DOM JAIME SPENGLER - OLHAR DA FÉ

24/10/2019

Anunciar o Evangelho e cuidar da vida

A Assembleia Especial do Sínodo dos Bispos para a Região Pan-Amazônica se aproxima de sua conclusão.

Nos meses que precederam o início dos trabalhos da Assembleia foram vistas manifestações distintas. Surgiram críticas contundentes contra o tema proposto para essa Assembleia Especial do Sínodo: “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral”. Houve também manifestações entusiastas a favor do caminho construído por meio de consultas das comunidades envolvidas na questão, até desembocar na celebração da Assembleia. Não faltaram sinais de preocupação com os possíveis caminhos que o Sínodo poderia propor, inclusive envolvendo questões de soberania territorial. Trata-se certamente de um momento importante! E a Igreja na sua incansável dedicação em evangelizar se esforça para que o trabalho realizado desemboque na indicação de caminhos viáveis para a inculturação da fé.

Os trabalhos da Assembleia caminham para sua conclusão, quando se entregará ao Papa o Documento Final. O Papa decidirá o que fazer com os resultados de três semanas de intensos debates e estudos entre os participantes da Assembleia.

Este Sínodo especial está marcado por uma dúplice dimensão: a eclesial e a ecológica. O Sínodo possui uma dimensão ecológica, expressa na preocupação com a urgente necessidade de mudança de mentalidade, estilo de vida, modos de produção, práticas de consumo, acumulação e desperdício. A dimensão eclesiológica implica a disposição para uma conversão pastoral.

A partir dos resultados dos trabalhos realizados nos “Círculos Menores” (grupos de trabalho) se pode perceber que a preocupação central é sobretudo com os desafios pastorais. A região amazônica precisa ser contemplada com coração cristão e olhos de discípulo.

A missão da Igreja é anunciar Jesus Cristo, sem descuidar da necessidade de cuidar, proteger e promover a vida. Esta ação requer um olhar contemplativo sobre a realidade, para construir a necessária harmonia entre a sociedade humana e o meio ambiente.

17/10/2019

O anjo da Bahia

“As pessoas que espalham amor, não têm tempo nem disposição pra jogar pedras” (Santa Dulce dos Pobres). Foi a disposição de espalhar amor, de fazer o bem que fez de  Irmã Dulce uma grande mulher.

No último domingo (13), na Praça de São Pedro, o Papa Francisco inscreveu no catálogo dos santas e santas o “Anjo Bom da Bahia”.
 

A obra iniciada num galinheiro transformou-se num grande hospital, onde os mais pobres entre os pobres até hoje podem encontrar alívio para suas dores.


Se um fato extraordinário – um milagre – permitiu que ela fosse elevada às honras do altar, foram os fatos ordinários, a ternura, o cuidado da vida, o respeito pelos mais necessitados que foram moldando a vida de Maria Rita de S. B. Lopes – a primeira santa nascida no Brasil.


De constituição física frágil, interiormente forte, incansável na sua determinação de ir ao encontro dos mais frágeis e deixar-se encontrar por eles, ela compreendeu que quando a “gente cuida da dor de alguém, Deus cuida da dor da gente”.


O exemplo de Santa Dulce dos Pobres recorda um modo de ser e de agir em favor do cuidado do ser humano e da vida que expressa uma saudade inata no indivíduo: de um mundo harmonioso e solidário, onde o cuidado de uns pelos outros seja a suprema norma. “A afirmação de que as estruturas justas tornariam supérfluas as obras de caridade esconde uma concepção materialista do homem: o preconceito segundo o qual o homem viveria ‘só de pão’ – convicção que humilha o homem e ignora precisamente aquilo que é mais especificamente humano” (Bento XVI).


O anjo bom da Bahia foi testemunha viva e ambulante de misericórdia – “a mais importante e talvez a única lei da vida da humanidade” (Dostoiévski). Por meio do exercício da misericórdia, ela testemunhou o que significa o verdadeiro amor: cuidado do outro e pelo outro.


Por meio de sua dedicação aos pobres, a primeira mulher brasileira a ser inscrita no catálogo dos santos mostra o quanto é importante a atividade caritativa da Igreja e o empenho de todos em favor de um justo ordenamento do Estado e da sociedade. Recorda que o exercício da caridade é um dever congénito da Igreja, pois o ser humano “além da justiça, tem e terá sempre necessidade de amor” (Bento XVI).

10/10/2019

Sínodo: apontar caminhos!

Está acontecendo, no Vaticano, o Sínodo para a região Pan-Amazônica. Durante três semanas acontecerá um intenso debate em torno de temas que dizem respeito à vida da Igreja naquela região e ao mesmo tempo, de questões conexas, a partir da ótica dos povos que a habitam.

A região Pan-Amazônica é constituída de aproximadamente 7,8 milhões de km², abrangendo nove países. Habitam a região cerca de 33 milhões de pessoas, sendo 3 milhões de indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos diversos.

O Sínodo representa um desafio a todo o Povo de Deus. É toda a Igreja que dirige seu olhar e atenção para uma região específica, procurando compreender quais são os seus desafios, preocupações e problemas, a fim de encontrar indicações viáveis para continuar respondendo vigorosamente às exigências da obra da evangelização junto àquela realidade.

No centro dos debates na aula sinodal estará a questão da vida. Não se pode esquecer que todas as formas de vida do planeta são filhas da Terra. O próprio corpo humano é feito do “barro da terra, no qual Deus ‘soprou’ o espírito de vida” (Gn 2,7). Compreende-se, assim, a inter-relação entre a vida e o meio ambiente, pois tudo o que se faz em prejuízo da Terra, se faz em prejuízo dos seres humanos e outras formas de vida.

Os participantes da assembleia sinodal são confrontados com questões intereclesiais, com desdobramentos sobre a realidade cultural, social, espiritual e religiosa daquela imensa região. A obra da evangelização junto àquela realidade se vê desafiada por problemas tais como as condições de pobreza e miséria de muitos, o tráfico humano, a exploração sexual, a perda da cultura e identidade dos povos originários, a criminalização e o assassinato de lÍderes locais, a apropriação e a privatização de bens naturais, as práticas predatórias de caça, pesca e exploração da terra, os megaprojetos infraestruturais — nem sempre respeitando o meio ambiente — o narcotráfico.

Pode-se assim compreender a indicação do Papa: “amai esta Terra, senti-a vossa... Comprometei-vos a salvaguardá-la, à defendê-la. Não a useis como mero objeto que se pode descartar.”

03/10/2019

Sínodo: espaço de diálogo e discernimento

O Sínodo especial para a região Pan-Amazônica, que inicia neste domingo (6), no Vaticano, representa uma oportunidade para a Igreja rever sua metodologia de atuação evangelizadora e sua prática pastoral, buscando novos caminhos para ser presença ainda mais eficaz naquela região.

A preparação do Sínodo originou muitos debates. Suscitou polêmica o conceito de ecologia integral. O Papa Francisco explica que o conceito requer “abertura para categorias que transcendem a linguagem das ciências exatas ou da biologia e nos põem em contato com a essência do ser humano. (...) Uma ecologia integral exige que se dedique algum tempo para recuperar a harmonia serena com a criação, refletir sobre o nosso estilo de vida e os nossos ideais, contemplar o Criador, que vive entre nós e naquilo que nos rodeia e cuja presença não precisa ser criada, mas descoberta, desvendada” (Papa Francisco). Além disso, é necessário ter presente que o ambiente situa-se na lógica da recepção. É um empréstimo que cada geração recebe e deve transmitir à geração seguinte.

Precede a celebração da assembleia sinodal um amplo processo de escuta dos povos e das comunidades daquela imensa região.

Durante os trabalhos da assembleia, os Bispos são chamados a desenvolver a obra do discernimento, a fim de propor caminhos para o anúncio do Evangelho de Jesus Cristo junto àquela realidade. Caberá, depois, ao Papa Francisco avaliar as propostas apresentadas e de acordo com o Evangelho, a tradição da Igreja e as novas exigências que o tempo atual apresenta para a Igreja, decidir quais caminhos empreender para que ela cumpra a sua missão de anunciar o Evangelho a todos os povos.

A região Pan-Amazônica, além de cidades importantes, conserva uma variedade de povos nativos com suas culturas. Ora, desde o seu nascimento, o cristianismo tocou e se deixou tocar por outras culturas, colhendo dessas elementos e características. Isso diz de um processo de inculturação, ou seja, de inserção da mensagem cristã em diversas regiões e contextos sociais, por meio de um processo de diálogo com o universo simbólico dos povos com os quais o Evangelho entrou em contato.

Construir novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral requer capacidade para o diálogo, oração e sincero compromisso com a missão de cooperar ativamente na construção de uma “Terra sem males”, segundo os critérios do Evangelho.

26/09/2019

O único sentido do Sínodo sobre a Amazônia

No próximo mês de outubro acontecerá, em Roma, um Sínodo especial, do qual o tema é “Amazônia: novos caminhos para a Igreja e por uma ecologia integral”. Para o Papa Francisco, “o objetivo principal desta convocação é identificar novos caminhos para a evangelização daquela porção do Povo de Deus, especialmente dos indígenas, frequentemente esquecidos e sem perspectivas de um futuro sereno”.

O que é um Sínodo? A palavra tem origem no grego “syn”, que significa “juntos”, e “hodos”, estrada ou caminho. Trata-se de um evento eclesial, consultivo e não deliberativo. É uma assembleia periódica de bispos de todo o mundo que, presidida pelo Papa, se reúne para tratar de questões concernentes à vida da Igreja. É um lugar eclesial onde se buscam possíveis caminhos coletivos para se decidir sobre algo específico, que requer atenção especial por parte da Igreja. O Sínodo é uma instituição que “presta uma eficaz colaboração ao Romano Pontífice – segundo as modalidades por ele mesmo estabelecidas – nas questões de maior importância, isto é, naquelas que requerem especial erudição e prudência, para o bem de toda a Igreja” (EC, 1). Segundo o Santo Padre, “não é um parlamento onde, para atingir um consenso ou um acordo comum, há negociações, pactos ou compromissos. O único método do Sínodo é abrir-se ao Espírito Santo, com coragem apostólica, humildade evangélica e oração”.

Por que um Sínodo para a Amazônia? A Amazônia possui uma extensão de 7,8 milhões de km². Inclui áreas de nove países. Conta com cerca de 33 milhões de habitantes, 3 milhões dos quais são indígenas pertencentes a 390 grupos ou povos diversos. A Amazônia influencia o ecossistema planetário: a bacia do Rio Amazonas e as florestas tropicais circundantes nutrem o solo e regulam, através da reciclagem da umidade, os ciclos da água, da energia e do carbono a nível planetário.

Diante dos desafios trazidos por aquilo que se cunhou denominar “mudança de época”, a Igreja se sente no dever de encontrar novos caminhos para levar a termo a missão que lhe é própria: evangelizar! Já o conceito de ecologia integral deseja ressaltar a relação existente entre todas as criaturas do planeta na dimensão ambiental, econômico, social, cultural e vida quotidiana.

19/09/2019

A urgência pelo cuidado e proteção da vida

A prática do suicídio levanta questões infinitas. Possuímos contribuições de várias ciências que se ocupam com o tema. Contudo uma pergunta permanece: por quê?


É difícil encontrar respostas satisfatórias diante da decisão de alguém de tirar a própria vida. Trata-se de um ato abrupto, chocante e ambíguo. Além do mais, esse é um assunto complexo, delicado e cercado de tabus.
 

Que fatores levam pessoas a cometer suicídio? São variados os fatores a serem considerados: genéticos, familiares, ambientais, socioculturais, existenciais, clínicos. Por vezes, pode estar presente o desejo da pessoa de chamar a atenção sobre si ou sobre os problemas que vive; pode ser expressão do desejo de ser ouvida e ajudada; pressão social por produtividade e máxima eficiência também influenciam; segregação ou isolamento social, formas de discriminação, doenças ou deficiências físicas, a morte de um familiar ou pessoa amada, dificuldades de trabalho e/ou financeiras podem induzir à prática do suicídio.
 

