Professor da PUCRS fala sobre bioma, tema da Campanha da Fraternidade

24.02.2017

A Campanha da Fraternidade começa oficialmente no próximo dia 1º, Quarta-feira de Cinzas, mas o tema escolhido pela Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) já está sendo debatido em escolas e paróquias, entre o clero, congregações e leigos. Em 2017, a Igreja Católica no país propõe uma reflexão sobre “Fraternidade: biomas brasileiros e defesa da vida”.

 

Professor Júlio César Bicca-Marques destaca a importância da ação de cada um em prol da conservação do meio ambiente. Foto: Nelson S. Pereira

 

 

O planeta é dividido em biomas, explica o doutor Júlio César Bicca-Marques, professor titular da Faculdade de Biociências da PUCRS há 15 anos. Nas aulas de Ecologia e Biologia da Conservação, ele alerta para a necessidade de mudanças se ainda quisermos manter pelo menos parte dessas regiões preservadas.

 

Apesar de a biodiversidade estar cada vez mais degradada, o professor se diz otimista. “As pessoas estão se dando conta. Prova disso são movimentos como a mensagem do Papa João Paulo II ‘Paz com Deus criador, paz com toda a criação’ na celebração do XXIII Dia Mundial da Paz (1º de janeiro de 1990), a Campanha da Fraternidade e a encíclica do Papa”, destaca, referindo-se à Laudato Si, escrita por Francisco em 2015. “Mas precisamos mudar nossas atitudes com urgência”, complementa.

 

Para Bicca-Marques, “todas as formas de vida têm tanto direito à vida quanto nós, porque elas são obras do criador”. Confira o que o professor fala sobre biomas, outros temas relacionados à preservação do meio ambiente e sobre como cada um pode fazer a diferença para a conservação do planeta:

 

BIOMAS

“O bioma é uma região caracterizada por um determinado tipo de vegetação predominante, como floresta ou campo. Cada bioma tem a sua característica, as espécies de vegetação, de plantas. O que define esse tipo de vegetação? Especialmente padrões de temperatura e precipitação, ou seja, chuva, umidade. Os animais estão associados a essa vegetação. Essa região não é homogênea. A Mata Atlântica, por exemplo, tem diferentes tipos de floresta, lagos, áreas de campo, ou seja, outras formações relacionadas às características do ambiente. Alguns autores falam em oito ou nove biomas no mundo, mas essa é uma simplificação. No Brasil, os biomas terrestres são seis (Amazônia, Caatinga, Cerrado, Mata Atlântica, Pampa e Pantanal). Existem ainda os biomas aquáticos.”

 

PRESERVAÇÃO

“Nem todos os lugares que naturalmente teriam condições para ter cerrado hoje têm cerrado, por exemplo. Por quê? Porque nesses locais temos atividades econômicas como monocultura de soja e criação de gado extensiva. Ou seja, não tem mais cerrado ali porque o homem alterou. O bioma Amazônia é o que tem menos área perdida, menos de 20%. Mas a perspectiva não é nada boa, porque o desenvolvimento de atividades que não são sustentáveis é absurdo. No Rio Grande do Sul temos o bioma Pampa ou Campos Sulinos na metade sul. Ele tem quase nada de área protegida, já se perdeu mais de 50%. Como é campo a gente olha e pensa que é só grama, mas a diversidade é absurda. Quando foram elaboradas as Metas de Aichi (Plano Estratégico de Biodiversidade para o período de 2011 a 2020), todos os países que estavam lá (no encontro realizado no Japão) concordaram que o ideal seria ter 17% de cada bioma como unidades de conservação. Isso seria o adequado para se proteger uma boa representatividade daquele bioma com suas características e diferentes ecossistemas. Teríamos que criar áreas gigantescas no Estado do Rio Grande do Sul em termos de campos sulinos para garantirmos adequadamente a saúde desse bioma e seus habitantes.”

 

VOCAÇÃO DOS BIOMAS

“O Pampa tem uma ótima associação com a pecuária. Não uma pecuária exagerada, de muita cabeça de gado, mas de uma pressão de cabeça de gado razoável, dentro do bom senso. Diferente da pecuária na Amazônia, que tem muita criação de gado e não é a vocação. Muitos biomas no Brasil têm uma exploração que não é a correta. Existem terras já em processo de degradação e abandonadas, mas que se fossem recuperadas poderia dobrar a área de cultivo no Brasil. Não precisamos desmatar e acabar com mais áreas, basta recuperar as áreas que existem. Só que sai mais caro e as pessoas têm visão a curtíssimo prazo. Nós dependemos da biodiversidade, nós comemos biodiversidade, nós vestimos biodiversidade, todos os remédios que nós usamos surgiram por algum estudo relacionado à biodiversidade, dependemos do serviço do ecossistema que é a purificação do ar e a proteção de mananciais hídricos. A biodiversidade tem um valor gigantesco. Esses serviços são os que nos dão a qualidade de vida.”

