Em entrevista, entenda como nasceu e o que faz a Pastoral do Surdo no RS


Oficializada pelo decreto de lei nº 11.796 em 29 de outubro de 2008, o Dia Nacional do Surdo é celebrado hoje e convida a todos para a importante reflexão a respeito dos direitos e da inclusão das pessoas surdas na sociedade. A data foi escolhida em homenagem à criação da primeira escola de surdos no Brasil, o Instituto Imperial de Surdos-Mudos, no Rio de Janeiro, em 26 de setembro de 1857 (Fonte: libras.com.br).

Por ocasião do Dia do Surdo, a Arquidiocese de Porto Alegre conversou com as voluntárias Ana Paula Gomes Lara, Irmã Célia e Juliana de Oliveira Pokorski, da Pastoral do Surdo do Rio Grande do Sul. Confira:

Assessoria de Comunicação da Arquidiocese de Porto Alegre: Desde quando a Pastoral do Surdo está em funcionamento e como ela está organizada no Brasil e no Rio Grande do Sul? Quais são as experiências mais marcantes e como ela evolui desde a sua fundação até os tempos atuais?

Pastoral do Surdo: Não é possível relatar com exatidão o início das atividades da Pastoral do Surdo, mas nessa história duas personalidades foram muito marcantes pelo trabalho com surdos: Monsenhor Vicente de Paulo Penido Burnier, primeiro sacerdote surdo do Brasil e segundo do mundo, e o padre Eugenio Oates, ouvinte (que ouve normalmente) e sacerdote redentorista. Ambos, desde a década de 50 realizavam trabalhos com surdos, viajando por diferentes estados do país preparando crianças para a primeira eucaristia, e jovens para a crisma, além de celebrar casamentos. Em 1968, quando a Libras (Língua Brasileira de Sinais) ainda nem era reconhecida oficialmente no país, os padres Eugenio e Vicente receberam autorização para presidir missas em sinais e voz ao mesmo tempo. Cabe salientar que na época se utilizava uma comunicação bimodal em que a mesma pessoa praticava ambas as línguas, o que posteriormente foi visto como um equívoco pelos linguistas.

Uma marca histórica foi a criação do grupo GREACATS (Grupo de Catequese dos Surdos) com a participação do Padre Vicente Burnier. Nesta época, nosso vínculo com a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) se dava por meio do padre Bernardo Cansi, na época coordenador do setor de catequese. Em 1996, a então Irmã Gladis Perlin, também surda, assume a coordenação do GRECATS e sugere mudanças que culminam na oficialização da Pastoral do Surdo, pois se percebeu que havia necessidade de ir além de apenas a preparação para os sacramentos. Nessa época também tínhamos um padre surdo em Porto Alegre, o padre Volmir Francisco Guiso, muito marcante na história da Pastoral do Surdo do Rio Grande do Sul. Cabe salientar que muito já estava sendo feito pelos e para os surdos, no entanto, organizar as atividades em um formato de pastoral possibilitou que a missão não fosse centrada em pessoas isoladas, mas constitui-se um campo de missão.

O novo grupo organizou as coordenações regionais e a partir daí muitos líderes surdos foram capacitados e assumiram os compromissos da Pastoral do Surdo, de uma proposta de assistência ao surdo se passa a uma proposta de protagonismo do surdo na igreja. Hoje em dia a Pastoral do Surdo tem como objetivo atuar em diversas áreas como na Liturgia – preparando celebrações em Libras e garantindo a participação dos surdos nas missas com ouvintes por meio da presença de intérpretes; na Catequese -- desde a Iniciação à Vida Cristã (IVC), preparação para os sacramentos, até a catequese continuada em encontros de formação e retiros. Além de trabalhar aspectos sociais, bem como buscar o acesso à cultura e conscientização da pessoa surda em relação a seus direitos e deveres

A cada dois anos, de maneira itinerante, há o Encontro Nacional da Pastoral do Surdo (ENAPAS) e o Encontro Nacional dos Intérpretes Católicos (ENCICAT), do qual participam representantes de todas as Regionais do Brasil, entre surdos, ouvintes e religiosos (geralmente uma vaga por regional). Nesse momento é eleita a coordenação nacional, composta por um coordenador nacional surdo e seu vice e um coordenador dos intérpretes e seu vice. Além dessa composição, desde a última gestão, a coordenação nacional conta com todos os cargos duplicados para que possam sempre surdos e ouvintes trabalharem em parceria. Por isso, há dois assessores eclesiásticos, duas secretárias e dois tesoureiros. A Pastoral do Surdo ainda conta com um bispo Referencial, Dom Celso Marchiori, e seu assessor, César Bacchim.

Também a cada dois anos acontece o Encontro Nacional dos Coordenadores Regionais e Intérpretes da Pastoral do Surdo (ENACORPI) no qual as regionais apresentam seus relatórios e a Pastoral do Surdo estreita laços em nível nacional. No último ENACORPI foi sugerido que as Regionais se reorganizem com coordenadores arqui/diocesanos, o que no entanto ainda não foi possível ser feito no Rio Grande do Sul.

Ascom: Sabemos que a terminologia correta é "surdo" e não "deficiente auditivo". O que mais é importante que a sociedade saiba no sentido honrar o direito de todos à participação e ao acesso às coisas de Deus?

