e criatividade apostólicas, ou de redescobrir aquilo que São Paulo denominava “culto espiritual”: a meditação da Sagrada Escritura, a leitura orante da Palavra, a oração pessoal e em família, a caridade?

16/04/2020

Páscoa é passar para o que não passa

Ainda estamos vivendo o tempo da Páscoa, que é a celebração da passagem salvífica de Deus no meio de seu povo, libertando-o de Israel, da escravidão no Egito, para que O sirva de coração purificado.


A Igreja conservou elementos da tradição judaica, acrescentando conteúdo: tornou-se memorial da passagem de Jesus deste mundo ao Pai.


Para a comunidade cristã, a Páscoa é comemoração de toda a história da salvação, que tem como ponto culminante Jesus Cristo.

Páscoa é passagem. Passar é preciso! Se não passamos para Deus que permanece, passaremos com o mundo que passa. Mas quão melhor é passar “do mundo”, antes que passar “junto com o mundo” (Santo Agostinho). Páscoa é passar para aquilo que não passa.


O amor não passa. Ele é eterno, e pede tudo. Jesus “tendo amado os seus, amou-os até o fim”.

Neste momento de crise que vivemos, vale recordar o que escreveu Edith Stein, dias antes de ser executada num campo de concentração: “Estamos muito calmos e alegres. É claro que, até agora, não houve nenhuma missa e comunhão; talvez isso venha mais tarde. Agora temos a chance de experimentar um pouco como viver puramente a partir de dentro”.


A fé aponta o rosto de um Deus cuidadoso e compassivo; um Deus que serve, sustenta, cuida, se doa. O viver a partir de dentro convence e convoca.

Somos solicitados a superar toda forma de comodismo. Urge caminhar, avançar, respeitar a alteridade, compreender que o Senhor não só passa entre os seus e liberta, mas também caminha junto.


A crise que estamos vivendo apresenta um grande desafio à obra da evangelização, especialmente nestes tempos em que o “religioso” se transformou, para alguns setores da sociedade, em negócio rendoso, ou numa espécie de autoajuda. Um processo evangelizador que tenha como objetivo maior apresentar e promover a fé, o amor e o zelo por Cristo e seu Evangelho, levando as pessoas a amar a Deus mais do que qualquer outra coisa, e que, em Deus, amém e assumam tudo o que ele ama como seu mesmo amor, poderia seguramente promover a transformação da sociedade a partir de dentro. O amor exige ação! O cuidado e a promoção da vida requerem ação.


A sociedade e as instituições precisam de ousadia e criatividade apostólica para responder aos desafios e exigências do novo tempo inaugurado por um vírus.

09/04/2020

A vida sempre renasce na Páscoa

Os dias vividos em isolamento social suscitam angústias, tensões, conflitos, incompreensões, desânimo, expectativas, esperança. Neste contexto, celebramos a solenidade da Páscoa. Impõe-se, porém, uma questão: como celebrar a Páscoa, quando o ar está impregnado de ansiedade e inquietações?

Até pouco tempo, tudo parecia transcorrer dentro de uma certa normalidade. De repente, tudo parou! A rápida e segura travessia por um mundo aparentemente seguro e confortável foi repentinamente interrompida. A ânsia prepotente e onipotente do “eu” marcado pela autorreferencialidade e pela velocidade do mundo contemporâneo se viram confrontados por uma situação que exigiu parar.

A situação, a necessidade e a fragilidade do outro não tem encontrado espaço na sociedade do lucro indiscriminado, da eficiência sem limites e da produtividade sempre mais exigente. Bastou um vírus e tudo entrou em colapso!

A sensação vivida está sintetizada nas palavras do Papa Francisco, no último dia 27 de março: “Desde há semanas, parece cair a noite. Densas trevas cobriram nossas praças, ruas e cidades; apoderam-se de nossas vidas enchendo tudo com um silêncio ensurdecedor e um vazio desolador, que paralisa tudo à sua passagem: presente-se no ar, nota-se gestos, dizem-no os olhos. Nós nos encontramos temerosos e perdidos”.

Urge certamente retomar o cotidiano com suas necessidades, exigências e possibilidades, mas a partir de novos parâmetros, referências, horizontes. O mundo, que contém a todos e sustenta alguns, entrou em colapso, acabou.

O salutar e necessário “novo” pode irromper no horizonte da história se houver disposição para resgatar a antiga e sempre nova ética; a ética marcada pelo cuidado, respeito e promoção da vida e “vida em plenitude para todos”.

A solenidade da Páscoa recorda a necessidade de cristãos adultos, convictos de sua fé, experientes da vida segundo o Espírito e prontos a justificar a sua esperança.

Uma Santa e Abençoada Páscoa a todos e todas!

26/03/2020

Do isolamento nasce a esperança

Nestes tempos de crise, a orientação geral é o isolamento. Ouve-se por todo lado os pedidos “permaneça em casa”, “não saia de casa”. E isso nos faz lembrar que o distanciamento social solicitado pelas autoridades sanitárias só é possível porque existe o outro. Somos, assim, recordados que o ser humano não é “algo” isolado dentro de uma concha, existindo cada um por si, de modo que apenas em determinadas ocasiões o outro apareça em nosso campo visual.


O “fique em casa” é desafiador. No atual contexto, é tarefa de responsabilização. Porque não somos uma ilha, somos convocados, neste momento, ainda mais intensamente, à corresponsabilidade social, que é o contrário de um fechamento no próprio mundo. Esta nova postura é expressão de solidariedade e disponibilidade. Disponibilidade para cooperar na superação dos desafios impostos a toda a humanidade. Solidariedade com todas as pessoas submetidas a um perigo comum.


Na resposta pessoal àquilo que a sociedade solicita de todos, está latente a possibilidade de resgatar um sentido novo – que, na verdade, não é novidade! – para as relações sociais, políticas, religiosas e econômicas. Pode ser que estejamos sendo solicitados, ainda que na penumbra do não totalmente compreensível, a penetrar mais intensamente na realidade do mundo para, a partir dela, erguer o olhar e perceber que existe esperança.


Isolamento não é sinônimo de esquecimento: não podemos esquecer do cotidiano, do mundo e de nós mesmos. Pode-se colher nessa situação uma necessidade de retorno a si mesmo, de promover o cuidado para consigo e para com quem nos é caro, e de focar no que verdadeiramente é importante.


Diante do afã cotidiano marcado por compromissos de todo tipo, mas não dispensados do senso de pertença e corresponsabilidade social, somos forçados a sondar uma nova possibilidade de vida em sociedade, onde os interesses econômicos não sejam sobrepostos ao respeito pela vida, ao cuidado do meio ambiente, e à promoção da dignidade de cada ser humano.


Precisamos acreditar que após essa crise provocada por um vírus virá uma revolução humana, capaz de nos salvar, salvar o clima e o planeta. Há uma bondade e beleza presentes na ordem da criação que não pode ser esquecida. Por isso, a esperança rasga um novo horizonte; e a esperança não decepciona!

19/03/2020

O sentido da vida

O tempo presente requer de todos disposição e determinação para aprofundar a compreensão do sentido da vida. Ela é dom e compromisso, que se traduz em relações de mútuo cuidado entre as pessoas, na família, na comunidade, na sociedade e no planeta, a Casa Comum.

Entre as muitas conquistas e realizações da técnica e da ciência, que proporcionam melhores condições de vida, constatam-se também situações escandalosas que necessitam de vigilância e cuidado.


Saltam aos olhos os índices de suicídio, automutilação, drogadição e depressão na sociedade. O que dizer da viabilidade do acesso à saúde e educação com qualidade; de tanta violência, da degradação dos espaços de decisão democrática?


A agressividade, a violência e a corrupção – expressões de falta de sensibilidade humana, educação e cultura – que se manifestam em gestos, palavras e ações, são sinais de que algo não está bem em nossa sociedade. Tal situação, porém, não pode nos roubar a convicção de que é possível cuidar da vida e promover a convivência em todos os âmbitos da existência.


A tradição judaico-cristã ensina que no caminho das origens de todo o universo havia harmonia (Gn 1,25); mais ainda: “tudo era muito bom” (Gn 1,31). Na origem de tudo havia reverência, senso de pertença e acolhimento. Somos, pois, convocados a reconstruir a harmonia das origens. Como? Através da reconciliação e da misericórdia. 


Os tradicionais exercícios da quaresma são um caminho privilegiado para reencontrar o vigor das origens. O jejum abre nossa pessoa para a receptividade, para a liberdade da vida em Cristo. A esmola nasce da alegria de ter encontrado o tesouro escondido (Mt 13,44). O amor, a misericórdia e o cuidado buscam o outro! A oração é reconhecimento da experiência pessoal do cuidado amoroso de Deus em Jesus Cristo. Ela é silêncio e palavras de gratidão e súplica.


A quaresma é um tempo vivido especialmente pelos fiéis católicos, sabemos. Ela, incluindo o contexto de pandemia do coronavírus (COVID-19), quer ser um caminho para conduzir a todos ao encontro da Vida. Chamo “caminho” porque é um processo existencial, mudança de vida, transformação da pessoa que se deixa atingir pela pessoa de Jesus Cristo e que, assim, encontra um sentido para a própria existência.

11/03/2020

O cuidado com o feminino

A celebração do Dia Internacional da Mulher convida à reflexão sobre a dignidade e a beleza do feminino. Suscita também questões que o gênero literário busca ilustrar.


“Conta-se que quando Deus decidiu criar a mulher, descobriu que havia esgotado todos os materiais sólidos no homem. Depois de profunda meditação, fez o seguinte: tomou a redondeza da Lua, as curvas suaves das ondas, a terna aderência de uma planta trepadeira, o trêmulo movimento das folhas, a esbelteza da palmeira, a cor delicada das flores, o olhar amoroso da corça, a alegria do raio de sol e as gotas de pranto das nuvens, a inconstância do vento, a modéstia do lírio e a vaidade do pavão, a suavidade da pluma e a dureza do diamante, a doçura da pomba e a crueldade do tigre, o ardor do fogo e a frieza da neve. Com esses ingredientes criou a mulher e deu-a ao homem.