Em tempos de crise política, econômica, social e religiosa, o suicídio ocupa a cena do drama humano. Ele é certamente algo que faz parte da existência humana. Todo ser humano, em um ou em outro tempo da vida, desenvolve formas de sofrimento psíquico. Contudo, diante das incertezas frente ao futuro, a celeridade do tempo, o consumismo exacerbado, o impor-se do esteticismo ou narcisismo, o crescimento do número de relações interpessoais inconsistentes etc. constata-se o aumento dos casos de suicídio.
 

Detectar um possível suicida, saber aproximar-se, ouvir com delicadeza, cortesia e compreensão, e empenhar-se por buscar auxílio é expressão de solidariedade e senso de corresponsabilidade social diante desse drama que atinge não poucas pessoas.


A crença religiosa e a prática da fé influenciam na estabilidade emocional, na redução da tensão e ansiedade, na modificação do comportamento, na promoção de bem-estar interior e no modo como pessoas lidam com situações difíceis da existência.


O cristão é desafiado a testemunhar a fé, a esperança e a caridade, empenhando-se também na tarefa de proteger, cuidar e promover a vida, especialmente quando encontra alguém que perdeu a vontade de viver, pois a vida humana é graça, e, por isso, deve ser dignificada.

12/09/2019

​Promoção da vida: responsabilidade de todos

O fenômeno trágico e complexo do suicídio tem causado preocupação em diversos setores da sociedade, sobretudo quando atinge adolescentes e jovens.

É verdadeiro que distúrbios psíquicos graves, a angústia, o medo grave da provação ou do sofrimento podem ser causa de suicídio. Pela natureza da surpresa e incredibilidade, o suicídio pune emocionalmente a todo o entorno – familiares, amigos, companheiros de estudo e/ou trabalho – de quem cumpre esse gesto extremo.

Psicólogos, psiquiatras, pedagogos e sociólogos têm se empenhado para tentar compreender as razões do fenômeno. Os esforços para encontrar explicações plausíveis se multiplicam. Há quem afirme que uma das razões seria a falta de ideais ou objetivos capazes de empenhar toda uma vida.

O futuro se oferece como uma paisagem imprevisível que paralisa iniciativas e apaga o entusiasmo.

É também verdadeira a comparação da estrutura humana a um tapete: de um lado se veem belas figuras; mas de outro, no lado debaixo, é marcado por nós e fios retorcidos que não se veem. Esclarecer o porquê e o como dos nós e dos fios retorcidos é um enorme desafio. E, no entanto, são eles que garantem a beleza da peça.

O ser humano sente e vive a necessidade de, com cuidado e atenção, “desatar as coisas que estão emaranhadas e atar os fios soltos” de sua existência. Nesse trabalho estão envolvidos a pessoa, os familiares e amigos, como também as instituições de educação, saúde e religiosas.

Estudos científicos consistentes mostram o quanto a religiosidade é um fator protetor para o suicídio. Mais ainda: níveis mais elevados de envolvimento com a religião estão associados positivamente com indicadores de bem-estar psicológico, com menos depressão, comportamento suicidas e abuso de drogas.

A fé cristã compreende a vida humana como dom que precisa ser preservado. Ela não é propriedade individual, pois traz vínculos de solidariedade com as sociedades familiar e humana. Por isso, urge envolver todas as forças da sociedade que acreditam, cuidam e promovem vida plena para todos, a fim de
auxiliar adolescentes e jovens a assumirem a existência com seus desafios e oportunidades, sem se deixar em conduzir pelo positivismo das ciências ou dogmatismos religiosos.

05/09/2019

Podemos cantar a liberdade?

Ao longo da história, inúmeras interpretações do conceito de liberdade foram construídas. O hino da Independência do Brasil canta a “liberdade no horizonte do Brasil”.  Bela também é a expressão de Fernando Pessoa: “Brincava a criança com um carro de bois! Sentiu-se brincando e disse: eu sou dois!” Nela, o poeta canta a ancoragem da identidade humana no lar da liberdade, conjugando o exterior com a dinâmica interior da situação.

 

Encanta contemplar a árvore enraizada na terra, o pássaro que voa na tempestade e a fera que habita a floresta. São símbolos da liberdade! Entretanto, somente a identidade humana está no poder de merecer ser livre, através de um longo processo de aprendizagem. A identidade humana é impelida pela liberdade a sair de si, a extravasar-se, a buscar sua realização: a felicidade.

 

A liberdade é, pois, um atributo essencial da pessoa humana, que lhe permite escolher o próprio destino e de se autodeterminar. Ela pressupõe o exercício da inteligência, como também o progressivo aperfeiçoamento na natureza inferior. Ela é um elemento essencial para a natureza e para a dignidade do ser humano.

Na semana em que o povo brasileiro celebra a independência, é possível cantar a liberdade?

 

O Brasil é uma nação caracterizada por belezas e riquezas. Os campos têm mais flores, os bosques e as florestas conservam uma biodiversidade extraordinária, o solo é fértil, o subsolo conserva tesouros, os ecossistemas são riquíssimos. Contudo, o país está em segundo lugar no mundo em termos de desigualdade, entre os países democráticos. Falta projeto de nação, políticas públicas consistentes para a superação de tamanha desigualdade.

 

Celebrar a independência e cantar a liberdade do Brasil implica o compromisso vigoroso de promover o bem comum. Por isso, enquanto houver alguém passando fome, sem terra, sem trabalho, sem teto, sem escola, sem atendimento médico-hospitalar digno, a liberdade não será autêntica.

 

A esperança dá forças, elã e entusiasmo! Em celebrando a semana da Pátria, nos recordemos que não podemos permitir que nos roubem a esperança.

29/08/2019

Aprender com o que já se sabe

A relação do ser humano com o mundo é um elemento constitutivo de sua identidade. Por isso, as relações com o meio ambiente devem estar ancoradas numa antropologia e ética consistentes.
 

O uso da terra com suas riquezas adquire luz orientadora a partir dos avanços da ciência e da técnica. Assim, as relações humanas com os bens da natureza obtêm orientações mais seguras, a fim de promover sempre mais a necessidade de respeito e cuidado para com o ambiente.


O modelo econômico predominante se orienta pelo aspecto do lucro fácil. A natureza não pode ser usada, manipulada e explorada de forma arbitrária, e nem submetida à "vontade de poder", característica da ação de mercados, como se ela não gozasse de dignidade e importância na determinação da qualidade de vida do planeta.


No Rio Grande do Sul, está tomando corpo o projeto de exploração de carvão mineral em diferentes regiões. Ora, aprender a partir de situações vividas no passado é ato fundamental de toda pessoa de bom senso. Países onde a extração era prática comum estão reduzindo drasticamente tal prática à causa das consequências para a atmosfera e para a vida em suas diversas manifestações.

 

É sabido que o carvão mineral é grande causador do aquecimento global, e isso sem considerar outros impactos no processo de exploração e suas consequências para a região onde isso acontece. Sabe-se que o carvão mineral possui composição complexa, capaz de colocar em risco a qualidade do ar, da água e da saúde humana.


Os bens naturais quando não sabiamente respeitados e utilizados em vista da vida plena para todos, tornando-se objeto da ação criminosa e gananciosa das mineradoras não interessadas no bem comum, se transformam em causa de morte. Geralmente, as empresas mineradoras optam pela exploração barata, o lucro fácil e o mínimo de retorno para a sociedade envolvida e atingida.


A atividade mineradora no Brasil se tornou eticamente insustentável e irresponsável, calamitosa e de altíssimo risco não só para a vida e saúde humana, mas também para a fauna e flora em suas áreas de atuação. Provavelmente aqui não será diferente.

22/08/2019

Ousados, corajosos e criativos ​

Muitos são os que se dedicam à ação educativa e pastoral da Igreja, que transmite a mensagem cristã, com o objetivo de acompanhar o crescimento e o amadurecimento da fé dos fiéis e dos grupos eclesiais: eles são os catequistas. Homens e mulheres que se empenham na educação da fé, através da palavra, do acompanhamento e do testemunho; iniciam nos mistérios da fé aqueles que se deixaram atingir pelo evento da morte e ressurreição do Senhor. São leigos e leigas que se doam a essa atividade primordial para a vida da Igreja. São membros da comunidade que se dispõem a dar um pouco de seu tempo em prol do anúncio da Palavra, em favor, especialmente, dos adolescentes e jovens. 

 

Os catequistas têm um papel importantíssimo e insubstituível. São mediadores que orientam e auxiliam os catequizandos no processo de acolhimento da revelação do Deus-Amor. Acompanham quem está sendo iniciado nos mistérios da fé para que realizem seu encontro pessoal com o Crucificado-Ressuscitado.

Os catequistas não agem sozinhos, agem em nome da Igreja.

 

Ser catequista significa dar testemunho da fé, ser coerente na própria vida. É vocação! É dom de Deus que precisa ser acolhido e cultivado; conservado e partilhado; alimentado e promovido.

 

A Igreja agradece o empenho e dedicação de tantos na obra do anúncio da Boa-Nova de Jesus Cristo. Mas também vale aqui recordar as palavras de Jesus: "A minha palavra não é minha, mas d´Aquele que me enviou" (Jo 14,24). Assim, a obra levada a termo por tantos catequistas, marcados pela determinação, zelo, amor a Jesus e seu Evangelho, deve estar orientada pelo princípio do próprio Evangelho: o que se ensina e anuncia é repercussão da Palavra de Deus lida, meditada, rezada e compartilhada!

 

Precisamos ser ousados pois os tempos mudaram, a visão antropológica se transformou; corajosos, pois a compreensão e a prática da fé cristã precisam de novo ardor; criativos, porque o fenômeno mesmo da globalização exige novos métodos e novas expressões.

 

A Igreja eleva um grande hino de ação de graças pela dedicação de tantos nesta obra importante, a catequese. A comunidade de fé invoca sobre seus catequistas a força do Espírito Santo para que levem a bom termo a missão recebida.

15/08/2019

Gratidão aos consagrados

“A fé não é luz que dissipa todas as nossas trevas, mas lâmpada que guia os nossos passos na noite, e isto basta para o caminho. Ao homem que sofre, Deus não dá um raciocínio que explique tudo, mas oferece a sua resposta sob a forma duma presença que o acompanha, duma história de bem que se une a cada história de sofrimento para nela abrir uma brecha de luz. Em Cristo, o próprio Deus quis partilhar conosco esta estrada e oferecer-nos o seu olhar para nela vermos a luz.” (Papa Francisco). 
 

Caminhando à luz da fé, os cristãos são convocados a colaborar na transformação das realidades temporais. Tarefa específica nesse âmbito possuem as mulheres e homens consagrados, aos quais a Igreja Católica dedica o próximo final de semana. Essas pessoas buscam observar na vida cotidiana os conselhos evangélicos de pobreza, castidade e obediência. Como consagrados e consagradas, participam da obra da evangelização da Igreja no mundo e a partir do mundo, onde, por meio de diversas formas de atuação, agem como "fermento na massa, luz do mundo e sal da Terra". Seu empenho e testemunho de vida cristã consagrada visa organizar as coisas temporais de acordo com a proposta do Reino de Deus e impregnar a sociedade com a força do Evangelho.


A história do Rio Grande do Sul traz a marca da dedicação e o empenho de tantos homens e mulheres que, consagrando suas vidas por meio dos conselhos evangélicos em distintos institutos, cooperaram e cooperam na construção de uma sociedade justa e fraterna.


Nos membros de Institutos e Vida Consagrada e Sociedades de Vida Apostólica, há inúmeros sinais de generosidade, desapego, sacrifício, esquecimento de si próprio no intuito de ajudar os outros, presentes em hospitais, obras sociais, escolas, creches, asilos, casas de acolhida, centros de recuperação de dependentes químicos, organismos eclesiais e pastorais. São iniciativas que não fazem publicidade, mas que caracterizam a vida de tantas pessoas. São seres humanos marcados e iluminados pela experiência do encontro com a pessoa de Jesus Cristo, que "creem, amam e esperam" e, por isso, vivem uma vida de liberdade evangélica; são profetas e profetizas do Reino de Deus e sua justiça.

