14/11/2019

A morte não é eterna!

No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor. Assim São João da Cruz, o grande místico espanhol do século XVII sentenciou sobre o fim de nossos dias. Tratar da morte geralmente é muito difícil porque as pessoas a pensam fora da vida. Morrer faz parte do viver. Gastar tempo, consumir energia, renunciar algo, perder: tudo revela diariamente que a vida é como uma vela que se consome para produzir luz.

 

Preparar-se para o entardecer da vida não é olhar para a noite da morte, mas perceber que o sol se põe nesta vida terrena, mas continua a brilhar na vida eterna, onde é sempre dia. Falar do morrer significa tratar do viver. Se pensássemos apenas no morrer, colocaríamos o sentido de tudo somente no final da existência. Muitas pessoas tenderam para essa posição e acabaram desprezando o viver e perdendo o sabor dos dias na Terra. A tentação maior de nossos dias, contudo, é a abordagem contrária, pensar somente no agora, no material, na vida saudável, jovem e bela. Isso é provisório demais e pode gerar um desespero quando os limites começam a aparecer.

 

Os cristãos definem a morte como passagem da vida limitada para uma vida plena, em Deus. Trata-se de plenificar e consumar o que agora temos apenas como imagem. Vivemos na fé e na esperança aquilo que um dia veremos plenamente. Ensina o cristianismo que em Jesus Cristo, apesar de vivermos na limitação do tempo, já somos eternos, porque somos filhos da Deus. É por isso que os cristãos já sabem ser ressuscitados e a morte não pode lhes separar de Cristo, como proclama Paulo Apóstolo.

 

O Ressuscitado não é um sobrevivente, por isso os discípulos demoram a reconhecê-lo, diferentemente de Lázaro, cujo ressuscitamento produziu o reconhecimento imediato e geral. Este último voltou a viver confinado à velha criação. Jesus Cristo, ao contrário, ressuscita e aparece na potência da nova criação. Ele é um homem novo, o primogênito da nova criação, o início da nova humanidade. A morte significa que a vida não é eterna, e a ressurreição significa que a morte não é eterna. Somente a vida nova é eterna.

 

Este é o sentido de nosso ser mortal: uma vida alienada de Deus não tem futuro. Eternizar esta vida seria eternizar suas contradições, suas culpas, o mal praticado e sofrido: seria eternizar a morte. Pelo fato de nossa vida ser mortal e limitada, somos levados a desejar uma vida que dure para sempre, por isso deve ser mudada, transformada.

07/11/2019

Fugir da morte

Mário Quintana, ao sugerir a inscrição para um portão de cemitério, escreveu "Na mesma pedra se encontram, conforme o povo traduz, quando se nasce - uma estrela, quando se morre - uma cruz. Mas quantos que aqui repousam hão de emendar-nos assim: Ponham-me a cruz no princípio...E a luz da estrela no fim!". O poeta traduz, em versos, a necessidade de integrar vida e morte, vendo até luz no fim e sombras na vida. Essa sabedoria integradora, entretanto, continua desafiando muitas pessoas de nosso tempo.

 

O pesquisador francês Philippe Ariès, sustenta que num mundo sujeito à mudança, a atitude tradicional perante a morte aparece tão apagada dos nossos costumes que se tem dificuldade em imaginá-la e compreendê-la. A postura antiga em que a morte era ao mesmo tempo próxima e familiar opõe-se demasiado à atual, onde causa tanto medo que já não se ousa pronunciar o seu nome. Nesse sentido, a contemporaneidade refere-se à morte como algo que não deve fazer parte da vida, pois é sinal de fracasso perante a onipotência humana, devendo ser mascarada, silenciada e disfarçada.

 

Se, por um lado, nos tempos antigos, o contato com a morte estava mais evidente, principalmente pelas limitações da ciência e da tecnologia, por outro lado, a fragilidade perante a morte torna o ser humano atual mais vulnerável ao processo que causa em sua vida.

 

A morte apresenta o medo de deixar o que se tem. É ficar sem nada, é não levar nada. Por isso, outro grande causador do medo da morte é o apego, caracterizado como, talvez, o maior problema do ser humano e o maior responsável pelo pavor da morte que atormenta as pessoas. Sendo sentimento de posse, de ser dono de, a morte é oposição ao apego. Sobre isso, Jesus ensina com uma parábola significativa: "A terra de um homem rico deu uma grande colheita. E o homem pensou: 'o que vou fazer? Não tenho onde guardar minha colheita'. Então resolveu: 'Já sei o que vou fazer! Vou derrubar meus celeiros e construir maiores e neles vou guardar todo o meu trigo, junto com os meus bens. Então poderei dizer a mim mesmo: meu caro, você possui um bom estoque, uma reserva para muitos anos; descanse, coma e beba, alegre-se!’ Mas Deus lhe disse: 'Louco! Nesta mesma noite você vai ter que devolver a sua vida. E as coisas que você preparou, para quem vão ficar?’” (Lc 12, 16-20).

 

Portanto, saber viver, como o poeta escreveu, supõe ver a luz da estrela no fim, quando a verdade se manifestará na essência e não apenas no tempo da aparência. Na vida há cruz e luz, na morte, há medos e verdade. Cada há de aprender a viver integrando o seu morrer.

31/10/2019

O sentido da morte e da vida

Quando perdemos alguém que amamos parece que o mundo fica mais vazio. Muitos se questionam sobre o sentido da vida diante da perda de uma pessoa querida. Não duramos eternamente na Terra. Na vida há também cansaço em busca de repouso. Depois de uma jornada de trabalho é preciso descansar. Passado o dia ensolarado, segue o pôr do sol. Os livros tendem ao epílogo e uma novela se desenrola para o último capítulo. Há muita beleza no fim.

Fomos criados para a vida, por isso a morte é estranha à condição humana. Jamais aceitaremos perder quem amamos. Podemos até aceitar, mas não compreendemos totalmente. A morte é um mistério. Perigoso é quando ela se torna tabu. O ser humano atual avançou em muitas áreas do conhecimento, mas tem  dificuldades de afrontar o problema do fim da vida, mais do que em outras épocas e culturas. O silêncio, as superstições e os medos expressam a ansiedade diante da possibilidade de morrer.

Tal postura acaba reprimindo o sentido da vida e nos tornando ativistas no trabalho, pois se pretende fazer tudo e rapidamente, a fim de correr contra o tempo que escapa do nosso controle. A consciência reprimida da morte mata-nos já em vida e tornamo-nos apáticos em relação aos outros e a nós mesmos, assumimos preconceitos contra as novidades e erguemos muralhas ao nosso redor.

A reflexão sobre a vida não deixa de contemplar o limite e as perdas como ocasião de compreender o mistério da existência. A sociedade de consumo e a busca do bem-estar ensinam que só vale a pena viver se há o máximo de satisfação e prazer. O doente, o agonizante, o indesejado e tantos outros sujeitos humanos são excluídos desta lógica. A morte traz consigo novas interrogações e discussões.

É possível, contudo, encontrar um sentido para viver diante da morte. “Diante da morte o enigma da condição humana atinge seu ponto mais alto. O homem não se aflige somente pela dor e pela progressiva dissolução do corpo, mas também, e até mais, pelo temor da perpétua extinção. Mas, por intuito do seu coração, julga corretamente quando afasta com horror e repele a ruína total e o fim definitivo da sua pessoa. A semente de eternidade que produz dentro de si, sendo irredutível à pura matéria, insurge-se contra a morte. Todas as conquistas da técnica, embora muito úteis, não conseguem acalmar a ansiedade do homem, pois o prolongamento da longevidade biológica não consegue satisfazer o desejo duma vida ulterior, que inelutavelmente existe em seu coração”. (Gaudium et Spes, n.18).

Esta semente de eternidade que se encontra no interior de cada ser humano, religioso ou não, é a garantia de que a morte e a vida têm sentido numa relação recíproca. Quem crê sabe que caminha para a morte e vê, neste movimento, um sentido do viver.

06/06/2019

A importância de Pentecostes

O Pentecostes é celebrado cinquenta dias depois da Páscoa. Essa festa cristã tem origem na liturgia dos judeus que celebravam a festa das colheitas. Era também chamada festa das semanas, pois ela acontecia sete semanas depois da Páscoa. Os judeus comemoravam neste dia a entrega da Lei a Moisés no Monte Sinai quando Deus fez uma Aliança com o Povo de Israel. Nessa data, muitos judeus que estavam espalhados pelo mundo iam a Jerusalém para visitar o templo. 

 

Para os cristãos, a festa recorda o dia em que povos diversos acolheram a mensagem de Cristo e se tornaram seus discípulos. São Lucas, ao escrever o livro de Atos dos Apóstolos, menciona a descida do Espírito Santo nesta data para expressar que o próprio Espírito passa a conduzir aqueles que aderiram aos ensinamentos de Cristo Ressuscitado. Com a narração de Pentecostes, Lucas indica que a Igreja, após a ascensão de Jesus, passa a ser conduzida pelo Espírito Santo. 

 

Após a vinda do Espírito Santo em Pentecostes, o livro dos Atos dos Apóstolos narra que seus discípulos ficaram repletos do Espírito e começaram a falar em outras línguas. Lucas vê nesse evento a restauração da unidade perdida em Babel, símbolo da missão universal dos apóstolos. O dom principal do Espírito é  possibilitar que o Evangelho de Jesus seja compreendido por todos. Seu anúncio não fica restrito a um único povo, mas é destinado a todas as culturas, povos e línguas da Terra. O Espírito faz com que cada povo perceba que a Palavra de Deus é salvação e vida em plenitude.

09/05/2019

Mãe: uma escolha de vida!

Todo ser humano deve sua vida a uma mãe. Por ocasião do Dia das Mães, multiplicam-se gestos e palavras que expressam o carinho e amor dos filhos. Entretanto, no cotidiano é preciso ir além das homenagens, pois permanece o desafio de reconhecer melhor a responsabilidade delas. Na pluralidade das experiências, é possível compreender a maternidade por diferentes ângulos:  desde a mãe que acompanha seu esposo na criação dos filhos, a mãe que gerou em seu coração a criança adotiva, a mãe que criou sozinha e tantas outras formas de exercer essa nobre missão. Igualmente, não há uma forma única de compreender-se filho. Entretanto, para refletir sobre o significado da maternidade em nossos dias, recolhemos algumas afirmações do Papa Francisco que ajudam a alargar nosso reconhecimento a todas as mães.

 

Ser mãe, numa sociedade de contrastes, é crer que a vida é mais forte e a capacidade de esperar dias melhores se renova a cada criança que nasce. Uma mãe é capaz de testemunhar que a vida do outro sempre tem dignidade e sacralidade; trata-se de um antídoto contra o individualismo egoísta. Para o Papa Francisco, “uma sociedade sem mães seria uma sociedade inumana, porque as mães sabem testemunhar sempre, mesmo nos piores momentos, a ternura, a entrega, a força moral”. A maternidade é uma experiência que humaniza.

 

Ser mãe não significa somente colocar um filho no mundo, é uma escolha de vida; uma opção de gerar, cuidar e fazer crescer os filhos. O que impele é a força do amor. Uma mãe sabe acompanhar com discrição e ternura o caminho dos filhos e, até quando erram, procura o modo de compreendê-los, para estar próxima e prestar ajuda.

 

São Tomás de Aquino escreveu que é próprio da caridade querer mais amar do que querer ser amado. Este princípio fica evidente na maternidade. De fato, em geral, as mães são as que procuram mais amar do que ser amadas. Nesse amor gratuito, há até aquelas que chegam a dar a vida para que seus filhos vivam, seguindo o que Jesus ensinou: "não há maior amor do que dar a vida" (Jo 15,13).

 

E às mães cristãs, vale recordar do valor de rezar incessantemente pelos seus filhos, como fez Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Por suas orações, as mães acompanham seus filhos até mesmo quando os desafios parecem retirar-lhes toda esperança. Mãe entende o que significa confiar no filho e esperar que supere todas as dificuldades. 

 

Enfim, é necessário agradecer às mães pelo que são para seus filhos, para a família e para o mundo. São a expressão de que o amor vale a pena!

31/01/2019

Por que caminhar numa procissão?

Em meio aos revezes da vida, as pessoas procuram um elemento que lhes devolva a unidade perdida, que reintegre o que foi fragmentado em suas existências. As procissões, romarias e peregrinações aparecem nesta paisagem de buscas. Sinal visível deste dado é o número expressivo da mobilidade humana da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre. Na caminhada, tenta-se resgatar a relação entre o humano e Deus, muitas vezes esquecida, principalmente quando se vive no corre-corre do cotidiano.


Estar a caminho, ao longo da estrada, é a condição real da humanidade. O peregrino sabe que a caminhada é, antes de tudo, uma realidade interior que tende ao Absoluto. Caminhar é uma categoria espiritual. Na caminhada exterior o ser humano quer encontrar-se a si mesmo. O Caminho de Compostela, na Espanha, conhece muitos testemunhos de pessoas que realizaram o trajeto e encontraram novo sentido para viver. Quem caminha numa romaria, na verdade está à procura da sua realidade mais íntima e mais profunda. Quem tem fé vive  como um andarilho, que não quer instalar-se no provisório ou fixar-se em suas construções. Experimenta a vida como uma contínua peregrinação, uma procura da fonte existencial que sacia sua sede. Sua vocação essencial é colocar-se a caminho em busca da razão profunda das coisas, buscar o que é maior ao caminho e ao caminheiro.