Depois de uma semana, o homem Lhe disse: — "Senhor, a criatura que me destes me faz infeliz: quer toda a minha atenção, nunca me deixa sozinho, fala sem parar, chora sem motivo, diverte-se fazendo-me sofrer e estou vindo devolvê-la porque não posso viver com ela!" — "Está bem", respondeu Deus, e tomou a mulher de volta. Passou outra semana, o homem voltou e disse: — "Senhor, estou muito solitário desde que devolvi a criatura que fizestes para mim. Ela cantava e brincava ao meu lado, olhava-me com ternura e seu olhar era uma carícia, ria e seu riso era música, era formosa e suave ao tato. Devolvei-a, porque não posso viver sem ela!" —"Está bem", disse o Criador. Mas, três dias depois, o homem voltou e disse: —"Senhor, eu não consigo explicar, mas depois desta minha experiência com esta criatura, cheguei à conclusão que ela me causa mais problemas do que prazer. Peço-lhe, tomá-la de novo! Não consigo viver com ela!" O Criador respondeu: — "Mas também não pode viver sem ela." O homem desesperado disse: —"Como é que eu vou fazer? Não consigo viver com ela e não consigo viver sem ela." — "Achei que, com as tentativas, você já tivesse descoberto, respondeu Deus. Amor é um sentimento a ser aprendido: é tensão e satisfação. É desejo e hostilidade. É alegria e dor. Um não existe sem o outro. A felicidade é apenas uma parte integrante do amor. Isto é o que deve ser aprendido. O sofrimento também pertence ao amor. Este é o grande mistério do amor. A sua própria beleza e o seu próprio fardo. Em todo o esforço que se realiza para o aprendizado do amor é preciso considerar sempre a doação e o sacrifício ao lado da satisfação e da alegria. A pessoa terá sempre que abdicar alguma coisa para possuir ou ganhar uma outra coisa. Terá que desembolsar algo para obter um bem maior e melhor para sua felicidade. É como plantar uma árvore frente a uma janela. Ganha sombra, mas perde uma parte da paisagem. Troca o silêncio pelo gorjeio da passarada ao amanhecer. É preciso considerar tudo isto quando nos dispomos a enfrentar o aprendizado do amor."


O amor, fundamento de qualquer relação humana, é ainda mais necessário na relação da sociedade atual com as mulheres, quando constatamos que ainda não há equidade em diversos espaços, e que a violência fere e tira a vida de tantas delas.


A Campanha da Fraternidade deste ano, cujo tema é “Fraternidade e vida: dom e compromisso”, reserva espaço especial para o tema do feminicídio, e nos lembra que ainda será necessário empreender muitos esforços para que realmente a vida esteja em primeiro lugar.


Em 2017, conforme o documento, a cada dez feminicídios registrados em 23 países, ocorrem no Brasil. Segundo a Agência Senado, “naquele ano, pelo menos 2.795 mulheres foram assassinadas, das quais 1.133 no Brasil. Já o Atlas da Violência 2018, publicado pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública, apontou uma possível relação entre machismo e racismo: a taxa de assassinatos de mulheres negras cresceu 15,4% na década encerrada em 2016. Ao todo, a média nacional, no período, foi de 4,5 assassinatos a cada 100 mil mulheres, sendo que a de mulheres negras foi de 5,3 e a de mulheres não negras foi de 3,1.


De acordo com dados divulgados pela Secretaria de Segurança Pública (SSP) do Rio Grande do Sul, o número de feminicídios triplicou em janeiro deste ano no Estado. Foram 10 mortes de mulheres por questões de gênero no último mês, contra três em janeiro de 2019. Em 91,7% das cidades do país, não há delegacia de atendimento à mulher e em 90,3% das cidades do país não há nenhum tipo de serviço especializado no atendimento à vítima de violência sexual.


Como nos faz refletir a sabedoria bíblia, a relação de amor entre homem e mulher é obra de Deus. No dia dedicado à reflexão do feminino em nosso meio, cabe a toda pessoa de boa vontade a revisão de como tem valorizado a vida em todas as suas expressões.

27/02/2020

Lembra-te: és pó

Causa certo desconforto contemplar um sepulcro aberto e, juntamente com uns poucos ossos, ver um pouco de pó ou cinza, resquícios de um corpo humano que se decompôs. 


Na abertura do tempo quaresmal são impostas cinzas sobre a cabeça dos fiéis que participam da ação litúrgica. Elas simbolizam a caducidade da vida humana. Acompanha a imposição de cinzas a expressão: “Lembra-te que és pó, e ao pó retornarás”. 


As cinzas usadas na ação litúrgica são antecipadamente preparadas, com os ramos do Domingo de Ramos. Eles eram verdes e secaram; agora são transformados em cinzas.


O gesto litúrgico expressa uma verdade: tudo se torna cinza. Nossa casa, roupas, móveis, o próprio dinheiro; plantas, bosques, florestas. Os animais de estimação – ou não. As pessoas com quem convivemos; pessoas que se tornaram grandes, que fizeram história; pessoas poderosas, pobres, ricas; gênios das ciências, das artes, dos esportes, enfim, tudo que é vida, aos poucos, torna-se cinza.


O gesto de impor cinzas sobre a cabeça dos fiéis nos convida a tomar consciência da caducidade que acompanha a vida humana. O rito, simples e austero, aponta para a humana fragilidade e ao mesmo tempo pede um acréscimo de fé. O gesto é um incentivo para que tomemos maior consciência do justo valor das coisas terrenas.


Durante 40 dias a comunidade de fé é convidada a desenvolver uma maior consciência da própria existência e, ao mesmo tempo, se exercitar no caminho de vida proposto por Jesus Cristo, por meio, sobretudo, das tradicionais práticas do jejum, da esmola e da oração. Trata-se de um caminho de conversão, isto é, de empenho por maior sintonia pessoal, comunitária e social com a proposta do Evangelho do Crucificado-Ressuscitado. 


Anualmente, a Igreja do Brasil propõe, durante a Quaresma, o engajamento de todos os fiéis numa campanha denominada “da fraternidade”. É que o processo de conversão que cada fiel, particularmente durante este tempo, é convidado a assumir, possui dimensão pessoal, comunitária e social (cf. Tg 1, 27).

A Campanha da Fraternidade é um modo privilegiado pelo qual a Igreja do Brasil vivencia a Quaresma, recordando-nos que não se pode separar a conversão do serviço aos irmãos e irmãs, à sociedade e ao planeta. Ela representa um convite vigoroso a alargar o olhar e a perceber que o pecado ameaça a vida como um todo.

20/02/2020

O clamor da desigualdade social

A desigualdade social é uma realidade que marca a sociedade contemporânea. Tal situação requer capacidade de pensar as diversas dimensões do problema que toca a vida de muitos e as democracias.


O mundo é rico, mas os índices de pobreza aumentam. Segundo dados oficiais a renda mundial per-capita é de mais ou menos 12 mil dólares. No entanto, uma multidão de pessoas se encontra imersa em situação extrema de pobreza, não dispondo de alimentação suficiente, moradia, assistência médica, escolas, eletricidade, água potável, serviços sanitários adequados, segurança. Esta situação tem alimentado o tráfico humano, as novas formas de escravidão, o trabalho forçado, a prostituição e o comércio de órgãos.


O Brasil, em 2017, por exemplo, era considerado o 9º país mais desigual do planeta em distribuição de renda. Dados do IBGE revelam que, no ano de 2018, os 50% mais pobres da população brasileira sofreram uma retração de 3,5% nos seus rendimentos do trabalho. Por outro lado, os 10% de brasileiros mais ricos tiveram um crescimento de quase 6% em seus rendimentos do trabalho.
 

O quadro da desigualdade leva a uma forte banalização da vida. Cresce a relativização da existência, enfraquece-se o conceito de pessoa, chegando a justificativa legal de modalidades de homicídios e extermínios humanos, sob a alegação de conquista de direitos. Nesse sentido, assume maior importância o papel do Estado como guardião da vida. Ele tem uma função social, que precisa ser cumprida no hoje da história, com um efetivo equilíbrio entre as questões econômicas e as sociais. Quando falta o equilíbrio, emerge uma realidade humanitária cruel que, por vezes, causa desespero, sendo que os mais pobres são os que mais sofrem.  


A desigualdade social é uma realidade complexa. Com o intuito de promover um debate sobre o tema e buscar indicações para superar tal realidade, o Papa Francisco convidou economistas, ministros da economia, banqueiros e especialistas para um simpósio (05/02/20), cujo tema era “Novas formas de fraternidade solidária, de inclusão, integração e inovação”. Segundo o Papa, é necessário encontrar mecanismos socioeconômicos humanizantes para toda a sociedade. O tempo presente exige e requer uma lógica capaz de promover a interconexão, favorecendo uma cultura do encontro, capaz de renovar as bases de uma nova, sólida e justa arquitetura financeira internacional.

30/01/2020

Festa de Navegantes: 145 anos de fé

No dia 2 de fevereiro, a cidade de Porto Alegre se encontra para celebrar a festa de Nossa Senhora dos Navegantes. Devoção e admiração marcam a caminhada de muitos sob sol forte e asfalto quente. Há aqueles que realizam o trajeto descalços!
 

A devoção do povo “nasce da fé, que reconhece a grandeza de Maria de Nazaré e incita a amá-la filialmente e a imitar as suas virtudes”. Trata-se de uma rica tradição inaugurada há quase um século e meio, e que continua iluminando e sustentando a caminhada de fé “de mulheres e homens de boa vontade”.

 

O reconhecimento público da dignidade e santidade de Maria, generosa cooperadora e serva humilde do Senhor, é expressão de fé e confiança. Esta dignidade e santidade foram vividas na discrição de uma vida corriqueira, primeiro numa pequena cidade da Galiléia, Nazaré; depois acompanhando o seu filho Jesus ao longo de seu itinerário.

 

O povo a vê como mulher simples e forte, humilde e de fé, discreta e atenta. Por isso, a ela se dirige, invocando-a como “advogada, auxiliadora, socorro e medianeira”!

 

No dia 2 de fevereiro, festa da Senhora dos Navegantes, nosso povo devoto ou admirador e curioso, engajado na vida da Igreja ou mesmo pertencendo a outras expressões religiosas, vindo de longe e de perto, sob sol ou chuva, de forma simples e reverente se põe em marcha acompanhando a imagem da Senhora dos Navegantes até o seu Santuário.

 

Distintos credos e expressões religiosas participam desse momento singular, expressando reverência e confiança no poder da mulher invocada como Senhora dos Navegantes.

 

Somos todos navegantes nos mares da vida. Sob o olhar da Senhora dos Navegantes encontramos a necessária segurança para suportar as tempestades da vida.

 

A Igreja no Brasil, neste ano de 2020, por meio da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, nos convida a refletir e rezar o tema “Fraternidade e vida”. Esse tema emerge como um clamor de tantas pessoas que sofrem de inúmeras formas e da criação que se vê espoliada.

