Santidade no cotidiano foi a temática do último dia do Congresso de Teologia

10.10.2019

“A santidade não é uma performance ou um campeonato pelo qual se espera ganhar um prêmio ou uma medalha, mas sim, a capacidade de humilde e fielmente fazer bem as pequenas coisas do cotidiano”, afirmou a Dra. Maria Clara Bingemer, teóloca da PUC-Rio.

 

Neste tom, trazendo o tema da santidade para a realidade da "classe média da santidade", como o Papa Francisco chama os leigos que praticam a fé no cotidiano comum, encerrou-se o II Congresso Internacional de Teologia, realizado na PUC-RS de 7 a 9 de outubro. Leia abaixo relatos sobre as conferências "Perspectivas pastorais da santidade", apresentada pela Dra. Bingemer, e "Santidade e Piedade Popular", da Profa. Dra. Virginia Raquel Azcuy, argentina.

 

Santidade e Piedade Popular – Estudo teológico de caso da Paróquia “Natividade do Senhor” em Rosario, Argentina
(Texto do seminarista Charles Kermaunar)

 

A grande afluência de pessoas que começou a se dirigir à Paróquia Natividad del Señor de Rosario (Argentina), a partir da Via-Crucis de 1993, sobretudo, para alcançar uma graça e uma bênção (saúde e financeira), motivou a Profa. Dra. Virginia Raquel Azcuy a realizar pesquisas qualitativas e o estudos teológicos aplicados a este caso. Como explicar que nessa paróquia haja uma grande afluência de pessoas em meio ao decréscimo de participação dos fieis? Como entender essa expressão diante da teologia da libertação e da teologia do povo de Deus?

A religiosidade popular liga o sobrenatural às características culturais e sociais da população. E, neste caso, em meio à pluralidade religiosa e cultural argentina, a figura carismática do Padre Ignacio Periés Kurukulasuriya, chama atenção. Há o risco de uma espiritualidade dissociada de religião, que visa somente a busca de saúde, por exemplo. 

 

Religião e saúde -  As ciências da religião apontam que atualmente há outras características da espiritualidade que não estão necessariamente ligadas à religião. “Uma compreensão de saúde que não tem a ver com médicos, que não se resolvem com psicólogos, mas, com celebrações”, diz Pablo Semán. As pessoas entrevistadas falam da “ciência de cima (céu)”.

 

Espiritualidade popular – Falar de espiritualidade popular é falar de fé. Há fé na espiritualidade popular. Contudo, ela pode ser autêntica ou manipulada. A ligação entre a espiritualidade popular e os leigos foi acentuada pela teóloga. A espiritualidade contemplativa é mais tipicamente monacal. Há necessidade de integração e purificação.

 

Padre Ignacio – Desde os anos 90, suas práticas de abençoar e interceder pelos enfermos o tornaram conhecido pelo “calor de suas mãos” nas visitas aos enfermos, como dizem os fieis entrevistados. Seu trabalho social e seu convite à paz são marcantes, contudo, “a fé que cura” é sua grande identidade. O padre chegou à paróquia em 1982, em um contexto eclesial confuso, diante do Regime Militar, das condições sociais e da conturbada compreensão do Concílio Vaticano II. Em um bairro pobre, de religiosidade incipiente, o padre colocou-se a visitar e abençoar as casas. Com o tempo, algumas curas aconteceram. O padre as atribui a um carisma e à graça de Deus. 

 

 

Perspectivas pastorais de santidade
(Texto do seminarista Lucas Lacerda)

 

Encerrando o II Congresso Internacional de Teologia, que abordou o tema da santidade e responsabilidade pública, esteve a teóloga dra. Maria Clara Bingemer, da PUC Rio. Partindo das perspectivas pastorais, a mãe, avó, católica, e teóloga, conseguiu concluir o evento com chave de ouro. 

 

Maria Clara expôs em sua conferência uma santidade palpável a todo o cristão, partindo da exortação do Papa Francisco “Gaudete et Exsultate”, abordou o fato de que os santos são também testemunhas simples do cotidiano, não só heróis da fé e da caridade, mas testemunhas simples do cotidiano, que podem ser encontradas no povo paciente de Deus, na família, nos pais que criam os filhos com amor, apesar das dificuldades, nos doentes e idosos que continuam a sorrir, e tantos outros exemplos de nosso dia a dia. Com isso afirmou que: “A santidade não é uma performance ou um campeonato pelo qual se espera ganhar um prêmio ou uma medalha, mas sim, a capacidade de humilde e fielmente fazer bem as pequenas coisas do cotidiano.”