 

Quem se coloca a caminho nem sempre tem claro o sentido último de sua peregrinação. Deus, contudo, encaminha a experiência humana, confusa e insegura, para um encontro com o divino. O fundamento da prática cristã de peregrinar encontra-se na fé judaica, que há muito tempo tem como meta Jerusalém. Ela é a cidade-templo. Os árabes a chamam de “a Santa” (Quds). Famosos são os versos do salmo 122 que proclamam: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”.  Trata-se de um Hino à Jerusalém, cantado pelos peregrinos que se dirigem à cidade para as festas. Reflete a alegria de caminhar e fundamenta a própria vocação da humanidade: reunir-se para partilhar a liberdade e a vida. 
 

A peregrinação está intimamente ligada ao sentido da conversão. Quem procura o santuário caminha em direção à vida nova que só Deus pode oferecer. As curas corporais acontecem, mas são excepcionais e raras nos locais de peregrinação. O que mais se percebe são as curas do coração, oferecidas a todos; cada um a recebe em seu nível e necessidade. A vida cristã é feita de sucessivas conversões. A primeira é a do batismo. As outras acontecem ao longo da existência. Se por um lado é possível constatar e se admirar pelos milagres de curas físicas, dificilmente se contabilizará as curas interiores, que são numerosas.


A peregrinação estabelece uma meta que simboliza e atualiza o caminho humano rumo ao fim sobrenatural. Partir significa romper com a inércia habitual, é dispor-se a avançar, crescer, conhecer o novo. Deixar a própria casa é abandonar atitudes rotineiras e medíocres, dispondo-se ao futuro de Deus.

24/01/2019

Qual beleza salvará o mundo?

O humano sempre se encantou pela beleza. Carecemos de um mundo mais bonito. Mas nem toda beleza é boa e verdadeira. Num mundo sem beleza, ou mais precisamente equivocado do sentido do belo, até o bom e o bem perderam sua força. O ser humano permanece perplexo diante das múltiplas opções e se questiona por que não escolher o mal, o prazer sem limites, uma vida sem compromisso e os sentimentos sem responsabilidades.

 

Apesar de todas as frustrações dos sonhos de um mundo melhor, de uma civilização mais justa e fraterna, de um planeta harmonizado, permanece o desafio de salvar a vida e o globo através da Beleza, pois só ela é necessária, como bem alerta Dostoievski: “Sabeis que a humanidade pode fazer pouco dos ingleses, poderá fazer pouco da Alemanha, que nada é mais fácil para ela do que fazer pouco dos russos, que para viver não precisa nem de ciência e nem de pão, mas que apenas a beleza é indispensável porque sem beleza não existirá nada mais a fazer neste mundo”[1].

 

A palavra beleza remonta sua gênese ao sânscrito: BET EL ZA (o lugar em que Deus brilha). Trata-se de um conceito religioso. Na cultura hebraica, o seu correspondente é a Shekiná, a Glória de Deus manifestada em todo seu esplendor na feliz convivência com as criaturas. É o ideal do paraíso primitivo quando Deus viu que tudo era bom (Gn). Bom e belo. No grego, o belo é traduzido por Kalos, para afirmar que a beleza é o esplendor da verdade. Consequentemente, a mentira é feia. O conceito de Kalos reúne os significados de Bom, Belo e Verdade. No mundo antigo, por exemplo, um objeto só passava a ser feito em ouro depois de constatada sua utilidade e função. A beleza constitui, portanto, uma das faces da trindade ideal do verdadeiro, do bom e do belo.

 

Por causa de sua aparência sensível, a beleza também é ambígua. Na sua essência, ela é simbólica (sim-bolós), que une e integra, dando sentido à existência do ser. Pervertida, ela se torna diabólica (dia-bolós), que divide, separa e rompe. A beleza pode ser frequentemente enganosa e o seu fascínio pode esconder a falta de moral e uma indiferença para com a verdade.

 

O mal também se reveste de beleza para seduzir. O paradigma mais antigo dessa realidade é o relato bíblico do fruto proibido: “a mulher viu que o fruto da árvore era bom de comer, de agradável aspecto e desejável” (Gn 3,6). Trata-se da sedução do prazer que brilhou mais do que a distinção entre o bem e o mal. A beleza fascinou o ser humano, usurpou o lugar do Divino, tornou indiferente o bem e a verdade. O que é agradável aos sentidos e estético no mais alto grau, nem sempre é verdadeiro. A falta de senso moral e o caos interior do homem se formam num modo natural, através de forças irresistíveis que abalam a alma. Não é somente Deus quem se reveste de Beleza, o mal lhe imita e torna a beleza profundamente ambígua.

 

[1].DOSTOIEVSKI F.N, I Demoni, Milão, 1963, c.3.

17/01/2019

Competir ou cooperar?

A análise da realidade nunca é totalmente imparcial. Somos condicionados por muitos fatores. Herdeiros da tradição cartesiana e do racionalismo, evoluímos muito no domínio do conhecimento para o avanço da ciência, da técnica, da robótica e da informática. Hoje já se prospecta a geração 4.0. Muitas pesquisas têm revelado significativos dados que possibilitam maior qualidade de vida e domínio sobre constantes ameaças que abalam a vida e o planeta. É preciso, contudo, ser crítico sobre o modo de pensar que muitos têm quando abstraem os valores subjetivos, as relações interpessoais e menosprezam as dimensões do transcendente, priorizando somente o que é empírico e verificável por métodos que descartam outras dimensões humanas como a arte, a música, a religião, a sensibilidade e a espiritualidade.

 

A sociedade contemporânea, em acelerado processo de mudança, está dispersa e desprovida de referenciais. Há um vácuo racional e ontológico fundamental. O individualismo é um princípio que decorre da racionalidade moderna. Ele gera uma moral que individualiza o direito e dá caráter de tensão às relações sociais: “o seu direito termina onde começa o meu”. O limite do direito individual é a presença do outro indivíduo e não a convivência social. Cresce o clima de tensão, concretizado na criminalidade e na violência urbana. A insegurança social parece ser uma característica “natural” da sociedade moderna. Na verdade é a busca desordenada pela sobrevivência diante de uma ética individualizante e competitiva. O ser humano se animaliza: reage com o instinto de defesa diante do ataque violento.

 

Na tentativa de estabelecer os fundamentos da nova concepção sobre a vida, há de se buscar novos conceitos. A subsistência da vida humana na Terra não se deve à competição, mas sim à cooperação. O ser humano depende dessa atitude comunitária para superar a fragmentação da realidade da forma como é concebida atualmente.

 

Todos os seres criados são solidários entre si porque se originaram da mesma matéria primordial. Todos são criados por Deus para que cresçam na harmoniosa multiplicidade do universo. A pessoa, nesse contexto, tem uma cidadania universal, cósmica, que se realizará cada vez mais que se mover livremente em direção ao próprio projeto do Criador para todo o cosmos.  O humano é o único ser para o qual a vida é uma tarefa, porque ela não se reduz ao dado somático-psíquico. Ele tem uma existência inacabada, não só do ponto de vista biológico, mas também espiritual e, principalmente, enquanto unidade pessoal.

01/11/2018

O Dia de Finados faz pensar na vida

Nós humanos temos uma única certeza sobre o futuro: sabemos que iremos morrer. O tema da morte, entretanto, é indesejado e até camuflado num tempo de avanços tecnológicos e inteligência artificial que tendem a prolongar os nossos dias na Terra. Refletimos um pouco sobre o findar quando chega o mês de novembro, quando no dia 2, fazemos um feriado em memória daqueles que partiram desta vida.
 

Mesmo com a perspectiva de vida longeva ou mesmo diante da distração do tempo que passa com os muitos atrativos para “viver” bem o aqui e o agora, paira uma pergunta no ser humano: por que viver, se vamos findar? Mais: por que alguns perdem o sentido da vida e desistem de viver? Enfim, acabamos constando, conscientes ou não, de que se reprimirmos a morte de nosso horizonte, teremos uma compreensão reduzida da vida. Pois esta tende a findar.


Epicuro sugere a separação radical entre vida e morte, propondo levar uma vida sem morte, uma vez que ela não faz parte do viver, é de outra ordem. Na verdade, com essa separação apenas se consegue a sensação de vida sem consciência da morte, reprimindo-a. No período medieval, as pessoas queriam morrer preparadas, conscientes do findar e não desejando, por isso, a morte súbita. De forma contrária, hoje se pretende uma morte sem dor e imediata. Cada vez mais os funerais têm tempo abreviado, os sentimentos nem sempre são externados e o luto, não raras vezes, camuflado nessa sociedade do desempenho, na qual as metas e a correria do cotidiano dissipam a capacidade de espreitar a vida que tende a morrer. Por isso que quem vive correndo, quando se depara com uma doença grave e terminal, dificilmente compreende um sentido para essa existência que não é só marcada por saúde, beleza e dias de festa. Há também o envelhecer, adoecer e o morrer. E isso não precisa ser uma dor a ser cultivada no jardim do cotidiano, tampouco se pode procurar um anestésico que arremeta a existência para os voos da banalização da morte.


No feriado de 2 de novembro deveríamos refletir sobre a nossa capacidade de recuperar a memória daqueles que fizeram parte de nossa história. Igualmente deveria fazer-nos compreender que não somos seres isolados, pois fomos cuidados, acompanhados e amados por pessoas, e algumas delas já partiram. Ela leva para a eternidade algo de nós. Finalmente, esse feriado deveria provocar em nós a capacidade de ver que nossa vida também passará. Como o dia termina com o belo pôr do sol, como um livro tem o epílogo e a novela tem seu último capítulo, nossa vida tende a um final que não significa o fim da existência. Afinal, morremos sempre. Morre o idoso, farto de dias, e morre também o jovem, sedento de vida. Cabe a cada um dar uma resposta a esta experiência que todos passaremos, mesmo que sobre ela não pensemos. Vale, para concluir, recordar a experiência de Santa Teresinha do Menino Jesus, monja carmelita francesa que após uma intensa enfermidade, viu se aproximar a morte e escreveu: “não morro, entro na vida”!

18/10/2018

Educar para quê?

Há poucos dias comemoramos o dia do professor. Essa indispensável e não suficientemente valorizada profissão, nos faz repensar o modelo educativo que produzimos. A evolução repentina e por vezes contraditória do nosso tempo suscita desafios que interpelam a comunidade educativa. Eles induzem a encontrar respostas adequadas não só em âmbito dos conteúdos e dos métodos didáticos, mas também em nível da experiência comunitária que caracteriza a ação educativa.

A importância destes desafios transparece do contexto de complexidade social, cultural e religiosa na qual crescem concretamente as jovens gerações, e influencia significativamente a sua vida. Tratam-se de fenômenos amplamente difundidos, tais como o desinteresse pelas verdades fundamentais da vida humana, o individualismo, o relativismo moral e o utilitarismo. 

Torna-se urgente oferecer aos jovens um percurso de formação que não se limite à fruição individualista e instrumental de um serviço apenas em vista de um título que deve ser obtido. Além da aprendizagem dos conhecimentos, é necessário que os estudantes façam uma experiência de forte partilha com os educadores. O ser humano, como pessoa, se realiza dinamicamente mediante a abertura de si à relação com o outro.

No atual contexto é necessário formar sujeitos capazes de respeitar a identidade, a cultura, a história, a religião e, sobretudo os sofrimentos e as necessidades dos outros, na consciência de que "todos somos verdadeiramente responsáveis por todos." Grandes questões antropológicas ficam escondidas na reflexão cotidiana até na escola e na universidade: qual é o significado de pessoa humana hoje? Qual o sentido de nossos trabalhos? Sobre o que funda a nossa esperança?

Os altos índices de frustração, estresse e depressão e os preocupantes dados sobre suicídio entre adolescentes e jovens nos impelem a questionar o atual modelo de sociedade, educação e cultura que estamos sustentando. Educar para a vida e rejeitar a cultura da morte, do vazio e do cansaço, implicam em rever nossa sociedade baseada no desempenho, sucesso e progresso a qualquer custo. O grito alarmante do Planeta, nossa Casa Comum, sobre a sustentabilidade da vida (e vida humana) na Terra, deveriam nos acordar dessa sonolência e distração que há muito tempo está se mantendo.

Acordemos! Eduquemos nosso olhar para valores que todos reclamamos a falta, mas pouco nos empenhamos em começar pela nossa casa e escola. A vida continua bela e plena de sentido, mas muitos não estão sendo educados nessa perspectiva. Que nossos educadores sejam reconhecidos na arte de humanizar uma sociedade que  tanto clama por sentido e ética.