 

A Senhora dos Navegantes ensina que não se pode separar a vida de fé do serviço solidário às pessoas, à sociedade e à Casa Comum.

23/01/2020

Cuidado e bom senso

A tarefa de cuidar e melhorar o mundo para as futuras gerações, requer de todos mudanças profundas nos estilos de vida, nos modelos de produção e de consumo, nas estruturas consolidadas de poder que regem a sociedade. Trata-se de uma tarefa que exige bom senso, determinação e coragem.

A tradição bíblica ensina a ver o ser humano como protagonista de um processo no qual ele é receptor de favores e sujeito ativo de decisões que determinam o sentido de seu próprio ser. Ele é destinado a cuidar do meio ambiente. O cuidado é o suporte vital da liberdade, da inteligência e da criatividade. No desenvolvimento da obra do cuidado é possível colher os princípios, os valores e as atitudes que proporcionam o con-viver e o bem-viver.

A Casa Comum, com tudo aquilo que ela oferece generosamente para uma vida digna para todos, clama por cuidado. Cuidado para com as pessoas, culturas, biomas, plantas, águas, ar, animais, enfim, cuidado com a Terra.

A sociedade moderna consome grande quantidade de energia. Os combustíveis fósseis, como petróleo e carvão, têm sido a grande fonte de energia para suprir as necessidades da indústria.

Há sérias razões para buscar fontes alternativas de energia. O carvão mineral, por exemplo, é altamente poluente. Prejudica o meio ambiente desde a sua extração até a produção de seus subprodutos. É uma fonte de energia não renovável. O processo de sua combustão provoca emissão de gases poluentes na atmosfera, agravando o efeito estufa.

Está em discussão a exploração de carvão mineral às margens do Rio Jacuí, na região de Eldorado do Sul e às portas da cidade de Porto Alegre. Existem sérias objeções a respeito dessa iniciativa. Riscos de contaminação do solo, do ar e da água são reais. O viés econômico não pode ser o único critério para determinar a exploração ou não da mina. Certamente os avanços tecnológicos oferecem possibilidade de operações sempre mais confiáveis. Contudo há sempre uma conta ambiental a ser paga, além do impacto sobre a natureza e a saúde das pessoas que moram na região para usufruir de possíveis e questionáveis ganhos econômicos.  Total segurança é algo impossível. Ninguém de bom senso é capaz de afirmar com absoluta segurança que a exploração é ambientalmente segura.
 

O cuidado promove e salva a vida. Nosso dever comum é dela cuidar e promover.

16/01/2020

Testemunho concreto de fé

É comum por fé nas leis e na capacidade delas de regular comportamentos, determinar ações e orientar procedimentos. No entanto, o convívio social mostra que só porque uma lei foi criada, escrita e promulgada, ela não altera o comportamento humano e os procedimentos institucionais.
 

Seria simplista demais crer que ao delimitar um problema e criar instruções objetivas, dentro de quadro jurídico, se resolveriam os possíveis problemas que motivaram sua criação.


Em maio de 2019, o Papa Francisco publicou um documento intitulado “Vós sois a luz do mundo”, no qual aponta caminhos para fazer frente aos crimes de abusos de menores e pessoas com deficiência, perpetrados por membros da Igreja, especialmente “todos aqueles que, de diferentes maneiras, assumem ministérios na Igreja, professam os conselhos evangélicos ou são chamados a servir o povo cristão”. Esse documento faz parte de uma série de orientações que a Santa Sé tem adotado nos últimos anos, com o objetivo de proteger os “mais pequeninos” (Mt 18,6). É também reflexo da observação de Jesus Cristo: “Quem causar escândalo a um só destes pequenos que creem em mim, melhor seria que lhe amarrassem ao pescoço uma grande mó e o lançassem ao fundo mar... Ai daquele por quem surge o escândalo” (Mt 18,6.7).


Fazendo eco ao documento acima citado, a Arquidiocese de Porto Alegre está promovendo a instalação de uma Comissão Arquidiocesana Especial de Promoção e Tutela de Crianças, Adolescentes e Pessoas Vulneráveis. Seu objetivo é pesquisar, desenvolver e promover material formativo. Além disso a Comissão terá como objetivo acolher e encaminhar possíveis denúncias de abusos de menores por parte de seus membros.


A Comissão será composta por presbíteros e membros da sociedade civil: psicólogo, psicopedagogo, juristas e membros das forças de segurança. Ela contará com a infraestrutura necessária para bem realizar sua missão.


A instalação da Comissão está prevista para a próxima Quarta-feira de Cinzas (26/02), durante a celebração da Santa Missa, na Catedral Metropolitana.


“Nosso Senhor Jesus Cristo chama cada fiel a ser exemplo luminoso de virtude, integridade e santidade. Com efeito, todos nós somos chamados a dar testemunho concreto da fé em Cristo na nossa vida e, de modo particular, na nossa relação com o próximo” (Papa Francisco).

29/12/2019

Paz, solidariedade, caridade, ternura e hospitalidade são valores que caracterizam o tempo do Natal. É tempo para cantar a alegria, louvar a humildade, promover a simplicidade, resgatar a esperança e exaltar a verdade. A paz só é possível onde as ideologias cederem lugar à verdade!

O Natal traz em si uma força característica ao apresentar o nascimento de um menino anunciado como o Salvador e “alegria para todo o povo”, pois propõe um modo de viver e conviver distintos. A referência para quem se dispõe a fazer com ele o caminho é o presépio.

A alegria, a humildade, a simplicidade e a esperança da cena do Natal alimentam a utopia de “um novo céu e uma nova Terra”, onde novos modelos políticos, sociais e econômicos sejam possíveis; onde todos possam verdadeiramente participar dos bens da criação; onde não haja mais miséria e ignorância, mas todos
possam se sentir irmãos e irmãs.

A utopia é irmã gêmea da esperança. A esperança encoraja e compromete com a novidade desejada e sonhada, com a utopia que o espírito do Natal reacende no coração de muitos.

O Natal é oportunidade privilegiada para o exercício da fraternidade, da solidariedade, da convivência harmoniosa e saudável, da sobriedade e da ternura. Esses elementos pressupõem compromisso com a justiça, gestões políticas e econômicas transparentes e incorruptíveis, oportunidade de trabalho em condições dignas para todos, ou seja, desenvolvimento humano integral.

A noite do Natal é iluminada por uma estrela que brilha no horizonte. Existe uma estrela que pode orientar a humanidade! É sabido que as gerações futuras colherão aquilo que a geração atual semear no presente.

É possível passar o Natal futilmente, de forma extravagante, mercantilista ou indiferente. É também possível celebrar o Natal qual possibilidade de exercício e promoção do humano e do divino, da razão e da fé. Abençoado e Santo Natal!

19/12/2019

O Natal reacende a esperança

Chegou o Natal. Deus entra na história humana de forma discreta, simples, humilde e despojada. É a festa da luz, da vida e do amor de nosso Deus.
 

O Natal reacende no coração humano o que ele traz de nobre: ternura, proximidade, intimidade, familiaridade, reverência e proximidade. Recorda que o outro deve existir. Por isso é sempre tempo para ir ao encontro do outro e lhe desejar um abençoado Natal. Jamais é tarde para despertar sonhos há tempos não retomados, alimentados, admitidos ou acolhidos.


O Natal é tempo privilegiado para abrir o coração, para que a luz do céu possa novamente entrar na existência humana. De fato, quando o ser humano se dispõe a acolher a linguagem das estrelas, a ler os sinais do céu, então a verdadeira vida que vem de Deus se torna possível. Percebe assim ser consentido crer e esperar que, a partir de Deus e diante de Deus, a beleza, a verdade e a vida são possíveis, hoje e sempre.

No Natal, Deus fala! Silencia o ser humano. Ouve-se a narração do evento da doçura divina que entra na história humana: Deus nasceu pequeno, se fez história, se chama presépio.


O espírito do Natal aponta para aspectos do convívio social que precisam sempre ser retomados: simplicidade, fidelidade, familiaridade, intimidade, gratidão, despojamento, ternura, beleza, carinho, respeito, reconhecimento, confiança, fé. É o que artistas de distintas culturas, em variados modos e expressões, buscaram e buscam representar através da arte. Trata-se de tentativas de tocar o coração humano, a fim de que ele se transforme e se torne verdadeiramente humano, deixando-se moldar pela simplicidade e verdade da “casa do pão”, Belém.


O Natal reacende a esperança: no Reino que se inaugura não haverá mais fome que ofende a Deus, nem pobreza que humilha as pessoas.


O Menino deitado num cocho, numa estrebaria, traz esperança aos desesperançados de todos os tempos.


O Natal ensina que a graça de Deus não abandonou a “Terra dos homens”. O Salvador está no meio de nós! Abençoado e Santo Natal.

12/12/2019

Semear começos

O tempo, enquanto corre para frente, em busca de um futuro cada vez mais promissor e de um bem estar cada vez mais universal, se volta também e sempre, de novo, para trás em busca de suas raízes, pois sem elas se corre e constrói em vão.

Ao longo dos séculos não faltaram homens que se dedicaram à reflexão sobre o tempo e os desafios que apresenta.

A reflexão bíblica destacou o valor do tempo: não se trata de repetição monótona de eventos cíclicos, mas de uma realidade que possui profundo significado sagrado.

A sensibilidade contemporânea compreende a existência humana como “um estar no tempo”. O indivíduo, situado no presente, faz memória do passado e prenuncia o futuro.

O presente de todo indivíduo está grávido do passado e voltado para o porvir, atento ao devir, projetado para o futuro.

O tempo litúrgico que precede o Natal, resgata fatos que precederam a história salvífica e que atingem, com o nascimento de Cristo, a plenitude dos tempos. É um tempo no qual a comunidade de fé é chamada a se preparar para a solenidade do Natal, quando se celebra o evento de um Deus que se deixou envolver pelos panos da fragilidade humana, e, ao mesmo tempo, é oportunidade, por meio dessa celebração, alimentar a expectativa da segunda vinda de Cristo.

Compreende-se, assim, por que esse tempo de advento confronta-nos com questões existências: quem somos? Onde nos encontramos? Deixamo-nos atingir pelas questões essenciais que caracterizam a existência humana? O mistério do Natal incide sobre o nosso viver e conviver? A ternura, o cuidado, a acolhida do diferente de mim, a solidariedade ainda encontram lugar na sociedade contemporânea?