08/08/2019

Afinal, o que é vocação?

A vocação é um fato muito pessoal. É a disposição natural e espontânea que orienta a pessoa no sentido de escolher uma específica forma de vida. Para quem a vive, sobretudo quando madura gradualmente através de variadas experiências, ela se torna algo integrante e integrador da pessoa.

 

Com dificuldade, identificamos os elementos constitutivos de nosso ser. A vocação, sendo expressão de um trabalho de discernimento sobre aquilo que somos e por que o somos, entra no âmbito do mistério da existência humana. Por isso, nos encontramos numa espécie de desconforto quando precisamos definir o que seja vocação.

 

A vocação possui muitos fatores espontâneos e pessoais difíceis de ser justificados: são elementos que formam e constituem a identidade da pessoa. Nós experimentamos isso quando somos desafiados a, em caso de dúvida, definir se uma pessoa possui essa ou aquela vocação. Não é fácil responder a essa questão.

 

Mesmo pessoas com grande experiência nesse campo encontram dificuldades para exprimir um juízo. Toca-se uma dimensão da existência humana onde somos confrontados com coisas que não se veem e não se podem facilmente enumerar e contar. São situações nas quais nós mesmos somos colocados em questão. O "fundo" da pessoa é aquilo que se é, é a identidade, e a vocação pertence a esta realidade pessoal. Quando se fala disso, quando se procura construir um discurso linear sobre o que seja vocação, corre-se o risco de depreciar e de banalizar o que está em jogo.

 

A vocação é um mistério que vai se revelando paulatinamente, à medida que vamos descobrindo quem somos e a finalidade da nossa existência. As vocações, de algum modo, são todas distintas; cada indivíduo expressa uma singularidade. Quando se pensa poder tratar todas as histórias da mesma forma, corre-se o risco de generalizar experiências personalíssimas e singularíssimas. Corre-se o risco de cair em certos esquemas, impedindo o verdadeiro conhecimento do singular e concreto, dessa e daquela experiência, desta ou daquela pessoa.

01/08/2019

Vocação: um caminho aos desafios contemporâneos da juventude

Vocação e profissão se distinguem e se complementam. Profissão diz, sobretudo, de preparação técnica, competência, eficiência produtiva, ganha-pão, função social, reconhecimento externo. Vocação implica decisão pessoal, realização pessoal, chamado interior, paixão, amor e gosto pelo que se faz.

O tema "vocação" se faz necessário, uma vez que adolescentes e jovens se sentem desafiados a escolher um caminho de vida que corresponda aos anseios do próprio íntimo, como resposta ao desejo natural de felicidade e realização pessoal.

O momento histórico é rico de possibilidades e pobre de opções claras. A complexidade social, os desafios que se apresentam a quem deseja cooperar na construção de uma sociedade madura, equilibrada e justa, e o anseio pessoal de autêntica realização humana são fatores que angustiam adolescentes e jovens.

Eles anseiam encontrar um caminho de vida que lhes realize plenamente. No entanto, nem sempre encontram pessoas aptas para lhes acompanhar e ajudar na obra do discernimento.

Vocação toca uma dimensão profunda da existência da pessoa que ultrapassa as possibilidades de cálculos, diagnósticos e previsões. Ela aponta para um modo característico do ser humano se relacionar com tudo e com todos; aponta para um horizonte de realização, um futuro, uma tarefa em constante realização.

Numa época em que o ter se sobrepõe ao ser, o profundo cede lugar ao superficial, a cooperação foi morta pela dominação, a solidariedade cedeu seu lugar ao individualismo, resgatar a questão da vocação humana e cristã ganha contornos de necessidade vital.

Para o cristão, tudo tem um sentido, tudo está vocacionado para Deus.

A perspectiva oferecida pela fé cristã permite crer que o ser humano é vocacionado à vida, à felicidade, para Deus.

Cooperar para favorecer a reflexão em torno da questão vocacional junto aos jovens que se sentem chamados ou que alimentam o desejo, ainda que fugaz, de cooperar na construção de um mundo melhor para as futuras gerações, é um serviço que a comunidade eclesial presta à sociedade.

25/07/2019

Amar e ser amado

O amor entre homem e mulher é expressão perfeita do próprio amor; ultrapassa a força da vontade e da inteligência. Trata-se de uma dimensão da existência humana que necessita de cuidado, disciplina e purificação para proporcionar ao ser humano não o prazer de um instante, mas um indício de plenitude da existência. 

A experiência de autêntico amor entre o masculino e o feminino concede, de algum modo, aos envolvidos pregustar o infinito, a plenitude, o eterno. Não se pode simplesmente seguir o instinto. Urge cultivar a necessária coragem para suportar as necessárias e salutares renúncias que o instinto exige para que o amor humano se complete e se expresse na sua plenitude, ou seja, no encontro entre o masculino e o feminino.

O amor humano não é coisa, mercadoria ou o resultado de processos biológicos e neuronais, ou realização de papéis. É que o ser humano existe sempre ou como varão ou como mulher. Ele nunca se esgota em si mesmo. Ele tem sempre diante de si o outro modo. A dualidade masculino-feminino é uma riqueza e um limite, pois expressa a necessidade ou capacidade de sair de si para ir ao encontro do
diferente de si, em vista da própria realização ou plenificação. 

Numa sociedade marcada pelo cansaço onde a pessoa é avaliada apenas pelo seu desempenho, o outro não importa. Nesse contexto, se impõe a cupidez e o pornográfico que desconsideram a dignidade do outro. Impõem-se assim a ditadura da subjetividade que imagina comandar o próprio destino e por isso, esquiva-se de considerar, avaliar e reconhecer aspectos importantes da própria existência humana até ser confrontada com a realidade. Mas haverá tempo para as necessárias avaliações e revisões? 

“O amor é mais forte que a morte” (Ct 8,6). Esse princípio poderia orientar a sociedade na construção de caminhos para a superação da multiplicação de casos de automutilação, suicídio e drogadição entre adolescentes e jovens, órfãos filhos de pais vivos. 

É necessário reconhecer que a família constituída pelo encontro do masculino e do feminino é o centro de amor por excelência.

18/07/2019

O amor é mais forte que a morte

O que significa professar a fé cristã ou se apresentar como católico no contexto sócio-político-econômico brasileiro?

 

A atenção dos centros de poder e de decisão se concentra no "reino da Terra", nos avanços científicos, na economia de mercado, no conforto e bem estar dos que têm acesso aos bens econômicos.  Surgem, porém, sinais preocupantes! Os adolescentes estão se automutilando; um número expressivo de jovens comete suicídio; há uma multidão de adolescentes e jovens órfãos de pais vivos; a dependência química e eletrônica avança de forma implacável. Poder-se-ia elencar ainda outros elementos que expressam a fragilidade do tecido social e a precariedade preocupante das relações familiares.

 

É desafiador a missão de manter acesa a esperança de uma sociedade sadia. Se perde-se a esperança, a sociedade não tem futuro. Uma sociedade que não considera e promove a dignidade da família é uma sociedade fadada à sua dissolução.

 

A fé cristã ensina que Deus criou o ser humano, homem e mulher, com igual dignidade, mas também com características próprias e complementares, para que os dois fossem dom um para o outro, se valorizassem reciprocamente e realizassem uma comunidade de amor e de vida.

 

A vida familiar requer o empenho decisivo do homem e da mulher. O amor que os une é fecundo, antes de mais nada, para as pessoas envolvidas, pois o desejo primordial não pode ser outro se não o bem um do outro, experimentando a alegria do receber e do dar. É fecundo na procriação responsável dos filhos, na solicitude carinhosa por eles e na educação cuidadosa e sábia. O amor do casal é fecundo para a sociedade, porque a vida familiar é a primeira e insubstituível escola das virtudes sociais, tais como o respeito pelas pessoas, a gratuidade, a confiança, a responsabilidade, a solidariedade, a cooperação.

 

A vocação à vida familiar é nobre e bela. A realidade do amor é maravilhosa. A vida familiar construída no amor é força que pode transformar o universo, o mundo e a sociedade.

11/07/2019

O que significa a morte de mais um policial militar

Entre as forças de segurança e a população que se empenha por ganhar o pão de cada dia de forma honesta e justa existem laços de solidariedade e confiança.  Onde há postos policiais eles são, usualmente, pontos de referência para a coletividade. Tal presença favorece a inserção das forças de segurança na vida das comunidades.

 

O domínio de bairros, vilas e condomínios por parte de grupos ligados, sobretudo, ao tráfico de drogas, monitorando a vida cotidiana dos habitantes, impondo toque de recolher e um regime de terror é algo inadmissível.

À causa dessa situação, mortes se sucedem, especialmente entre jovens. Mais um PM, no exercício de seu dever, foi assassinado; homem jovem, inaugurando uma vida familiar, certamente com um projeto de vida e que acreditava no direito e na justiça. Mais uma vez uma família ferida, um sonho abortado, amigos abalados. Também mais um motorista de aplicativo assassinado. Trata-se de delitos inadmissíveis e que devem ser condenados com vigor.

As situações de violência que se multiplicam no cotidiano não mais causam indignação. Surgem manifestações de condenação, compromissos de justiça, mas após o acontecido tudo parece retomar o ritmo de antes. Vale sempre recordar a necessidade urgente que crianças, adolescentes e jovens têm de afeto, de família; urge promover, entre eles, valores que dignifiquem a vida e o respeito pelos demais, além de acesso à educação com qualidade e trabalho digno.

No processo de construção de uma sociedade marcada pela paz e pela justiça, as instituições família e escola têm uma tarefa característica. Não se pode banalizar o direito de cada criança, adolescente ou jovem de poder contar com uma família, constituída de pai e mãe, e nem vulgarizar ou desmerecer a nobre missão de professores e mestres.

“A verdade, será fundamento da paz, se cada indivíduo honestamente tomar consciência não só dos próprios direitos, mas também dos seus deveres para com os outros” (São João Paulo II).

04/07/2019

Trabalhar: Por quê? Para que?

“O trabalho é um bem do ser humano (...) porque, mediante o trabalho, o ser humano não somente transforma a natureza, adaptando-a às suas próprias necessidades, mas também se realiza a si mesmo como ser humano e até, num certo sentido, se torna mais humano” (J. Paulo II).

 

No trabalho “a pessoa exerce e realiza uma parte das capacidades inscritas em sua natureza. O valor primordial do trabalho está ligado ao próprio ser humano, que é seu autor e destinatário. (...) Cada um deve poder tirar do trabalho os meios para sustentar a si e aos seus, e para servir à comunidade humana” (CIC 2428).

Recordar a dignidade do trabalho auxilia a compreender sua importância. Ele é meio para o próprio sustento e serviço à comunidade humana. Mas como pode alguém desenvolver plenamente suas capacidades se lhe é negada a possibilidade de trabalhar?

Um número expressivo de gaúchos se encontra sem trabalho. Recentemente várias indústrias fecharam suas unidades no Estado e demitiram os funcionários. Causa estranheza as motivações para o encerramento das atividades das empresas: a consolidação industrial, a necessidade de manter a competitividade, a otimização da logística, a maior flexibilidade para o transporte da matéria prima e maior eficiência de suas operações. Em nenhum momento se considera o trabalhador que necessita do trabalho "para sustentar a si e aos seus". Jamais se considera a necessidade pessoal.

Sem trabalho não há esperança! Sem esperança, não há futuro!

A falta de trabalho dói para quem não tem como ganhar a vida honestamente com o suor do próprio rosto. Essa realidade contradiz a Declaração Universal dos Direitos humanos: “Todo ser humano tem direito ao trabalho, à livre escolha de emprego, a condições justas e favoráveis de trabalho e à proteção contra o desemprego” (art. 23).