23/08/2018

Presença e escuta: as pedagogias do Papa Francisco

Ao assumir a sua missão de arcebispo de Buenos Aires, em 1998, o Cardeal Jorge Mário Bergoglio, envolveu-se diretamente com a catequese. Anualmente, redigia uma carta por ocasião da Festa de São Pio X (21 de agosto), patrono dos catequistas.


Desde então, Bergoglio propunha uma Igreja em saída, que não se acomodasse na manutenção de sua forma de agir. Queria que os catequistas saíssem ao encontro das pessoas nas cidades, onde elas se encontrassem para dizer-lhes que Jesus vive para elas, e insistia, também, que realizassem esse anúncio com alegria.


De certa forma, o futuro Papa delineava uma pedagogia da presença, caracterizada pela capacidade de acolhida, cuidado do outro e empenho para que ninguém fique à margem do caminho. Sugeria que os catequistas colocassem toda sua criatividade em “saber estar” próximo de quem sofre, para que a escuta e a proximidade não fossem apenas um estilo, mas um conteúdo da catequese. Ele apresentava a presença e a proximidade como uma forma de educar na fé. Não seria esse um “fio de ouro” para toda a educação?


Outro aspecto relevante do Papa Francisco, enquanto Cardeal de Buenos Aires, é a sugestiva proposta do que ele denominou de “Pedagogia da Escuta”, conclamando os catequistas para que soubessem escutar e ensinar a escutar como fez Jesus. O Cardeal afirmou que a escuta primeireia o diálogo. O neologismo, que reaparecerá nos escritos do Papa Francisco, indicando que primeirear significa adiantar, tomar a iniciativa. Somente pela escuta se vencem as distâncias e se cria a empatia. Aqui também se denuncia o risco de uma educação que não esteja atenta à realidade da vida e das pessoas, e corre o risco de ser expressão de uma autorreferencialidade, que não é capaz de ousar para ir ao encontro dos desafios do tempo atual.


Para ele, escutar é mais que ouvir. Pois ouvir está na linha da informação. Escutar está na linha da comunicação, na capacidade do coração que possibilita a proximidade, sem a qual não é possível um verdadeiro encontro. "A escuta nos ajuda a encontrar o gesto e a palavra oportuna que nos desinstala da sempre mais tranquila condição de espectador”.

 

Certa feita, contemplando Buenos Aires ele declarou sua preocupação com “um povo e uma cidade ameaçados como nunca por uma cultura cada vez mais pagã, que se orgulha de sua amnésia e nos pretende impor um Deus destilado, transcendente, mas dentro dos limites da imanência, sempre à nossa mão para ser usado como um instrumento do consumismo que nos oprime”. Como são atuais essas palavras também para nós aqui!

 

A metodologia que se delineia em Francisco é a pedagogia da presença, da escuta e da proximidade. A atenção recai sobre as periferias, sobre os afastados e distanciados do caminho da fé. Ele não separa anúncio e cuidado misericordioso, fidelidade a Deus e fidelidade ao humano. Somente assim será possível enfrentar as transformações culturais que dificultam a transmissão da fé às novas gerações. Ir ao encontro do outro já é a urgência de toda ação educativa e catequética, segundo Francisco, afinal Deus sempre nos primeireia.

29/01/2018

Por que sofremos?

Franz Kafka descreve o ser humano como um condenado à morte que ignora, contudo, como será a sentença que lhe será decretada. Ele não sabe por que deve morrer e não compreende o sentido dessa experiência. Albert Camus concebe o ser humano como alguém que busca o inatingível. Mas, na medida em que passa a vida, descobre que não consegue alcançar as mais profundas aspirações. Dessa forma, constata o absurdo de sua existência. Há esvaziamento de sentido de sua humana vivência na terra.

Nesses casos, não se concebe a beleza da existência como um benefício da bondade divina, que é o fundamento de todos os outros bens. Quando se percebe a realidade da existência nos confins de nossa vida na terra, interpreta-se que a cadeia de acontecimentos vividos desemboca necessariamente no desespero. Entende-se a vida apenas como uma evolução penosa rumo a um destino ignorado.

Em tempos de profunda crise de esperança, de incapacidade de sonhar e projetar o futuro, de preferir eternizar o presente para que seja eterno enquanto dure, toda experiência de dor tende a ser camuflada ou intencionalmente “esquecida”, se é que é possível enganar-se tanto e por muito tempo.

A experiência da vida humana é uma alternância de alegrias e sofrimentos. Tristeza e dor nem sempre dependem da vontade humana. Pode-se até pensar o mal como uma anomalia da criação ou um escândalo que remete a tantas interrogações: por que sofrer? O mistério do mal sempre afetou o ser humano ao longo da história. A dor aparece como a privação do bem ou uma ruptura, ou mesmo uma desordem.

A fé não suprime a dor, mas a despoja do seu estilo punitivo. Para quem crê, o sofrer estabelece uma intimidade com Cristo. A partir da experiência de Jesus na carne, o Filho de Deus viveu o sofrimento. Com Ele, o sofrer implica tentação e convite. Tentação porque a dor, seja de qual tipo for, ameaça todas as seguranças e certezas da pessoa. Ela é uma ruptura que pode fragmentar todo o indivíduo. Reagir com revolta diante da dor é a atitude de quem não consegue avaliar os limites da natureza e termina imputando a Deus a impotência humana. Sofrer também implica convite, porque ao absurdo da dor se contrapõe a solidariedade de Cristo, que modifica o sentido do sofrimento. Quem sofre pode crescer moral e espiritualmente com essa experiência. É claro que poucos são os que conseguem viver tudo isso numa enfermidade. Depende de fé. Só o crente pode abrir caminhos de libertação da escravidão imposta pelo mal. Assim, não interessa quanto se sofre, mas como se sofre.

A fé não pode ocupar-se em responder sobre o porquê da dor. Na Bíblia não se encontra uma solução racional para essa questão. Mesmo que os textos tendam, na maior parte, a conceber a dor como resultado de uma desordem introduzida no mundo pelo pecado, biblicamente não se sustenta a ideia de que a dor é resultado de um destino cego que advém sobre a humanidade. Muito mais é entendida como uma disposição da insondável sabedoria divina, diante da qual o ser humano deve reverenciar pela força da fé.

Assim, a dor não é uma vingança, tampouco um castigo divino para descontar as faltas humanas. Mas a dor tem sempre um significado, seja para o justo quanto para o pecador. É um caminho para que a humanidade alcance a felicidade eterna. Por um lado, induz o pecador a abandonar o pecado e voltar-se para Deus. Por outro, o sofrimento é vivido pelo justo como um meio da pedagogia divina. Eis o desafio: aprender a amar mesmo em meio ao sofrer.

26/10/2017

Fomos criados no tempo para sermos eternos

O feriado de 2 de novembro chama a atenção de todos para algumas realidades nem sempre presentes em nosso cotidiano: a saudade de quem partiu, a consciência de nossa finitude, a elaboração do luto. Enfim, o tema da morte e do morrer emerge do calendário para uma retomada de consciência sobre a vida.

 

Nós humanos temos uma única certeza sobre o futuro: sabemos que iremos morrer. Viver e morrer estão intimamente conectados. Presente e futuro nos fascinam, porque queremos vislumbrar as conquistas e realizações, tanto quanto nos atemorizam a frustração, o limite e o fim. Em nossos dias muitos tabus, preconceitos e mitos foram vencidos. Infelizmente, porém, cresceu o tabu a respeito do morrer. Esse assunto é indesejado e até camuflado nas conversas diárias.

 

A morte traz consigo novas interrogações e discussões. Cada área do conhecimento humano tem sua percepção sobre essa dimensão. Algumas respostas são mais positivas que outras. Biologicamente estamos sempre findando: células morrem, são eliminadas e outras surgem. A morte não é um instante, mas um processo biológico e espiritual. O ser humano é essencialmente um ser para a morte: aprender a viver é aprender a morrer.

 

As religiões são depositárias dessa sabedoria. Não é possível perceber a morte apenas como uma finitude fisiológica, como se fosse a negação da vida ou o fim do sujeito que vive no tempo e no espaço. O ser humano, diferente dos demais seres, sabe que vai morrer, tem consciência dessa limitação e por isso não nasce determinado e nem se move apenas por impulsos biológicos, mas vai construindo sua vida e se construindo. É morrendo que se vive para o eterno.

 

Toda pessoa que morre é parte deste mundo visível. A história, as experiências, as alegrias e os sofrimentos marcam definitivamente cada um de nós. O que mais determina nosso ser, entretanto, são as relações. Durante a vida conhecemos uma família, crescemos entre amigos, temos colegas de trabalho, escolhemos pessoas mais íntimas, formamos nova família e experimentamos a amizade, o amor e a comunhão. Dificilmente alguém é feliz na solidão e no isolamento. Somos seres essencialmente relacionáveis.  O tempo passa e com ele passamos também nós. Nascemos, crescemos, amadurecemos, envelhecemos e morremos. Este percurso da existência humana é uma realidade fascinante. Há quem sofra o horror desse princípio de impermanência de tudo o que vive. Há, contudo, quem encontre a razão de ser neste movimento de nascer, viver e morrer.

 

Os cristãos definem a morte como páscoa, isso é, passagem. Não passagem de uma realidade para outra totalmente diferente, mas de uma situação limitada para outra, continuada, mas descontínua. O morrer é um adormecer para este mundo limitado pelo tempo e pelo espaço e acordar nas potências infinitas do Criador. Trata-se do encontro que dá significado a toda experiência humana. Ensina o cristianismo que em Jesus Cristo, apesar de vivermos na contingência do tempo, já somos eternos, porque somos filhos da Luz. É por isso que os cristãos já sabem ser ressuscitados e a morte não pode lhes separar de Cristo, como escreve Paulo Apóstolo.

 

Oxalá todos pudessem perceber, além das crenças e religiões, esse elemento comum a todo ser humano: há algo em nós que não morre. Quem consegue fazer essa experiência durante a vida, percebe a morte de outra forma. O melhor sinalizador de tudo isso é que homens e mulheres edificaram crenças e religiões que afirmaram essa realidade profunda: fomos criados no tempo para sermos eternos.

19/04/2017

Não deixem as baleias matarem nossos jovens

O avanço da tecnologia possibilitou um acesso ilimitado às redes sociais de tal forma que essa realidade reinventa a vida cotidiana. Há muitas opções e não poucas armadilhas nessa ambiência. É o caso do desafio Baleia Azul, jogo que atrai jovens e adolescentes de todo o mundo dispostos a realizar tarefas arriscadas que culminam em tirar a própria vida.

 

Vive-se num tempo de forte acento individualista, quando as sociedades regidas por uma lógica narcísica multiplicam as iniciativas autodestrutivas. Diante da crise de afeto, da banalização do outro e do relativismo que colapsa valores comuns, o suicídio é hoje a expressão de uma crise de despersonificação.

 

Muitos sujeitos altamente conectados estão perdidos no turbilhão de informações, vítimas da overdose de opções para se atingir a felicidade, porém, uma felicidade momentânea, hedonista e eminentemente individual. A pessoa acaba movendo-se num horizonte sem meta, flutuando numa atmosfera de várias opções de sentido, de comportamentos, de ética. Os condicionamentos de uma sociedade desumanizada impedem que o indivíduo se realize.

 

Não basta se escandalizar com o terrível jogo mortal Baleia Azul, é preciso avaliar o tipo de vida que estamos levando e obrigando as futuras gerações a viverem. Sem perspectiva de futuro e esquecendo o passado, muito se tem insistindo em viver somente o presente. O importante é se sentir bem. Será?

 

O suicídio, como no jogo Baleia Azul, pode acontecer até mesmo sem desejo de morrer, como um ato de violência não planejado. O que importa é fazer a experiência, ter a sensação, sentir a emoção do momento.

 

A estrutura, o ambiente e a educação familiar são fundamentais para desenvolver níveis de felicidade que diminuam o instinto autodestrutivo. Aqui entram a ética e o cuidado para pensar preventivamente, atuando no sistema educacional, reconstruindo sentidos, resgatando valores, autorizando a expressão de sentimentos e pensamentos, fortalecendo os vínculos e a espiritualidade. Não é possível que o mercado, o poder e o descaso com os mais fracos dominem a vida das pessoas. Estamos cada vez mais carentes de sentido e valores que todos reclamam, mas poucos estão dispostos a mudar o atual estilo de vida. Esquecem que a falta de afeto, cuidado e transcendência também podem matar.

 

Para prevenir é preciso cuidar e libertar-se do mito atual da sociedade de consumo e do bem-estar de que só vale a pena viver se há prazer. Saber lidar com as perdas, os limites e as frustrações pode mostrar o que realmente tem valor na vida; de forma extremamente eficaz, ajuda a discernir o que é secundário e o que é essencial.

 

O alerta do desafio da Baleia Azul é para todos, aponta para a necessidade de um novo olhar sobre a vida, conectado, mas não alienado; informado, mas não desafetado; livre, mas não narcísico. O desafio é para famílias, igrejas e sociedade. Não deixem as baleias roubar nossos jovens.

09/03/2017

Campanha da Fraternidade pode tratar de biomas?