Os discípulos e discípulas de Jesus de Nazaré, o filho de Maria e de José, combatem a ideologia do mundo, não com a violência, mas com a palavra da verdade, com a couraça da justiça e com a oração constante. Neste sentido espiritual, os cristãos constituem, como sempre, no tempo, uma Igreja combatente.

A expectativa da segunda vinda do Senhor, alimenta a esperança. Ora, a esperança “semeia começos” (Mounier), inaugura processos no tempo. Como, pois, não recordar a afirmação do Papa Francisco de que o tempo é superior ao espaço? A superação de uma visão estática da realidade para uma visão processual parece produzir, para alguns, dificuldades.

Natal é celebração de um Deus que sempre e de novo, no tempo, vem ao encontro de cada pessoa humana!

05/12/2019

O Natal e os novos horizontes

“O futuro entra em nós, para se transformar em nós muito antes que aconteça” (R.M. Rilke). Quando a perspectiva de um futuro viável entra no presente, então o presente muda, pois foi tocado pela realidade futura.

Cada geração é convidada a dar a própria contribuição para que a geração seguinte possa experimentar, realizar e promover o reto uso da liberdade. É isso que permite, de certo modo, prover e prever um futuro sadio.

O ser humano é marcado pelo seu enraizamento na história e pela perspectiva de novos horizontes, pela necessidade de interioridade e desejo de universalidade. Ele é encarnado na história e aberto à transcendência.

Transcender-se não significa fugir da própria condição, mas nela mergulhar: “transcender é humanizar-se”.


Transcender-se, buscar novos horizontes, permite romper e ultrapassar barreiras e resistências. Dispor-se a essa busca, representa um vigoroso estímulo para sondar o sentido da própria existência: a verdade, a liberdade, o bem, o belo, o amor. Orientado por tal disposição, a pessoa vai intuindo em que consiste a própria maturidade, proporcionando-lhe equilíbrio interior, lucidez mental e limpidez afetiva.


Resgatar as próprias raízes e dispor-se a novos horizontes permite viver mais profunda e autenticamente.

Permite à pessoa harmonizar todos os níveis da existência: corpo, mente, afetos e coração, e integra-se com a fonte da vida.


Numa época marcada por autossubjetividade e autorreferencialidade, na qual um sinal contundente seja, talvez, o número de adolescentes e jovens que se automutilam e cometem suicídio, devido à sensação de incompreensão, inutilidade, culpa, desamparo, desamor, falta de referências seguras e horizontes maiores, recordar a necessidade de promover o conhecimento das próprias raízes e de novos horizontes se torna para todos um imperativo. Ocultar os dados, omitir a questão e dispensar-se de responsabilidade significa optar por alienação, negligência e hipocrisia.

Os cristãos são pessoas de confiança e testemunhas da esperança. Por isso, chamados a oferecer orientação e valores, deixando-se tocar pelos desafios do tempo.

As semanas que antecedem o Natal representam ocasião propícia para rever comportamentos e reacender a esperança. Urge renovar a alegria de viver!

28/11/2019

Qual o futuro?

Em Assis, na Itália, entre os dias 26 e 28 de março de 2020, acontecerá um encontro mundial de jovens economistas e empresários dispostos a, juntos, encontrar caminhos viáveis para uma economia capaz de promover vida para todos. O Papa Francisco é o promotor deste encontro. Seu desejo é encontrar-se “com quantos estão formando-se e começam a estudar e a pôr em prática uma economia diferente, que faz viver e não mata, inclui e não exclui, humaniza e não desumaniza, cuida da criação e não a devasta. Um acontecimento que nos ajude a estar unidos, a conhecer-nos uns aos outros, e que nos leve a estabelecer um ‘pacto’ para mudar a economia atual e atribuir uma alma à economia de amanhã”.

O mundo está marcado por uma enorme desigualdade social. Um pouco mais de duas dezenas de pessoas concentram a mesma riqueza de quase quatro bilhões de pessoas.

O Brasil traz a vergonhosa situação de maior desigualdade social do mundo, com 1% mais rico concentrando a maior parcela do total da renda gerada.

Vivemos num contexto socioeconômico no qual a relação de dependência do capital com o trabalho se torna sempre menor.

Precisamos de um Estado moderno, relevante, eficiente, forte e ético para a nação que representa. Urge garantir a todos os cidadãos o acesso a uma parte das riquezas que são geradas no solo da nação.

Quando dizemos um Estado ético estamos falando de uma tarefa humana. A ética diz de uma “ação tipicamente humana de se autoconstruir; mas também aponta para a tarefa de auto responsabilização do ser humano, pois somente ele é capaz de encobrir ou descobrir o sentido próprio de todas as coisas”.

Há um faixa considerável da juventude que aposta em dias melhores para as futuras gerações. A sociedade não pode abafar, à causa das mazelas de uns poucos, o sonho existente no íntimo de tantos: o de construir uma sociedade marcada por justiça e paz, fraternidade e solidariedade, amor e fé. Isso pressupõe conhecimento intelectual, sabedoria e espiritualidade. O convite do Papa Francisco atinge de forma particular essa faixa social.

24/10/2019

Anunciar o Evangelho e cuidar da vida

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica se aproxima de sua conclusão.

Nos meses que precederam o início dos trabalhos da Assembleia foram vistas manifestações distintas. Surgiram críticas contundentes contra o tema proposto para essa Assembleia Especial do Sínodo: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Houve também manifestações entusiastas a favor do caminho construído por meio de consultas das comunidades envolvidas na questão, até desembocar na celebração da Assembleia. Não faltaram sinais de preocupação com os possíveis caminhos que o Sínodo poderia propor, inclusive envolvendo questões de soberania territorial. Trata-se certamente de um momento importante! E a Igreja na sua incansável dedicação em evangelizar se esforça para que o trabalho realizado desemboque na indicação de caminhos viáveis para a inculturação da fé.

Os trabalhos da Assembleia caminham para sua conclusão, quando se entregará ao Papa o Documento Final. O Papa decidirá o que fazer com os resultados de três semanas de intensos debates e estudos entre os participantes da Assembleia.

Este Sínodo especial está marcado por uma dúplice dimensão: a eclesial e a ecológica. O Sínodo possui uma dimensão ecológica, expressa na preocupação com a urgente necessidade de mudança de mentalidade, estilo de vida, modos de produção, práticas de consumo, acumulação e desperdício. A dimensão eclesiológica implica a disposição para uma conversão pastoral.

A partir dos resultados dos trabalhos realizados nos “Círculos Menores” (grupos de trabalho) se pode perceber que a preocupação central é sobretudo com os desafios pastorais. A região amazônica precisa ser contemplada com coração cristão e olhos de discípulo.

A missão da Igreja é anunciar Jesus Cristo, sem descuidar da necessidade de cuidar, proteger e promover a vida. Esta ação requer um olhar contemplativo sobre a realidade, para construir a necessária harmonia entre a sociedade humana e o meio ambiente.

17/10/2019

O anjo da Bahia

“As pessoas que espalham amor, não têm tempo nem disposição pra jogar pedras” (Santa Dulce dos Pobres). Foi a disposição de espalhar amor, de fazer o bem que fez de  Irmã Dulce uma grande mulher.

No último domingo (13), na Praça de São Pedro, o Papa Francisco inscreveu no catálogo dos santas e santas o “Anjo Bom da Bahia”.
 

A obra iniciada num galinheiro transformou-se num grande hospital, onde os mais pobres entre os pobres até hoje podem encontrar alívio para suas dores.


Se um fato extraordinário – um milagre – permitiu que ela fosse elevada às honras do altar, foram os fatos ordinários, a ternura, o cuidado da vida, o respeito pelos mais necessitados que foram moldando a vida de Maria Rita de S. B. Lopes – a primeira santa nascida no Brasil.


De constituição física frágil, interiormente forte, incansável na sua determinação de ir ao encontro dos mais frágeis e deixar-se encontrar por eles, ela compreendeu que quando a “gente cuida da dor de alguém, Deus cuida da dor da gente”.


O exemplo de Santa Dulce dos Pobres recorda um modo de ser e de agir em favor do cuidado do ser humano e da vida que expressa uma saudade inata no indivíduo: de um mundo harmonioso e solidário, onde o cuidado de uns pelos outros seja a suprema norma. “A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria ‘só de pão’ – convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano” (Bento XVI).


O anjo bom da Bahia foi testemunha viva e ambulante de misericórdia – “a mais importante e talvez a única lei da vida da humanidade” (Dostoiévski). Por meio do exercício da misericórdia, ela testemunhou o que significa o verdadeiro amor: cuidado do outro e pelo outro.


Por meio de sua dedicação aos pobres, a primeira mulher brasileira a ser inscrita no catálogo dos santos mostra o quanto é importante a atividade caritativa da Igreja e o empenho de todos em favor de um justo ordenamento do Estado e da sociedade. Recorda que o exercício da caridade é um dever congénito da Igreja, pois o ser humano “além da justiça, tem e terá sempre necessidade de amor” (Bento XVI).

10/10/2019

Sínodo: apontar caminhos!

Está acontecendo, no Vaticano, o Sínodo para a região Pan-Amazônica. Durante três semanas acontecerá um intenso debate em torno de temas que dizem respeito à vida da Igreja naquela região e ao mesmo tempo, de questões conexas, a partir da ótica dos povos que a habitam.

A região Pan-Amazônica é constituída de aproximadamente 7,8 milhões de km², abrangendo nove países. Habitam a região cerca de 33 milhões de pessoas, sendo 3 milhões de indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos diversos.

O Sínodo representa um desafio a todo o Povo de Deus. É toda a Igreja que dirige seu olhar e atenção para uma região específica, procurando compreender quais são os seus desafios, preocupações e problemas, a fim de encontrar indicações viáveis para continuar respondendo vigorosamente às exigências da obra da evangelização junto àquela realidade.

No centro dos debates na aula sinodal estará a questão da vida. Não se pode esquecer que todas as formas de vida do planeta são filhas da Terra. O próprio corpo humano é feito do “barro da terra, no qual Deus ‘soprou’ o espírito de vida” (Gn 2,7). Compreende-se, assim, a inter-relação entre a vida e o meio ambiente, pois tudo o que se faz em prejuízo da Terra, se faz em prejuízo dos seres humanos e outras formas de vida.

