A importância das procissões para a cura interior, no artigo de Dom Leomar Brustolin

31.01.2019

Às vésperas de um dos maiores eventos religiosos do Rio Grande do Sul, a Festa de Nossa Senhora de Navegantes e a sua procissão de 2 de fevereiro, Dom Leomar Brustolin escreveu artigo que fala da importância das procissões para a nossa cura interior. Leia abaixo:

 

Por que caminhar numa procissão?

 

Em meio aos revezes da vida, as pessoas procuram um elemento que lhes devolva a unidade perdida, que reintegre o que foi fragmentado em suas existências. As procissões, romarias e peregrinações aparecem nesta paisagem de buscas. Sinal visível deste dado é o número expressivo da mobilidade humana da Festa de Nossa Senhora dos Navegantes em Porto Alegre. Na caminhada, tenta-se resgatar a relação entre o humano e Deus, muitas vezes esquecida, principalmente quando se vive no corre-corre do cotidiano.


Estar a caminho, ao longo da estrada, é a condição real da humanidade. O peregrino sabe que a caminhada é, antes de tudo, uma realidade interior que tende ao Absoluto. Caminhar é uma categoria espiritual. Na caminhada exterior o ser humano quer encontrar-se a si mesmo. O Caminho de Compostela, na Espanha, conhece muitos testemunhos de pessoas que realizaram o trajeto e encontraram novo sentido para viver. Quem caminha numa romaria, na verdade está à procura da sua realidade mais íntima e mais profunda. Quem tem fé vive  como um andarilho, que não quer instalar-se no provisório ou fixar-se em suas construções. Experimenta a vida como uma contínua peregrinação, uma procura da fonte existencial que sacia sua sede. Sua vocação essencial é colocar-se a caminho em busca da razão profunda das coisas, buscar o que é maior ao caminho e ao caminheiro.

 

Quem se coloca a caminho nem sempre tem claro o sentido último de sua peregrinação. Deus, contudo, encaminha a experiência humana, confusa e insegura, para um encontro com o divino. O fundamento da prática cristã de peregrinar encontra-se na fé judaica, que há muito tempo tem como meta Jerusalém. Ela é a cidade-templo. Os árabes a chamam de “a Santa” (Quds). Famosos são os versos do salmo 122 que proclamam: “Alegrei-me quando me disseram: Vamos à casa do Senhor!”.  Trata-se de um Hino à Jerusalém, cantado pelos peregrinos que se dirigem à cidade para as festas. Reflete a alegria de caminhar e fundamenta a própria vocação da humanidade: reunir-se para partilhar a liberdade e a vida. 
 

A peregrinação está intimamente ligada ao sentido da conversão. Quem procura o santuário caminha em direção à vida nova que só Deus pode oferecer. As curas corporais acontecem, mas são excepcionais e raras nos locais de peregrinação. O que mais se percebe são as curas do coração, oferecidas a todos; cada um a recebe em seu nível e necessidade. A vida cristã é feita de sucessivas conversões. A primeira é a do batismo. As outras acontecem ao longo da existência. Se por um lado é possível constatar e se admirar pelos milagres de curas físicas, dificilmente se contabilizará as curas interiores, que são numerosas.


A peregrinação estabelece uma meta que simboliza e atualiza o caminho humano rumo ao fim sobrenatural. Partir significa romper com a inércia habitual, é dispor-se a avançar, crescer, conhecer o novo. Deixar a própria casa é abandonar atitudes rotineiras e medíocres, dispondo-se ao futuro de Deus.

 

Por Dom Leomar Antônio Brustolin, bispo auxiliar da Arquidiocese de Porto Alegre.

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