Durante a Quaresma a Igreja no Brasil, desde 1964, propõe a Campanha da Fraternidade. Trata-se de uma ampla conscientização sobre temas relevantes que afetam a vida humana e o meio ambiente. A convicção de que é possível educar para a paz e superar os pecados pessoal e social que ameaçam a dignidade dos filhos de Deus é que motiva essa iniciativa e envolve paróquias, escolas, universidades, meios de comunicação e todas as instâncias que contam com a presença da Igreja.

A Campanha de 2017 trata dos biomas brasileiros e pretende uma conscientização sobre a preservação da natureza com sua rica biodiversidade manifestada de formas diferentes em todo país. Alguns têm estranhado esse tema e criticam a opção dos bispos.

Cada vez mais cresce a preocupação com a “casa comum” da qual depende a vida humana e o futuro das nossas gerações. Quando a Igreja assume corajosamente essa reflexão, é claro que toma posição em favor da sustentabilidade, da conservação e preservação do ambiente e, acima de tudo, empenha-se por uma ecologia que priorize a vida humana ameaçada por tantas causas de injustiça.

É bom recordar e informar que a Campanha da Fraternidade está alinhada com a Doutrina Social da Igreja, que é endereçada a todas às nações e não se identifica com um ou outro partido e nem é refém de qualquer ideologia. O Evangelho orienta todo ensinamento e compromisso social da Igreja que é a maior organização caritativa do planeta. Um dos princípios dessa Doutrina é o “bem comum”, não compreendido como a soma dos bens particulares de cada sujeito do corpo social, mas o conjunto das condições da vida social que permitem aos grupos e a cada um dos seus membros atingir sua mais completa perfeição. Disso decorre a afirmação de que há uma destinação universal dos bens, por isso o cuidado do planeta é tarefa de todo ser humano, especialmente do seguidor de Jesus Cristo.

Essa postura já foi assumida pelo Papa Paulo VI em 1967 na Encíclica Populorum Progressio, quando alertava que Deus destinou a terra e tudo o que nela existe ao uso dos seres humanos e todos os outros direitos estão subordinados a esse. E São João Paulo II, na Sollicitudo Rei Socialis, em 1987, denunciava que os recursos naturais são limitados e não se pode usá-los com domínio absoluto. O mesmo Santo Padre, na Centesimus Annus, em 1991, denunciou que as estruturas sociais podem criar um ambiente de pecado que impede a plena realização humana. O Papa Francisco dedicou uma encíclica exclusivamente para o tema do cuidado da “casa comum” – a Laudato Sí.

Como se percebe, não é novidade essa preocupação. Ocorre, porém, que ao tratar de tema tão significativo é preciso indicar caminhos de mudanças, de intervenções que possam garantir o futuro do planeta. A proposta pode causar estranhamento em alguns setores da sociedade. Mas, quaresma é tempo de conversão. Não se trata de uma conversão aparente, mas de uma capacidade de olhar o mundo como Deus quer. A conversão consiste em atitudes profundas que orientam as relações do homem consigo mesmo, com o próximo e com a natureza.

O cuidado com a criação é um compromisso que a economia, a política e a cultura contemporâneas não podem mais tardar em assumir.

30/01/2017

Navegantes: um farol para Porto Alegre

Dia 2 de fevereiro Porto Alegre celebrará mais um feriado de Navegantes. Nessa que é considerada uma das capitais mais secularizadas do Brasil, se encontrará uma multidão de pessoas ocupando o centro da cidade e caminhando em direção ao Santuário. O título “Nossa Senhora dos Navegantes” remonta ao tempo das Cruzadas na Idade Média, quando portugueses e espanhóis atravessavam o mar Mediterrâneo em direção à Palestina para proteger os lugares sagrados da Terra Santa. Eles invocavam a Virgem Maria para que ficassem livres dos males e perigos. Ao chegarem ao porto, salvos das tempestades, elevavam preces e construíam capelas para venerar a santa.

 

A festa é uma das maiores expressões da religiosidade sincrética de Porto Alegre. Devotos de diversas etnias, credos, idades e culturas se encontram e seguem o mesmo rumo, guiados pelo barco-andor. Nele está a imagem de Nossa Senhora, esculpida em madeira por um artista português em 1913.

 

Em 2017, na 142ª edição, novamente haverá pessoas oferendo flores e velas, preces e promessas, súplicas e agradecimentos. Além dessa intensa manifestação religiosa, seria muito bom erguer os olhos e o coração para o alto e suplicar que Nossa Senhora ilumine, qual farol luminoso, a noite escura e o mar bravio que desafia diariamente a região metropolitana.

 

Os navegantes de nosso tempo não enfrentam Cruzadas, tampouco atravessam o Mediterrâneo, contudo, travam uma batalha cotidiana para sobreviver à violência que não conhece mais limites. O mesmo olhar que eleva os olhos para rezar deve ser baixado para tanger as realidades que clamam pela justiça, pela promoção do bem comum e pela garantia da dignidade de todo ser humano. Há desafios dos contextos sociais, políticos e culturais. Mas é preciso também cuidar da interioridade, para que a ferocidade não domine o ser humano.

 

Celebrar Navegantes, nessa conjuntura, é perceber que as muitas formas de crer não podem se dividir quando a vida está ameaçada. Um ponto deveria unificar os romeiros: é urgente construir um porto mais seguro e mais feliz. Não bastam boas intenções, é preciso esforço comum, pois a fé remove montanhas e é capaz de ser um dos fatores eficazes na promoção da paz.

09/12/2016

Intolerância se combate com proximidade e informação

O Enem propôs para a redação deste ano o tema “Caminhos para combater a intolerância religiosa no Brasil”. Assunto oportuno e necessário para nós, cristãos, e para toda a sociedade, especialmente uma sociedade que optou por não valorizar tanto as ciências humanas e enaltecer mais a técnica e o mercado.

 

Precisamos evidenciar mais a convivência, encontrar-se mais com o outro. Enquanto o individualismo se fortalecer não há como combater a intolerância. Ela nasce quando eu não reconheço o outro e, por isso, seus valores e crenças são desprezadas por quem se considera superior.

 

Nós todos, especialmente os cristãos, precisamos retomar o que diz o Papa Francisco: “a cultura da proximidade é uma urgência”. Quando entramos em maior proximidade, percebemos que as pessoas têm sonhos, projetos e esperanças, e nisso também há crenças. Existem ainda aqueles que não creem. É preciso respeitar a todos.

 

E se é necessário retomar a convivência, também é necessário maior diálogo. Nós não estamos dialogando. Cada um está impondo sua forma de crer ou não crer, prejudicando ou sendo preconceituoso em relação ao outro. Isso porque falta informação.

 

É importante resgatar no contexto da educação as aulas de ensino religioso. Há muito tempo no Brasil temos feito uma opção de não valorizar essa disciplina. Enquanto for assim, continuaremos desrespeitando quem pensa diferente de nós e preparando-nos para muitos aspectos da vida, mas não sendo capazes de conviver. Religião, crença ou não crença não são detalhes, mas aspectos fundamentais que também estruturam a vida das pessoas. É uma abstração pensar que religião não é importante.

 

A educação tem a urgência de voltar às questões fundamentais do ser humano. Que além da matemática, português e todas as disciplinas fundamentais para o currículo não se esqueça da filosofia, sociologia, ensino religioso, educação física, educação artística. As questões subjetivas não podem ser negligenciadas, a menos que não queiramos formar cidadãos e pessoas integradas.

 

Para quem crê e também para quem não crê fica o desafio: mudar a forma de afrontar a realidade.

04/11/2016

Orientações sobre a cremação para os católicos

A Congregação para a Doutrina da Fé do Vaticano publicou no último dia 25 de outubro a Instrução Ad resurgendum cum Christo (Para ressuscitar com Cristo) sobre o valor da sepultura para os cristãos, alertando da proibição, para os católicos, de espalhar as cinzas da cremação e insistindo sobre a necessidade de conservá-las nos cemitérios ou locais sagrados.

 

A intenção é recordar que desde 1963 a Igreja Católica deixa aos fiéis a liberdade de escolher a cremação de seu próprio corpo, embora prefira a antiga tradição cristã do sepultamento. Contudo, a Doutrina da Fé alerta que “para evitar qualquer tipo de equívoco panteísta, naturalista ou niilista, não seja permitida a dispersão das cinzas no ar, na terra ou na água ou, ainda, em qualquer outro lugar”. O documento também exclui a possibilidade da conservação das cinzas “sob a forma de recordação comemorativa em peças de joalharia ou em outros objetos” e em casa, salvo em “circunstâncias graves e excepcionais”.

 

Sobre a conservação das cinzas, a Instrução ensina que “as cinzas do defunto devem ser conservadas, por norma, num lugar sagrado, isto é, no cemitério ou, se for o caso, numa igreja ou num lugar especialmente dedicado a esse fim”, como são os columbários existentes em crematórios. Todas essas normas têm como objetivo evitar o “risco de afastar os defuntos da oração e da recordação dos parentes e da comunidade cristã”. Também opõe-se a “práticas inconvenientes ou supersticiosas” que são totalmente estranhas à autêntica tradição católica. E isso inclui esclarecer algumas concepções não compatíveis como cristianismo como o “aniquilamento definitivo”, a “fusão com a Mãe natureza”, uma “etapa no processo da reencarnação” ou a “libertação definitiva da ‘prisão’ do corpo”.

 

Diante do descaso com a memória dos antepassados, muitos se esquecem de rezar pelos familiares defuntos. Por isso a Igreja sugere destacar um lugar sagrado para guardar os restos mortais ou as cinzas dos mortos que favoreça “a memória e a oração pelos defuntos da parte dos seus familiares e de toda a comunidade cristã”. É de grande estima para os cristãos o local de sepultura de seus mártires e santos. As catacumbas romanas e o sepulcro de muitos santos são ainda hoje motivo de colocar o ser humano em peregrinação. Por isso, a Instrução destaca que a Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos; todavia, a cremação não é proibida, “a não ser que tenha sido preferida por razões contrárias à doutrina cristã”.

04/11/2016

Tempo de viver e de morrer

“Debaixo do céu há momento para tudo, e tempo certo para cada coisa:  Tempo para nascer e tempo para morrer. Tempo para plantar e tempo para arrancar a planta” (Eclesiastes 3,1-2). A sabedoria bíblica faz refletir sobre a realidade da vida e da morte.

O ser humano é a única criatura que tem consciência de sua finitude. Sabe que o viver comporta o morrer. A consciência da mortalidade leva a pessoa ao desejo de imortalidade. É uma inquietude que permanece, refratando as hipóteses de um dia a pessoa não mais existir.

Em diferentes épocas, povos de diversas culturas construíram diferentes concepções sobre o sentido da morte e a possibilidade de existir após esta vida. Basearam-se em percepções da natureza, em revelações sobrenaturais, no desejo de transcendência, em livros sagrados ou em mensagens de profetas e mestres. As religiões nascem do encontro do humano com o divino para estabelecer um sentido para viver, partindo de uma releitura sobre o morrer e possibilitar novas escolhas para enfrentar a vida que tende à morte. 

Não é possível verificar empiricamente e consensualmente a existência de alguma realidade no pós-morte. As afirmações da ciência tendem a revelar o silêncio abissal sobre essa realidade. Por outro lado, não há nenhuma comprovação de que nada exista após a morte. Assim, o crente sustenta que há vida eterna, o ateu declara que nada existe após a vida. Enfim, a resposta pode variar, porque ela não é apenas intelectual. Ela se desprende da experiência que se realiza durante a vida. Entretanto, a maioria das pessoas que vem a este mundo tende perceber, para além das crenças e religiões, que há um elemento comum na humanidade: há algo no humano que não morre. Quem consegue fazer essa experiência durante a vida percebe a morte de outra forma. O melhor sinalizador de tudo isso é que as crenças e religiões da humanidade afirmam, por diferentes caminhos, que o ser humano é criado no tempo, mas tende à eternidade.

A reflexão sobre a morte não pode abstrair desta vida, mas busca um sentido mais profundo para ela. Desta forma, exorcizam-se a apatia e o descaso com os dias transcorridos na terra, evidenciando-se o amor e o encanto pela vida.

Apesar deste tempo ser marcado pelo imediatismo, quando poucas pessoas se ocupam de cemitérios e memoriais para os mortos, permanece a questão do sentido da vida diante do morrer. Por mais que alguns tendam a mascarar essa inquietação compensando toda incerteza pela eternização do presente, não faltam reflexões que tendem a dizer que a vida é mais forte que a morte, como afirma o livro do Cântico dos Cânticos.

O dia de finados é um apelo, também para os distraídos, sobre o valor da vida que também conhece seu ocaso, seu “por do sol”, seu epílogo. E quanta beleza pode haver no ocaso da vida! Fazer memória dos mortos é tomar consciência de que cada ser humano é marcado pela experiência da vida que o precede e o sucede

09/09/2016

Suicídio: cuidado e prevenção

Desde a década de 90 a Organização Mundial da Saúde trata o suicídio como um problema de saúde pública. Reduzir as taxas de suicídio é um desafio coletivo. Refletir sobre o tema é pensar sobre a vida e a morte, as possibilidades e os limites do agir humano. Trata-se, em última análise, de deparar-se com a realidade do próprio ser humano, do mundo e de Deus.