Os participantes da assembleia sinodal são confrontados com questões intereclesiais, com desdobramentos sobre a realidade cultural, social, espiritual e religiosa daquela imensa região. A obra da evangelização junto àquela realidade se vê desafiada por problemas tais como as condições de pobreza e miséria de muitos, o tráfico humano, a exploração sexual, a perda da cultura e identidade dos povos originários, a criminalização e o assassinato de lÍderes locais, a apropriação e a privatização de bens naturais, as práticas predatórias de caça, pesca e exploração da terra, os megaprojetos infraestruturais — nem sempre respeitando o meio ambiente — o narcotráfico.

Pode-se assim compreender a indicação do Papa: “amai esta Terra, senti-a vossa... Comprometei-vos a salvaguardá-la, à defendê-la. Não a useis como mero objeto que se pode descartar.”

03/10/2019

Sínodo: espaço de diálogo e discernimento

O Sínodo especial para a região Pan-Amazônica, que inicia neste domingo (6), no Vaticano, representa uma oportunidade para a Igreja rever sua metodologia de atuação evangelizadora e sua prática pastoral, buscando novos caminhos para ser presença ainda mais eficaz naquela região.

A preparação do Sínodo originou muitos debates. Suscitou polêmica o conceito de ecologia integral. O Papa Francisco explica que o conceito requer “abertura para categorias que transcendem a linguagem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em contato com a essência do ser humano. (...) Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, refletir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença não precisa ser criada, mas descoberta, desvendada” (Papa Francisco). Além disso, é necessário ter presente que o ambiente situa-se na lógica da recepção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte.

Precede a celebração da assembleia sinodal um amplo processo de escuta dos povos e das comunidades daquela imensa região.

Durante os trabalhos da assembleia, os Bispos são chamados a desenvolver a obra do discernimento, a fim de propor caminhos para o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo junto àquela realidade. Caberá, depois, ao Papa Francisco avaliar as propostas apresentadas e de acordo com o Evangelho, a tradição da Igreja e as novas exigências que o tempo atual apresenta para a Igreja, decidir quais caminhos empreender para que ela cumpra a sua missão de anunciar o Evangelho a todos os povos.

A região Pan-Amazônica, além de cidades importantes, conserva uma variedade de povos nativos com suas culturas. Ora, desde o seu nascimento, o cristianismo tocou e se deixou tocar por outras culturas, colhendo dessas elementos e características. Isso diz de um processo de inculturação, ou seja, de inserção da mensagem cristã em diversas regiões e contextos sociais, por meio de um processo de diálogo com o universo simbólico dos povos com os quais o Evangelho entrou em contato.

Construir novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral requer capacidade para o diálogo, oração e sincero compromisso com a missão de cooperar ativamente na construção de uma “Terra sem males”, segundo os critérios do Evangelho.

26/09/2019

O único sentido do Sínodo sobre a Amazônia

No próximo mês de outubro acontecerá, em Roma, um Sínodo especial, do qual o tema é “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Para o Papa Francisco, “o objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno”.

O que é um Sínodo? A palavra tem origem no grego “syn”, que significa “juntos”, e “hodos”, estrada ou caminho. Trata-se de um evento eclesial, consultivo e não deliberativo. É uma assembleia periódica de bispos de todo o mundo que, presidida pelo Papa, se reúne para tratar de questões concernentes à vida da Igreja. É um lugar eclesial onde se buscam possíveis caminhos coletivos para se decidir sobre algo específico, que requer atenção especial por parte da Igreja. O Sínodo é uma instituição que “presta uma eficaz colaboração ao Romano Pontífice – segundo as modalidades por ele mesmo estabelecidas – nas questões de maior importância, isto é, naquelas que requerem especial erudição e prudência, para o bem de toda a Igreja” (EC, 1). Segundo o Santo Padre, “não é um parlamento onde, para atingir um consenso ou um acordo comum, há negociações, pactos ou compromissos. O único método do Sínodo é abrir-se ao Espírito Santo, com coragem apostólica, humildade evangélica e oração”.

Por que um Sínodo para a Amazônia? A Amazônia possui uma extensão de 7,8 milhões de km². Inclui áreas de nove países. Conta com cerca de 33 milhões de habitantes, 3 milhões dos quais são indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos diversos. A Amazônia influencia o ecossistema planetário: a bacia do Rio Amazonas e as florestas tropicais circundantes nutrem o solo e regulam, através da reciclagem da umidade, os ciclos da água, da energia e do carbono a nível planetário.

Diante dos desafios trazidos por aquilo que se cunhou denominar “mudança de época”, a Igreja se sente no dever de encontrar novos caminhos para levar a termo a missão que lhe é própria: evangelizar! Já o conceito de ecologia integral deseja ressaltar a relação existente entre todas as criaturas do planeta na dimensão ambiental, econômico, social, cultural e vida quotidiana.

19/09/2019

A prática do suicídio levanta questões infinitas. Possuímos contribuições de várias ciências que se ocupam com o tema. Contudo uma pergunta permanece: por quê?


É difícil encontrar respostas satisfatórias diante da decisão de alguém de tirar a própria vida. Trata-se de um ato abrupto, chocante e ambíguo. Além do mais, esse é um assunto complexo, delicado e cercado de tabus.
 

Que fatores levam pessoas a cometer suicídio? São variados os fatores a serem considerados: genéticos, familiares, ambientais, socioculturais, existenciais, clínicos. Por vezes, pode estar presente o desejo da pessoa de chamar a atenção sobre si ou sobre os problemas que vive; pode ser expressão do desejo de ser ouvida e ajudada; pressão social por produtividade e máxima eficiência também influenciam; segregação ou isolamento social, formas de discriminação, doenças ou deficiências físicas, a morte de um familiar ou pessoa amada, dificuldades de trabalho e/ou financeiras podem induzir à prática do suicídio.
 

Em tempos de crise política, econômica, social e religiosa, o suicídio ocupa a cena do drama humano. Ele é certamente algo que faz parte da existência humana. Todo ser humano, em um ou em outro tempo da vida, desenvolve formas de sofrimento psíquico. Contudo, diante das incertezas frente ao futuro, a celeridade do tempo, o consumismo exacerbado, o impor-se do esteticismo ou narcisismo, o crescimento do número de relações interpessoais inconsistentes etc. constata-se o aumento dos casos de suicídio.
 

Detectar um possível suicida, saber aproximar-se, ouvir com delicadeza, cortesia e compreensão, e empenhar-se por buscar auxílio é expressão de solidariedade e senso de corresponsabilidade social diante desse drama que atinge não poucas pessoas.


A crença religiosa e a prática da fé influenciam na estabilidade emocional, na redução da tensão e ansiedade, na modificação do comportamento, na promoção de bem-estar interior e no modo como pessoas lidam com situações difíceis da existência.


O cristão é desafiado a testemunhar a fé, a esperança e a caridade, empenhando-se também na tarefa de proteger, cuidar e promover a vida, especialmente quando encontra alguém que perdeu a vontade de viver, pois a vida humana é graça, e, por isso, deve ser dignificada.

12/09/2019

O fenômeno trágico e complexo do suicídio tem causado preocupação em diversos setores da sociedade, sobretudo quando atinge adolescentes e jovens.

É verdadeiro que distúrbios psíquicos graves, a angústia, o medo grave da provação ou do sofrimento podem ser causa de suicídio. Pela natureza da surpresa e incredibilidade, o suicídio pune emocionalmente a todo o entorno – familiares, amigos, companheiros de estudo e/ou trabalho – de quem cumpre esse gesto extremo.

Psicólogos, psiquiatras, pedagogos e sociólogos têm se empenhado para tentar compreender as razões do fenômeno. Os esforços para encontrar explicações plausíveis se multiplicam. Há quem afirme que uma das razões seria a falta de ideais ou objetivos capazes de empenhar toda uma vida.

O futuro se oferece como uma paisagem imprevisível que paralisa iniciativas e apaga o entusiasmo.

É também verdadeira a comparação da estrutura humana a um tapete: de um lado se veem belas figuras; mas de outro, no lado debaixo, é marcado por nós e fios retorcidos que não se veem. Esclarecer o porquê e o como dos nós e dos fios retorcidos é um enorme desafio. E, no entanto, são eles que garantem a beleza da peça.

O ser humano sente e vive a necessidade de, com cuidado e atenção, “desatar as coisas que estão emaranhadas e atar os fios soltos” de sua existência. Nesse trabalho estão envolvidos a pessoa, os familiares e amigos, como também as instituições de educação, saúde e religiosas.

Estudos científicos consistentes mostram o quanto a religiosidade é um fator protetor para o suicídio. Mais ainda: níveis mais elevados de envolvimento com a religião estão associados positivamente com indicadores de bem-estar psicológico, com menos depressão, comportamento suicidas e abuso de drogas.

A fé cristã compreende a vida humana como dom que precisa ser preservado. Ela não é propriedade individual, pois traz vínculos de solidariedade com as sociedades familiar e humana. Por isso, urge envolver todas as forças da sociedade que acreditam, cuidam e promovem vida plena para todos, a fim de
auxiliar adolescentes e jovens a assumirem a existência com seus desafios e oportunidades, sem se deixar em conduzir pelo positivismo das ciências ou dogmatismos religiosos.

05/09/2019

Ao longo da história, inúmeras interpretações do conceito de liberdade foram construídas. O hino da Independência do Brasil canta a “liberdade no horizonte do Brasil”.  Bela também é a expressão de Fernando Pessoa: “Brincava a criança com um carro de bois! Sentiu-se brincando e disse: eu sou dois!” Nela, o poeta canta a ancoragem da identidade humana no lar da liberdade, conjugando o exterior com a dinâmica interior da situação.

 

Encanta contemplar a árvore enraizada na terra, o pássaro que voa na tempestade e a fera que habita a floresta. São símbolos da liberdade! Entretanto, somente a identidade humana está no poder de merecer ser livre, através de um longo processo de aprendizagem. A identidade humana é impelida pela liberdade a sair de si, a extravasar-se, a buscar sua realização: a felicidade.

 

A liberdade é, pois, um atributo essencial da pessoa humana, que lhe permite escolher o próprio destino e de se autodeterminar. Ela pressupõe o exercício da inteligência, como também o progressivo aperfeiçoamento na natureza inferior. Ela é um elemento essencial para a natureza e para a dignidade do ser humano.

Na semana em que o povo brasileiro celebra a independência, é possível cantar a liberdade?

 

O Brasil é uma nação caracterizada por belezas e riquezas. Os campos têm mais flores, os bosques e as florestas conservam uma biodiversidade extraordinária, o solo é fértil, o subsolo conserva tesouros, os ecossistemas são riquíssimos. Contudo, o país está em segundo lugar no mundo em termos de desigualdade, entre os países democráticos. Falta projeto de nação, políticas públicas consistentes para a superação de tamanha desigualdade.