Sem trabalho digno para todos a economia não melhora, a vida civil se corrompe e o habitat se deteriora.

Promover um lugar digno de trabalho para todos “é uma grande responsabilidade humana e social, que não pode ser deixada nas mãos de poucos nem acabar num ‘mercado’ divinizado” (Papa Francisco).

27/06/2019

Fé e Vida

O dinamarquês Kierkegaard (1813-1855) marcou a história do pensamento ocidental. Ele foi poeta, crítico social, filósofo e teólogo. Num de seus depoimentos, ele expressa o júbilo pela sua existência dizendo: “Eis o motivo pelo qual minha voz se elevará no júbilo, mais forte que a voz da mulher que deu à luz, mais forte que o grito de alegria dos anjos por um pecador que se arrepende, mais alegre que o canto dos pássaros ao raiar do dia: pois o que eu procurei, achei; e mesmo que os homens me arrebatassem tudo, mesmo que me excluíssem de sua sociedade, eu conservaria sempre a melhor parte, o espanto repleto de felicidade que nos trazem o amor infinito de Deus e a sabedoria de seus desígnios”.

 

Kierkegaard aponta para a dimensão da fé cristã; a fé vai além da mera crença doutrinal para incluir uma atitude de profunda confiança em Deus e abertura para o Infinito.

 

A fé, no atual contexto histórico marcado pela exacerbação do pensamento científico, se vê sujeita a uma série de interrogações. Ela, porém, não teme qualquer conflito com a autêntica ciência, pois ambas, por caminhos característicos, tendem para a verdade.

 

O racionalismo científico e tecnológico abrange o finito, o mensurável e perceptível. A fé, sem negar a estes, aponta para o Infinito atuante no visível de toda situação finita.

 

O conhecimento advindo da fé promove valores: a reverência, o cuidado, a solidariedade, a fraternidade, a liberdade, a justiça, a paz, a misericórdia, o reconhecimento do finito, o respeito e a promoção das diferenças. Valores autênticos aperfeiçoam a pessoa, realizando sua natureza e plenificando sua existência. Os valores cooperam para que a identidade humana reconheça o Infinito, sem negar o finito.

A fé cristã não se contrapõe à razão. Ela também não admite radicalismos e fundamentalismos. Ela propicia, sim, ao ser humano a possibilidade de sair de si e habitar na tenda do Divino em todas as situações da existência humana, para que todos possam ter vida e vida em abundância.

19/06/2019

As festas de junho

Durante este mês de junho acontece o fenômeno natural interessante: o dia mais curto e a noite mais longa do ano. Esse fenômeno era motivo de festa para povos antigos. Também no mês junho temos as conhecidas festas juninas de Santo Antônio, São João, São Pedro e São Paulo.  

 

Elas são marcadas pela alegria, músicas típicas, comidas características, canjica, pinhão, pipoca e fogueira. São festas populares que superam distinções de credo ou pertença religiosa. Elas são oportunidade privilegiada para o encontro de amigos, brincadeiras, descontração e também fé. No encontro com as diversas tradições regionais, as festas juninas adquirem contornos característicos como, por exemplo, as bandeirinhas e os balões coloridos, o erguimento do mastro e o forró.

 

Numa sociedade que parece ter perdido sua alma e sua fala, desprovida de sentido, na qual o alarido da comunicação não permite o silêncio, e a proliferação e massificação das coisas não permitem o recolhimento e o descanso, a dimensão lúdica da vida dessas festas marcadas pela simplicidade, o poder de estar juntos e a alegria pueril se tornam oportunidade especial para resgatar elementos essenciais da convivência humana.

 

A cultura popular que marca as festividades do mês de junho expressa de forma humana, simples e bela, o desejo latente na alma do povo de um mundo melhor, marcado pela paz, justiça e fraternidade. 
 

De um lado, tais festividades expressam, ainda que de forma diluída, a religiosidade do povo e, de outro, exteriorizam o desejo humano de confraternização, expõem a necessidade de comunhão e unidade, manifestam o desejo de um mundo transformado, onde muros sejam destruídos, pontes construídas, cercas e bloqueios desfeitos, e a harmonia originária reconquistada.

 

Aquilo que as festas juninas inspiram seria um sonho? Mas, “ai do mundo se não fosse a utopia, ai do mundo se não fossem os sonhadores. (...) Quando se sonha sozinho, é apenas um sonho, mas quando se sonha em mutirão, já é uma realidade” (Dom Helder Câmara).

30/05/2019

Vida humana: dignidade e mistério

Desde sempre o ser humano se empenha por compreender a própria dignidade.

Segundo a tradição bíblica, o ser humano foi criado à imagem e semelhança de Deus e é destinado a participar da vida divina. Ele foi criado por meio da Palavra Divina, que é viva e eficaz, e produz aquilo que indica.

 

A Palavra Divina forjou culturas, educou povos, construiu sociedades, santificou almas. Entretanto, hoje, essa Palavra parece ter perdido crédito. Não são poucos os espaços da sociedade onde Ela é olvidada, pisada, desprezada e manipulada segundo os mais diversos interesses. Enfim, a Palavra Divina parece não ser mais reconhecida como de fato é: Palavra de vida, e vida eterna. Porque dessa situação? Qual a razão dessa realidade?

 

Experimenta-se uma mudança de época. Mudanças de época são tempos desnorteadores, pois afetam os critérios de compreensão, os valores mais profundos da cultura, a partir dos quais se afirmam identidades e se estabelecem ações e relações.

 

Os progressos da ciência e da técnica, as ideologias econômicas e políticas, marcas da mudança de época em curso, foram levando de roldão os princípios de ordem e as forças de convivência que durantes séculos orientaram as ações e reações humanas, a nobreza das atitudes de indivíduos e grupos, de poderes, governos e instituições.

 

O desenvolvimento parece ter velado ao ser humano o mistério da vida e da própria realidade. Demonstração nestes últimos tempos dessa desconfiança foi aquilo que o cientista J. Craig Vender proclamou, estupefato, para o mundo: uma célula com núcleo sintetizado por computador tornou-se a primeira espécie auto replicante, cujo pai tinha sido um computador!

 

Tal empresa significou que o ser humano se autoconcedeu o direito de manipular o mistério da vida. O que talvez tal iniciativa não quis considerar é o fato de que a vida não pode ser reduzida a processo microbiológico. Ela é mais que química e biologia: ela inclui o sagrado, a liberdade e a gratuidade.

23/05/2019

Vida plena

A esperança não pode morrer! Embora, em alguns ambientes, o tédio, compreendido como o fastio de viver, e a ansiedade, que se expressa num medo estranho da existência como tal, apresentarem sinais preocupantes, a esperança cristã aponta para frente e, por isso mesmo, pressupõe abertura e disposição para a transformação do presente.

A esperança cristã oferece ao ser humano a oportunidade para entrar na dinâmica da eternidade, isto é, numa “condição existencial que não é estática, mas dinâmica e vivaz” (S. Gregório).

 

O itinerário característico dos discípulos do Ressuscitado oferece o necessário para colher o sentido profundo e amplo da esperança cristã. Quem se empenha por seguir Jesus Cristo e seu Evangelho recebe a força necessária para realizar o itinerário. O Evangelho jamais pretende diminuir ou destruir a vida; ao contrário, aponta as condições para conservá-la, fortalece-la e curá-la.

 

Numa sociedade marcada pelo cansaço, na qual a paisagem patológica é dominada, por exemplo, pela depressão, pelo transtorno de déficit de atenção com síndrome de hiperatividade, transtorno de personalidade limítrofe ou pela síndrome de Burnout, se faz necessário construir oportunidades para a sua superação. E o que dizer da crise de alteridade? Constata-se a frequência com que o estranho, mesmo que não represente nenhum perigo ou ameaça, é eliminado em virtude da sua alteridade.

 

São inúmeros os sinais de patologias na sociedade. A fé cristã oferece medicina à altura dos desafios do tempo presente. Por isso, vale perguntar o que significa o discipulado de Jesus para o homem de negócios, o empresário, o político, o profissional da saúde, o militar, o educador, o homem do campo, a dona de casa, o pai e a mãe de família, o jovem desejoso de cooperar para a promoção da vida, o operário? A resposta a essa questão só pode ser dada pelo próprio Jesus Cristo. Ele ordena segui-lo para onde o caminho conduz.

 

A fé cristã é dom! É também determinação de realizar um itinerário discipular com Jesus Cristo, em comunidade.

A esperança, amparada na fé, conduz à caridade. Essas três virtudes teologais proporcionam o vigor necessário para o grande objetivo do ser humano: a vida plena.

25/04/2019

Aprender com o ressuscitado

Épocas de questionamentos, de crise e de tensões representam oportunidade privilegiada para resgatar o que verdadeiramente importa. Isso vale de modo particular para a comunidade eclesial, após as celebrações do Tríduo Pascal, quando se celebrava a Paixão, Morte e Ressurreição de Jesus Cristo.

Após a Solenidade da Páscoa, durante cinquenta dias, a Igreja se empenha por acolher a Boa Nova que sempre provoca admiração e questionamentos: a vida venceu a morte; o amor é mais forte que a morte. É oportunidade para resgatar o vigor que movia as primeiras testemunhas do Ressuscitado a compartilhar com quem se deparavam a experiência do encontro com o Senhor.

O encontro com o Senhor transformou a vida não só de alguns homens simples no início do primeiro milênio da Era Cristã, mas de uma miríade de mulheres e homens que ao longo da história até os dias atuais, se constituíram em propagadores dos dons messiânicos de sua Páscoa: a alegria, o perdão no Espírito, a força de testemunhar sua presença atuante, sua paz.

A experiência de se sentir amado por Jesus Cristo transformou radicalmente o modo de ser, a visão e o registro de homens e mulheres ao longo dos séculos.

O amor cristão é capaz de produzir uma transformação tal no ser humano, que todas as coisas, acontecimentos e pessoas são vistos numa luz de profundidade, capaz de mudar o sentido e o destino da própria existência humana.

A experiência do amor cristão implica amar ao modo de Deus, isto é, sem reservas e sem medidas preestabelecidas. Ele “faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz chover sobre os justos e injustos” (Mt 5,48); manda amar os inimigos e orar pelos que nos perseguem (Mt 5,44). Trata-se de um fazer e, portanto, de um fazer a ser aprendido: “aprendei de mim” (Mt 15, 29), diz Jesus.

Aprender é próprio do discípulo. O discípulo de Jesus está decidido a se deixar trabalhar pela força divina – que é amor! – e a colaborar com ela, ou seja, a cumprir em tudo a vontade do Pai, como fez Jesus Cristo. Tal disposição requer discernimento e conversão. Tal atitude é característica do homem sábio que escuta a Palavra e a põe em prática, e não diz apenas, Senhor (cf. Mt 7,21).

18/04/2019

A pedagogia da Cruz

A Cruz está associada a todas as formas de sofrimento, fraqueza e privações da vida humana e cristã. No entanto, para o cristianismo ela não é um mero ornamento ou símbolo. Ela é expressão do mistério do Amor de Deus.

Ao longo da história, a fé e a piedade cristã descobriram no mistério da Cruz uma fonte inesgotável de ensinamentos e motivações para a vida dos discípulos de Cristo.

Contudo, em tempos recentes, em distintos setores da sociedade, surgem vozes exigindo a retirada da Cruz de lugares públicos. Junto com isso, se chega ao absurdo de exigir que não se faça qualquer referência ao evento cristão, sobretudo nas escolas e ambientes universitários.

É certamente verdadeiro o fato de que a história do cristianismo está marcada por situações obscuras. Mas também é verdade que à sombra da Cruz se desenvolveu uma compreensão do divino e do humano, do céu e da Terra que marcaram – e continuam marcando! – a sociedade ocidental.

Os discípulos do Crucificado não exigem dos não crentes viver ao seu modo, mas pedem a estes que lhes permitam viver livre e respeitosamente segundo a sua fé; ou seja, que possam continuar seu itinerário existencial à sombra da Cruz.