O que o suicida procura desesperadamente é uma saída no fim do túnel, uma fuga rápida e fácil para uma situação de extremo e insuportável sofrimento. O indivíduo, então, projeta suas fantasias nesta realidade misteriosa que ele conhece por morte. Ele não quer a morte em si, nem o que ela significa de fato, mas o que representa para o sujeito: a possibilidade real, talvez única, de parar de sofrer.

A estrutura, o ambiente e a educação familiar são fundamentais para desenvolver níveis de felicidade que diminuam o instinto autodestrutivo. Aqui entram a ética e o cuidado para pensar preventivamente, atuando no sistema educacional, reconstruindo sentidos, resgatando valores, autorizando a expressão de sentimentos e pensamentos, fortalecendo os vínculos e a espiritualidade.

Para prevenir é preciso cuidar. No caso do comportamento suicida, é necessário cuidar da dor, isto é, recompor uma visão integral da pessoa, que a prepare para enfrentar e administrar situações inevitáveis de sofrimento. Para isso, é necessário libertar-se do mito da sociedade atual de que só vale a pena viver se há prazer. A dor não precisa ser autodestrutiva. Saber perder, aprender a enlutar, adoecer e até morrer são fundamentais numa educação integral que prepare a pessoa para a vida e não somente para os momentos de sucesso.

A sacralidade da vida se traduz no inviolável direito e no grave dever de cuidar da vida no sentido mais amplo possível. E apesar do suicídio ser condenado no plano geral e teórico, é fundamental abster-se de condenar a pessoa que o comete. Só Deus pode julgar. Ninguém consegue mensurar objetivamente o abandono e a solidão que o suicida viveu. Sua morte é o último ato de uma experiência atribulada que afetou gravemente sua existência. Seguindo a fé cristã, é preciso garantir a oração pelo suicida, o acompanhamento da família e a conscientização da sociedade sobre a urgência de um programa de prevenção.

05/09/2016

Calcutá é aqui

A crescente onda de violência que atinge Porto Alegre, os desafios de uma sociedade mais justa e a difusão de radicalismos e posturas de intolerância em todos os âmbitos provocam uma reflexão sobre a nossa situação no século XXI. 

Geralmente nos causa impacto as notícias que chegam do exterior: o terremoto na Itália, a fome na África, o terrorismo na França, a contaminação do solo e das águas em Mariana. São sinais de que vivemos conflitos graves que precisam de uma nova postura da vida humana no planeta. Esse olhar global e essa preocupação geral têm incidência local e particular.

Ao nosso redor é urgente repensar a questão da segurança, mas isso significa rever toda a proposta da educação que estamos promovendo. Mas como fazer isso em analisar a situação da família e da pessoa no atual contexto?

Rever a nossa relação com o outro, consigo mesmo, com o mundo e com Deus deixou de ser urgência de grupos religiosos. Trata-se de uma revisão que se impõe a toda comunidade humana.

Um exemplo dessa nova postura desejada, mas nem sempre alcançada, foi a vida da Madre Teresa de Calcutá, que será proclamada santa pelo Papa Francisco no próximo domingo. Teresa nasceu na Albânia em 1910, fundou uma congregação religiosa para cuidar dos mais pobres de Calcutá, ganhou o Prêmio Nobel da Paz em 1979 e foi chamada de “santa das sarjetas”.

Teresa entendeu que os desafios de Calcutá estão em toda parte. Ela viveu entre hindus e muçulmanos e promoveu o diálogo e a tolerância. Ela enfrentou a incompreensão de políticos locais, mas respondeu com a prática desinteressada da solidariedade. Foi acusada de assistencialista por alguns intelectuais, e ela serenamente continuou o seu caminho curando as feridas e confortando moribundos. Ela viveu no meio do conflito e foi instrumento de paz. Ela foi alvo de perseguições, mas não revidou com violência.

Hoje, Teresa, independentemente da religião que cada um professa, é um sinal eloquente para todas as Calcutás. Toda vez que polarizamos e radicalizamos questões políticas, religiosas, sociais e culturais; quando o time de futebol ou a crença nos fazem ver o outro como inimigo, então já começamos a nos degradar como seres humanos.  Pode parecer mais fácil ser violento, mas é melhor e urgente pacificar pelo diálogo, pelo respeito e pelo cuidado uns dos outros. Que Teresa, a cuidadora de Calcutá, ensine-nos a cuidar de Porto Alegre!

20/07/2016

O Estado é laico, mas a sociedade não é

Em maio o Conselho Nacional de Justiça emitiu posição favorável à colocação de crucifixos e símbolos religiosos nas dependências do Judiciário gaúcho. A disposição repara a decisão de 2011 que favoreceu grupos que se sentiam afetados e desfavorecidos com a presença do Crucificado nas salas de audiência. Acusavam que a imagem feria a liberdade religiosa das pessoas.

A polêmica trouxe à tona a relação entre Estado e religião. O Estado brasileiro é laico, isto é, estabelece a separação entre Igreja e Estado, o que não impede a cooperação entre ambos. Não se pleiteia um Estado confessional, no qual a religião determina a vida dos cidadãos, as leis e os rumos da nação. Tampouco o Brasil é um estado ateu que rejeita a dimensão transcendental do ser humano. O Estado laico não é inimigo da religião.

 

O cristianismo é maioria no Brasil, basta conferir no último senso o número de católicos e evangélicos das diferentes denominações. Essa condição não permite aos cristãos discriminar ou tolher os direitos de outras formas de crer – ou não crer. É preciso superar toda discriminação e intolerância religiosa.

 

Muitas das escolas deste país foram instaladas pela sensibilidade cristã em cuidar da educação quando o Estado não dava conta de toda a demanda. Se hoje os hospitais mantidos por religiosos deixassem de atender, entraria em colapso o sistema de saúde, pois ainda é a Igreja que atende, não sem grande dificuldade econômica, a maioria da população mais carente. Retirar o Crucificado do Judiciário gaúcho, portanto, é desconhecer a riqueza cultural e simbólica que o cristianismo produziu neste país. Se houvesse insistência em desprezar os símbolos cristãos seria preciso rever, por exemplo, os feriados religiosos e os nomes de cidades que homenageiam santos.

A presença do crucifixo em repartições públicas, enfim, não fere a liberdade religiosa ou favorece uma crença determinada. Jesus Cristo recorda que a vida precisa ser compreendida como gesto de amor, entrega e profunda alteridade. Ter diante dos olhos a imagem do Crucificado é recordar que um tribunal já cometeu um grave erro: condenou um inocente que transformou todos os tempos da história.

05/08/2016

Ciência e transcendência na Universidade Católica

A universidade é o lugar em que se introduz o aluno ao conhecimento e à dimensão da investigação científica. Uma das principais responsabilidades dos professores é aproximar as jovens gerações do conhecimento, ajudando-as a compreenderem as conquistas do conhecimento e as suas aplicações. O esforço do conhecimento e da pesquisa não deve ser separado do sentido ético e do transcendente. Nenhuma ciência verdadeira pode negligenciar as suas consequências éticas e não existe verdadeira ciência que afaste da transcendência. 

Ciência e ética, ciência e transcendência não se excluem reciprocamente, mas se conjugam para uma maior e melhor compreensão do homem e da realidade do mundo. Agir “como se Deus existisse”, crer realmente nele, na vida eterna e no futuro absoluto da pessoa humana, não significam que se deva refletir sobre teorias irrelevantes ou tratar de princípios que, em última análise, não se pode conhecer. Ao contrário, é exatamente a busca e a compreensão dos verdadeiros valores que devem orientar a ação humana no mundo, especialmente a justiça e a verdade, declarando que o ser humano nunca é um meio, mas sempre um fim em si mesmo. 

Isso significa ampliar os limites epistemológicos do nosso conhecimento para dilatar nossa capacidade de acessar a verdade. Apesar das distintas metodologias, o cientista e o crente têm, em comum, a busca do ser humano que se empenha contra o óbvio, que rejeita o banal, que ultrapassa as aparências e tende a ir ao encontro da essência das coisas e do ser. Mas cada âmbito mantém sua autonomia. Se a razão se deixar guiar demais pela fé, ou mesmo pela ausência total dela, cai num dogmatismo que fragiliza o pensamento, restringindo-o. 

Se a ciência for segura demais de si, pode tornar-se violenta e totalitária. Se a fé quiser basear-se totalmente na razão para se explicar, acaba se tornando a medida de si mesma. Se rejeitar completamente a razão, reduz-se a uma confiança incompreensível e a uma ética sem sentido. Se a fé não se deixar questionar, há o risco de tornar sua crença mera segurança cômoda. Aqui será preciso recorrer a Santo Agostinho, para quem uma fé que não seja pensada é nada. 

Na relação entre o crer e o compreender, o cristianismo construiu um caminho. Hoje, quando a razão, a ciência e a técnica são capazes de avanços (inimagináveis poucos anos atrás), corre-se o risco de criar um desencontro entre fé e razão, ciência e transcendência. Não é preciso haver síntese, talvez nem seja possível, mas é preciso considerar o que São João Paulo II escreveu na Fides et Ratio: “A fé e a razão são como que suas asas que enlevam o pensamento humano na busca da verdade.” Assim, embora sem a síntese, nada impede que, entre ambas, exista maior solidariedade. 

Para estreitar essa relação, será preciso uma postura de humildade, abertura e diálogo. Para a fé, exige-se que seja mais mística e orante, discípula que escuta seu Senhor que fala e revela sinais ao longo dos tempos. Será preciso encontrar Deus em cada tempo, em cada cultura e em cada nova etapa da história humana. Ou seja, com base na fidelidade às fontes, ser capaz de encontrar, testemunhar e anunciar o mistério que cria, visita e santifica este mundo. A abertura e o diálogo com a cultura moderna não podem fazer o crente retrair-se num modelo cultural que não existe mais, alegando que é preciso recuperar uma antiga forma que garanta a serenidade de tempos passados.

Por outro lado, a razão e a ciência, pela via da investigação, da inquietude e do questionamento, haverão de buscar a abertura necessária para ouvir, refletir e dialogar com outras formas de conhecer a verdade que não seja apenas o critério científico. Na interação recíproca entre crente e cientista, encontra-se o ser humano com suas perguntas sobre o sentido da vida e a subjetividade que não pode, suficientemente, ser medida ou analisada por meio de critérios objetivos. Nessa interação entre ciência e transcendência, a grande inimiga da fé não é a razão, mas a ignorância. Igualmente, a grande inimiga da ciência não é a fé, mas a presunção. 

As duas fontes de conhecimento, ciência e transcendência não são idênticas e nem concorrentes. Uma é resultado do exercício de nossa inteligência, e a outra é empenho para acolher a luz de Deus que se revela e tudo ilumina. O diálogo entre fé e razão, ciência e religião, se realiza somente quando os interlocutores compreendem que a verdade transcende ambos e, ao mesmo tempo, essa verdade está contida em ambas as instâncias.

05/08/2016

A universidade católica e o alargamento da razão

Em 1990, de João Paulo II emanava a Constituição Apostólica Ex Corde Ecclesiae, destacando a importância de uma universidade católica como instrumento privilegiado para chegar à verdade sobre a natureza, sobre o homem e sobre Deus e, também, para favorecer um diálogo franco entre a Igreja e todos os homens de qualquer cultura.

O novo humanismo que a sociedade contemporânea sustenta, contudo, distancia-se, cada vez mais, do humanismo integral e solidário de que a fé cristã reclama. Um dos aspectos mais evitados é a dimensão transcendental do ser humano. O projeto da razão emancipada é imanentista e só admitirá o elemento religioso numa perspectiva subjetivista sem implicações éticas e sociais. 

Nesse cenário, relevante foi a contribuição do Papa Bento XVI para enfrentar a fragmentação dos saberes. Sua reflexão reclamava o alargamento e o enriquecimento da razão, demonstrado, especialmente, em seu discurso na Aula Magna da Universidade de Regensburg – Alemanha, em 12 de setembro de 2006. O Papa Ratzinger denunciou a concepção empirista, pragmática e cética da razão que tenta afirmar a totalidade da inteligência humana. Ele exortou à dilatação do horizonte a racionalidade, sobre a base de uma justa visão do ser humano. 

Uma razão restrita, afirmou ele, corresponde a uma visão abstrata de ser humano, enquanto uma razão alargada corresponde a uma antropologia adequada à totalidade do real. Por isso, refuta-se o paradoxo no qual a perspectiva materialista reduz o ser humano àquilo que é corpóreo, e a verdade, ao experimentável, mas isso nega ao ser humano a sua realidade total e, portanto, concreta. Mesmo prescindindo do contexto religioso, as observações e experiências científicas não podem ou servir apenas para acumular informações, ou somente para contribuir para o progresso social e o coletivo do ser humano, mas devem aprender a sabedoria da natureza, possibilitando um diálogo entre sabedoria natural e sabedoria humana, que se realiza no equilíbrio entre as culturas humanas e os ecossistemas da Terra, na conservação e no profundo respeito à vida.