 

Celebrar a independência e cantar a liberdade do Brasil implica o compromisso vigoroso de promover o bem comum. Por isso, enquanto houver alguém passando fome, sem terra, sem trabalho, sem teto, sem escola, sem atendimento médico-hospitalar digno, a liberdade não será autêntica.

 

A esperança dá forças, elã e entusiasmo! Em celebrando a semana da Pátria, nos recordemos que não podemos permitir que nos roubem a esperança.

29/08/2019

Aprender com o que já se sabe

A relação do ser humano com o mundo é um elemento constitutivo de sua identidade. Por isso, as relações com o meio ambiente devem estar ancoradas numa antropologia e ética consistentes.
 

O uso da terra com suas riquezas adquire luz orientadora a partir dos avanços da ciência e da técnica. Assim, as relações humanas com os bens da natureza obtêm orientações mais seguras, a fim de promover sempre mais a necessidade de respeito e cuidado para com o ambiente.


O modelo econômico predominante se orienta pelo aspecto do lucro fácil. A natureza não pode ser usada, manipulada e explorada de forma arbitrária, e nem submetida à "vontade de poder", característica da ação de mercados, como se ela não gozasse de dignidade e importância na determinação da qualidade de vida do planeta.


No Rio Grande do Sul, está tomando corpo o projeto de exploração de carvão mineral em diferentes regiões. Ora, aprender a partir de situações vividas no passado é ato fundamental de toda pessoa de bom senso. Países onde a extração era prática comum estão reduzindo drasticamente tal prática à causa das consequências para a atmosfera e para a vida em suas diversas manifestações.

 

É sabido que o carvão mineral é grande causador do aquecimento global, e isso sem considerar outros impactos no processo de exploração e suas consequências para a região onde isso acontece. Sabe-se que o carvão mineral possui composição complexa, capaz de colocar em risco a qualidade do ar, da água e da saúde humana.


Os bens naturais quando não sabiamente respeitados e utilizados em vista da vida plena para todos, tornando-se objeto da ação criminosa e gananciosa das mineradoras não interessadas no bem comum, se transformam em causa de morte. Geralmente, as empresas mineradoras optam pela exploração barata, o lucro fácil e o mínimo de retorno para a sociedade envolvida e atingida.


A atividade mineradora no Brasil se tornou eticamente insustentável e irresponsável, calamitosa e de altíssimo risco não só para a vida e saúde humana, mas também para a fauna e flora em suas áreas de atuação. Provavelmente aqui não será diferente.

22/08/2019

Ousados, corajosos e criativos ​

Muitos são os que se dedicam à ação educativa e pastoral da Igreja, que transmite a mensagem cristã, com o objetivo de acompanhar o crescimento e o amadurecimento da fé dos fiéis e dos grupos eclesiais: eles são os catequistas. Homens e mulheres que se empenham na educação da fé, através da palavra, do acompanhamento e do testemunho; iniciam nos mistérios da fé aqueles que se deixaram atingir pelo evento da morte e ressurreição do Senhor. São leigos e leigas que se doam a essa atividade primordial para a vida da Igreja. São membros da comunidade que se dispõem a dar um pouco de seu tempo em prol do anúncio da Palavra, em favor, especialmente, dos adolescentes e jovens. 

 

Os catequistas têm um papel importantíssimo e insubstituível. São mediadores que orientam e auxiliam os catequizandos no processo de acolhimento da revelação do Deus-Amor. Acompanham quem está sendo iniciado nos mistérios da fé para que realizem seu encontro pessoal com o Crucificado-Ressuscitado.

Os catequistas não agem sozinhos, agem em nome da Igreja.

 

Ser catequista significa dar testemunho da fé, ser coerente na própria vida. É vocação! É dom de Deus que precisa ser acolhido e cultivado; conservado e partilhado; alimentado e promovido.

 

A Igreja agradece o empenho e dedicação de tantos na obra do anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo. Mas também vale aqui recordar as palavras de Jesus: "A minha palavra não é minha, mas d´Aquele que me enviou" (Jo 14,24). Assim, a obra levada a termo por tantos catequistas, marcados pela determinação, zelo, amor a Jesus e seu Evangelho, deve estar orientada pelo princípio do próprio Evangelho: o que se ensina e anuncia é repercussão da Palavra de Deus lida, meditada, rezada e compartilhada!

 

Precisamos ser ousados pois os tempos mudaram, a visão antropológica se transformou; corajosos, pois a compreensão e a prática da fé cristã precisam de novo ardor; criativos, porque o fenômeno mesmo da globalização exige novos métodos e novas expressões.

 

A Igreja eleva um grande hino de ação de graças pela dedicação de tantos nesta obra importante, a catequese. A comunidade de fé invoca sobre seus catequistas a força do Espírito Santo para que levem a bom termo a missão recebida.

15/08/2019

Gratidão aos consagrados

“A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar conosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz.” (Papa Francisco). 
 

Caminhando à luz da fé, os cristãos são convocados a colaborar na transformação das realidades temporais. Tarefa específica nesse âmbito possuem as mulheres e homens consagrados, aos quais a Igreja Católica dedica o próximo final de semana. Essas pessoas buscam observar na vida cotidiana os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Como consagrados e consagradas, participam da obra da evangelização da Igreja no mundo e a partir do mundo, onde, por meio de diversas formas de atuação, agem como "fermento na massa, luz do mundo e sal da Terra". Seu empenho e testemunho de vida cristã consagrada visa organizar as coisas temporais de acordo com a proposta do Reino de Deus e impregnar a sociedade com a força do Evangelho.


A história do Rio Grande do Sul traz a marca da dedicação e o empenho de tantos homens e mulheres que, consagrando suas vidas por meio dos conselhos evangélicos em distintos institutos, cooperaram e cooperam na construção de uma sociedade justa e fraterna.


Nos membros de Institutos e Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, há inúmeros sinais de generosidade, desapego, sacrifício, esquecimento de si próprio no intuito de ajudar os outros, presentes em hospitais, obras sociais, escolas, creches, asilos, casas de acolhida, centros de recuperação de dependentes químicos, organismos eclesiais e pastorais. São iniciativas que não fazem publicidade, mas que caracterizam a vida de tantas pessoas. São seres humanos marcados e iluminados pela experiência do encontro com a pessoa de Jesus Cristo, que "creem, amam e esperam" e, por isso, vivem uma vida de liberdade evangélica; são profetas e profetizas do Reino de Deus e sua justiça.

08/08/2019

Afinal, o que é vocação?

A vocação é um fato muito pessoal. É a disposição natural e espontânea que orienta a pessoa no sentido de escolher uma específica forma de vida. Para quem a vive, sobretudo quando madura gradualmente através de variadas experiências, ela se torna algo integrante e integrador da pessoa.

 

Com dificuldade, identificamos os elementos constitutivos de nosso ser. A vocação, sendo expressão de um trabalho de discernimento sobre aquilo que somos e por que o somos, entra no âmbito do mistério da existência humana. Por isso, nos encontramos numa espécie de desconforto quando precisamos definir o que seja vocação.

 

A vocação possui muitos fatores espontâneos e pessoais difíceis de ser justificados: são elementos que formam e constituem a identidade da pessoa. Nós experimentamos isso quando somos desafiados a, em caso de dúvida, definir se uma pessoa possui essa ou aquela vocação. Não é fácil responder a essa questão.

 

Mesmo pessoas com grande experiência nesse campo encontram dificuldades para exprimir um juízo. Toca-se uma dimensão da existência humana onde somos confrontados com coisas que não se veem e não se podem facilmente enumerar e contar. São situações nas quais nós mesmos somos colocados em questão. O "fundo" da pessoa é aquilo que se é, é a identidade, e a vocação pertence a esta realidade pessoal. Quando se fala disso, quando se procura construir um discurso linear sobre o que seja vocação, corre-se o risco de depreciar e de banalizar o que está em jogo.

 

A vocação é um mistério que vai se revelando paulatinamente, à medida que vamos descobrindo quem somos e a finalidade da nossa existência. As vocações, de algum modo, são todas distintas; cada indivíduo expressa uma singularidade. Quando se pensa poder tratar todas as histórias da mesma forma, corre-se o risco de generalizar experiências personalíssimas e singularíssimas. Corre-se o risco de cair em certos esquemas, impedindo o verdadeiro conhecimento do singular e concreto, dessa e daquela experiência, desta ou daquela pessoa.

01/08/2019

Vocação: um caminho aos desafios contemporâneos da juventude

Vocação e profissão se distinguem e se complementam. Profissão diz, sobretudo, de preparação técnica, competência, eficiência produtiva, ganha-pão, função social, reconhecimento externo. Vocação implica decisão pessoal, realização pessoal, chamado interior, paixão, amor e gosto pelo que se faz.

O tema "vocação" se faz necessário, uma vez que adolescentes e jovens se sentem desafiados a escolher um caminho de vida que corresponda aos anseios do próprio íntimo, como resposta ao desejo natural de felicidade e realização pessoal.

O momento histórico é rico de possibilidades e pobre de opções claras. A complexidade social, os desafios que se apresentam a quem deseja cooperar na construção de uma sociedade madura, equilibrada e justa, e o anseio pessoal de autêntica realização humana são fatores que angustiam adolescentes e jovens.

Eles anseiam encontrar um caminho de vida que lhes realize plenamente. No entanto, nem sempre encontram pessoas aptas para lhes acompanhar e ajudar na obra do discernimento.

Vocação toca uma dimensão profunda da existência da pessoa que ultrapassa as possibilidades de cálculos, diagnósticos e previsões. Ela aponta para um modo característico do ser humano se relacionar com tudo e com todos; aponta para um horizonte de realização, um futuro, uma tarefa em constante realização.

Numa época em que o ter se sobrepõe ao ser, o profundo cede lugar ao superficial, a cooperação foi morta pela dominação, a solidariedade cedeu seu lugar ao individualismo, resgatar a questão da vocação humana e cristã ganha contornos de necessidade vital.

Para o cristão, tudo tem um sentido, tudo está vocacionado para Deus.

A perspectiva oferecida pela fé cristã permite crer que o ser humano é vocacionado à vida, à felicidade, para Deus.

Cooperar para favorecer a reflexão em torno da questão vocacional junto aos jovens que se sentem chamados ou que alimentam o desejo, ainda que fugaz, de cooperar na construção de um mundo melhor para as futuras gerações, é um serviço que a comunidade eclesial presta à sociedade.