O cristão é convidado a contemplar a Cruz de Cristo a fim de alcançar a graça da fidelidade e assim ser no mundo testemunho do amor do Senhor que “nos amou e se entregou por nós” (Ef 5,2).

Um escrito do segundo século ilustra o que significa ser fiel e viver à sombra da Cruz. Os cristãos “não se distinguem das outras pessoas, nem por sua terra, nem por sua língua ou costumes. Com efeito, não moram em cidades próprias, (...) nem têm algum modo especial de viver. Sua doutrina não foi inventada por eles. (...) Testemunham um modo de vida admirável e, sem dúvida, paradoxal. (...) Casam-se como todos e geram filhos, mas não abandonam os recém-nascidos. Põem a mesa em comum, mas não o leito; estão na carne, mas não vivem segundo a carne; moram na Terra, mas têm sua cidadania no céu; obedecem às leis estabelecidas, mas com sua vida ultrapassam as leis; amam a todos e são perseguidos por todos; são desconhecidos e, apesar disso, condenados; são mortos e, deste modo, lhes é dada a vida; são pobres e enriquecem a muitos; carecem de tudo e têm abundância de tudo; são desprezados e, no desprezo, tornam-se glorificados; são amaldiçoados e, depois, proclamados justos; são injuriados, e bendizem; são maltratados, e honram; fazem o bem, e são punidos como malfeitores; são condenados, e se alegram como se recebessem a vida” (Carta a Diogneto).

11/04/2019

Cruz Salvadora

Dostoievski, o atormentado de Deus, escreveu uma carta à baronesa Von Wizine, na qual expressa toda a sua busca: “crer que não existe nada de mais belo, de mais profundo, de mais simpático, de mais viril e de mais perfeito do que o Cristo; e eu o digo a mim mesmo, com um amor cioso, que não existe e não pode existir. Mais do que isto: se alguém me provar que o Cristo está fora da verdade e que esta não se acha n’Ele, prefiro ficar com o Cristo a ficar com a verdade.”

A Semana Santa que se aproxima é um convite a entrar na íntima experiência do Senhor que assume a Cruz com determinação, na certeza de que o Pai tudo acolhe e transforma.

 

A Cruz é expressão do amor de Deus pela humanidade. Ela é o sinal supremo do amor, é a resposta à necessidade que todo ser humano sente de ser amado.

Diante da Cruz - e a partir da Cruz – o ser humano é convidado a cultivar e promover a obra do discernimento, como exercício para formação da consciência. Isso requer o empenho de uma vida, na qual se aprende a cultivar os mesmos sentimentos de Cristo Jesus, assumindo os critérios das suas opções e da sua atividade (Fl 2,5).

 

Não existem receitas prontas! Certo é que diante das inúmeras possibilidades que o tempo oferece, é necessário “submeter os próprios fatores positivos a um atento discernimento, para que não se isolem uns dos outros, nem entrem em oposição entre si, absolutizando-se e combatendo-se mutuamente. O mesmo se diga dos fatores negativos: não são de rejeitar em bloco e sem distinções, porque em cada um deles pode ocultar-se algum valor que espera ser liberto e reconduzido à sua verdade plena” (Papa Francisco).

 

A Cruz diz quem é Deus. É expressão máxima de um gesto de salvação, gesto de amor sem reservas. Ela não é apenas um símbolo religioso; é também um protesto contra toda forma de injustiça e mostra que se pode viver em comunidade num espírito de reconciliação. Na Cruz e no Crucificado se pode descobrir que se salva quem compartilha a dor e se solidariza com o que sofre.

 

Em tempos complexos e complicados, em situações de incertezas e dúvidas, de radicalismos e polarizações é urgente resgatar a dimensão da Cruz e a necessidade de discernimento diante dos desafios que se impõem. De outro modo a tragédia pode encontrar lugar e o absurdo se impor.

28/03/2019

Ser discípulo

Na complexidade do momento histórico, vale a pena perguntar: o que significa o chamado ao discipulado de Jesus para um professor, operário, militar, político, pessoa de negócios, banqueiro, agricultor, estudante, pessoa engajada nos diferentes movimentos sociais? Não seria a questão do discipulado de Jesus uma questão para um número reduzido de pessoas? Ou seja, para aquelas pessoas que assumiriam um modo de vida especial?


A resposta a tais questões nem sempre foi fácil, recebendo as mais variadas interpretações.


Para procurar compreender o projeto de Jesus, decisivo é empenhar-se por captar o que Ele pedia das pessoas que acolhiam o convite de lançar-se no seu seguimento. Isso pressupõe o esforço para ultrapassar tradicionalismos, leis e práticas meramente humanas, ou seja, elementos demasiadamente humanos, institucionais e até mesmo doutrinais que talvez não encontrem reflexo no Evangelho. Ao mesmo tempo, porém, é necessário salvaguardar o esforço realizado por muitos ao longo da história para atualizar a mensagem de salvação anunciada pelo Homem de Nazaré.


O discipulado de Jesus é caminho de libertação do ser humano de todos os preceitos meramente humanos, de tudo o que oprime, provoca preocupações e tormentos à consciência. Não se pode esquecer o que diz o próprio Jesus: “O meu jugo é suave e o meu peso é leve” (Mt 11,30).


Compreende o que significa ser discípulo quem fez a experiência do encontro com o Senhor. A pessoa então escuta a sua Palavra, da qual nasce e se alimenta a fé. Na atenção à Palavra do Senhor e Mestre a pessoa se torna capaz de avaliar as decisões corretas em sua consciência para agir de acordo com Deus. Da escuta atenta, deriva o seguimento, ou seja, se passa a agir como discípulo, pois após ter escutado e acolhido interiormente o que o Mestre ensina, se empenha por viver de forma consequente. 


Quando a pessoa se sente atingido por Jesus e seu Evangelho, percebe que "os seus mandamentos não são pesados” (1 Jo 5,3) e que Ele jamais pretende destruir a vida, mas, sim, conserva-la, promove-la, fortalece-la e cura-la.

 

O discipulado é alegria! É por isso que o Papa Francisco no início de sua primeira exortação apostólica afirmava que “a alegria do Evangelho enche o coração e a vida inteira daqueles que se encontram com Jesus. Quantos que se deixam salvar por Ele são li­bertados do pecado, da tristeza, do vazio inte­rior, do isolamento. Com Jesus Cristo, renasce sem cessar a alegria”.


Redescobrir a alegria do Evangelho, e consequentemente do ser discípulo do Senhor, é o grande desafio que o tempo da Quaresma lança a todos que se sentem necessitados de vida e vida em abundância (cf. Jo 10,10). Este tempo provoca e convoca a cultivar de forma ainda mais determinada o caminho do seguimento de Jesus Cristo. Trata-se de um caminho com reflexos na vida pessoal, comunitária e social. Por isso, a cada ano, a Igreja do Brasil apresenta a Campanha da Fraternidade como caminho de conversão quaresmal. O Evangelho – versão de Deus para a humanidade de todos os tempos – pressupõe a conversão pessoal e repercute na vida comunitária e social.

21/03/2019

Quaresma: peregrinação interior

A Quaresma, tempo que antecede a celebração da Páscoa, é um tempo privilegiado para o cristão avaliar o próprio compromisso batismal e renovar a disposição de seguir no caminho do discipulado de Jesus Cristo. Durante quarenta dias os batizados são convidados a realizar uma peregrinação interior, dispondo-se para um possível encontro com Aquele que é a fonte da misericórdia.

O caminho quaresmal representa uma ocasião privilegiada para o aprofundamento do sentido e valor de ser cristão, estimulando o fiel a redescobrir a misericórdia divina e, assim, promover exercícios de misericórdia no seio da sociedade.

Os tradicionais exercícios quaresmais da esmola, do jejum e da oração são meios consagrados pela tradição para afastar tudo o que distrai o espírito e para intensificar o que alimenta a alma abrindo-a ao amor de Deus e do próximo. Esta antiga prática penitencial representa um auxílio na mortificação do próprio egoísmo e na abertura do coração ao amor de Deus e do próximo, primeiro mandamento da nova lei e compendio de todo o Evangelho.

A sociedade é o campo de atuação e de testemunho do discípulo de Jesus Cristo. É nas diversas instâncias da vida cotidiana em sociedade que o cristão expressa sua contribuição na construção do Reino de Deus.

A Igreja do Brasil, desde 1963, convida, através da Campanha da Fraternidade, todas as comunidades a refletir sobre um tema, em geral, de cunho social, lembrando, assim, que a autêntica religiosidade cristã não pode estar desvinculada de gestos concretos de amor a Deus e ao próximo.

O discípulo-missionário de Jesus não pode desvincular sua fé das ações concretas onde vive. Por isso, a Campanha da Fraternidade tem como objetivo despertar e promover nos fiéis e na sociedade o espírito de conversão e solidariedade. Conversão significa retornar ao caminho da fé cristã e católica. Solidariedade significa dispor-se ao cuidado, ao diálogo e partilha; promover a esperança e condições dignas de vida para todos.

Políticas públicas e fraternidade é o tema da Campanha da Fraternidade para esse ano de 2019. Políticas públicas têm a ver com a questão do bem comum, da ética, da honestidade, da superação de toda forma de corrupção. Fraternidade tem a ver com a proposta do Evangelho de Jesus Cristo e, por isso, com a vida de todos os batizados: “todos vós sois irmãos” (Mt 23,8), sem esquecer que Jesus veio ao mundo para que “todos tenham vida, e a tenham em abundância” (Jo 10,10).

A penitência quaresmal é uma prática cristã pessoal e comunitária. Pessoal porque cada um é convidado a retornar a Jesus e seu Evangelho; comunitária porque a fé não pode ser desvinculada da vida sócio-política. Ambos os aspectos apontam para o compromisso comum de colaborar na edificação de um mundo justo e solidário.

14/03/2019

Tempo de Graça

Redescobrir e reviver em profundidade o significado do compromisso batismal! Eis a oportunidade que o tempo quaresmal oferece a todos. Os quarenta dias que antecedem a celebração da Páscoa representam ocasião propicia para redescobrir o que significa ser cristão e o sempre necessário progresso no conhecimento e no amor de Cristo.

Este tempo representa uma estação ou peregrinação propícia para se treinar com maior tenacidade na busca de Deus, orientados, sobretudo, pelo Evangelho do Crucificado-Ressuscitado. Tal disposição é expressão do desejo humano de aproximar-se de Deus. É neste contexto que ressoa de forma contundente a exortação de Jesus: “Arrependei-vos e crede no Evangelho” (Mc 1,15).

Converter-se não é expressão de um esforço pessoal em vista de possível autorrealização ou sucesso pessoal. Isso porque o ser humano não é senhor do próprio destino. Ele não se faz, mas é expressão de amor que não surge de si mesmo. Poder-se-ia dizer que conversão consiste em não se considerar ‘criadores’ de si mesmos, mas filhos e filhas do Eterno, nossa origem e destino.

Converter-se significa, para o batizado, compreender a versão de Deus para a humanidade de todos os tempos, condensada no Evangelho; significa procurar Deus, estar com Deus, empenhar-se por viver e conviver segundo as indicações oferecidas por Deus ao longo da história da salvação, cujo ápice é o mistério da encarnação. Converter-se consiste em abandonar qualquer forma de segurança humana e lançar-se com confiança e simplicidade no seguimento do Senhor Jesus.

Durante o período da Quaresma a Igreja nos oferece instrumentos ascéticos e práticos para que cada um possa percorrê-lo frutuosamente. São quarenta dias em que cada um pode realizar e aprofundar uma experiência ascética e espiritual. O jejum, a oração e a caridade (esmola) são as práticas consagradas pela tradição para quem se dispõe a referida experiência. Ela encontra seu vigor na determinação pessoal de realizar o caminho proposto.