 

Entrando no que a teologia denomina de “santidade primordial”, uma santidade do dia-a-dia, Bingemer traz a santidade que se realiza nas realidades de dificuldade da existência humana, ao afirmar que: “Quando a condição humana tem tudo para se animalizar e perder o sentido, muitas vezes em lugar disso ela se eleva a uma santidade e alturas espantosas, isso pode se dar com conotações de heroísmo, mas se pode dar em termos de simplesmente de suportar o cotidiano insuportável, injusto, violento, não perdendo a alegria, a solidariedade, e a capacidade de amar. Muitos desses que vivem vidas obscuras, escondidas, esmagadas, encontram mesmo assim força, não só para seguir adiante, mas para ajudar os que estão próximos. São vidas luminosas, mas que na maioria das vezes não são nem percebidas, inclusive pela própria Igreja. Pessoas que não teriam nenhuma razão para esperar, no entanto esperam, não teriam nenhuma razão para amar, no entanto amam. São plenamente humanas porque cultivam esse substrato humano, escolhem o que é humano e humanizador diante de todos os estímulos que os atingem e o conduzem para a desumanidade. Respondem a morte com vida, e respondem a vida com tudo que tem, e com mais do que podem. 
 

A vida dessas pessoas é um milagre, pois milagrosamente essas pessoas sobrevivem, em meio a todas as hostilidades que estão cercados, e assim dão testemunho de um Deus que é espírito e vida, e por isso capaz de sustentar o desejo e a força de viver mesmo em meio as maiores agruras e dificuldades.”

 

A doutora em teologia também recordou dos dois alertas que o Papa faz em sua exortação, sobre os riscos que corremos no caminho da santidade, o primeiro é dissociar a transformação social e política da espiritualidade, da relação com o Senhor; o segundo é o oposto, suspeitar e demonizar o compromisso social acusando-o de ser ateu, de desviar da fé. Com isso, Maria Clara sintetiza a dinâmica que perpassou pelas conferências do Congresso, de que não se pode dissociar a santidade da prática da justiça, pois fé e justiça caminham de mãos dadas, e são inseparáveis: “O santo não é nem pode ser uma pessoa acomodada em sua consolação espiritual, vivendo num espaço protegido, que lhe garantam um viver tranquilo e confortável, não afetado pelos problemas que afligem boa parte da humanidade. O santo não deseja apenas crescer em termos pessoais, deseja transformar o mundo segundo o desejo e o coração de Deus. Não podemos propor-nos um ideal de santidade que ignore a injustiça desse mundo, enquanto uns gastam e esbanjam, e outros morrem de fome. Santidade não se trata apenas de multiplicar orações e obedecer rigorosamente normas morais, o critério de avaliação da nossa vida é também, antes de mais nada, o que fizemos pelos outros. E a oração por mais preciosa que seja, será autêntica, e agradará o senhor, se for a caixa de ressonância dessa prática caritativa e misericordiosa.”

 

Recordando que a santidade é uma vocação, ao qual todos nós somos chamados nas circunstâncias em que vivemos, Maria Clara enfatizou que esse destino pessoal da santidade não se trata de um programa moral e ascético, mas de uma resposta radical e amorosa ao chamado e a vontade de Deus: “Olhando para os santos olhamos com mais clareza nossa mediocridade, nossa covardia em responder aos apelos de Deus, mas também olhamos com esperança ao perceber que são pessoas como nós, humanas, e que se puderam com suas vidas limitadas e finitas, chegar a esse grau de heroísmo, dignificam o gênero humano ao qual eles e elas, e nós, pertencemos.”

 

Para concluir, conforme Bigemer, a santidade é a busca e a experiência do Deus absoluto e infinito por parte da criatura mortal e finita, que tem como horizonte o próprio Jesus Cristo, a quem somos chamados a seguir e imitar, movidos por seu espírito para a maior glória de Deus: “Trata-se de um horizonte infinito ao qual seres finitos como nós ousamos aspirar.”

 


Leia também o que foi discutido na conferência de abertura, no restante do primeiro dia e no segundo dia do Congresso.

 

Abaixo, algumas imagens do segundo dia do Congresso:

(Fotos de Marto Vilaza)

 

 


 

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