25/07/2019

Amar e ser amado

O amor entre homem e mulher é expressão perfeita do próprio amor; ultrapassa a força da vontade e da inteligência. Trata-se de uma dimensão da existência humana que necessita de cuidado, disciplina e purificação para proporcionar ao ser humano não o prazer de um instante, mas um indício de plenitude da existência. 

A experiência de autêntico amor entre o masculino e o feminino concede, de algum modo, aos envolvidos pregustar o infinito, a plenitude, o eterno. Não se pode simplesmente seguir o instinto. Urge cultivar a necessária coragem para suportar as necessárias e salutares renúncias que o instinto exige para que o amor humano se complete e se expresse na sua plenitude, ou seja, no encontro entre o masculino e o feminino.

O amor humano não é coisa, mercadoria ou o resultado de processos biológicos e neuronais, ou realização de papéis. É que o ser humano existe sempre ou como varão ou como mulher. Ele nunca se esgota em si mesmo. Ele tem sempre diante de si o outro modo. A dualidade masculino-feminino é uma riqueza e um limite, pois expressa a necessidade ou capacidade de sair de si para ir ao encontro do
diferente de si, em vista da própria realização ou plenificação. 

Numa sociedade marcada pelo cansaço onde a pessoa é avaliada apenas pelo seu desempenho, o outro não importa. Nesse contexto, se impõe a cupidez e o pornográfico que desconsideram a dignidade do outro. Impõem-se assim a ditadura da subjetividade que imagina comandar o próprio destino e por isso, esquiva-se de considerar, avaliar e reconhecer aspectos importantes da própria existência humana até ser confrontada com a realidade. Mas haverá tempo para as necessárias avaliações e revisões? 

“O amor é mais forte que a morte” (Ct 8,6). Esse princípio poderia orientar a sociedade na construção de caminhos para a superação da multiplicação de casos de automutilação, suicídio e drogadição entre adolescentes e jovens, órfãos filhos de pais vivos. 

É necessário reconhecer que a família constituída pelo encontro do masculino e do feminino é o centro de amor por excelência.

18/07/2019

O amor é mais forte que a morte

O que significa professar a fé cristã ou se apresentar como católico no contexto sócio-político-econômico brasileiro?

 

A atenção dos centros de poder e de decisão se concentra no "reino da Terra", nos avanços científicos, na economia de mercado, no conforto e bem estar dos que têm acesso aos bens econômicos.  Surgem, porém, sinais preocupantes! Os adolescentes estão se automutilando; um número expressivo de jovens comete suicídio; há uma multidão de adolescentes e jovens órfãos de pais vivos; a dependência química e eletrônica avança de forma implacável. Poder-se-ia elencar ainda outros elementos que expressam a fragilidade do tecido social e a precariedade preocupante das relações familiares.

 

É desafiador a missão de manter acesa a esperança de uma sociedade sadia. Se perde-se a esperança, a sociedade não tem futuro. Uma sociedade que não considera e promove a dignidade da família é uma sociedade fadada à sua dissolução.

 

A fé cristã ensina que Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade, mas também com características próprias e complementares, para que os dois fossem dom um para o outro, se valorizassem reciprocamente e realizassem uma comunidade de amor e de vida.

 

A vida familiar requer o empenho decisivo do homem e da mulher. O amor que os une é fecundo, antes de mais nada, para as pessoas envolvidas, pois o desejo primordial não pode ser outro se não o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar. É fecundo na procriação responsável dos filhos, na solicitude carinhosa por eles e na educação cuidadosa e sábia. O amor do casal é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação.

 

A vocação à vida familiar é nobre e bela. A realidade do amor é maravilhosa. A vida familiar construída no amor é força que pode transformar o universo, o mundo e a sociedade.

11/07/2019

O que significa a morte de mais um policial militar

Entre as forças de segurança e a população que se empenha por ganhar o pão de cada dia de forma honesta e justa existem laços de solidariedade e confiança.  Onde há postos policiais eles são, usualmente, pontos de referência para a coletividade. Tal presença favorece a inserção das forças de segurança na vida das comunidades.

 

O domínio de bairros, vilas e condomínios por parte de grupos ligados, sobretudo, ao tráfico de drogas, monitorando a vida cotidiana dos habitantes, impondo toque de recolher e um regime de terror é algo inadmissível.

À causa dessa situação, mortes se sucedem, especialmente entre jovens. Mais um PM, no exercício de seu dever, foi assassinado; homem jovem, inaugurando uma vida familiar, certamente com um projeto de vida e que acreditava no direito e na justiça. Mais uma vez uma família ferida, um sonho abortado, amigos abalados. Também mais um motorista de aplicativo assassinado. Trata-se de delitos inadmissíveis e que devem ser condenados com vigor.

As situações de violência que se multiplicam no cotidiano não mais causam indignação. Surgem manifestações de condenação, compromissos de justiça, mas após o acontecido tudo parece retomar o ritmo de antes. Vale sempre recordar a necessidade urgente que crianças, adolescentes e jovens têm de afeto, de família; urge promover, entre eles, valores que dignifiquem a vida e o respeito pelos demais, além de acesso à educação com qualidade e trabalho digno.

No processo de construção de uma sociedade marcada pela paz e pela justiça, as instituições família e escola têm uma tarefa característica. Não se pode banalizar o direito de cada criança, adolescente ou jovem de poder contar com uma família, constituída de pai e mãe, e nem vulgarizar ou desmerecer a nobre missão de professores e mestres.

“A verdade, será fundamento da paz, se cada indivíduo honestamente tomar consciência não só dos próprios direitos, mas também dos seus deveres para com os outros” (São João Paulo II).

04/07/2019

Trabalhar: Por quê? Para que?

“O trabalho é um bem do ser humano (...) porque, mediante o trabalho, o ser humano não somente transforma a natureza, adaptando-a às suas próprias necessidades, mas também se realiza a si mesmo como ser humano e até, num certo sentido, se torna mais humano” (J. Paulo II).

 

No trabalho “a pessoa exerce e realiza uma parte das capacidades inscritas em sua natureza. O valor primordial do trabalho está ligado ao próprio ser humano, que é seu autor e destinatário. (...) Cada um deve poder tirar do trabalho os meios para sustentar a si e aos seus, e para servir à comunidade humana” (CIC 2428).

Recordar a dignidade do trabalho auxilia a compreender sua importância. Ele é meio para o próprio sustento e serviço à comunidade humana. Mas como pode alguém desenvolver plenamente suas capacidades se lhe é negada a possibilidade de trabalhar?

Um número expressivo de gaúchos se encontra sem trabalho. Recentemente várias indústrias fecharam suas unidades no Estado e demitiram os funcionários. Causa estranheza as motivações para o encerramento das atividades das empresas: a consolidação industrial, a necessidade de manter a competitividade, a otimização da logística, a maior flexibilidade para o transporte da matéria prima e maior eficiência de suas operações. Em nenhum momento se considera o trabalhador que necessita do trabalho "para sustentar a si e aos seus". Jamais se considera a necessidade pessoal.

Sem trabalho não há esperança! Sem esperança, não há futuro!

A falta de trabalho dói para quem não tem como ganhar a vida honestamente com o suor do próprio rosto. Essa realidade contradiz a Declaração Universal dos Direitos humanos: “Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego” (art. 23).

Sem trabalho digno para todos a economia não melhora, a vida civil se corrompe e o habitat se deteriora.

Promover um lugar digno de trabalho para todos “é uma grande responsabilidade humana e social, que não pode ser deixada nas mãos de poucos nem acabar num ‘mercado’ divinizado” (Papa Francisco).

27/06/2019

Fé e Vida

O dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) marcou a história do pensamento ocidental. Ele foi poeta, crítico social, filósofo e teólogo. Num de seus depoimentos, ele expressa o júbilo pela sua existência dizendo: “Eis o motivo pelo qual minha voz se elevará no júbilo, mais forte que a voz da mulher que deu à luz, mais forte que o grito de alegria dos anjos por um pecador que se arrepende, mais alegre que o canto dos pássaros ao raiar do dia: pois o que eu procurei, achei; e mesmo que os homens me arrebatassem tudo, mesmo que me excluíssem de sua sociedade, eu conservaria sempre a melhor parte, o espanto repleto de felicidade que nos trazem o amor infinito de Deus e a sabedoria de seus desígnios”.

 

Kierkegaard aponta para a dimensão da fé cristã; a fé vai além da mera crença doutrinal para incluir uma atitude de profunda confiança em Deus e abertura para o Infinito.

 

A fé, no atual contexto histórico marcado pela exacerbação do pensamento científico, se vê sujeita a uma série de interrogações. Ela, porém, não teme qualquer conflito com a autêntica ciência, pois ambas, por caminhos característicos, tendem para a verdade.

 

O racionalismo científico e tecnológico abrange o finito, o mensurável e perceptível. A fé, sem negar a estes, aponta para o Infinito atuante no visível de toda situação finita.

 

O conhecimento advindo da fé promove valores: a reverência, o cuidado, a solidariedade, a fraternidade, a liberdade, a justiça, a paz, a misericórdia, o reconhecimento do finito, o respeito e a promoção das diferenças. Valores autênticos aperfeiçoam a pessoa, realizando sua natureza e plenificando sua existência. Os valores cooperam para que a identidade humana reconheça o Infinito, sem negar o finito.

A fé cristã não se contrapõe à razão. Ela também não admite radicalismos e fundamentalismos. Ela propicia, sim, ao ser humano a possibilidade de sair de si e habitar na tenda do Divino em todas as situações da existência humana, para que todos possam ter vida e vida em abundância.

19/06/2019

As festas de junho

Durante este mês de junho acontece o fenômeno natural interessante: o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Esse fenômeno era motivo de festa para povos antigos. Também no mês junho temos as conhecidas festas juninas de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo.  

 

Elas são marcadas pela alegria, músicas típicas, comidas características, canjica, pinhão, pipoca e fogueira. São festas populares que superam distinções de credo ou pertença religiosa. Elas são oportunidade privilegiada para o encontro de amigos, brincadeiras, descontração e também fé. No encontro com as diversas tradições regionais, as festas juninas adquirem contornos característicos como, por exemplo, as bandeirinhas e os balões coloridos, o erguimento do mastro e o forró.

 

Numa sociedade que parece ter perdido sua alma e sua fala, desprovida de sentido, na qual o alarido da comunicação não permite o silêncio, e a proliferação e massificação das coisas não permitem o recolhimento e o descanso, a dimensão lúdica da vida dessas festas marcadas pela simplicidade, o poder de estar juntos e a alegria pueril se tornam oportunidade especial para resgatar elementos essenciais da convivência humana.