 

 

 

MUDANÇAS CLIMÁTICAS

“O clima está mudando. Já aumentou em um grau a temperatura média da Terra. A previsão é de que até o final do século haverá lugares que ficarão um ou dois graus mais frios, enquanto outros lugares ficarão até quatro graus mais quentes. A localização dos biomas é definida por padrões de temperatura e precipitação. Com essas alterações regionais no clima, onde era adaptado para vegetação com determinada característica daqui a pouco pode não ser mais. A estimativa dos especialistas é que, para cada aumento de um grau na temperatura, temos a necessidade de deslocamento dos biomas em 180 quilômetros em direção aos polos. Se é uma região montanhosa, essas zonas também poderão ter deslocamentos verticais, o que significa que alguns tipos de ecossistemas vão desaparecer. A mesma coisa vale para as espécies cultivadas. O que hoje é adequado para arroz pode não ser mais se a quantidade de chuva diminui ou aumenta demais. Então será necessário deslocar as culturas. Deslocar culturas significa tempo, um gasto absurdo e mais natureza posta no lixo, porque vai invadir áreas que ainda não têm determinada atividade econômica e que vai deixar de ser uma floresta, um campo. A Terra já teve esses movimentos. O sul da Argentina já teve floresta há muitos milhões de anos. Mas isso aconteceu na ausência de humanos, em velocidades muito lentas que as espécies tinham condições de se adaptar, muito diferente do momento atual.”

 

GERAÇÃO DE ENERGIA

As mega-usinas hidrelétricas construídas na Amazônia são elefantes brancos. Elas não geram energia limpa, porque nos primeiros 10, 15 anos o apodrecimento da matéria orgânica, da biomassa da vegetação que foi alagada, libera mais dióxido de carbono e metano pra atmosfera do que se tivesse queimado petróleo no mesmo período para gerar energia. Não tem nada de sustentável e se alaga áreas gigantescas. Balbina, por exemplo, a 70 quilômetros ao norte de Manaus, alagou uma área equivalente a quase cinco vezes todo o município de Porto Alegre. As pessoas precisam se dar conta que usina hidrelétrica não é energia limpa, gera uma degradação ambiental absurda de lugares com uma riqueza impressionante e potencial econômico. Se me perguntarem hoje qual a melhor fonte de energia para o Brasil, vou dizer que é a nuclear, sem medo. É absurdamente mais segura atualmente do que 30 anos atrás. Os geradores modernos estão melhores, a eficiência é maior, os riscos são muito menores, principalmente para o Brasil, que não têm grandes catástrofes naturais. Toda energia que uma pessoa precisa para viver 80 anos está contida em uma bola de golfe de urânio, 780 gramas. Não se compara a outros tipos de energia, como gás natural, carvão, baterias de níquel metal hidreto.”

 

EXCESSO DE EXPLORAÇÃO

“Boa parte da população do mundo depende dos oceanos para se alimentar. Nós estamos acabando com os oceanos e não estamos vendo. O estoque pesqueiro de muitas espécies já foi embora e mesmo assim está se tirando espécies e botando fora recursos. Na pesca de camarão, por exemplo, 5% do que é pescado é camarão. Outros 95% voltam morto para o oceano porque não é o que se quer, mas grande parte poderia ser usada. Estamos tirando muito mais da natureza do que ela tem condições de regenerar.”

 

IGREJA E MEIO AMBIENTE

“Talvez alguns colegas achem que a Igreja não deva se meter, mas acho essa iniciativa da Campanha da Fraternidade maravilhosa. Estou muito satisfeito com a Igreja, muito feliz porque há muitos anos digo que no dia que conseguirmos envolver os religiosos de fato na conservação, não só os católicos, mas todas as religiões, daremos um belo de um passo à frente. Todas as religiões têm algum dogma, alguma coisa relacionada à conservação, de respeito à natureza. Hoje 90% da população do mundo tem alguma religião, é a maior classe que nós temos, por isso precisamos envolver as religiões, e a Igreja Católica tendo essas motivações, como já teve em outras ocasiões, é excelente. Se a Igreja está passando uma informação correta, se os padres estão passando uma informação correta, muita gente terá essa motivação.”

 

INDIVIDUALISMO X INSIGNIFICÂNCIA

“Não sou a favor de se falar em mudanças climáticas como algo global, porque a minha leitura é que isso faz as pessoas se sentirem insignificantes. Por outro lado somos individualistas, cada um acha que é mais importante que o outro. Mas na hora de fazer alguma coisa certa em prol do meio ambiente, se sente insignificante. É um sentimento cômodo. É fácil me sentir insignificante porque eu continuo fazendo toda a minha porcaria, porque eu não faço a diferença. Mas não precisamos pensar global. Vocês olham o Dilúvio e não veem que é uma porcaria? Não veem que o Guaíba está poluído? Vocês não veem os morros que antes eram morros e agora estão desaparecendo, virando cidade? A nossa realidade local, como a da grande maioria das pessoas no mundo, está degradada. Se tu cuidar do teu bairro, da tua casa já é uma grande contribuição. Isso vai melhorar a cidade, que vai melhorar o estado, o país, e nós vamos ter um conjunto. As pessoas não querem ser diferentes e entendem que os pequenos gestos não servem pra nada. É preciso tirar a pessoa da inércia e do comodismo.”

 

ATITUDES SUSTENTÁVEIS

“Quantos animais, aves e mamíferos, são mortos anualmente nos Estados Unidos para pesquisa científica? De 20 a 40 milhões. E quantos animais são mortos anualmente, aves e mamíferos, nos Estados Unidos para consumo pelo homem? Cerca de 10 bilhões. Ou seja, o número de animais mortos anualmente em projetos de pesquisa representa menos do que dois dias de consumo humano. A gula, comer mais do que tu precisa, além de não ser saudável, é uma forma de sobre-exploração do meio ambiente. E mais natureza é perdida para a agropecuária. Se eu souber a procedência da carne, não comprar carne da Amazônia e do Cerrado, mas de regiões onde a pecuária é sustentável e consegue conservar a natureza, como o Pampa, ótimo. Comer menos carne, comer menos em geral, evitar o desperdício. Não falta alimento para a população do mundo, falta distribuição e bom senso. A gente come demais. As soluções são muito fáceis, desde que as pessoas façam a sua parte.”

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