Merece destaque durante o tempo da Quaresma o exercício da caridade: Deus caritas est. É nesse contexto que a Campanha da Fraternidade – proposta, desde 1963, pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil – encontra sua razão. Afinal “a caridade não é uma espécie de atividade de assistência social que se poderia mesmo deixar a outros, mas pertence à sua natureza, é expressão irrenunciável da sua própria essência". (...) A doutrina cristã sobre o Estado e a doutrina social da Igreja sempre consideraram como "norma fundamental do Estado a prossecução da justiça e sua finalidade a justa ordem social, garantindo a cada um, no respeito do princípio da subsidiariedade, a própria parte nos bens comuns” (Bento XVI). Disso decorre a conveniência de promover no seio da sociedade, séria reflexão sobre um aspecto da vida social que necessita de especial atenção – e, talvez, conversão! – a fim de promover a implantação do Reino de Deus anunciado por Jesus.

07/03/2019

O reconhecimento da condição humana

"Recorda-te que és pó e ao pó retornarás”. Com esta exortação, se inicia o tempo durante o qual a comunidade de fé, mais intensamente, se prepara para a festa da ressurreição e da vida.

A exortação soa quase cínica e cruel. Segundo ela, o ser humano não valeria nada, seria inútil e insignificante.

 

Trata-se de uma expressão perigosa, à qual os ditadores e manipuladores da vida recorrem prazerosamente. O ser humano considerado mero pó não necessitaria gozar da mínima consideração. Ele poderia ser manipulado segundo objetivos e intenções quaisquer.


Contudo, a expressão, conservando uma sólida verdade, permite alimentar a esperança. Verdadeiramente a existência humana é marcada pela fragilidade e fugacidade. No entanto, essa verdade representa motivo para que o ser humano, diante de Deus, reivindique não ser julgado com severidade, que não se coloque na balança os erros cometidos diariamente e que seja reduzido o metro da justiça, encurtando a medida, pois a condição humana requer consideração.


Diante de Deus a única coisa que pode salvar o ser humano é o reconhecimento da própria condição. Também diante de si mesmo e dos demais, o ser humano experimenta maior misericórdia se não perder de vista o cenário de miséria e necessidade. Desse modo, também o outro passa a ser considerado menos ameaçador e vice-versa.


Reconhecer a própria medida, o próprio limite e identidade consiste em superar a ânsia de ser como Deus. Assim, a imposição das cinzas se torna para o batizado um sinal de benção, pois não há razão para envergonhar-se da própria condição.

Blaise Pascal (1623-1662) soube expressar essa realidade humana na proverbial máxima: “O ser humano não é nem anjo nem animal”. Sua existência se caracteriza pelo encontro de duas realidades: é carne (pó) e é espírito. Quando o ser humano não mais se reconhece desse modo e busca ir numa ou noutra direção, perde a saúde, o equilíbrio, a paz, a identidade, a felicidade.


Sem censurar o empenho por uma existência sempre mais marcada pelo mundo da economia, segundo o qual o bem-estar e a felicidade dependem da conquista e acúmulo de bens, é possível perceber, a partir do espetáculo construído pelas ciências positivas, seu declínio. Declínio à semelhança do sol que, no crepúsculo, realiza o seu ocaso, na celebração de um colorido arrebol. 


Entretanto, o sol, segundo o ciclo da própria natureza, renasce na aurora do novo dia. Já o ser humano pode sucumbir diante da própria autossuficiência marcada por certo pelagianismo, esquecendo a própria identidade. Por isso, a Igreja, durante o tempo da Quaresma, não cessa de exortar o ser humano a reconhecer sua condição de "pó". Mas “pó” redimido pelo amor de Deus, expresso no escândalo da cruz, em favor de toda humana criatura.

21/02/2019

Doença: expressão da fragilidade humana

A fragilidade é algo inerente à natureza humana. Quando nasce, para viver teve necessidade dos cuidados dos pais; de forma semelhante, em cada fase e etapa da vida, cada um nunca conseguirá, de todo, ver-se livre da necessidade e da ajuda alheia, nunca conseguirá arrancar de si mesmo o limite da impotência face a alguém ou a alguma coisa. O reconhecimento leal desta verdade é um convite a permanecer humilde e a praticar com coragem a solidariedade, como virtude indispensável à existência.

 

A doença é expressão da fragilidade humana. Encontrando-se doente, o ser humano se esforça por alcançar a cura. Sentindo-se atingido pela doença, ele adquire um sentido dos limites de suas forças, luta e não se resigna à própria situação.

 

Quando a situação de doença necessita de atendimento hospitalar, a solidão marca o cotidiano da pessoa. Ali, usualmente, ela se torna um número ou um caso. Estuda-se o caso e se faz o possível para resolver a situação, a partir do diagnóstico médico.

 

Diante da disciplina hospitalar, o enfermo se sente subjugado. Compreende, talvez, como a instituição hospitalar segue um ritmo cadenciado de regularidade. Ele sofre a situação de doença, a frustração dos contatos familiares e das necessidades da sua personalidade, que é absorvida na engrenagem de uma grande vida comunitária.

 

A Igreja, ao longo dos séculos, construiu uma rede de obras de caridade, cujo objetivo maior é a promoção da saúde e da vida humana. Pessoas consagradas, especialmente mulheres - mas não só! - se empenham por ser uma presença amigável, compartilhando com os enfermos seu drama e sua solidão.

 

Se, hoje, por um lado se percebe a redução de consagrados e consagradas que se dedicam ao cuidado dos enfermos, por outro lado se constata o número crescente de voluntários que se dispõem a colaborar para que eles lutem por sua saúde e seu bem-estar.

 

Há 27 anos a Igreja, celebra no dia 11 de fevereiro o "Dia Mundial do Doente". Na mensagem que o Papa Francisco escreveu este ano para esse dia, ele agradece e encoraja os voluntários que se dedicam ao transporte e assistência dos doentes; aqueles que promovem e providenciam doações de sangue, tecidos e órgãos. Destaque especial merece a dedicação na tutela dos direitos dos doentes, sobretudo dos afetados por patologias que exigem cuidados especiais, seja nas estruturas hospitalares, seja nos domicílios.

 

Cuidar da saúde é algo custoso. Contudo é preciso, de algum modo, superar a cultura do lucro e do descarte. As estruturas que se dedicam ao cuidado para com os doentes não deveriam cair no estilo empresarial. Afinal a grandeza do ser humano "determina-se essencialmente na relação com o sofrimento e com quem sofre" (Bento XVI).

07/02/2019

Meio Ambiente: responsabilidade de todos

A tradição judaico-cristã exorta o ser humano a "cultivar e guardar" o jardim do mundo (Gn 2,15). "Cultivar" implica lavrar, trabalhar o terreno. "Guardar" significa proteger, cuidar, preservar, velar. Isso implica uma relação de reciprocidade responsável entre o ser humano e a natureza. Para o Papa Francisco, "cada comunidade recebe da bondade da terra aquilo de que necessita para a sua sobrevivência, mas tem também o dever de protegê-la e garantir a continuidade da sua fertilidade para as gerações futuras."

É preciso repensar modelos de desenvolvimento que desconsideram o cuidado para com a casa comum e os parâmetros de sustentabilidade. Não se pode transgredir o justo equilíbrio que sustenta o convívio entre seres humanos, plantas e animais.  

 

O território brasileiro é rico pela diversidade da fauna e da flora. A “terra adorada", como cantada no Hino Nacional, necessita de cuidado e proteção. A exploração e a gestão dos recursos naturais demandam ética, responsabilidade social e fiscalização. É tarefa do poder público regular e fiscalizar com determinação, sem demonizar quem disso se ocupa. Mas não só! Urge somar os melhores esforços para elaborar novas formas de economia e finanças, cujas práticas e regras estejam voltadas ao progresso do bem comum, sejam respeitosas da dignidade humana e expressem cuidado para com a casa comum.

 

A gestão e proteção ambiental representam um desafio a todos que se preocupam com as condições necessárias para deixar o mundo um pouco melhor para as futuras gerações. Requerem contínuo acompanhamento técnico e medidas socioeducativas.

 

O cuidado e a proteção do meio ambiente expressam respeito à vida das pessoas e do planeta. O apregoado desenvolvimento sustentável não pode ser promotor de devastação e morte.

 

Nestes dias, não só Minas Gerais chora o desastre de barragens em Brumadinho. O Brasil está de luto! O que ali ocorreu não foi acidente nem desastre natural. Foi, sim, expressão contundente de um poder que destrói e mata.

 

A gestão e a exploração dos recursos naturais, dos quais o território brasileiro é rico, necessitam de políticas ambientais sérias e controle rígido. Também a imprensa e a sociedade possuem o dever e o direito de monitorar comportamentos danosos de atores econômicos.

 

Não se pode compactuar com formas de exploração dos recursos naturais que gerem pobreza, sofrimento e morte. Não se pode transcurar a índole da pessoa humana possuidora de uma índole relacional e uma racionalidade em perene busca de um ganho e de um bem estar que sejam integrais, não reduzíveis a uma lógica de consumo ou aos aspectos econômicos da vida (cf. Oeconomicae et pecuniariae questiones).

10/01/2019

O que significa ser discípulo

Nossa sociedade é marcada por elementos da cultura cristã. No entanto, se faz
necessário perguntar se a fé cristã ainda impacta a vida cotidiana das pessoas. Afinal, o que implica confessar-se cristão hoje?

Recentemente vivemos a experiência de mais um réveillon. Trata-se de uma palavra de origem francesa, que tem na sua raiz o verbo "reveil", cuja tradução é "despertar". Assim, no início do ano civil, somos provocados a nos despertar para algo fundamental da fé cristã: Cristo, o Senhor do tempo! 

A existência cristã se constitui a partir da decisão pessoal de assumir o caminho do discipulado de Jesus Cristo. Jesus continua repetindo a toda pessoa de boa vontade: “segue-me”. A resposta ao convite do Senhor pode assumir distintas configurações. Há pessoas que nas diversas esferas da sociedade não só consideram alguns aspectos daquilo que Jesus ensina, mas assumem o compromisso de observar mais radicalmente o Evangelho.

Assistimos atualmente, entretanto, ao fenômeno da privatização da fé. Diante deste fato, impõem-se um novo questionamento: é ainda relevante pensar sobre o que significa seguir Jesus Cristo? A resposta pode ser marcada por aspectos culturais, subjetivos e ideológicos.

Vale ressaltar, antes de tudo, que a fé cristã possui uma característica eminentemente comunitária. Além disso, tenha-se presente que o seguimento de Cristo é expressão da experiência do encontro com o Senhor e, portanto, é graça. Assim, o que constitui a comunidade de fé é a consciência de que cada um
foi tocado pela graça do chamado pessoal a seguir o Senhor numa forma de vida específica.

O seguimento de Cristo é compreensível somente a partir da pessoa de Jesus. Assim, o batizado que se considera verdadeiramente discípulo, mesmo diante de pessoas que se apresentam como guias, sente-se discípulo perante Cristo, imitador-"feitor" da sua pessoa. Nesse contexto, vale recordar o que diz o apóstolo Pedro nos Atos dos Apóstolos, a respeito da pessoa de Jesus Cristo: “por toda parte, ele andou fazendo o bem” (10,38); e o evangelista Marcos: “tudo ele tem feito bem”(7,37).

O discípulo de Jesus Cristo é, portanto, toda pessoa que, a partir da experiência do encontro com o Senhor, se dispõe a responder ao chamado de segui-lo, buscando, como Ele, fazer bem o bem!

03/01/2019

A esperança não pode morrer

Na aurora do novo ano desejamos a quem encontramos feliz ano novo.
 

Estamos sempre desejando novos tempos em que as utopias que até agora só podemos sonhar, sejam transformadas numa grande e permanente ‘eutopia’. O mesmo desejo é compartilhado pelos mais diversos setores da sociedade. Por toda parte, ouvem-se pessoas desejando umas às outras que prevaleça, ao longo de todo o novo ano, a humanidade com seus préstimos de liberdade e justiça.