 

A cultura popular que marca as festividades do mês de junho expressa de forma humana, simples e bela, o desejo latente na alma do povo de um mundo melhor, marcado pela paz, justiça e fraternidade. 
 

De um lado, tais festividades expressam, ainda que de forma diluída, a religiosidade do povo e, de outro, exteriorizam o desejo humano de confraternização, expõem a necessidade de comunhão e unidade, manifestam o desejo de um mundo transformado, onde muros sejam destruídos, pontes construídas, cercas e bloqueios desfeitos, e a harmonia originária reconquistada.

 

Aquilo que as festas juninas inspiram seria um sonho? Mas, “ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores. (...) Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade” (Dom Helder Câmara).

30/05/2019

Vida humana: dignidade e mistério

Desde sempre o ser humano se empenha por compreender a própria dignidade.

Segundo a tradição bíblica, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus e é destinado a participar da vida divina. Ele foi criado por meio da Palavra Divina, que é viva e eficaz, e produz aquilo que indica.

 

A Palavra Divina forjou culturas, educou povos, construiu sociedades, santificou almas. Entretanto, hoje, essa Palavra parece ter perdido crédito. Não são poucos os espaços da sociedade onde Ela é olvidada, pisada, desprezada e manipulada segundo os mais diversos interesses. Enfim, a Palavra Divina parece não ser mais reconhecida como de fato é: Palavra de vida, e vida eterna. Porque dessa situação? Qual a razão dessa realidade?

 

Experimenta-se uma mudança de época. Mudanças de época são tempos desnorteadores, pois afetam os critérios de compreensão, os valores mais profundos da cultura, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem ações e relações.

 

Os progressos da ciência e da técnica, as ideologias econômicas e políticas, marcas da mudança de época em curso, foram levando de roldão os princípios de ordem e as forças de convivência que durantes séculos orientaram as ações e reações humanas, a nobreza das atitudes de indivíduos e grupos, de poderes, governos e instituições.

 

O desenvolvimento parece ter velado ao ser humano o mistério da vida e da própria realidade. Demonstração nestes últimos tempos dessa desconfiança foi aquilo que o cientista J. Craig Vender proclamou, estupefato, para o mundo: uma célula com núcleo sintetizado por computador tornou-se a primeira espécie auto replicante, cujo pai tinha sido um computador!

 

Tal empresa significou que o ser humano se autoconcedeu o direito de manipular o mistério da vida. O que talvez tal iniciativa não quis considerar é o fato de que a vida não pode ser reduzida a processo microbiológico. Ela é mais que química e biologia: ela inclui o sagrado, a liberdade e a gratuidade.

23/05/2019

Vida plena

A esperança não pode morrer! Embora, em alguns ambientes, o tédio, compreendido como o fastio de viver, e a ansiedade, que se expressa num medo estranho da existência como tal, apresentarem sinais preocupantes, a esperança cristã aponta para frente e, por isso mesmo, pressupõe abertura e disposição para a transformação do presente.

A esperança cristã oferece ao ser humano a oportunidade para entrar na dinâmica da eternidade, isto é, numa “condição existencial que não é estática, mas dinâmica e vivaz” (S. Gregório).

 

O itinerário característico dos discípulos do Ressuscitado oferece o necessário para colher o sentido profundo e amplo da esperança cristã. Quem se empenha por seguir Jesus Cristo e seu Evangelho recebe a força necessária para realizar o itinerário. O Evangelho jamais pretende diminuir ou destruir a vida; ao contrário, aponta as condições para conservá-la, fortalece-la e curá-la.

 

Numa sociedade marcada pelo cansaço, na qual a paisagem patológica é dominada, por exemplo, pela depressão, pelo transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade, transtorno de personalidade limítrofe ou pela síndrome de Burnout, se faz necessário construir oportunidades para a sua superação. E o que dizer da crise de alteridade? Constata-se a frequência com que o estranho, mesmo que não represente nenhum perigo ou ameaça, é eliminado em virtude da sua alteridade.

 

São inúmeros os sinais de patologias na sociedade. A fé cristã oferece medicina à altura dos desafios do tempo presente. Por isso, vale perguntar o que significa o discipulado de Jesus para o homem de negócios, o empresário, o político, o profissional da saúde, o militar, o educador, o homem do campo, a dona de casa, o pai e a mãe de família, o jovem desejoso de cooperar para a promoção da vida, o operário? A resposta a essa questão só pode ser dada pelo próprio Jesus Cristo. Ele ordena segui-lo para onde o caminho conduz.

 

A fé cristã é dom! É também determinação de realizar um itinerário discipular com Jesus Cristo, em comunidade.

A esperança, amparada na fé, conduz à caridade. Essas três virtudes teologais proporcionam o vigor necessário para o grande objetivo do ser humano: a vida plena.

25/04/2019

Aprender com o ressuscitado

Épocas de questionamentos, de crise e de tensões representam oportunidade privilegiada para resgatar o que verdadeiramente importa. Isso vale de modo particular para a comunidade eclesial, após as celebrações do Tríduo Pascal, quando se celebrava a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

Após a Solenidade da Páscoa, durante cinquenta dias, a Igreja se empenha por acolher a Boa Nova que sempre provoca admiração e questionamentos: a vida venceu a morte; o amor é mais forte que a morte. É oportunidade para resgatar o vigor que movia as primeiras testemunhas do Ressuscitado a compartilhar com quem se deparavam a experiência do encontro com o Senhor.

O encontro com o Senhor transformou a vida não só de alguns homens simples no início do primeiro milênio da Era Cristã, mas de uma miríade de mulheres e homens que ao longo da história até os dias atuais, se constituíram em propagadores dos dons messiânicos de sua Páscoa: a alegria, o perdão no Espírito, a força de testemunhar sua presença atuante, sua paz.

A experiência de se sentir amado por Jesus Cristo transformou radicalmente o modo de ser, a visão e o registro de homens e mulheres ao longo dos séculos.

O amor cristão é capaz de produzir uma transformação tal no ser humano, que todas as coisas, acontecimentos e pessoas são vistos numa luz de profundidade, capaz de mudar o sentido e o destino da própria existência humana.

A experiência do amor cristão implica amar ao modo de Deus, isto é, sem reservas e sem medidas preestabelecidas. Ele “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz chover sobre os justos e injustos” (Mt 5,48); manda amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). Trata-se de um fazer e, portanto, de um fazer a ser aprendido: “aprendei de mim” (Mt 15, 29), diz Jesus.

Aprender é próprio do discípulo. O discípulo de Jesus está decidido a se deixar trabalhar pela força divina – que é amor! – e a colaborar com ela, ou seja, a cumprir em tudo a vontade do Pai, como fez Jesus Cristo. Tal disposição requer discernimento e conversão. Tal atitude é característica do homem sábio que escuta a Palavra e a põe em prática, e não diz apenas, Senhor (cf. Mt 7,21).

18/04/2019

A pedagogia da Cruz

A Cruz está associada a todas as formas de sofrimento, fraqueza e privações da vida humana e cristã. No entanto, para o cristianismo ela não é um mero ornamento ou símbolo. Ela é expressão do mistério do Amor de Deus.

Ao longo da história, a fé e a piedade cristã descobriram no mistério da Cruz uma fonte inesgotável de ensinamentos e motivações para a vida dos discípulos de Cristo.

Contudo, em tempos recentes, em distintos setores da sociedade, surgem vozes exigindo a retirada da Cruz de lugares públicos. Junto com isso, se chega ao absurdo de exigir que não se faça qualquer referência ao evento cristão, sobretudo nas escolas e ambientes universitários.

É certamente verdadeiro o fato de que a história do cristianismo está marcada por situações obscuras. Mas também é verdade que à sombra da Cruz se desenvolveu uma compreensão do divino e do humano, do céu e da Terra que marcaram – e continuam marcando! – a sociedade ocidental.

Os discípulos do Crucificado não exigem dos não crentes viver ao seu modo, mas pedem a estes que lhes permitam viver livre e respeitosamente segundo a sua fé; ou seja, que possam continuar seu itinerário existencial à sombra da Cruz.

O cristão é convidado a contemplar a Cruz de Cristo a fim de alcançar a graça da fidelidade e assim ser no mundo testemunho do amor do Senhor que “nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).

Um escrito do segundo século ilustra o que significa ser fiel e viver à sombra da Cruz. Os cristãos “não se distinguem das outras pessoas, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, (...) nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles. (...) Testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. (...) Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na Terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida” (Carta a Diogneto).

11/04/2019

Cruz Salvadora

Dostoievski, o atormentado de Deus, escreveu uma carta à baronesa Von Wizine, na qual expressa toda a sua busca: “crer que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n’Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade.”

A Semana Santa que se aproxima é um convite a entrar na íntima experiência do Senhor que assume a Cruz com determinação, na certeza de que o Pai tudo acolhe e transforma.

 

A Cruz é expressão do amor de Deus pela humanidade. Ela é o sinal supremo do amor, é a resposta à necessidade que todo ser humano sente de ser amado.

Diante da Cruz - e a partir da Cruz – o ser humano é convidado a cultivar e promover a obra do discernimento, como exercício para formação da consciência. Isso requer o empenho de uma vida, na qual se aprende a cultivar os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, assumindo os critérios das suas opções e da sua atividade (Fl 2,5).

 

Não existem receitas prontas! Certo é que diante das inúmeras possibilidades que o tempo oferece, é necessário “submeter os próprios fatores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos outros, nem entrem em oposição entre si, absolutizando-se e combatendo-se mutuamente. O mesmo se diga dos fatores negativos: não são de rejeitar em bloco e sem distinções, porque em cada um deles pode ocultar-se algum valor que espera ser liberto e reconduzido à sua verdade plena” (Papa Francisco).

 

A Cruz diz quem é Deus. É expressão máxima de um gesto de salvação, gesto de amor sem reservas. Ela não é apenas um símbolo religioso; é também um protesto contra toda forma de injustiça e mostra que se pode viver em comunidade num espírito de reconciliação. Na Cruz e no Crucificado se pode descobrir que se salva quem compartilha a dor e se solidariza com o que sofre.

 

Em tempos complexos e complicados, em situações de incertezas e dúvidas, de radicalismos e polarizações é urgente resgatar a dimensão da Cruz e a necessidade de discernimento diante dos desafios que se impõem. De outro modo a tragédia pode encontrar lugar e o absurdo se impor.