“Ser mulher é muito bom e desafiador”, afirma professora Edla Eggert


Hoje, em todo o mundo, é celebrado o Dia Internacional da Mulher. Entre flores e protestos, a cada 8 de março as mulheres dão continuidade à luta pela própria dignidade. “Dias como esses são importantes porque a gente precisa se fazer enxergar e perceber que estamos mais próximas”, observa a professora Edla Eggert.

Na PUCRS, a pedagoga coordena um grupo chamado “Educação, gênero e trabalho artesanal”. A história do movimento social das mulheres, que é como ela traduz o termo feminismo, a envolveu durante o mestrado em Educação, na UFRGS, e passou também pelo doutorado em Teologia, na Escola Superior de Teologia. “A luta por vida digna de todas as mulheres fez parte dos meus estudos sempre pelas mãos de experiências eclesiásticas”, explica a professora.

Apesar dos avanços, professora Edla Eggert afirma que as denúncias não podem parar. Foto: Amanda Fetzner Efrom

Integrante da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB), Edla tem em Katharina von Bora uma de suas inspirações como mulher. A monja que se casou com Martim Lutero foi, de acordo com a professora, esquecida por muitos, apesar do papel importante que exerceu na época da Reforma Protestante. “Ela fazia todo o gerenciamento daquela cozinha onde mais de 20 pessoas comiam todos os dias e onde se fazia o debate teológico da época. Isso é comprovado pelas cartas que Lutero mandava pra ela. Até 50 anos atrás esse material não era nem considerado”, observa.

Para Edla, a universidade ainda é um local privilegiado quando se fala em tratamento igualitário entre homens e mulheres. “Temos que se esforçar para que cada vez mais as pessoas tenham acesso a esses espaços”, afirma.

Leia mais na entrevista:

Arquidiocese de Porto Alegre - O 8 de março é um dia a ser comemorado?

Edla Eggert - Ele é um dia de memória histórica e de visibilidade, de lutas. Por um lado ele deve ser comemorado, mas não neste perfil que o comércio tem usado para que as mulheres comprem e ganhem mais presentes. Esse é um lado perverso e que eu combato. Mas a gente precisa comemorar a conquista de grandes discussões que foram feitas no final do século 19, que iniciou, especialmente, com a experiência de trabalho das mulheres nas fábricas têxteis, onde pela primeira vez, em bloco, começam a ser organizar de outro jeito. Até o século 19 a gente vai ter algumas mulheres que despontam como liderança e que vão ser rapidamente abafadas, entendidas como loucas, guilhotinadas ou queimadas na fogueira. Temos uma tradição de Idade Média onde a experiência de conhecimento das mulheres foram literalmente dizimadas. Isso não é só prerrogativa do mundo cristão, mas de outras religiões. É o século 19 que começa a delinear uma outra forma das mulheres se colocarem na história, de forma coletiva. Nesse sentido sim, temos coisas a comemorar. Mas temos uma coerência nesse movimento histórico de sempre e de novo fazer a denúncia. Não está bom pra ninguém. Se não está bom para as mulheres, no fundo também não está bom para os homens também. Temos muitas coisas a manter em discussão.

O quê, por exemplo?

As condições de vida digna no trabalho. Estatisticamente, as mulheres continuam recebendo 30% a menos de salários. As mulheres continuam, se olhar só a realidade produção de conhecimento, sendo a grande base no campo escolar fundamental e de serviços nas universidades, mas vemos pouquíssimas no campo das pesquisas e das pesquisas com bolsa-produtividade. Por que será? Essas perguntas são importantes de serem feitas e só são feitas se as pessoas são lembradas desse tema. A questão da violência. O mundo cristão e religioso precisa assumir que sim, vivemos situações de violências nos espaços que são os lares, nem tão doces lares. Só aí temos dois temas que saltam aos olhos estatisticamente falando. Claro que as complexidades disso, os desdobramentos, estamos tentando entender.

E quais são as conquistas mais relevantes das mulheres nos últimos anos?