Pastoral do Surdo: Antes de mais nada cremos que para além de uma questão terminológica, a opção pelo termo “surdo” implica em uma virada conceitual, ou seja, os surdos não querem ser marcados por um ouvido que não ouve, mas por uma diferença identitária. Podemos dizer que o central é compreender os surdos a partir de uma diferença de modo de interagir com o mundo, ou seja, se tira o foco da audição para dar ênfase à experiência visual dos surdos. Relacionado a este aspecto, temos como destaque a língua de sinais, que no Brasil é uma língua reconhecida por lei. A Língua Brasileira de Sinais (Libras) é a língua que dá ao sujeito surdo acesso à informação, à comunicação e à plena participação, seja na vida de igreja, seja na sociedade como um todo. É um erro bastante comum pensar que todos os surdos fazem leitura labial, ou que ela seria um “artifício mágico” que possibilitaria uma comunicação plena com todas as pessoas. Também é um equívoco pensar que todos os surdos possuem fluência em português, pois afinal para os surdos o português escrito é uma língua adicional (tal como o inglês por exemplo para muitos ouvintes brasileiros) e além disso nem todos os surdos passam por processos de alfabetização e letramento satisfatórios.

Assim, de maneira resumida para honrar esse direito dos surdos de participação e acesso às coisas de Deus, é preciso antes de tudo que sua língua seja respeitada, e que ele possa encontrar cada vez mais intérpretes e pessoas com fluência em língua de sinais (pensemos, por exemplo, no acesso ao Sacramento da Reconciliação). Em segundo lugar, é preciso que para além da língua, o próprio sujeito seja respeitado e visto como um cidadão com direitos, e de capacidades plenas.

Ascom: Pessoas surdas e demais pessoas interessadas em participar da Pastoral do Surdo são convidadas para atividades mensais que são realizadas na Escola Especial para Surdos Frei Pacífico (Rua Paulino Chaves, n° 235, bairro Santo Antônio, Porto Alegre). Como são estas atividades?

Pastoral do Surdo: Neste ano, por não ter um grupo de trabalho muito grande e também por perceber a necessidade de fomentar a formação de lideranças ouvintes e sobretudo surdas, organizamos as atividades da Pastoral do Surdo em encontros mensais que acontecerão nas seguintes datas até o final do ano: 26/10, 23/11 e 21/12. Os encontros acontecem sempre na escola Frei Pacífico no turno da tarde, iniciando geralmente as 13h30 e finalizando com a missa às 17h. Geralmente, no início da tarde, realizamos atividades de integração, seguidas de um momento de roda de conversa ou uma formação mais formal sobre algum tema (já trabalhamos, por exemplo, ao longo do ano, temas como a Morte, a Liturgia Eucarística, entre outros temas). No final da tarde realizamos uma Missa ou a Celebração da Palavra na capela da própria escola. Nesses momentos são os próprios surdos que realizam as leituras diretamente em língua de sinais, e temos momentos de preces mais livres e até mesmo momentos de explicação de determinados elementos da liturgia, aproveitando o momento sagrado como uma catequese. Após a missa, geralmente o encontro de sábado segue por mais uma hora com um lanche coletivo e bate papo sinalizado, um ótimo momento de integração para aqueles que estão aprendendo a língua de sinais, além de ser um momento de reencontros e fortalecimento de laços.

Ascom: Quais são as celebrações e missas com intérprete para Libras realizadas em Porto Alegre e região?

Pastoral do Surdo: Temos a missa que acontece no final do encontro mensal na escola Frei Pacífico, e a partir de setembro retomamos as missas na Paróquia São Francisco de Assis (Rua São Luís, 607, bairro Santana), sempre no terceiro sábado do mês, às 17h. Além disso procuramos garantir a presença de intérpretes sempre nas missas comemorativas do ano, como no Corpus Christi, na Catedral Metropolitana, e também nas celebrações do Advento, Natal e durante a Semana Santa e Páscoa, na igreja Santo Antônio (Partenon). Além disso, sempre que há necessidade, sobretudo em função de batizados e casamentos com a presença de surdos, a Pastoral do Surdo procura se fazer presente, garantindo a presença de intérpretes, seja qual for a paróquia.

Ascom: Quando missas e demais eventos de nossa Arquidiocese precisarem de intérprete para Libras, como o apoio pode ser solicitado?

Pastoral do Surdo: O contato pode ser feito pelo telefone da Escola Frei Pacífico (51-3223.4365), com a irmã Nita, ou então pelo Facebook da Pastoral do Surdo (facebook.com/PastoraldosurdoRGS), embora pelo Facebook a comunicação talvez não seja tão imediata.

O ideal é que se faça o contato com antecedência, pois não temos muitos intérpretes. No entanto, salientamos a importância de sempre tentar o contato, pois é imprescindível que cada vez mais os surdos possam acessar de fato à vida de igreja, compreendendo os sentidos da Liturgia, dos Sacramentos, e crescendo na fé através da língua de sinais.

Neste mês de setembro, o padre Laênio Francisco Custódio, da paróquia Coração de Jesus, de Porto Alegre, foi nomeado Referencial da Pastoral dos Surdos da Arquidiocese de Porto Alegre, para o período de 3 anos.


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