Para que os desejos de paz e prosperidade se realizem, faz-se necessário conscientizar, promover e assegurar o devido respeito em todas as dimensões da vida e convivência de pessoas e grupos, de todas as classes e condições, seja de raça, sexo, crença ou situação social, econômica, cultural ou política.

As utopias certamente nunca vão se realizar totalmente. Mas são elas que nos animam e nos mantêm no caminho. Elas podem ser comparadas com as estrelas. São inatingíveis, mas encantam a noite e orientam navegantes e peregrinos.


Sentimos a necessidade de promover a unidade do nosso povo. Há o risco real de o fosso entre os que têm acesso aos recursos econômicos, bens e serviços e os que são privados de tal possibilidade, aumentar ainda mais.


Alguns grupos monopolizam cada vez mais os frutos daquilo que se denominou liberalismo global. Os dados são preocupantes! As cem pessoas mais ricas do mundo, por exemplo, possuem juntas mais do que as quatro bilhões mais pobres. Não seria algo descabido se num futuro próximo, esse pequeno grupo mais rico passasse a possuir não apenas a maior parte da riqueza do mundo, mas também a maior parte da cultura e da saúde. Estes dados refletem, de algum modo, a realidade nacional.


É possível superar os desafios para que possamos viver numa sociedade mais justa e fraterna? Certamente! É sempre possível melhorar, desde que haja um autêntico esforço comum. Dentro de cada pessoa humana o potencial para crescermos em fraternidade, onde o bem comum seja verdadeiramente promovido, a participação de todos nos recursos naturais e econômicos incentivada e o acesso aos bens e serviços garantido.


É dever da sociedade cooperar para que todos  tenham as necessárias condições para seu desenvolvimento integral. Este “é o único caminho para a promoção de um mundo mais humano, onde cada pessoa possa dar e receber, e onde o progresso de uns não seja mais um obstáculo ao desenvolvimento de outros, nem um pretexto para a sua sujeição” (Compêndio da Doutrina Social da Igreja, n. 175).


**Para o Dia Mundial da Paz, o Santo Padre Francisco publicou uma mensagem, cujo título é “A boa política está ao serviço da paz”.

28/12/2018

Um caminho para a paz em 2019

Iniciaremos um novo ano: 2019! "Novo" significa inusitado, desconhecido, ainda

não experimentado. A partir da compreensão da fé, nos abrimos a uma nova etapa do tempo, com sentimentos de prosperidade, votos de felicidade e esperança de dias melhores para todos.


No limiar do “Novo Ano” podemos crer e desejar que nossa vida, durante toda

a etapa vindoura, seja sustentada pela audácia e alegria de poder avançar, convocada a percorrer sendas e trilhas ainda não plenamente conhecidas, buscando novos horizontes, alimentando sonhos de dias melhores para todos.


No primeiro dia do novo ano celebramos, em Porto Alegre, a Solenidade da Mãe de Deus, padroeira do município, e em todo o mundo, o “Dia Mundial da Paz”, para o qual o Papa Francisco escolheu o tema “A boa política está a serviço da paz." A desejada paz é, antes de tudo, obra da justiça. Ela pressupõe a instauração de uma ordem justa, na qual todos possam realizar-se como cidadãos de uma nação onde sua dignidade seja promovida e respeitada, suas aspirações legítimas satisfeitas, o acesso à verdade reconhecido e a liberdade garantida.


A atividade política é um meio fundamental para construir a cidadania, a justiça

e consequentemente a paz. O Papa Francisco nos lembra que “a boa política está a serviço da paz, respeita e promove os direitos humanos fundamentais, que são igualmente deveres recíprocos, para que se teça um vínculo de confiança e gratidão entre as gerações do presente e do futuro."
 

O Brasil inicia o ano de 2019 com um novo quadro de representantes políticos,

recentemente eleitos pelo voto popular. A renovação dos cargos eletivos representa oportunidade privilegiada para resgatar a fonte e as referências que inspiram a justiça e o direito. Neste contexto, vale a pena recordar as "bem-aventuranças do político", propostas pelo Cardeal Van Thuan, falecido em 2002: 

“Bem-aventurado o político que tem uma alta noção e uma profunda consciência de seu papel. Bem-aventurado o político de cuja pessoa irradia a credibilidade. Bem-aventurado o político que trabalha para o bem comum e não para os próprios interesses. Bem-aventurado o político que permanece fielmente coerente. Bem-aventurado o político que realiza a unidade. Bem-aventurado o político que está comprometido na realização duma mudança radical. Bem-aventurado o político que sabe escutar. Bem-aventurado o político que não tem medo”.


Bem-aventurado é o nosso povo que, orientado pelos valores do Evangelho,

não desanima e, unido, se dispõe a colaborar na construção de dias melhores para todos. Feliz e abençoado Ano Novo!

20/12/2018

O novo do Natal

Natal! Esta palavra está relacionada a todo um universo de elementos: o presépio, a árvore de Natal,
os doces, as estrelas, a vela, as luzes coloridas, o carpinteiro José, Maria de Nazaré, o menino Jesus, a mesa, o convívio, a alegria, a fraternidade. Tudo isso recorda o maior evento da história: a encarnação de Deus. Eles nasceram da fé e da tradição, e falam ao coração. 

Apesar do secularismo que envolve o tempo do Natal, o povo não perdeu a profundidade do mistério.
Celebrando o nascimento do Menino Jesus, a fé celebra a própria Vida e ensina o modo como Deus comunica o seu Mistério.

 

O Natal ensina o modo como Deus entra na história humana: de forma discreta, simples, despojada e
pobre. A iniciativa foi divina; houve pessoas que souberam acolher tal iniciativa, inaugurando assim uma nova e mais profunda compreensão de Deus, da pessoa e da vida humana. 

A festa da Encarnação de Deus expressa a sacralidade inviolável do evento histórico, como também da
própria vida. Assumindo a carne humana Deus recorda que a vida na carne é sagrada e, por isso, toda agressão ao corpo humano e à vida é uma agressão ao próprio Deus. A pessoa humana possui verdade, beleza, rosto e identidade concedidos pelo Criador. 

Entretanto, o ser humano vive na tensão entre o poder controlar e manipular a verdade, a beleza e
a si mesmo, e o modo como a verdade e a beleza se oferecem. Embora se promova a ideologia de que tudo depende de escolhas humanas, não raramente a beleza e a verdade inesperadamente surpreendem. 

Nem sempre é fácil deixar-se surpreender pela beleza e pela verdade, pois elas desestabilizam,
exigindo atitudes, decisões, conversão. O mesmo acontece com os sinais de contradição presentes no cotidiano.

O tempo que antecede o Natal do Senhor é tempo de reflexão, meditação, discernimento, oração,
conversão. Torna-se um imperativo despertar para a realidade que sofre as consequências de práticas
sócio-politico-econômicas equivocadas por meio das quais a dor, a pobreza, a miséria, e às vezes a própria morte, são impostas a parcelas consideráveis da população.

Em um ano, aproximadamente 65 mil pessoas no Rio Grande do Sul entraram para a parcela da sociedade que vive com renda per capita inferior a R$ 7,50 por dia ou em extrema pobreza. As estatísticas afirmam que aqui no Estado aproximadamente 383 mil gaúchos (ou 3,4% da população) vivem assim. Além disso, há de se considerar as taxas de desemprego e subemprego. Os dados apontam para a perda de fôlego da economia gaúcha. Como promover a estabilidade de programas públicos, facilitar a abertura de empresas, combater a corrupção, tornar o Estado mais ágil, construir um projeto para o Estado que se sobreponha a interesses mesquinhos e superar posições político-partidárias que se antepõem ao salutar desenvolvimento, a fim de
promover a vida e o bem estar social? Com quem pode a sociedade contar?

O Natal desperta sentimentos de consideração e respeito, proximidade e fraternidade. Jamais é tarde para
dispor-se a colaborar na promoção de condições de vida digna para todos. É sempre tempo de retornar ao essencial.

O Menino de Belém ensina um caminho de vida e de convívio humano, por meio do qual todos podem
ter vida e vida em plenitude.

13/12/2018

O novo que se aproxima!

No Natal resplandece a candura e a singeleza de uma criança nascida em simplicidade e pobreza, em Belém. A criança é o Emanuel, Deus conosco, como belamente nos descreve São Cirilo de Alexandria: “justiça, santificação e redenção, purificação de toda maldade, libertação do pecado, desprezo de toda desonestidade, caminho para um jeito mais digno e santo de se viver e, porta de acesso à vida eterna. Por ele foram corrigidas todas as coisas, destruído o poder do diabo, e reencontrada a justiça”.

 

O início de um novo tempo é, por sua vez, motivo de alegria e de expectativa. Isto porque novo significa inusitado, ainda não experimentado e, por isso, não vivido.

Vivemos, pois, na expectativa do ano novo, com tudo o que isso significa para o nosso povo, nestes tempos de mudanças rápidas e profundas. Ao mesmo tempo vive-se a preparação para o Santo Natal. As duas celebrações não podem ser vistas separadamente.

 

A comunidade se prepara para celebrar o nascimento de Jesus na expectativa do novo que desponta no horizonte da história.

 

O Natal pressupõe atitude de vigilância e atenção; requer a superação do comodismo e da indiferença; exige conversão, isto é, abrir caminhos novos para o Senhor que se dispôs a fazer morada na “terra dos homens”. Isto significa, como diz Papa Francisco “deixar os caminhos cômodos mas enganadores, dos ídolos deste mundo: o sucesso a todo o custo, o poder em detrimento dos mais fracos, a sede das riquezas e o prazer a qualquer preço.”

 

O tempo atual está marcado por fundamentalismos de diversos tipos, de intolerância religiosa dissimulada em observância de normas e leis que não libertam e não promovem a vida, de indiferença generalizada, de desrespeito e desprezo pelos direitos humanos, de desconsideração da importância da dimensão religiosa para a vida humana, de ignorância premeditada dos valores que marcam a tradição ocidental, originários da tradição judaico-cristã. Neste contexto, os cristãos são convidados a percorrer o caminho que Jesus Cristo percorreu: o caminho da humildade, da pobreza, da mansidão, da simplicidade, da filiação, da fé! O Senhor vem para salvar e libertar!

 

Jesus, na pobreza da gruta de Belém, revela o mistério de um Deus-Misericórdia! Ele mesmo reconhece que esse mistério "é revelado não aos sábios e entendidos, mas aos pequeninos", aos mansos e humildes; e louva por isso o Pai! Só os que têm o coração como os pequeninos são capazes de receber a revelação do Deus-Misericórdia. Só o coração humilde e manso sente a necessidade de se aproximar do presépio, de inclinar a cabeça, dobrar os joelhos e contemplar. Ao contemplar, reza e adora; dispõe-se à aventura do Deus que se doa sem reservas, sem limites! E nesta atitude se dispõe para, com esperança e alegria, acolher o novo ano que se aproxima.

06/12/2018

Natal: novidade de Deus!

Durante as semanas que antecedem a solenidade do Santo Natal, a Igreja celebra o tempo do "Advento". Vivê-lo pressupõe realizar um caminho de fé marcado por ritos e festas que representam uma possibilidade de acesso ao divino. Nos dias atuais se prioriza o trabalho, a produtividade e o desempenho, em detrimento da celebração festiva. Com isso, a dimensão gratuita da vida, com seus estágios e tradições, perde o sentido. Ora, quando não se promovem os tempos e os espaços peculiares das celebrações, se elimina a transcendência e se absolutiza o imanente. Essa situação não favorece vínculos humanos e nem laços ou compromissos sociais.

 

O que significa o tempo do Advento? O termo "advento" é a tradução do termo latino "adventus" que pode ser traduzido como presença, chegada, aparecimento, vinda. Na linguagem antiga, o termo possuía um sentido técnico para indicar a chegada de alguém especial (rei, imperador, funcionário). Indicava também a manifestação da divindade. A comunidade cristã nascente adotou o uso do termo "advento" para expressar a vinda de Jesus Cristo; ou seja, para proclamar que o Senhor está aqui, que não nos deixou sozinhos.