Acho que uma das conquistas mais relevantes é a consideração da história das mulheres. A gente começa a entender, por exemplo, quando pensamos na Teologia, que a participação das mulheres não foi de mulheres sem nome. Quando a gente vai reler a história, tanto da Igreja quanto a do mundo bíblico, começa a perceber a importância que as mulheres sempre tiveram. Essa eu acho que é uma comemoração que parece pouca, mas que dá o peso para a gente encorajar-se e encorajar outras mulheres. Essa é uma grande conquista, me alegro com ela e participo dela.

Como equilibrar a luta pelos direitos iguais e o respeito pelo que é característico de homem e mulher?

Eu parto do princípio da dignidade. Oxalá um dia a gente só precise pensar a partir de ser humano. Quando penso na dignidade da vida das pessoas, amplio essa discussão do que é feminino e do que é masculino. Como pesquisadora, não posso me pautar unicamente nas características biológicas, que eu tenho e que são inegáveis, com a herança da tradição cultural que eu tenho sobre elas. Na tradição que vem de pelo menos 5 mil anos, tanto judaica-cristã como do mundo oriental, algumas coisas foram sendo locadas nos corpos das mulheres dando a ideia de fragilidade. A própria ideia da cor rosa, dando a entender de que é frágil. Veja como isso é forte: cor-de-rosa é uma cor feminina, e feminina é frágil. Nos apropriamos dessa cor de tal forma que se um homem usar rosa está indicando que é frágil ou feminino. Dessas marcas eu tento fugir, porque elas vão engessar a possibilidade de eu pensar nessa mulher como ser humano potente, com muita energia, que tem sim, muitas diferenças, mas elas não são definidoras nem limitadoras. Quando entro numa loja e vejo que os brinquedos das meninas são tudo cor-de-rosa e de casinha, tenho dúvidas. Porque homens e mulheres, no meu entendimento, aos poucos estão entendendo que a participação na família precisa ser de todos. Que limpar uma casa não é serviço das mulheres: todo mundo suja, então todo mundo limpa, porque todo mundo trabalha fora, todo mundo trabalha dentro. Nesse sentido que eu penso que a dignidade tem que ser o fio condutor.

Dom Jaime Spengler deixa uma mensagem às mulheres

Como espera que as mulheres estejam daqui 50 anos?

Olhando para a história a gente sabe que tem ciclos que se retomam e se repetem. Por exemplo, nós estamos vivendo no mundo um momento de recrudescimento. Ou seja, muitas conquistas estão sendo questionadas por um movimento que não gosto de chamar de conservador, porque acho que conservar é legal e importante, mas um movimento que quer manter os privilégios que alguns grupos têm. Estamos numa situação que se eu olhar daqui a 50 anos eu vou saber que sim, algumas conquistas se mantêm, mas outras vão ter um certo contrafluxo. O meu desejo é que especialmente a questão da violência e da educação para meninos e meninas se torne mais digna, no sentido de pensamos uma educação menos opressora. Preciso educar os meninos para o cuidado como eu educo as meninas, porque então terei pais cuidados, pais zelosos. E preventivamente pensar na questão da violência.

É bom ser mulher?

Eu amo poder ser mulher. Ser uma mulher que tem a noção da experiência que as mulheres alcançaram pra mim e que, no meu caso, se mistura muito as experiências do que os homens faziam. Na minha história familiar todos trabalhavam na roça, todos nós tínhamos absolutamente noção da força de cada um. Para mim essa experiência de cuidado, inclusive do meu pai fazendo do café da manhã e participando da vida familiar, é o que eu tenho como normal. No fundo meu pai e minha mãe não sabiam, mas já tinham noções de igualdade muito presentes na vida familiar. E é muito bom poder abrir espaço para outras mulheres fazerem seus caminhos. Não só minha filha, e também meu filho, mas minhas alunas, que precisam conhecer a história, porque isso não é um espontâneo, a gente precisa aprender de fato. É muito bom e muito desafiador.

Exposição “Nem tão Doce Lar”

A partir desta quinta-feira, dia 9, no prédio 15 da PUCRS ocorre a intervenção “Nem tão Doce Lar”, uma releitura coletiva de uma exposição da antropóloga alemã Uma Hombrecher que trata sobre a violência doméstica, em parceria com a Fundação de Diaconia Luterana (FLD).

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