O objetivo essencial de uma instrução superior católica é o de preparar os estudantes para assumirem plenamente as responsabilidades culturais, sociais e religiosas que lhes seriam pedidas. A universidade católica educa, antes de tudo, através do contexto de vida, do clima que os estudantes e professores criam, no ambiente em que desenvolvem as atividades de instrução e de aprendizagem. Esse clima está cercado por valores não só afirmados, mas também vividos, pela qualidade dos relacionamentos interpessoais que ligam professores e alunos e alunos entre eles, pelo cuidado que os professores têm diante das necessidades dos alunos e das exigências da comunidade local, pelo claro testemunho de vida oferecido pelos professores e por todos os funcionários das instituições educativas.

05/08/2016

Zika e Aborto: outro ponto de vista

A epidemia do Zika vírus e a consequente ameaça aos fetos de ocorrer microcefalia reacendem o debate sobre a legalização do aborto no Brasil. Entrar num diálogo sobre essa questão é tarefa difícil, pois a gravidade da situação não favorece ponderar os diferentes aspectos da problemática. Uma visão imediatista e pragmática, contudo, sugere resolver o impasse com recurso ao aborto. Na prática, não faltará quem induza a essa “prevenção”. 

A microcefalia é uma condição neurológica rara em que a cabeça e o cérebro da criança são significativamente menores do que a de outras da mesma idade e sexo. Seu cérebro não cresce o suficiente durante a gestação ou após o nascimento. Crianças com microcefalia têm problemas de desenvolvimento e não há uma cura definitiva, entretanto, tratamentos realizados desde os primeiros anos podem melhorar o desenvolvimento e a qualidade de vida. Acolher e cuidar de bebês com microcefalia é um ato de amor e acolhimento dos mais indefesos da sociedade. Mesmo assim, não faltam vozes clamando o direito ao aborto para fetos diagnosticados com microcefalia. 
Nesse contexto, não podemos evitar perguntas fundamentais: Quando inicia a vida qualitativamente humana num embrião? O feto é uma pessoa ou apenas um conglomerado de células à mercê da mulher que o carrega no útero? A partir de que dia, ou momento, o feto pode ser considerado pessoa humana? Para alguns, a vida humana inicia na concepção e, portanto, o aborto seria um crime. Outros entendem que, nas primeiras fases da gestação, não se pode pensar em vida qualitativamente humana. Por isso, o aborto, nos primeiros meses de gravidez, poderia ser autorizado. 

Os dados das ciências biomédicas não identificam um momento definido e aceito consensualmente como o marco inicial da vida humana. A escola genética, contudo, em contraposição à desenvolvimentista, entende o resultado da fecundação como algo vivo; biologicamente diferente do útero materno; uma combinação dos cromossomos com patrimônio genético novo; vida biologicamente humana e individual, com herança genética própria e exclusiva, derivada da combinação dos 23 pares cromossômicos. Qualquer decisão sobre abortar, portanto, depende de “um” ponto de vista. Não há consenso. Então, como decidir?

Para além dos aspectos legal e religioso, está o problema moral do aborto. Legalizar não significa abolir o caráter mau da ação. No momento em que se reinvidica o direito ao aborto, há uma tendência de privatizar a questão e reduzi-la somente ao ponto de vista jurídico. Pode, então, o aborto ser reinvidicado como direito? Todo direito defende, promove e produz o bem para a pessoa e a sociedade. O aborto elimina uma vida humana e, portanto, é um mal. Países com prática abortiva não resolveram o dilema ético que constitui o núcleo da questão. 

Conforme a tradição cristã, já na concepção, tem início uma nova vida, dom do Criador e, ao mesmo tempo, responsabilidade e tarefa a ser assumida pelas pessoas. Em seu mistério, a vida do ser humano encerra um caráter de sacralidade e, portanto, é inviolável. Na defesa do feto, pretende-se que a humanidade seja honrada para além de toda utilidade, vantagens ou interesses. Assim, o aborto, sobretudo nos casos de gestação de criança portadora de patologias, torna-se a prova real de desrespeito para com todo o gênero humano, de redução simplificada do que realmente é um ser humano. O aborto não é “solução” para nenhum problema social, é somente uma medida anódina. A prioridade não deveria ser a luta pela legalidade do aborto, mas pela dignidade da vida da pessoa humana, independentemente do estágio ou da situação em que se encontre.

05/08/2016

Maria, mãe dos navegantes

Porto Alegre celebrou no dia 02 de fevereiro a sua padroeira: a Senhora dos Navegantes. Na imagem venerada em seu santuário, vemos a Mãe de Jesus carregando em seus braços seu Filho. Ela está representada de pé, sobre um barco. Maria está de pé, da mesma forma que diante da cruz, enquanto Jesus morria, ela ficara de pé (Jo 19,25). Naquela ocasião ela tinha os olhos fixos em Jesus (cf. Lc 4,20), estava absorta nele e não pensava em si. A paixão de seu Filho era sua paixão, aquela morte atingia-lhe mortalmente as entranhas. 

É fácil ficar de pé em um transatlântico, difícil é permanecer assim num barquinho. Maria está de pé no frágil barco que é a vida. Nós sabemos quantas vezes o mar da vida se agita. Maria está de pé porque reza. Rezar não é só pedir e agradecer; é contemplar, escutar, abandonar-se nas mãos de Deus. Especialmente quando as palavras não significam mais nada. Rezar é mergulhar a gota de água que somos no oceano do amor que é Deus. 

Procuremos como Maria, permanecer de pé no barco da vida. Tenhamos os olhos atentos em Jesus. Os pés seguem na direção do olhar. Com facilidade dizemos no cotidiano: “olha por onde andas!” Quem desvia o olhar de Jesus, perde a procissão da vida. Somos todos navegadores, sabemos que muitos caem nessa estrada e às vezes até nos vacilamos, mas Maria Santíssima ensina a levantar e prosseguir. 

Os devotos se empenham em transportar o andor com a imagem de Nossa Senhora em seu barco. Na verdade, Ela mesma é o andor mais belo deste mundo, pois ela carrega Jesus em seus braços. O centro da imagem de Nossa Senhora é Jesus, seu Filho. Ele é a luz, ela é o farol que dissipa, com essa Luz, as trevas de quem navega nos mares da vida. 

Durante a procissão se realizam agradecimentos e pedidos, votos e promessas. Mas é preciso, também, enxergar aqueles que caíram na vida. São muitos irmãos pedindo uma mão para se levantar. Rezar não pode ser um ato individual de quem se esquece dos outros. É preciso rogar pelos dependentes da droga, moradores de rua, vítimas da violência, famílias em crise, idosos, enfermos, deprimidos, e tantos outros. Mas não basta rezar, é preciso olhar e andar também na direção dessas pessoas. A fé sem obras é morta (Tg 2,17), nos diz o apóstolo Tiago.

Se quisermos fazer uma oferenda, um sinal de gratidão, que chegue aos céus, devemos nos perguntar: “o que poderei oferecer ao Senhor por tudo aquilo que ele me fez?” (Sl 116,12). Alguém poderia pensar nas flores, nas velas e na caminhada. Sim, tudo isso tem sentido, mas é possível ofertar algo que o Senhor mesmo sugere na Sagrada Escritura: “Quero misericórdia e não o sacrifício” (Sl 51,19). Misericórdia é um coração voltado para a miséria e o sofrimento do outro. Assim como Deus e Nossa Senhora cuidam de nossos sofrimentos e nos dão alento, precisamos ouvir o pedido divino: “Vai tu e faze o mesmo!” (Lc 10,37); como se lê na parábola do Bom Samaritano: quem é cuidado por Deus, deve cuidar dos irmãos que também são filhos do mesmo Pai. 

Enfim, diante da imagem de Nossa Senhora dos Navegantes, em atitude de veneração, podemos aclamar: Ó Virgem Mãe de Misericórdia, esperança nossa! Aquele que tudo segura com sua mão, o Senhor, te fez Santa e Gloriosa e nos convida a te louvar. Tu levas Aquele que tudo sustenta. Tu és misericórdia de Deus para o mundo, e confiança do mundo em Deus. Tu nos mostras o Cristo, Senhor e amigo. Em teu seio o Criador se fez criança. Só Tu és, ao mesmo tempo, Virgem e Mãe. E assim torna-te barca para quem quer salvar-se. És porto dos navegantes desta vida. Por isso te rogamos, salva o mundo de todos os perigos, mostra-nos que és nossa mãe; a mãe que o Cristo nos deu. Amém! 

05/08/2016

Iconoclastia é intolerância

Os recentes ataques às estátuas religiosas católicas na serra gaúcha merecem uma reflexão. A destruição de imagens sacras não é uma novidade no Cristianismo. No século oitavo, durante o Império Bizantino, teve início o movimento iconoclasta que perdurou até o século nono. Os destruidores de imagens acreditavam estar fazendo um bem ao destruírem ícones, estátuas e pinturas sacras que eles consideravam serem ídolos. Muitas obras de arte se perderam com a violência desses grupos. Algo semelhante ocorreu na época da Reforma, contudo, Lutero rejeitava a atitude dos iconoclastas. Realmente a Bíblia proíbe a idolatria de imagens. É conhecida a passagem na qual Moisés destrói o bezerro de ouro fabricado pelo povo hebreu no deserto (Ex 32). A idolatria é sempre considerada uma infidelidade a Deus. Entretanto, o mesmo Moisés manda confeccionar duas estátuas de anjos querubins para serem colocadas sobre a Arca da Aliança (2 Crônicas 3). Onde está a diferença? Trata-se do valor atribuído a um objeto sacro. Ele não pode ser adorado e tampouco reconhecido como a própria divindade. A tradição judaico-cristã sustenta a inefabilidade de Deus que não pode ser manipulada. O ídolo é produto de alguém que pretende que algo ocupe o lugar de Deus. Nesse contexto, o valor de uma representação religiosa precisa ser distinguido a partir do grupo religioso que o venera. No caso dos católicos romanos, as estátuas não são adoradas, mas veneradas. Venerar é respeitar, contemplar e valorizar, mas jamais identificar a imagem como se fosse a própria presença de Deus ou de quem ela representa. Essa distinção entre latria e dulia (adoração e veneração) foi declarada em 787, no segundo Concílio de Niceia, para esclarecer as controvérsias dos destruidores de imagens.

Feita essa distinção, é preciso considerar algo mais profundo que cresce como um ameaça à paz: a intolerância. Quando alguém destrói uma estátua sacra, ou apedreja uma pessoa por suas vestes religiosas, ou mesmo despreza a crença e os costumes do outro, estabelece-se uma perigosa relação de superioridade. A intolerância religiosa é expressão da crise de alteridade do momento: o outro não conta. Se alguém pensa diferente dos fanáticos, então será considerado um demônio; um inimigo a ser combatido. Começa-se destruindo sinais, imagens e símbolos que remetem à interioridade das pessoas. O passo seguinte poderá ser rejeitar toda e qualquer forma do outro se manifestar, ser e existir. Então se perde o sentido que tem estabelecido o fundamento da convivência: a dignidade humana. Judeus e cristãos acreditam que Deus criou o ser humano à sua imagem e semelhança, e não podem aceitar que a liberdade, a alteridade e a dignidade de uma pessoa sejam vilipendiadas. É hora de educar para a paz, o respeito e a reverência pelo outro. O impasse começa com questões religiosas, mas onde chegará?

05/08/2016

Com a Imaculada, esperar o Natal

No final de ano, as pessoas pensam e se ocupam com os preparativos do próximo Natal. Para a Igreja, este é o Tempo do Advento, no qual se espera a chegada de Alguém: o Cristo. Sinais, símbolos e figuras bíblicas marcam essa espera. Nesse contexto está, de forma especial, a Virgem Maria, a mãe de Jesus. Sua presença educa o olhar do cristão para além das coisas que passam. Ela inspira uma nova perspectiva para o Natal. A cada ano, no dia 8 de dezembro, a celebração da Imaculada Conceição suscita um renovado interesse pela Vinda de Cristo. Imaculada significa sem mácula, isto é, sem mancha. A fé cristã proclama que a Mãe de Jesus foi preservada de toda mancha do pecado. Ela nasceu livre do pecado original que marca a vida de todo ser humano que vem a este mundo.

O Cristo preparou uma mãe que fosse digna dele, por isso preservou Maria de todo pecado. Tal privilégio, entretanto, não faz de Maria uma mulher distante da experiência humana. Ser livre do pecado não faz de Maria uma mulher alienada ou passiva diante da presença do mal no mundo, diante da violência da sociedade de seu tempo, diante do pecado que escraviza tanta gente. Maria é Imaculada para gerar aquele que tira o pecado do mundo. Sua participação nesse mistério é total. De sua carne e de seu sangue, nasce o Filho de Deus que é também filho de Maria. Ele é igual a nós em tudo, exceto no pecado. Ele veio porque a humanidade precisava, e ainda precisa, de um Salvador, de alguém que devolva a beleza original da vida humana.