 

Durante este período, a comunidade dos discípulos do Senhor celebra a entrada de Deus na história humana. Assumindo os panos da fragilidade, Deus entra em nossa vida para recordar que a história tem uma meta e que há um desígnio para toda a humanidade: a acolhida "do Reino da verdade e da vida, reino da santidade e da graça, reino da justiça, do amor e da paz’ (Prefácio da Solenidade de Cristo Rei).

 

Desse modo, a Igreja celebra solenemente um evento ocorrido em Belém da Judeia, mas também se prepara para o ainda não acontecido da segunda vinda do Senhor. Vivendo na tensão entre o "já" e o "ainda não", a Igreja convida seus filhos e filhas a cantar a ação de graças, pois se manifestou “a bondade de Deus, nosso Salvador, e o seu amor pela humanidade” (Tt 3,4). Ao mesmo tempo, convida todos a cultivar a vigilância e se preparar para a segunda vinda do Senhor no final dos tempos, pois ele mesmo prometeu que haveria de retornar, embora não tenha dito nem o dia e nem a hora.

 

Durante as quatro semanas que antecedem o Natal, a comunidade dos discípulos do Filho de Deus é convidada a refletir sobre a presença do Senhor na história. Ela é exortada a cultivar particular atitude, a fim de dispor-se para colher os vestígios da presença do Senhor nos acontecimentos do cotidiano, nos sacramentos, na Palavra e no rosto de cada ser humano, especialmente dos menos favorecidos da sociedade. Tal atitude pressupõe sensibilidade e perspicácia, coração sereno e olhar límpido; numa palavra: conversão!

 

Se por um lado a preparação para o Natal do Senhor possui um forte apelo comercial, por outro, os fiéis são convocados a não perderem de vista o essencial do Natal: Deus fez morada entre os seres humanos.

 

O Natal, com o tempo que o antecede, pretende favorecer o resgate daqueles elementos que fazem parte da rica tradição cristã e que propiciam o desenvolvimento do que o ser humano tem de melhor: a capacidade de projetar e cooperar na construção de um mundo marcado por fraternidade, paz e justiça, já anunciado pelos anjos na primeira noite do Natal.

29/11/2018

Tempo de nossa busca

Com a celebração do primeiro domingo do Advento, neste final de semana, a Igreja inaugura um novo ano litúrgico.


A comunidade de fé, fazendo memória, por meio da ação litúrgica da primeira vinda do Senhor, coopera para reacender nos fiéis a alegria da espera, a certeza da fé e a vigilância para a sua segunda vinda que é certa, embora não saibamos nem o dia, e muito menos a hora.

 

O tempo do Advento tem como objetivo colocar-nos, de novo, para dentro do princípio da história e da existência humana.

 

Neste tempo, a Igreja nos convida a redescobrir as raízes de nosso ser. Trata-se de descer em profundidade na história humana, de encontrar o nosso centro, aquele ponto de gravidade por onde passa o eixo do nosso equilíbrio pessoal.

 

Durante as quatro semanas que antecedem a celebração do Natal do Senhor, somos exortados a relançar raízes no mais profundo de nossa condição humana para, a partir desse núcleo, deixar-nos desafiar pelo Senhor para a missão de cooperar na obra de construção de um novo tempo, marcado pela paz e pela justiça. Das raízes profundas do ser humano brotam respostas criativas e duradouras às interpelações do Senhor à sua comunidade, constituída não simplesmente de adeptos, mas, sobretudo, de discípulos e discípulas, desejosos de fazer próprios os sentimentos Dele.

 

De forma ainda mais intensa durante o tempo do Advento, a comunidade cristã reflete sobre as promessas de Deus à humanidade ao longo da história e sobre o evento da encarnação do Senhor, em Belém da Judéia. Enquanto situada no tempo, ela, em atitude vigilante e de fé, espera e na alegria canta: “vem, Senhor Jesus!”

 

O Senhor vem para salvar o seu povo. Os fiéis, peregrinando no tempo, vivem a tensão entre o “já” da salvação realizada em Cristo e o “ainda não” da sua realização em nós, na expectativa da manifestação gloriosa do Senhor, justo juiz e salvador.

 

Ao viver na esperança do Senhor que vem, o fiel vigia e espera, esforçando-se para superar toda forma de comodismo e indiferença. Somos, assim, recordados da necessidade de cultivar a atitude característica dos “pobres de Jahwé”: a mansidão, a humildade, a disponibilidade, a confiança e a simplicidade de coração.

 

Neste período litúrgico, a Igreja convida os fiéis a dobrar os joelhos, em atitude de humildade e simplicidade, de prece e adoração. Somos, assim, convidados a abrir os olhos da mente e do coração para nos deixar surpreender pelo Senhor que vem envolto nos panos da nossa fragilidade humana. Ele se apresenta de forma despojada, simples, humilde e pobre. Ele se revela aos simples e pequeninos. Estes se aproximam do presépio, inclinam a cabeça, dobram os joelhos e contemplam. Contemplando, rezam e adoram; dispõem-se, assim, à aventura do encontro com o Senhor que se doa sem reservas, sem limites!

15/11/2018

Jovens: o futuro, a esperança, o amanhã

Aconteceu de 3 a 28 de outubro, em Roma, convocada pelo Papa Francisco, a XV Assembleia do Sínodo dos Bispos.

Após as assembleias sinodais de 2014 e 2015 que refletiram o tema “Sobre o amor na família”, a Igreja decidiu abordar questões relativas à realidade juvenil.

 

Bispos eleitos pelas Conferências Episcopais dos diversos países, outros nomeados pelo Papa Francisco, representantes da Vida Consagrada, peritos e jovens dos cinco continentes reuniram-se para refletir o tema “Os jovens, a fé e o discernimento vocacional”.

 

Provenientes de contextos culturais e eclesiais distintos, os participantes compartilharam suas alegrias e esperanças, preocupações e desafios relacionados com o mundo juvenil.

 

As diversas intervenções na sala do Sínodo, as observações nascidas dos grupos linguísticos de trabalho e o material recolhido e sintetizado no ‘Instrumentum Laboris’, fruto de um grande esforço para envolver os jovens na preparação da assembleia sinodal, formaram a base sobre a qual se desenvolveram as reflexões e debates entre os participantes da mesma.

 

O documento final do Sínodo, entregue ao Papa, possui 167 parágrafos divididos em três capítulos, referidos respectivamente a três verbos: reconhecer, interpretar e escolher, e se inspira na cena evangélica dos ‘discípulos de Emaús’ (Lc 24,13-35).

 

Trata-se de um texto com uma visão ampla sobre a realidade juvenil mundial; não somente sobre os jovens engajados na vida da comunidade eclesial, mas também sobre jovens indiferentes, agnósticos, participantes de outras expressões religiosas ou ateus. Há referências aos mais diversos temas e situações vividas pela juventude: a falta de oportunidades, desemprego, drogadição, abusos de todo tipo, migração, refugiados, corporeidade, afetividade, sexualidade, homossexualidade, família, meio ambiente, injustiças, formas de exclusão e marginalização, tráfico humano, novas tecnologias, mídias sociais.

 

Os debates durante o Sínodo expressaram uma grande complexidade e diversidade de situações. Isso porque a Igreja está imersa no contexto em que vive. As diversidades se multiplicam e a complexidade que as caracterizam desafia. Tal situação representa um grande desafio positivo para a Igreja, chamada a ser cada vez mais plural. Estando presente em diferentes culturas, ela precisa criar canais de diálogo com as mesmas, a fim de cumprir sua missão de anunciar de forma livre, crível, respeitosa e ousada o Evangelho da Vida a todos os povos.

 

O Sínodo poderia ser caracterizado como sendo um evento quase milagroso. Pessoas provenientes de tantos contextos sócio-político-culturais e eclesiais distintos e que compartilham a mesma fé, reunidas para refletir sobre essa parcela da sociedade que representa o futuro, o amanhã e a esperança.

 

Inicia-se agora uma nova etapa: fazer chegar às diversas expressões juvenis o que foi debatido ao longo desse processo sinodal até o momento. As questões levantadas e as preocupações expressas devem ser agora traduzidas em iniciativas e práticas. O Sínodo neste sentido lançou as bases para um novo impulso na missão de acompanhar os jovens no caminho da fé e do discernimento vocacional.

02/10/2018

Políticos ou Estadistas?

O povo brasileiro deverá escolher nos próximos dias seus dirigentes políticos. Nesse processo, os partidos políticos têm uma missão característica: eles são chamados a interpretar as aspirações da sociedade civil orientando-as para o bem comum, oferecendo a todos os cidadãos a possibilidade efetiva de participar da formulação de opções políticas.

Os candidatos eleitos pelo povo têm a tarefa de, em nome do Estado, administrar os bens do povo, tendo em vista o bem comum.

Tenha-se presente que o Brasil é a sétima economia mundial. No entanto, encontra-se entre os dez países do mundo com a pior distribuição da renda.

Constata-se que o país está socialmente regredindo a mais pobreza e mais desigualdade social. Está crescendo o mapa da fome. O desemprego e o subemprego alcançam cifras altíssimas. O nível de qualidade do processo educacional básico e fundamental é vergonhoso. As instâncias que têm a tarefa de cuidar da saúde da população não possuem recursos financeiros suficientes.

A transferência de renda do Estado para setores privilegiados da sociedade, através de renúncias, isenções e perdão de dívidas é algo que agride a dignidade dos mais pobres da sociedade. O povo está passando fome! O povo vai mal! Já o mercado financeiro oferece sinais fortes de que está muito bem! 

Nas condições atuais da sociedade brasileira com tantas desigualdades e pessoas desalentadas e desesperançadas, o princípio do bem comum torna-se um apelo à solidariedade e uma opção evangélica pelos mais pobres. “Basta observar a realidade para compreender que esta opção é uma exigência ética fundamental para a efetiva realização do bem comum” (Papa Francisco). 

Causa preocupação o acirramento de posições políticas, certo clima de intolerância e de ódio presente em algumas expressões político-partidárias. Tal clima gera reações que poderiam ser consideradas fascistas, fundamentalistas, e/ou reacionárias. 

O debate político é salutar. Partidos políticos com projetos de governo claros e objetivos são uma necessidade no jogo democrático. A campanha eleitoral precisa de um tempo hábil durante o qual partidos e candidatos possam apresentar suas propostas. No entanto, não é isso que se assiste. Não se pode cair numa marginalização ou descredito da atividade política.

Não se pode esquecer que a atividade política é, antes de tudo, um serviço; não é serva de ambições individuais, de bancadas, de prepotência de facções e de centros de interesses mesquinhos. 

O Brasil necessita de crescimento industrial, tecnológico, autossustentado e sustentável, ao lado de políticas que enfrentem o drama da miséria e da pobreza e visem a equidade e a inclusão, porque não é verdadeiro desenvolvimento aquele que abandona os mais frágeis e pobres. 

O Brasil necessita de estadistas! Ou seja, de pessoas versadas nos princípios ou na arte de governar; ativamente envolvidas em conduzir os negócios de um governo e em moldar a sua política; ou ainda pessoas que exerçam a liderança política com sabedoria e sem limitações partidárias (cf. Houaiss); pessoas que falem com concisão, precisão e sem ambiguidades, em linguagem franca, compreensível por todos.

13/09/2018

As normas da casa

A economia é a ciência que estuda os fenômenos relacionados com a obtenção e a utilização dos recursos materiais necessários ao bem estar da coletividade. Ela está a serviço do ser humano, de modo que contribua para o princípio da destinação universal dos bens.

“O bem estar econômico de um País não se mede exclusivamente pela quantidade de bens produzidos, mas também levando em conta o modo como são produzidos e o grau de equidade na distribuição das rendas, que a todos deveria consentir ter à disposição o que é necessário para o desenvolvimento e o aperfeiçoamento da própria pessoa. Uma