Pecar é falhar no projeto da vida, é distrair-se da meta, é colocar-se no centro do mundo e não buscar o sentido mais profundo da vida humana: a fraternidade em torno do único Pai. Pecar é desviar o olhar, o coração, as mãos e os pés do seguimento de Jesus Cristo. É trocar a força da presença pela compra de presentes. É pensar mais em si, do que se encontrar no outro. É absolutizar o relativo, e banalizar o eterno. É preferir mais os instantes do que a plenitude, é fixar-se demais no provisório e desistir de buscar o Inefável. Por isso Cristo veio ao mundo, para dizer que o Natal só tem sentido quando o ser humano é capaz de ver o que tem de mais belo no outro. Superando todo fechamento, o ser humano abre-se até as potências infinitas de Deus. 

Dessa realidade plena, Maria é mãe e mestra. Ela viveu em um mundo marcado por contradições e dificuldades. Mas sua grandeza estava na humildade de sua experiência. Aquela Menina de Nazaré, que viveu num lugar simples e pequeno, tornou-se a mulher que todas as gerações cantam e louvam. Ela carregou em seu ventre o Menino Deus, seu corpo foi o primeiro sacrário da história, sua carne tornou-se carne de Jesus, seu olhar de mãe velou o sono daquele que tudo governa. O criador se fez criança nos braços dessa grande e humilde mulher.

Celebrar a Imaculada, às vésperas do Natal, é contemplar a Virgem de Nazaré grávida do Menino Deus, grávida de todas as esperanças de uma humanidade livre do mal e do pecado. Maria carrega o Salvador no ventre e nos braços. A humanidade precisa, mais uma vez, neste final de ano, deixar-se envolver por essa ternura da Mãe de Deus. Não podemos nos distrair. Não há crise, provação ou dificuldade que possa roubar a esperança de quem se encontrou com Jesus Cristo. Com a Imaculada, é preciso proclamar que o Natal é tempo de fazer brilhar o que há de mais belo no ser humano: a capacidade de amar e ser amado. Esse amor só pode ter uma fonte: Deus!

05/08/2016

O que é querigma?

Vivemos hoje numa sociedade laica, plural, secularizada, que não é antirreligiosa, mas situa todas as suas convicções no terreno da livre adesão. Esta situação sociocultural nos força a despertar a dimensão missionária da catequese. Daí a problemática da proposta da fé e, mais concretamente ainda, a do “primeiro anúncio”. Não é possível estabelecer um caminho de catequese se a pessoa não está motivada a percorrê-lo. É preciso que crianças, jovens e adultos tenham um mínimo de interesse em aprofundar a fé cristã, mas isso só ocorrerá depois de receberem o primeiro anúncio, o querigma. 

Para definir o querigma, é preciso evitar, tanto uma concepção muito ampla, quanto uma noção reduzida. A definição ampla consistiria em afirmar que a pregação do Evangelho é um primeiro anúncio, porque o Evangelho ressoa de maneira sempre nova, inclusive a vida do cristão, e porque o caminho de fé consiste em um permanente recomeçar. Ora, dizer que sempre e em todo momento estamos no “primeiro anúncio” seria esvaziar o conceito de sua especificidade. A definição reduzida, pelo contrário, consistiria em limitar o “primeiro anúncio” à proclamação da fé, calorosa e breve, de tipo querigmático, às pessoas que se crê que a desconhecem, com o objetivo de suscitar uma conversão imediata, sem duração, sem debate, sem múltiplas mediações. Neste caso, o primeiro anúncio se reduz a um estilo de pregação direta, tanto na praça pública, como nas relações interpessoais.

Enfim, ao definir o querigma, considere-se que, por primeiro anúncio, se entendem os enunciados da fé cristã que, sob formas variáveis e em determinados contextos, tornam possível os primeiros passos na fé daquelas pessoas que se afastaram dela. 

Explicitemos alguns elementos desta definição:
a) Um anúncio é “primeiro” quando aquele que o recebe percebe o convite a dar os primeiros passos na fé;
b) Com o plural dos “enunciados da fé”, quer-se sublinhar que não há uma única forma de “Primeiro Anúncio”, mas que este pode tomar formas diversas e variáveis, já que a pessoa se “encanta” por Jesus Cristo de formas diferentes;
c) O primeiro anúncio “torna possível” os primeiros passos na fé. Não se trata de uma relação de força ou conquista, mas de proposta e liberdade. Isto implica, por parte da testemunha que anuncia, uma atitude espiritual de esvaziamento. A testemunha não tem o poder de transmitir a fé e de converter. Está lançada ao imprevisto, ao inesperado, ao risco da liberdade; 
d) Os destinatários do primeiro anúncio são aquelas pessoas que estão “longe da fé” ou que se afastaram dela. A expressão “afastados da fé” não implica nenhum julgamento de valor. Essas pessoas podem estar muito perto de Deus e em plena conivência com o Reino desde o momento em que vivam no espírito das bem-aventuranças. 
O anúncio do Evangelho, assim como os caminhos da fé, não se dão sem o apoio de inúmeras mediações culturais e eclesiais.

Como se realiza o querigma? As formas do primeiro anúncio são múltiplas: 
a. Pode ser de forma narrativa e testemunhal, quando quem anuncia narra sua própria história e desperta desejos de crer.
b. Pode ser de forma querigmática, quando quem anuncia proclama a fé cristã de forma breve, inteligente e cálida, tudo ao mesmo tempo (Exemplo de Paulo ao Eunuco de Candice).
c. Pode ter, de outro modo, uma forma expositiva. Um catecismo para adultos ou uma obra teológica podem, de fato, proporcionar um primeiro contato com a fé e suscitar o desejo de crer (Exemplo de Edith Stein).
d. Pode ser de uma forma dialógica, por meio de um debate, de um intercâmbio de argumentos entre pessoas que, juntas, se interrogam sobre o sentido da vida e se esforçam por dar razão as suas convicções.
e. Pode tomar também uma forma litúrgica. A liturgia cristã frequentemente é assistida por pessoas afastadas da fé e pode exercer, para elas, um papel de primeiro anúncio. 

05/08/2016

Indulgências e o Ano da Misericórdia

Indulgência é a remissão diante de Deus da pena devida aos pecados, cuja culpa já foi perdoada. Cada vez que alguém se arre¬pende e se confessa, é perdoado da culpa dos pecados cometidos, mas não da pena. Por exemplo, se alguém mata uma pessoa e se arrepende, depois perde perdão e procura o sacramento da Penitência, receberá o perdão. Contudo, como reparar o mal cometido que tirou a vida de alguém? Por isso, permanece uma pena após o perdão. Essa situação pode ter um indulto, uma indulgência, que a Igreja oferece em certas condições especiais e quando o fiel está bem disposto a buscar a santidade de vida, aproximando-se cada vez mais de Deus. 

A indulgência pode ser oferecida pelos méritos de Cristo, de Maria e dos santos. Sobre isso, escreveu o Papa Francisco: No sacramento da Reconciliação, Deus perdoa os pecados, que são verdadeiramente apagados; mas o cunho negativo que os pecados deixaram nos nossos comportamentos e pensamentos, permanece. A misericórdia de Deus, porém, é mais forte também do que isso. Ela torna-se indulgência do Pai que, através da Esposa de Cristo, alcança o pecador perdoado e liberta-o de qualquer resíduo das consequências do pecado, habilitando-o a agir com caridade, a crescer no amor em vez de recair no pecado (Misericordiae Vultus,22). 

Para receber a indulgência, todos são chamados a realizar uma breve peregrinação rumo à Porta Santa, aberta em cada Catedral, ou nas igrejas estabelecidas pelo Bispo diocesano, como sinal do profundo desejo de verdadeira conversão. É importante que este momento esteja unido, em primeiro lugar, ao Sacramento da Reconciliação e à Celebração da Eucaristia com uma reflexão sobre a Misericórdia. Será necessário acompanhar essas celebrações com a profissão de fé e com a oração pelo Papa, para o bem da Igreja e do mundo inteiro.

A experiência da misericórdia do Pai torna-nos sensíveis à dor e ao sofrimento dos mais pobres. Esse foi o movimento feito por Jesus ao encarnar-se e viver a condição humana em suas limitações e potencialidades e, mesmo não tendo vivido o pecado, fez a experiência de sua consequência. Assim, somos chamados a sermos misericordiosos concretamente na santificação de nossa vida diária. Essa experiência se realiza no exercício das obras de misericórdia corporais e espirituais. 

A indulgência pode ser obtida também para os que faleceram. A eles estamos unidos pelo testemunho de fé e caridade que nos deixaram. Assim como os recordamos na Celebração Eucarística, também podemos, no grande mistério da Comunhão dos Santos, rezar por eles, para que o rosto misericordioso do Pai os liberte de qualquer resíduo de culpa, e possa abraçá-los na felicidade sem fim.

05/08/2016

O que é um jubileu?

O Papa Francisco anunciou o Ano da Mise¬ricórdia por meio da Bula de Proclamação Misericordiae Vultus (O Rosto da Misericórdia). O Jubileu inicia em 8 de dezembro de 2015 e se conclui no dia 20 de novembro de 2016, com a Solenidade de Jesus Cristo Rei do Universo. 

A celebração do Jubileu se origina no judaísmo. Consistia em uma comemoração de um ano sabático que tinha um significado especial. A festa se realizava a cada 50 anos. Durante o ano, os escravos eram libertados, restituíam-se as propriedades às pes¬soas que as haviam perdido, perdoavam-se as dívidas, as terras deviam permanecer sem cultivar e se descansava. Era um ano de reconciliação geral. Na Bíblia, encontramos algumas passagens dessa celebração judaica (cf. Lv 25,8). 

A palavra Jubileu se inspira no termo hebreu de yobel, que se refere ao chifre do cordeiro que servia como instrumento musical. Jubileu também tem uma raiz latina, iubilum que se refere a um grito de alegria. Na tradição católica, o Jubileu se realiza em um ano no qual se concedem indulgências aos fiéis que cumprem certas disposições estabelecidas pelo Papa. O Jubileu pode ser ordinário ou extraordinário. A celebração do Ano Santo Ordinário acontece em um intervalo a cada 25 anos, com o objetivo de que cada geração experimente pelo menos um Jubileu em sua vida. Já o Ano Santo Extraordinário se proclama como celebração de um fato destacado. O Jubileu proclamado pelo Papa Francisco é um Ano Santo Extraordinário. É um convite para que, de maneira mais intensa, fixemos o olhar na Misericórdia do Pai. 

O início do Jubileu da Misericórdia será marcado pela abertura da Porta Santa na Basílica de São Pedro, em Roma. Essa porta só se abre durante um Ano Santo e significa que se abre um caminho extraordinário para a salvação. Na cerimônia de abertura, o Papa toca a porta três vezes com um martelo, enquanto diz: “Abram-me as portas da justiça; entrando por elas, confessarei ao Senhor”. Depois de aberta, entoa-se um canto de Ação de Graças e o Papa entra na Basílica. 

O ano da misericórdia é muito mais do que um tempo marcado pelo cumprimento de algumas práticas. Na realidade, trata-se de um grande convite a dirigirmos nosso olhar para a face da misericórdia do Pai: Jesus de Nazaré.

É no Cristo que se manifesta o agir misericordioso do Pai que consola, perdoa e devolve a esperança. É preciso tomar esse modo de ser de Jesus como regra de vida, pois esse é o critério para identificar-nos como filhos do Pai misericordioso. Tornamo-nos misericordiosos à medida que fazemos a experiência da misericórdia. “Dia após dia, tocados por sua compaixão, podemos também tornar-nos compassivos para com todos” (MV 14).

05/08/2016

Catequizar é uma obra de misericórdia

A ignorância, seja da fé ou da educação em geral, constitui-se um mal. A misericórdia reside em resgatar das trevas do erro e do relativismo aqueles a quem o Cristo redimiu por sua paixão. Por isso, a catequese, enquanto educação da fé, e caminho da iniciação cristã, também é uma obra de misericórdia. Esta é a tese defendida por Santo Agostinho em seu De catechizandis rudibus, publicado no Brasil como A Instrução dos catecúmenos. A obra é datada por volta do ano 400 e foi escrita para atender ao pedido de um diácono de Cartago, chamado Deográtias, encarregado de ensinar e de instruir, na doutrina cristã, aqueles que pretendiam conhecer a fé cristã. 

No capítulo quarto do texto, Santo Agostinho assevera sobre o amor de Deus manifesto em Jesus Cristo que revelou o desígnio salvífico de Deus ao longo da história, que se condensa no amor e na misericórdia de Deus para com a humanidade. Partindo dessa premissa: o amor misericordioso de Deus para com o ser humano, o Bispo de Hipona estrutura sua pedagogia catequética. Esta é toda moldada pela mensagem de amor, fundada no amor de Cristo, "que veio ao mundo para que o homem saiba quanto Deus o ama e aprenda a abrasar-se inflamado no amor de Deus que o amou primeiro, e no amor ao próximo, de acordo com a vontade e exemplo de quem se fez próximo ao amar previamente, não o que estava perto, mas o que estava longe dele" (De catechizandis rudibus 4,7).

Neste sentido, Santo Agostinho sustenta que, a partir da misericórdia de Deus face à miséria humana, nasce a caridade que deve nortear todo o ato catequético. A caridade como núcleo da revelação cristã e, por conseguinte, como núcleo da transmissão da fé. O catequista deve aprender que a todos se deve a mesma caridade, porque não há nenhum remédio melhor do que a caridade, que ensina, corrige e cura a todos. Na verdade, é movido por este amor que o catequista se une aos seus ouvintes. Por isso, a caridade deve ser comunicada, não só na exposição da fé, que parte do amor e da misericórdia de Deus, mas, sobretudo, deve ser o fundamento na relação catequista-catequizando. Porque quanto mais o catequista ama aqueles que lhe foram confiados para catequizar, mais procurará empenhar-se com muita alegria, e sem grande fadiga, em ensinar o caminho do amor de Deus aos seus catequizandos.

Para o Santo, somente a caridade do catequista poderá motivá-lo a prestar atenção às necessidades dos diversos ouvintes que compõe o grupo de catequese. Na obra De catechizandis rudibus, Santo Agostinho destaca a humana delicadeza que exige do catequista manifestar profunda simpatia e sincera amizade para com aqueles que ele deve instruir. Esta caridade catequética sintetiza toda a missão do catequista, pois será expressão viva da simpatia e do amor que Deus tem pelo ser humano pessoalmente. Nesse sentido, o Bispo orienta o diácono Deográtias para que tente todos os meios possíveis para fazer com que os que eventualmente estejam apáticos, temerosos ou duvidosos saiam da letargia da timidez e tenham mais confiança e segurança nas palavras que escutam. Isto implica num grande gesto de amor para com os ouvintes da mensagem. E acrescenta: "Ora, se o coração entorpecido desperta ao sentir-se amado, se o que já ardia, mais se acende ao saber-se correspondido, é evidente que nada é mais capaz de despertar o amor daquele que ainda não ama, que saber-se amado" (De catechizandis rudibus 4,7) .

05/08/2016

A jovialidade dos idosos

No dia 4 de março de 2015, o Papa Francisco, em Audiência Geral, afirmou que “os anciãos são homens e mulheres, pais e mães que estiveram antes de nós na mesma estrada, na mesma casa, na nossa batalha cotidiana por uma vida digna”. O Papa nos propõe a refletir sobre a arte de envelhecer.

No mundo atual, há uma estimativa que até 2050 o número de idosos passe de 600 milhões para 2 bilhões. Isso significa que, nos próximos 50 anos, haverá mais pessoas com idade superior a 60 anos do que menores de 15 anos. No Brasil, os idosos já superam 15 milhões de pessoas. As pessoas estão vivendo mais tempo graças a uma série de fatores, como o avanço da medicina, a conscientização sobre os cuidados com a vida e a melhora das condições sociais. 

Envelhecer é uma lei da natureza. Isso implica estar sensível ao entardecer da existência. É uma etapa na qual é preciso superar a contraposição entre a idade da força, dos jovens, e a idade da fragilidade, dos velhos. É necessário vencer a crise de sempre se sentir doente em busca de uma juventude perdida ou de um rejuvenescimento a qualquer custo.

No passado, em muitas culturas, os idosos eram testemunhas eloquentes da história e da tradição. Eram os herdeiros privilegiados do tesouro cultural da comunidade e considerados sábios conselheiros que já haviam experimentado as lutas e as dificuldades da vida, mas que haviam aprendido com as provações. Hoje, esse valor quase desapareceu do nosso meio. 

É verdade que a pessoa não pode ocultar sua velhice mas, nos idosos, permanece a inteligência, a capacidade de meditar, a possibilidade de amar e de partilhar pensamentos, ideias e sentimentos. Tudo isso supõe que as pessoas devam se preparar para envelhecer. É preciso manter a jovialidade, mesmo em idade avançada. Isso depende de uma profunda experiência com o Deus da Vida, como bem recorda o salmista sobre aquele que tem fé: “Mesmo na velhice dará fruto, estará viçoso e frondoso, para anunciar que Deus é reto.” (Sl 92,15-16). 

São João Paulo II escreveu uma carta dedicada aos anciãos em 1999, na qual ele afirma que os idosos “ajudam a contemplar os acontecimentos terrenos com mais sabedoria, porque as vicissitudes os tornaram mais experimentados e amadurecidos. Eles são guardiões da memória coletiva e, por isso, intérpretes privilegiados daquele conjunto de ideais e valores humanos que mantêm e guiam a convivência social. Excluí-los é como rejeitar o passado, onde penetram as raízes do presente, em nome de uma modernidade sem memória. Os anciãos, graças à sua experiência amadurecida, são capazes de propor aos jovens conselhos e ensinamentos preciosos.” Da mesma forma, no contexto do Sínodo sobre a Família, é importante destacar o papel dos avós. Eles merecem uma atenção especial para manter o elo entre as gerações. São eles que garantem a transmissão de costumes e valores, tradições e virtudes que permitem aos jovens construir uma identidade que não pode prescindir da herança recebida. 


Enfim, a arte de envelhecer supõe ler esta fase da vida como tempo favorável para levar a bom termo a aventura humana, procurando compreender melhor o sentido da vida para alcançar a ‘sabedoria do coração’.

05/08/2016

O entardecer da vida

No entardecer da vida, seremos julgados pelo amor. Assim São João da Cruz, místico espanhol do século XVII, sentenciou sobre o fim de nossos dias. Tratar da morte geralmente é muito difícil, porque as pessoas a pensam fora da vida. Morrer faz parte do viver. Gastar tempo, consumir energia, renunciar algo, perder: tudo revela diariamente que a vida é como uma vela que se consome para produzir luz. Não duramos eternamente na Terra. Na vida, há também cansaço e busca de repouso. Depois de uma jornada de trabalho, é preciso descansar. Passado o domingo ensolarado, segue o pôr-do-sol. E quanta beleza há num final de tarde!

Preparar-se para o entardecer da vida não é olhar para a noite da morte, mas perceber que o sol continua a brilhar na vida eterna, onde é sempre dia. Se pensássemos apenas no morrer, colocaríamos o sentido de tudo somente no final da existência. Muitas pessoas tenderam para essa posição e acabaram perdendo o sabor dos dias na Terra. A tentação maior, contudo, é pensar somente no agora, no material, na vida saudável, jovem e bela. Isso é provisório demais e pode gerar um desespero quando os limites começam a aparecer. 

A consciência reprimida da morte mata-nos já em vida, e tornamo-nos apáticos em relação aos outros e a nós mesmos. A morte deve fazer parte da estrutura do ser, porquanto não se pode viver sem morrer. Cada processo vital contém em si também um processo mortal.

Tratar da morte sem abordar a vida resulta numa incompletude que revela a falta de algo fundamental, pois a vida e a morte perfazem um todo e complementam-se. Morremos sempre. Morre o idoso, farto de dias, mas morre também o jovem, sedento de vida. Para alguns, a morte conclui a existência; para outros, ela a interrompe. Diz-se até que, ao nascer, o ser humano já é suficientemente velho para morrer. Diante da morte não há argumento e nem respostas. Há somente o ato de fé.

Os cristãos definem a morte como passagem da vida limitada para uma vida plena, em Deus. Ensina o cristianismo que, em Jesus Cristo, apesar de vivermos na limitação do tempo, já somos eternos, porque somos filhos de Deus. É por isso que os cristãos já sabem ser ressuscitados, e a morte não pode lhes separar de Cristo, como proclama Paulo Apóstolo. 

05/08/2016

Morte: a resposta da fé

A consciência da mortalidade leva a pessoa ao desejo de imortalidade. Os animais desejam sobreviver, querem viver e resistem aos desafios que os levam à finitude. Os seres humanos, mais do que sobreviver, não querem morrer. É uma inquietude que permanece no coração humano, refratando as hipóteses de um dia não mais existir. A vida é um valor tão absoluto para as pessoas que a possibilidade de seu fim desencadeia um desejo de transcender à passagem do tempo cronológico.

Inicialmente, pode-se pensar que Deus e a morte são duas realidades incompatíveis, isso, porém, não significa que sejam incomunicáveis. Jesus não morreu de morte natural, mas crucificado: foi assassinado, morto como uma vítima inocente. Deus se envolve estreitamente com quem morre, porque Jesus fez essa experiência.

O pensamento bíblico não nasce de uma experiência ou meditação sobre a morte. É diante de Deus que o homem bíblico toma consciência da morte. O discurso sobre Deus na Bíblia não se relaciona ao medo de morrer, mas à responsabilidade de viver. A ressurreição de Jesus Cristo foi uma surpresa absoluta para os discípulos. É evidente que a ressurreição supera infinitamente toda espera humana, toda previsão e imaginação. 

O Ressuscitado não é um sobrevivente, por isso os discípulos demoram a reconhecê-lo, diferentemente de Lázaro, cujo ressuscitamento produziu o reconhecimento imediato e geral. Este último voltou a viver confinado à velha criação. Jesus Cristo, ao contrário, ressuscita e aparece na potência da nova criação. Ele é um homem novo, o primogênito da nova criação, o início da nova humanidade. A morte significa que a vida não é eterna, e a ressurreição significa que a morte não é eterna. Somente a vida nova é eterna.

Este é o sentido de nosso ser mortal: uma vida alienada de Deus não tem futuro. Eternizar esta vida seria eternizar suas contradições, suas culpas, o mal praticado e sofrido: seria eternizar a morte. Pelo fato de nossa vida ser mortal e limitada, somos levados a desejar uma vida que dure para sempre, por isso deve ser mudada, transformada.

05/08/2016

Maria: Mater Misericordiae

Salve, Rainha, Mãe de Misericórdia! A saudação que frequentemente a Igreja dirige à Mãe de Deus foi composta pelo bispo Ademar de Puy, no fim do século XI. A relação estreita entre rainha e misericórdia estabelece a identidade e a singularidade dessa proclamação. Maria é rainha, porque é Mãe de Jesus Cristo Rei. Ele é Senhor de um reinado que não terá fim (cf. Lc 1,33) e, em suas palavras e gestos, o Reino está presente. (cf. Mc 1,15). Nele, os sinais do Reino concretizam a misericórdia do Pai. (cf. Mt 5, 1-12). A mãe de Jesus percebe o advento deste tempo novo que seu filho traz e guarda tudo em seu coração (Cf. Lc 2,51).

Em Maria resplandece o amor misericordioso de Deus. Ele é transcendente e eterno, mas se comove totalmente com as misérias humanas. A Virgem de Nazaré experimentou, de forma única, o amor de Deus pela humanidade. O fruto desse amor tornou-a Mãe do Messias: o “Consolador”. “Ninguém, como Maria, conheceu a profundidade do mistério de Deus feito homem. Na sua vida, tudo foi plasmado pela presença da misericórdia feita carne. A Mãe do Crucificado Ressuscitado entrou no santuário da misericórdia divina, porque participou intimamente no mistério do seu amor.” Ela continua envolvida na ação misericordiosa de Deus através da Igreja e de sua missão. 

Inspirada em Maria, a Igreja deve construir a civilização da misericórdia. A história, apesar de seus revezes, não é o cemitério da civilização, nem o cenário apocalíptico da morte. Através da mediação materna de Maria, a Igreja se torna o lugar do encontro com a misericórdia divina. Na Virgem Maria se realiza totalmente o versículo evangélico que convoca os cristãos a serem misericordiosos como o Pai do Céu é misericordioso. (cf. Lc 3, 36). 

Máximo, o “Confessor”, escreveu a obra: A vida de Maria e, sobre os últimos anos da Mãe de Jesus, ele afirmou: “A sua misericórdia não era somente para os parentes e os conhecidos, mas também para os estranhos e inimigos, porque era verdadeiramente a Mãe da Misericórdia, a Mãe do Misericordioso, […] a Mãe daquele que por nós se encarnou e foi crucificado, para infundir sobre nós, inimigos e rebeldes, a sua misericórdia”. 

Nesse mesmo sentido, o Papa Francisco ensina: “Ao pé da cruz, Maria, juntamente com João, o discípulo do amor, é testemunha das palavras de perdão que saem dos lábios de Jesus. O perdão supremo oferecido a quem O crucificou mostra-nos até onde pode chegar a misericórdia de Deus. Maria atesta que a misericórdia do Filho de Deus não conhece limites e alcança a todos, sem excluir ninguém.” 

Maria é a mulher que fez a experiência única da consolação de Deus para estabelecer a Nova Aliança, ela “é quem de maneira singular e excepcional experimentou, como ninguém, a misericórdia e, também de maneira excepcional, tornou possível com o sacrifício de seu coração a própria participação na revelação da misericórdia divina”. 

Peçamos à Mãe de Misericórdia que nos ensine a acolher o infinito amor do Pai das misericórdias, para não limitarmos nossa capacidade de perdoar, acolher e amar. E que possamos praticar o que São João Damasceno ensina, ao dizer que a melhor forma de devoção à Maria é cumprir as obras de misericórdia.

Rogai por nós, Ó misericordiosa Mãe de Deus, para que sejamos dignos das promessas de Cristo!